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A (re) construção do cânone literário caboverdiano pelo olhar das antologias (parte 2)

IV A recepção dos poetas vindos do período colonial, a geração literária de oitenta do século xx e os novos paradigmas de pluralismo estético e estético-ideológico da nova poesia  cabo-verdiana do período pós-colonial

A partir dos anos oitenta do século XX assiste-se a uma nítida e audível mudança de paradigma na percepção e na valorização da poesia caboverdiana anterior à poesia claridosa.

Sintomático a esse respeito é o Prefácio que Manuel Ferreira escreve para a sua edição (com a chancela da ALAC (África. Literatura, Arte e Cultura) fac-similada da revista Claridade, para assinalar o cinquentenário desse marco fundamental do modernismo literário caboverdiano e intitulado “O Fulgor e a Esperança de uma Nova Idade”.

Para além da canonização literária definitiva dos claridosos e da revista Claridade, a par da sua consagração oficial por parte do poder político nacional-democrático-revolucionário (denominação oficial do regime de partido único, então vigente, desde o seu III Congresso, realizado em 1977, em Bissau, e, depois consagrado na Constituição da República de Cabo Verde, de Setembro de 1980/Fevereiro de 1981), que considera e incensa a publicação da mesma revista como a proclamação da independência literária de Cabo Verde, alçando, assim, os claridosos ao estatuto de precursores e imediatos antecessores deles, os “proclamadores da independência política do povo das ilhas”, assiste-se à reabilitação dos escritores ditos pré-claridosos, descobrindo-se finalmente e desvendando-se que, afinal, eles também abordaram temas candentes com que secularmente se vinha confrontando o povo caboverdiano, como as secas, a emigração (tanto a livre como a forçada), as fomes, o racismo colonial, as prepotências, as arbitrariedades e os abusos das autoridades coloniais, etc., etc..

As condições para tal mudança de paradigma na recepção das obras dos escritores ditos pré-claridosos foram sendo criadas a par e passo com um conhecimento cada vez mais amplo que se ia ganhando da obra lusógrafa desse grandes letrados caboverdianos.

Tal processo iniciou-se com a publicação por Félix Monteiro na rubrica “Páginas Esquecidas” da revista Raízes, dirigida por Arnaldo França e fundada em 1977, na cidade da Praia, de poemas de Guilherme Dantas e Eugénio Tavares, e culminaria na publicação já nos anos noventa da obra (quase) completa de Eugénio Tavares, no “achamento”, na organização e na prefaciação por Arnaldo França da obra de Guilherme Dantas, na re-edição e prefaciação também por Arnaldo França das Poesias, de Januário Leite, na prefaciação da obra Montes Nevados, de  Guilherme Ernesto (pseudónimo de Félix Lopes da Silva) por Baltasar Lopes da Silva bem como na re-edição com prefácio de Alfredo Margarido do Folclore Caboverdeano, de Pedro Cardoso, e na reedição por Manuel Ferreira do romance O Escravo, de José Evaristo de Almeida, o primeiro romance de temática caboverdiana, publicado pela primeira vez em 1856.

Marcante ainda nessa mudança de paradigma é certamente a publicação de 50 Poetas Africanos, de Manuel Ferreira, por incluir a poesia lusógrafa de Eugénio Tavares, José Lopes e Pedro Cardoso, mas ainda excluindo outros importantes poetas ditos pré-claridosos como Guilherme da Cunha Dantas, Januário Leite, Luís Medina de Vasconcelos, Guilherme Ernesto, João José Nunes, Joaquim Augusto Barreto ou João Mariano, e a sua contra-parte feminina representada pelos estros e rostos femininos de Gertrudes Ferreira Lima e Maria Luiza Senna Barcelos.

