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A dignidade é uma substância tão real como a sua própria carne

Frio___

Deixa-me estar sossegado a acumular calor como um metal, enquanto a música levita no frio. É a perfeição do inverno. Esse refúgio no calor, rodeado de uma imagem invisível do frio. O trânsito entre duas temperaturas, dois movimentos musicais da atmosfera colados ao corpo. O frio recobre o calor, e o calor absorve o frio, como se fossem duas nuvens epidérmicas. É nesse diálogo, nesse duelo, que a casa se enche de significados imbatíveis. O lugar em que a temperatura somos nós, em que o frio se enche do calor da nossa paz, do nosso sono, da nossa tristeza, do cheiro da nossa fome. Lugar em que o calor desliza sobre os músculos arrefecidos, como uma melodia percorre o silêncio. O lugar a que todos deveriam ter direito no Inverno. Um lugar difícil de aquecer.

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Ler___

Não leio apenas por prazer, leio para escrever, que é o mesmo que dizer que leio para viver. Escrevo com uma aglomeração de almas abissais nos pulsos. Nada leio abaixo da temperatura do meu sangue. Leio e escrevo como quem comete um crime, com perigo, vício e precisão. Não leio nem escrevo com amor. Não escrevo amor. O amor amolece as frases.

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Lágrimas___

Não consigo chorar. Sou incapaz de verter uma lágrima. Deixei de conseguir chorar quando perdi o medo do cansaço. Quando me feri com a infâmia. Quando sobrevivi à felicidade.

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A Negra___

O segredo do segredo é o tempo. Ela diz não ter tempo, nem segredos. É negra. Díscola e dissidente radical. Oriunda de um opulento clã africano, de que se apartou ferozmente. Não usa cabelo. Perfez o seu próprio escalpe como acto emancipatório e iconoclasta. Entendeu que o cabelo foi ao longo de séculos o ponto mais frágil da condição negra. O principal objecto de humilhação e alienação, primeiro, e de afirmação, depois – o que, em seu entender, não anula a fixação quase patológica nesse ponto pelos negros, mantendo-se por isso um sintoma de complexo e de insegurança. Toda a luta de libertação dos negros ao longo da História passou obsessivamente pela ‘carapinha’. Essa centralidade fez de tal áspera pilosidade um palco de dramas ridículos e épicos, absolutamente patéticos na sua opinião. Do ‘Black Power’ ao ‘desfrisar’, passando por loções emolientes ou encaracolantes, a carapinha tem sido o frontispício do lodaçal – palavra dela – problemático da identidade negra. Decidiu, assim, anulá-la. Cortá-la cerce. Anulou o cabelo e exponenciou a cabeça, o cérebro. Não gosta de poesia. Alega tratar-se de um sangramento presunçoso da alma, e um triturar circular e inconsequente da Linguagem. Mas gosta de canções profundas e doridas, porque a música, mais do que a razão e o pensamento é a essência do génio humano. A música, diz, acrescenta às palavras o que lhes falta de ‘númen’ existencial. As palavras são essenciais à superfície do mundo, não ao subterrâneo da vida. Ela lembra que durante muito tempo o cinema vigorou sem palavras, mas jamais sem música. A música, insiste, liquefaz a carne e efervesce a alma como imersão num caldo sagrado da memória matricial da invenção do Universo. A chave genética desse foco luminoso primacial da existência é guardada, segreda, pelo útero, pelo que ninguém exerce o sortilégio da música e da canção como as mulheres. Prova desse testemunho secreto herdado da Criação é a tríade que elege como o cume da potestade milagrosa da música – Nina Simone, Billie Holiday e Beth Gibbons. Não descura o papel dos homens na arte musical, mas sublinha que as mulheres exprimem mais pungentemente sofrimento, e comoção, pela música que os homens, que o fazem de uma forma mais, diz ela, assertiva. Ela deambula pela cidade, vagamente imprudente, indecente e incongruente. Assume-se como ‘puta‘ existencialista – mas nota que tal nada tem a ver com Sartre ou Kierkegaard. A existência, detalha ela, gradua-se como medida de potência, e a potência pode abalroar a decência. Reitera ela que apenas não é escrava da coerência. Acha que a coerência é um instrumento de poder da moral, e que quem controla a moral são os homens – o Papa, os padres, os maridos, os irmãos. E as mulheres que lhes obedecem. Assegura, no entanto, que não é feminista. Diz ela que o Feminismo é apenas mais um utensílio de controlo das mulheres pelos homens, para se manterem ocupadas com uma luta estulta de que elas próprias são culpadas, porque não usam correctamente o seu poder maternal. Se as mulheres, enquanto mães, educam os homens, por que razão acabam eles por discriminá-las, ou maltratá-las? Questiona ela. As mulheres não podem lamentar o facto de não educar melhor os homens, assevera. Entende ela que em vez de o Dia da Mulher deveria instituir-se o Dia Sem Mulheres, para que fosse palpável no ar o vácuo sufocante que é a ausência do gineceu, o bacoco paternalismo piedoso da data alegórica vigente, e o crime irrespirável que é a minimização civilizacional da Mulher. Ela não acredita em Deus, mas acha tal de somenos uma vez que vislumbra o fascínio do imaginário de Deus na sua relevância cosmogónica mesmo nele não se crendo. Ela estudou Etnologia na universidade de Viena, e trabalhou durante três meses como ‘Call Girl’, para conhecer a lógica de poder inerente a tal realidade. Define o erotismo como demasiado funcional e a pornografia como demasiado maquinal. É adepta do ‘hipornorealismo’, e apraz-lhe intimidar homens com a super-opulência do seu corpo, e com o terror do seu intelecto.