Desde então, muita coisa mudou e, por vezes, de forma assaz radical. Para além de passarem a ser matéria de vários estudos académicos, como, por exemplo, por parte de Gabriel Fernandes, Alberto Carvalho ou José Marques Guimarães, a obra dos chamados nativistas ou pré-claridosos tem sido objecto de re-edições, ademais ocupando quase todos eles o seu justo lugar de Patronos da Academia Cabo-Verdiana de Letras e ostentando-se os mais icónicos e célebres de entre eles nas denominações de artérias urbanas, praças, largos, bibliotecas, cátedras, livrarias, escolas secundárias, editoras, restando saber se são devidamente ensinados nas escolas, nesta época em que, a par do inegável florescimento da literatura caboverdiana, também grassa impune a mediocridade com a velocidade e a imediaticidade proporcionadas pelas novos meios de comunicação e pelas redes sociais. 

Já ninguém acusa os nativistas de falta de autenticidade, procurando antes situar a sua autenticidade no lugar que lhes foi adstrito pela História e pelos meios estéticos de que dispunham na sua época e na literatura-mundo que lhes era e foi acessível no seu tempo.

Como também ninguém mais ousa  acusar João Vário de inautenticidade em relação às suas matrizes culturais caboverdianas e de que a ilustração paradigmática foi o aproveitamento excludente desse gigantesco vate da literatura caboverdiana pelos corifeus da monocultura identitária da expressão negro greco-latino, a um tempo irónica e fraternalmente  cunhada por Corsino Fortes na sua “Carta de Bia d’Ideal” para se referir à poesia de teor ocidentalizante de João Vário, teor esse, aliás, assumido pelo próprio poeta nas suas  produtivas relações com grandes vultos da poesia ocidental, desde Homero, Horácio e Virgílio a Dante, Quasimodo, Ezra Pound, T. S. Eliot, Saint-Jean Perse, Pablo Neruda, Leopold Sédar Senghor, Aimé Césaire, entre muitos grandes poetas ocidentais incorporados, valorados como referências e referidos na entrevista de João Manuel Varela a Michel Laban. 

Aliás, a percepção e a recepção das obras atribuídas ao nome poético maior de João Manuel Varela constituem ilustrações flagrantes de como as coisas evoluíram em Cabo Verde. Exigente e severo consigo próprio, mandou retirar do mercado a sua primeira obra, Horas sem Came, publicada  em 1958, por considerar que era um livro de má factura escrito por um poeta neófito. Não obstante isso, poemas colhidos no livro foram inseridos nas duas mais importantes antologias históricas de poesia caboverdiana, a de Jaime de Figueiredo e a de Manuel Ferreira.

no Tarrafal, 2010, fotografia de Marta Lança no Tarrafal, 2010, fotografia de Marta Lança

Autor do maior poema épico de temática caboverdiana e de teor afro-crioulista e pan-africanista até então escrito e publicado em livro, em 1975, O  Primeiro Livro de Notcha ( a que se seguiu no ano 2000 O Segundo Livro de Notcha, integrado num único volume com os dois Livros de Notcha, mantendo-se ainda inédito o anunciado – aliás, pelo próprio autor- Terceiro Livro de Notcha) foi estranha e completamente ignorado por Manuel Duarte no seu ensaio publicado em 1984 na revista Raízes e incidente sobre as novas tendências pós-claridosas e pós-coloniais da poesia caboverdiana. 

Sistematicamente acusado por estudiosos, críticos e confrades da sua geração de inautenticidade por escrever uma poesia complexa na sua linguagem literária, ademais  assumidamente cosmopolita e andarilha por variegados mundos e de teor ostensivamente ontológico-metafísico, João Vário foi autor de livros que numera e a que atribui sucessivamente o título Exemplo, tais Exemplo Geral – Primeiro Livro, Exemplo Relativo – Segundo Livro, até perfazer nove livros (e que ficaram aquém dos doze Exemplos previamente anunciados por mor do falecimento, em 2007,  de João Manuel Varela, apesar de ter publicado no caderno Lavra e Oficina da União dos Escritores Angolanos um excerto do que seria Exemplo Cheio, o Livro Doze de Exemplos), publicados entre 1966 e 1998 em volumes avulsos, pouco acessíveis ao grande público em razão de terem sido dados à estampa em edições de autor e escassamente abordados pela crítica e finalmente reunidos no ano de 2001 num único volume de centenas de páginas. 