Ela impôs-se um corte com a família maioritariamente sediada em África, de lautas posses. Vive substantivamente do pecúlio familiar mas repele drasticamente qualquer aproximação às origens. Usufrui dos rendimentos avultados das explorações, esquemas e empreendimentos lucrativos dos familiares, mas recusa-se a participar presencialmente da ‘fiesta’. Afirma que não lhe compete ser coerente. A hipocrisia é uma arma perfeitamente viável desde que não lese terceiros, diz. Uma arma que não chega a ser sequer branca, apenas transparente. Tanto que a exibe a todos, sem pudor. Assinala que o problema da hipocrisia, não é a hipocrisia. É a classe, a elegância, a sedução. A Arte. A inteligência, e o veneno, do cinismo. Não a corrupção desnatada, desnaturada, desclassificada, crua e cruel. Com danos colaterais funestos e trágicos, para terceiros, um país ou um continente. A família mima-a apesar de tudo. Vê nela uma prodigiosa pródiga filha. Ela sabe-o e radicaliza essa relação macabra e tétrica. Ela escreve…sobre o que não vê. Mantém um Moleskine volumoso. Está continuamente a inventar o mundo, mas não como romancista ou ficcionista. Inventa o mundo que faz falta…inspirada pelas ‘Cidades Invisíveis’, de Ítalo Calvino. E tem um contrato de publicação – para o livro que daí resultará – em sucessivas ultrapassagens de ‘dead lines’. Ela não se preocupa, por saber, garante, que o sucesso é-lhe inevitável, nem que seja postumamente. A realidade não é excessiva, reafirma. Não há demasiados idiotas, não há demasiada miséria material e indigência intelectual, não há demasiada doença, não há demasiado futebol, não há demasiada verborreia política. Deveria era haver mais do resto, lembra. Apenas isso. O que faz ela? O que escreve ela? Nada de especial. Apenas ver ao contrário, ver sempre ao contrário, o máximo possível. Escrever, escrever, de trás para frente com o pensamento e o espanto. Por exemplo, ver em cada rosto uma calúnia, pelo menos uma calúnia. Por vezes vê mais. O mesmo rosto é capaz de mentir múltiplas vezes – o olhar diz algo que o cenho nega, que o cabelo esconde sob tinta, que o piercing faz cintilar de ridículo e a barba admite ser uma verdade frágil, porque afinal a barba é uma mera penugem de gato e não uma juba de leão. A boca expele sinais de confessa cumplicidade ante o gelo lúcido dos olhos, mas a boca é puxada para baixo pelo queixo, entreaberta como um soçobrar negacionista da lucidez, e uma cedência evidente à impotência e à estupidez daquela alma confusa e transeunte. Ela compreende isso, e acha normal e aceitável e até legítimo. Julga que a coerência não tem que ser um imperativo existencial para um simples rosto, revolto como uma cobra nas suas próprias contradições ontológicas. Um rosto não tem que ser uma potência, um míssil, um tanque. Não tem que estar sempre em guerra contra os espelho dos olhos dos outros. Um rosto é mera aparência, pura contingência, uma tendência do estado de alma e do corpo, uma reticência. Um rosto não é uma marca, não é o logotipo da Coca-Cola ou McDonalds. Não tem que ser sempre pujante e promissor de opíparos momentos de júbilo gástrico ou pático. O rosto é fraco e variável. O rosto é trágico. É hemorrágico por transbordar todo o ser o tempo todo, e isso cansa. O rosto é um mártir da proxémica, da pena capital da fisionomia. Uma falência iminente. Um rosto é um rosto é um rosto. Ecoa ela. E escreve. Escreveu, está escrito. Detesta emendar. Não é perfeccionista, mas nada tem contra a perfeição. Entende apenas que se exige demasiado à ideia de perfeição. Para ela, um ‘por favor’, é já um momento de perfeição. Ela escreve. Distraí-se, observa uma flor – um miosótis. Acha que faltam patas às flores. Crê que se as flores tivessem patas ou asas, se as pétalas fossem asinhas, o mundo poderia ser mais colorido. As borboletas, as abelhas e os pássaros, não estariam tão atarefados e insuficientes a colorir a atmosfera. Se as flores tivessem asas não nos espantaríamos tanto com o arco-íris. As flores, ela acha, deveriam ter patas. Deveriam acorrer a uma menina triste e esfregar-se nas suas pernas ou sentar-se ao seu colo. As flores podiam perseguir as pessoas como esquilos. Deviam poder rodear as pessoas como os pombos, e receber em troca apenas borrifos de água. E as borboletas estariam menos azafamadas, e poderiam voar mais alto, muito mais alto, e sonhar viver pelo menos mais um dia.