Nas suas próprias palavras, lavradas pela pena do ensaísta Timóteo Tio  Tiofe, Vário quis utilizar as armas miraculosas da cultura ocidental, tal como Senghor ou Césaire, “para elaborar a partir de coisas nossas, de raízes específicas, uma poesia de interpretação ontológica ou uma poesia caboverdiana de vigor novo”, dizendo de modo conclusivo a propósito da obra de Vário: “o esforço de Vário, quando escreve, consiste em ter presente, tanto quanto possível, no seu espírito ou na sua poética, toda a poesia (ou as técnicas significativas) da poesia universal”.

Na sua opinião, tal como acontecera com o nativismo literário, epocalmente superado pela claridosidade, e esta pela Nova Largada, a publicação do primeiro livro de Exemplos, o Exemplo Geral, significaria a invenção de um novo paradigma (ou cânone, se quiserem) num novo período histórico portador de novos e mais exigentes pressupostos nas suas formulações ontológicas e estético-formais, em razão não só da sua temática cosmopolita ou universalista, mas também da sua abordagem metafísica e da sua linguagem complexa (quase opaca).

Segundo o exegeta, seria característico desse período uma poesia da qual “dimana um tom novo” que nada tem a ver com “os problemas específicos de Cabo Verde” e que “começa a pensar Cabo Verde, não mediante interpretações limitadas a dados geopolíticos restritos, circunstanciais ou locais, mas no seio da cadeia de peripécias ontológicas, que fazem o homem universal pelas pulsões gerais, que não pela veracidade transitória, imposta pelas conjunturas, mesmo inóspitas e falazmente definidoras de individualidade ou de identidade” (“Artefactos Poéticos e Arte Poética na Poesia Cabo-Verdiana. Reflexões sobre os Últimos Cinquenta Anos de Poesia Cabo-Verdiana”, Fundação Calouste Gulbenkian, Paris, 1984),

Esse novo paradigma, que ele denomina de inefável identidade, teria nele João Vário, supomos nós, o seu grão-mestre, mas teria outros representantes na poesia caboverdiana contemporânea, como Arménio Vieira, Jorge Carlos Fonseca, Pedro Gregório e Vera Duarte, todos constantes da antologia Jogos Florais 1976 (que todavia não constitui para o desassombrado ensaísta um livro de referência para efeito da eventual consideração de todos os poetas nele incluídos), e depois presentes  na revistas Raízes, para os casos de Arménio Vieira, Oswaldo Osório e Jorge Carlos Fonseca, e na revista Ponto & Vírgula, para os  casos de Arménio Vieira e Oswaldo Osório, acrescidos do caso de Vera Duarte, com os seus poemas em prosa denominados “Exercícios Poéticos”, publicados na revista sanvicentina e que parecem ter chamado a atenção do conferencista João Manuel Varela.  

Como se pode deduzir da referência bibliográfica à mesma, a afirmação supra-referenciada foi pronunciada no âmbito de uma importante Conferência Internacional sobre as Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian em 1984, em Paris, ainda as coisas estavam num estado de vegetação idêntico àquele que caracterizou os anos setenta do Cabo Verde pós-colonial e cujas novidades mais evidentes foram ilustradas pela revelação, em Maio de 1974, no “Ariópe” (suplemento cultural do semanário independentista Alerta), do grande poeta crioulógrafo Emanuel Braga Tavares, pelo majestoso metaforismo redondo e afro-crioulista do Corsino Fortes do livro Pão & Fonema, de 1974, e pela inovadora épica telúrica, afro-crioulista e independentista do Timóteo Tio Tiofe de O Primeiro Livro de Notcha, de 1975, e a poderosa, gerundiva e contestatária poesia de Gabriel Mariano desfraldada com a negra bandeira da fome do Capitão Ambrósio, publicado em livro, em  1976, depois de a primeira parte ter sido escrita em 1956 e a segunda parte em 1966, na ilha de Moçambique, para onde tinha sido transferido como represália por uma sua defesa do  ensino do crioulo numa palestra  feita na Assomada na presença de altas entidades coloniais.