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Espera___

A vida é feita de esperar. De esperar respostas que nunca chegam. Respostas perdidas como cartas ardidas em endereços errados.

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Adriana Molder, My Icarus, 2012, tinta-da-China e acrílico sobre papel esquisso, 100 x 75 cmAdriana Molder, My Icarus, 2012, tinta-da-China e acrílico sobre papel esquisso, 100 x 75 cm

Escassez___

Estás cansado. Cansado da escassez. Da escassez de pessoas especiais. Não necessariamente geniais, apenas especiais. Que digam, ou façam, algo que acrescente contraste insigne ao peso esmagador da vulgaridade. As pessoas especiais não existem, esgotam-se no mundo, vivem nos seus silos subterrâneos, a urdir feitiços engolidos pela voragem do vazio da superfície. Isso dizes tu. As pessoas especiais são as pessoas normais. As pessoas normais são como instrumentos musicais, carecem de ser tocadas nas vísceras por quem entenda, ou intua, as suas notas, os seus acordes, os seus sentimentos. A especialidade está dentro de todos, reside na normalidade, as canções pré-existem à sua invenção, o que faz falta são bons compositores e exímios intérpretes de almas, e estes são especiais por estarem atentos às melodias das histórias dos indivíduos, a atenção faz toda a diferença, precisamos todos de mais atenção uns para os outros. A natureza é um exercício contínuo de atenção a detalhes ínfimos, como o é a literatura. Escuta atentamente as pessoas normais e descortinarás nas suas profundezas o murmúrio da agitação de um mar de possibilidades especiais inauditas. Deves deixar-te viver, não esperar dos outros o que deve vicejar em ti, dar-te ao mundo sem aguardar nada em troca, não depender de quem te acenda a luz, e confiar na existência de quem te escute por mais que tal possa parecer impossível. Hás-de receber o que prodigalizares desinteressadamente. A ideia de escassez é um excesso, a excepção é a regra no jogo das afinidades especiais, a fome de cumplicidades o alimento dos seres singulares que se cruzam na escuridão do acaso. A vida é uma sucessão de milagres, raros como são. Habitua-te a ser único, e a desaparecer na escuridão da escassez, onde se acende a vela do luar.

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Beijo___

Bebes um cálice de rum. Sentes um leve tremor de medo. De incredulidade. Um medo bom. Sentes um pequeno calor no peito. O teu coração parece bater numa caixa de veludo. Sentes medo desse comprazimento inexplicável. A tua cabeça flutua tenuemente num leito onírico de sensações doces. A tua coluna dorsal é um fio de alta tensão a canalizar do ar vibrações enleantes para o teu rosto e a acender a luz do teu coração. Há uma dança de arrepios no teu abdómen. Um enigma que te eriça os poros. Acendes um cigarro. Pela janela ampla entra uma brisa carregada de Sol. Sorves a primeira inalação do cigarro com muita força. Expeles como um vulcão de ânimo a primeira baforada espessa. Esvazias os pulmões como se libertasses a consciência. Cospes a tua própria sombra pela boca que apreende de um trago o sabor das cores da manhã. Ascendes mais um degrau na escala de felicidade das circunstâncias. A tua alma voa em redor do teu corpo afundado na volúpia de um bocejo. Apetece-te um beijo. Telefonas à Maria e perguntas-lhe se está em casa. Ela diz que sim. Perguntas-lhe se podes aparecer. Ela diz que sim. Ingurgitas mais um cálice de rum. Rescendes à solidão. Chegas a casa de Maria. Ela abre-te a porta. Ela está linda, com um ‘top’ justo, umas ‘leggings’, descalça e de cabelos soltos. A visão estilhaça-te os sentidos. Dizes-lhe que precisas de um beijo. De um beijo forte e urgente. Ela diz-te que o beijo é uma construção, o cume de um processo de desejo partilhado, a nota final de uma longa canção, o cúmulo de um minucioso ritual de sedução. Diz-te que tresandas a álcool e que deves voltar para casa. A combustão das tuas vísceras ardeu as tuas asas. Voltas para casa e acabas com a garrafa de rum. E colapsas como uma pedra no pântano de um mau sonho.

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Felicidade___

A felicidade é o órgão vital do destino. Como um rio num sonho, a felicidade percorre os desfiladeiros mais árduos, e desagua inevitavelmente no imenso mar da tristeza, porto de partida, e desembarque, de todas as navegações. A felicidade é uma poeira luminosa suspensa sobre o fundo sombrio da mágoa, onde vicejam as raízes duras da amargura. A felicidade é o sangue do infortúnio, dando-lhe asas para avistar mais longe o horizonte da sua própria queda. A felicidade não existe, é uma invenção rara dos sentidos para sarar a dor do corpo encarcerado na volúpia do vazio. A felicidade é apenas fiel à infância e ao amor, enquanto voos sobre as ruínas dilacerantes das encruzilhadas da sobrevivência.

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Constatação___

Há uma violência incrustada na Liberdade, dado que a Liberdade faz-se tanto de ausência de limites, como da colisão dessa totalidade espiritual contra os obstáculos do medo, do medo inclusive da sua propagação. A Liberdade requer força, ou seja violência. Por isso, os mais livres tendem a apartar-se o máximo que conseguem da sociedade, para evitarem a violência entre a sua luz e as sombras circundantes da normalidade. Há uma violência inerente à Beleza, que é a violência da perfeição, que nos reduz a um beco irresolúvel – o do paradoxo do êxtase e da insignificância. O sentimento de insignificância é extremamente violento, e só se apazigua com mais beleza, ou, na sua ausência, com mais violência, ou Deus.

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Encrespando a onda do luto no abismo do travesseiro, observo atónito as trevas da pele da minha mão, e percebo que nela poderia admirar o brilho das estrelas, e enquanto escuto o mar negro que se abeira do meu sono, penso nessa herança vertiginosa – nessa pele escura como o enigma dos sonhos, de teor de terra, que é coisa mais infinitamente bela.
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Passado___Futuro___

(este texto faz parte da introdução de um romance, dir-se-ia histórico)

A dignidade de um homem não é uma mera ideia, é uma substância tão real como a sua própria carne. A dignidade sente-se como um instinto febril de sobrevivência, como uma respiração funda do sangue contra a exaustão do corpo. Recobre a pele como o manto quente da transpiração da alma, contra o frio da mísera e pura animalidade. Lisboa é, pois, uma cidade indignificante. Uma cidade amaldiçoada pelas ignomínia e torpeza do colonialismo, em que se sente o cheiro do fumo corrosivo das labaredas infernais da escravatura e da opressão do homem negro. Lisboa é assim um paradoxo, como é próprio da dita civilização ser paradoxal. Um lugar de passagem subterrânea para a luz negra, de aprendizagem oculta da grandeza vindoura do homem negro. Um lugar envenenado pela própria ambiguidade colonial. Lisboa dá a mão de ferro aos propulsores da sua queda. Cada estudante africano em Lisboa é um potencial cavalo de Tróia. Cada estudante africano traz em si o gérmen da destruição de Lisboa. São recebidos para o engrandecimento do mito colonial, mas o que os mobiliza e agiganta é a destruição da mão que os alimenta com a hóstia da gratidão pela sua própria insignificância.

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O vazio que me entra pela janela do quarto dentro é um vazio do mundo trazido pela luz do Sol. É um prazer. O mundo é um lugar vazio desenhado por uma poça de Sol no chão do quarto. Esse vazio do mundo cheio de Sol é como o gozo do deserto. Nesse deserto as pessoas percorrem as ruas minúsculas como formigas vistas do cimo de um prédio alto. As pessoas são velozes como formigas, atarefadas pelo medo da morte, deambulando em círculos até atingirem a vertigem da luz que as embriaga de calor e monotonia. O vazio é solene como o deserto, mata solenemente, mata lentamente. O vazio é hipnótico, é um animal mutante, confunde-se com a vida e com o bem-estar, confunde-se com a respiração, com a casa, com o carro, com a televisão, com as roupas, com os sapatos, com a máquina de lavar, com a comida rápida, com o ‘best-seller’. O vazio tornou-se-nos insubstituível como uma poça de Sol em que aquecemos os pés friorentos. Preenche-nos o tempo e o espaço de leveza e segurança. Nada exige de nós a não ser a pele limpa pelo banho demorado no espelho do quarto. O vazio é confortável como uma esponjosa palmilha de sapato. O vazio entra-nos pelo coração dentro como a vegetação selvagem invade uma fábrica de amor desactivada. E confunde-se com o trilar dos passarinhos.

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