A esses relevantes eventos, seguiram-se  como também sumamente marcantes:

i. A poesia intransitiva de Arménio Vieira constante do conjunto “a Noite e a Lira”, com o qual arrecadou o primeiro prémio dos Jogos Florais 1976 e publicado, em 1977,  no livro homónimo e, mais tarde, integrado no seu primeiro livro intitulado Poemas, de 1981; 

ii. O cantalutismo e o universalismo militante de ampla e perfeccionista burilação da palavra poética de Oswaldo Osório, constante dos seus livros Caboverdeamadamente Construção, Meu Amor (publicado em 1975) e Cântico do Habitante Precedido de Duas Gestas (publicado em 1977); 

iii. O surrealismo construtivista e anti-claridoso de Jorge Carlos Fonseca; 

iv. A indagação de teor existencialista e metafísico de Pedro Gregório Lopes e Vasco Martins, a militante vociferação e a lamentação  choralutista de Vera Duarte e o teluricismo saudosista de João de Deus Lopes da Silva e de Pedro Delgado. 

Neste contexto, cremos ser importante abrir um pequeno parêntese para realçar (em razão do pluralismo estético e estético-ideológico que representa e simboliza num país recém- independente onde vigorava um regime de partido único e um sistema político-social de cariz socializante) o facto de todos os poetas e todas as diversas estirpes poéticas acima referidas terem integrado a antologia/colectânea  Jogos Florais 12 de Setembro de 1976, publicada em 1977, pelo recém-criado Instituto Cabo-Verdiano do Livro, dirigido pelo jurista  e ensaísta  Manuel Duarte. Parece-nos ainda de suma importância a circunstância de ter sido exactamente a poesia considerada desencantada e ontologicamente pessimista, da autoria de Arménio Vieira, a vencer por unanimidade esse pleito literário, ficando em primeiro lugar, devendo-se ademais ter em conta que essa mesma poesia foi confrontada com as poesias pós-coloniais, de reconhecido mérito e de teor assumidamente construtivista e  vanguardista de Oswaldo Osório e Jorge Carlos Fonseca, bem assim com a poesia existencialista de Pedro  Gregório Lopes e Vasco Martins, com o militantismo poético de Vera Duarte e com a poesia de saudosismo telúrico de João de Deus Lopes da Silva e de  Pedro Delgado. Outrossim, não se pode deixar de interpretar tais factos e circunstâncias como indiciárias e, até,  demonstrativas  de ter sido o mérito literário o critério mais relevante tido em consideração para a avaliação de um júri notoriamente plural do ponto de vista estético-ideológico, num contexto em que esses primeiros Jogos Florais de poesia cabo-verdiana pós-colonial foram organizados, patrocinados e editados por uma entidade oficial, ademais de natureza monopolista e  com função preponderante na edição do livro de natureza não político-partidária.  E feche-se o necessário parêntese.

 Interessante é que, instado pelo jornalista Filipe Correia de Sá, numa entrevista concedida à página “Cultura” do jornal Voz di Povo, a elencar aqueles poetas que considerava serem os melhores poetas caboverdianos de sempre, João Manuel Varela (falando  obviamente pelos seus pseudo-heterónimos todos, designadamente João Vário, Timóteo Tio  Tiofe e G. T. Didial) nomeou  os seguintes: Jorge Barbosa, Osvaldo Alcântara, João Vário, Timóteo Tio Tiofe,  Corsino Fortes e Mário Fonseca. De fora ficaram não só todos os pré-claridosos (incluindo Eugénio Tavares), na altura ainda sem obra visível e marcante re-editada, mas também Arménio Vieira, para muitos e durante muito tempo considerado o verdadeiramente icónico poeta modernista caboverdiano, a par ou a seguir a João Vário, dos termos e tempos retintamente anti-claridosos, mais do que pós-claridosos.

3. Desde então, muitíssima coisa mudou.

As poéticas de Timóteo Tio Tiofe,  Corsino Fortes, Arménio Vieira, Oswaldo Osório, Mário Fonseca e Jorge Carlos Fonseca consolidaram-se como paradigmas fortes e relevantes num panorama literário caboverdiano marcado pelo pluralismo estético, estético-ideológico e linguístico e no qual o teluricismo, o existencialismo e o cosmopolitismo convivem sem problemas de maior, até na obra de um mesmo e  único poeta, transfigurado ou não em um ou mais nomes literários ou pseudo-heterónimos. Constitui certamente excepção a esse optimista cenário de feição pluralista, a poética de João Vário,  que, mesmo que  continuamente enriquecida  com novos Exemplos, publicados em pequenas e quase clandestinas tiragens em edição de autor, todavia permaneceu  largamente desconhecida do público caboverdiano, mesmo  o mais informado, continuando a ser vítima predilecta do ostracismo a que vinha sendo sujeita desde os anos sessenta, o que, como é sabido, obrigou João Manuel Varela a escrever o livro que a geração nova-largadista e nacionalista da literatura caboverdiana “dele esperava”, isto é, O Primeiro Livro de Notcha (como, aliás, se  pode ler no Prefácio do autor a este mesmo livro).  É, por isso, sintomática a ausência de João Vário e, estranhamente, também do seu sósia e duplo Timóteo Tio Tiofe das  revistas caboverdianas Raízes e Ponto & Vírgula, comparecendo Timóteo Tio Tiofe na revista África somente como autor  de uma “Epístola ao meu Irmão António”, designadamente a Primeira,  de abordagem e análise crítica do processo de criação, da substância discursiva e das incidências estético-ideológicas e estético-formais d’O Primeiro Livro  de Notcha. Essa mesma situação de ostracização do grande escritor caboverdiano contemporâneo (ou, melhor, do seu nome literário João Vário, que não Timóteo Tio Tiofe, em regra referenciado de modo positivo pela crítica (por exemplo, de Russel Hamilton, apesar de algumas considerações consideradas imprudentes, inadequadas e impertinentes pelo poeta visado), por alegadamente responder de forma plena aos critérios e exigências epocais do teluricismo nova-largadista, ademais em registo épico) perdurará durante todos os anos setenta e oitenta do século XX, vindo a atenuar-se   paulatinamente com a publicação na revista Ponto&Vírgula de um ensaio do jornalista João Vicente Lopes no qual João Vário/Timóteo Tio Tiofe é considerado como um dos principais fautores  da mudança de paradigma na literatura caboverdiana, a par de Arménio Vieira, Oswaldo Osório e Jorge Carlos Fonseca; com a plena aparição na praça pública caboverdiana de G. T. Didial (novo pseudo-heterónimo de João Manuel Varela para a escrita da prosa de ficção e de poesia épica pan-africanista) com a  publicação, em 1989 pelo Instituto Cabo-Verdiano do Livro do por demais inovador e instigante romance de teor bíblico e cariz ontológico-metafísico intitulado O Estado Impenitente da Fragilidade  e os dois volumes dos Contos da Macaronésia, igualmente de teor bíblico e cariz ontológico-metafísico, e, já depois do seu regresso a Cabo Verde, no ano de 1998, com uma grande entrevista, assumida em nome próprio por todos os pseudo-heretónimos literários de João Manuel Varela e concedida ao jornalista angolano Filipe Correia de Sá do semanário Voz di Povo (Ressalte-se, neste circunstancialismo, que foi, aliás, neste mesmo jornal que se tinha publicado na sua página cultural,  coordenada  na altura pelo poeta Arménio Vieira, alguns textos de João Vário, no âmbito de uma polémica literária visando a obra de João Vário e a poesia mensageira de teor panfletário que então grassava em Cabo Verde, polémica essa protagonizada pelos dois icónicos poetas caboverdianos contemporâneos); com a publicação pela Spleen-Edições do nono volume de Exemplos intitulado Exemplo Coevo; com a fundação por João Manuel Varela da Academia de Estudos de Culturas Comparadas e da sua revista Anais, todas sediadas na cidade do Mindelo; com a entrevista concedida a Daniel Spínola, director da revista Pré-Textos e a publicação pela mesma revista praiense de vários ensaios e artigos sobre a obra literária multifacetada do autor mindelense no âmbito de uma homenagem póstuma prestada pela Associação de Escritores Cabo-Verdianos (AEC) ao grande  homem de letras caboverdiano;

 e, finalmente, com a reunião e a publicação em volumes unitários pela editora Pequena Tiragem (criada pelo próprio João Manuel Varela para expressamente se encarregar da edição da sua obra literária) de todos os nove volumes até então publicados de Exemplos e de O Primeiro Livro e o Segundo Livro de Notcha, integrando a versão completa (incluindo o célebre “Discurso V”) de O Primeiro Livro de Notcha, o até então inéditos Segundo Livro de Notcha, de que, aliás, tinham sido publicados alguns excertos nas revistas Fragmentos e Pré-Textos, tendo esta última publicado um número especial de homenagem ao autor e aos seus vários pseudo-heterónimos). Sublinhe-se que também foram integradas na edição de O Primeiro Livro e o Segundo Livro de  Notcha, assumido e assinado por Timóteo Tio Tiofe  algumas das também parcialmente inéditas “Epístolas ao Meu Irmão António” (designadamente a Primeira – respeitante a´ O Primeiro Livro de Notcha, a Segunda – incidente sobre o livro Pão&Fonema, de Corsino Fortes, e a Terceira – de incisiva e desassombrada resposta aos críticos da obra de João Vário, tendo a “Primeiras Epístola (…)” sido publicado pela revista África, de Manuel Ferreira, mas (des)merecendo a “Segunda Epístola (…)” a censura da mesma revista África bem como da revista Ponto & Vírgula, segundo versão do próprio autor  constante das “Terceira Epístola (…)”.   

Uma nova geração fez a sua aparição num quadro geracional de diversidade estética e pluralismo estético – ideológico e cujas feições, a um tempo mirabílicas e miserabílicas, mais ou menos fiéis ao panorama literário  dos anos oitenta do século XX ficaram patentes nas revistas Ponto & Vírgula (1984-1987), Sopinha de Alfabeto (1986-1987,  dois números) e Fragmentos (1987-1998), e fundamentalmente na  colectânea Mirabilis – De Veias ao Sol (Antologia Panorâmica dos Novíssimos Poetas Cabo-Verdianos), do Movimento Pró-Cultura, organizada  em 1987 por José Luís Hopffer C. Almada, publicada em 1991 pela Editorial Caminho e mandada reimprimir em 1998 pelo Instituto Cabo-Verdiano do Livro como testemunho e selo da autenticidade dos caminhos da poesia nesses recuados anos oitenta do século XX, de encontros e desencontros, em suma, de comunhão dos sessenta e seis poetas e promessas de poetas dela constantes e  revelados entre o imediato pós-25 de Abril de 1974 na folha Ariópe (suplemento literário e cultural do  jornal independentista  Alerta) até à publicação da revista Fragmentos, cujo primeiro número é datado de Setembro de 1987, passando pelo jornal Voz di Povo, pelo jornal (depois oposicionista) Terra Nova, por folhas juvenis mimeografadas e, até impressas, como Semente, Podogó, Despertar, Aurora, etc. e por muita poesia mantida inédita até à altura da sua publicação em 1990.  

pela colectânea Jogos Florais 12 de Setembro de 1976, pelas revistas Raízes, Ponto & Vírgula e Sopinha de Alfabeto, e por muita poesia mantida inédita até à altura da sua publicação em 1990 e/ou  publicada em folhas juvenis mimeografadas e, até impressas, como Semente, Podogó, Despertar, Aurora, etc. 

Muitos dos integrantes dessa colectânea panorâmica  revelados nos auspiciosos e dinâmicos  anos oitenta praienses do século XX e nos quais se depositou a esperança do desvendamento de novos trilhos na poesia caboverdiana faleceram fisicamente, assim abruptamente interrompendo, o seu, quem sabe?, fecundo percurso literário  e/ou morreram, adiaram-se e/ou nem sequer nasceram verdadeiramente como poetas. E são estes últimos quiçá a face miserabílica dessa colectânea que, talvez de forma demasiado eufórica e por demais  imprudente, quis reunir num único livro todos os poetas e/ou aprendizes de poetas portadores de um mínimo de qualidade num contexto da existência de um jovem, novo e pujante movimento cultural que se propôs como  um dos seus principais objectivos a sedimentação  e o encorajamento do pluralismo estético e da diversidade estético-ideológica e temática na literatura e nas artes caboverdianas. Anote-se ademais que todos os antologizados foram revelados no período que vai de 1974 a 1987, isto é, depois da publicação da mais importante antologia panorâmica da poesia modernista caboverdiana do período colonial que é o volume I de No Reino de Caliban, de Manuel Ferreira.  Assim, alguns dos poetas seleccionados para a colectânea panorâmica Mirabilis – De Veias ao Sol (Antologia dos Novíssimos Poetas Cabo-Verdianos) constaram igualmente do volume integrante dos poetas premiados ou agraciados com menções honrosas nos Jogos Florais 12 de Setembro de 1976,  d´ A Noite Grávida de Punhais e o Canto Armado,  de Mário de Andrade, e de Contra-Vento, de Luís Romano, para além da juvenil colectânea Canto Liberto, da JAAC-CV, de  adolescentinos e incipientes aprendizes de poetas. 

Admite-se que tal acto possa ter sido uma clara expressão de atrevimento ou ousadia geracional, por um lado, e um inequívoco e ousado clamor contra a crise editorial então reinante no país e o grande buraco da não-edição, característicos dessa época, localizada, como já referido,  na segunda metade dos anos oitenta do século XX desses tempos pós-coloniais. 

Praia, 2010, fotografia de Marta Lança Praia, 2010, fotografia de Marta Lança

Outros, pelo contrário, e são eles verdadeiramente a face mirabílica da última grande (em extensão) antologia/colectânea panorâmica  de poesia caboverdiana, comprovaram-se ab initio, como genuinamente inovadores, dos pontos de vista estético-formal e temático,  perfazendo  e constituindo (-se) na actualidade uma parte deles como vozes absolutamente incontornáveis e imprescindíveis da poesia caboverdiana contemporânea. Inventores de novas linguagens, grande parte deles cultores tanto da língua portuguesa como da língua caboverdiana e, até, eventualmente, de outras línguas, como línguas de labor literário, senhores de modos vários de expressão, desde a coloquial até à mais elevada e solene em língua portuguesa, artesãos no versilibrismo e/ou na arte do soneto, escavadores da História em longos poemas narrativos ou em sequências poemáticas cerzidas pela unidade temática da obra, líricos entristecidos, ou mordazes indagadores do destino e dos seus tecelões, esses poetas permitem com as suas obras que seja fácil o estabelecimento de pontes entre as várias gerações de poetas caboverdianos sem que a afirmação de um paradigma estético e/ou estético-ideológico signifique necessariamente a morte ou a  ocultação de outros anteriores paradigmas e cânones, mas implique a necessária afirmação na História e na nossa contemporaneidade de várias estirpes poéticas e literárias. É o que, aliás, fez oportunamente sobressair o Manifesto do Primeiro Encontro de Escritores Caboverdianos, do já  longínquo ano de 1992, publicado  na revista Pré-Textos da AEC. (Associação  de Escritores Cabo-Verdianos) que tive a honra de redigir para ser a síntese das discussões e conclusões do mesmo Encontro, realizado na sequência e no contexto das mudanças políticas ocorridas em 1990/1991/1992.  

Muitas outras antologias de poesia caboverdiana, de maior ou menor dimensão, têm sido organizadas no Brasil, em Portugal, em França, nos Estados Unidos da América e em Cabo Verde (neste último caso, com intuitos assumidamente selectivos da melhor poesia caboverdiana escrita no período pós-colonial, outros preferindo,  a contrario ou em contra-mão, assumir-se como postulantes da afirmação de novos poetas do ponto de vista geracional, outros ainda cingindo-se a poetas de géneros definidos, oriundos de determinadas ilhas ou de determinados lugares de uma ilha ou, ainda, caracterizando-se como circunscritos  a restritos círculos de confrades e amigos da/na poesia). 

Em algumas delas divisam-se e perduram nítidas as preocupações de abrangência intergeracional e/ou epocal, de preservação da qualidade na selecção  dos textos a par da  inserção das respectivas edições no contexto da divulgação dessa mesma poesia, em especial nos meios universitários, como são os casos das antologias organizadas por Simone Caputo Gomes, Ricardo Riso ou Rui Guilherme Silva. 

Nas antologias organizadas por esses estudiosos da literatura  caboverdiana,  o olhar parece ser assaz lato e abrangente, se bem que, por vezes, marcado pela contemporaneidade, outras vezes pela inter-geracionalidade.

Creio que já é tempo e, por isso, urge a organização (de preferência pela Academia Cabo-Verdiana de Letras em eventual parceria com  o Instituto da Biblioteca Nacional e com as  Universidades e as muitas editoras caboverdianas privadas actualmente existentes no país e na diáspora) de uma antologia de poesia caboverdiana em língua  caboverdiana  bem como de duas novas antologias temáticas da poesia caboverdiana, desta feita com propósitos verdadeiramente antológicos no sentido da consagração dos melhores exemplos dos vários paradigmas ou cânones que marcaram e vêm marcando  a história literária caboverdiana: 

  1. i. uma primeira abrangente dessa mesma poesia dos primórdios até à obtenção da independência nacional de Cabo Verde (independentemente de os poemas e referentes a esse período, obviamente colonial, terem sido dados a conhecer e publicados até  essa memorável data);
  2. ii. Outra, a segunda, abrangente da poesia caboverdiana da independência nacional até à actualidade.

Imprescindível parece também ser a organização (aliás, em grande parte já feita) e a edição  de duas antologias – uma de poesia, outra de narrativa ficcional em prosa – referentes à emigração e às diásporas caboverdianas com o necessário e indispensável patrocínio do Ministério das Comunidades e, eventualmente, do Ministério da Cultura e das Indústrias Culturais de Cabo Verde. 

 

V Línguas de cabo verde e literatura caboverdiana

Também na prosa de ficção caboverdiana é agora outra a visão mediante a qual são abordados os fenómenos sociais protagonizados pelo povo das ilhas e diásporas e relativos  ao mundo que o mesmo traz e carrega consigo no ventre e na alma. 

É o que comprovam à saciedade  as três antologias de ficção caboverdiana relativas designadamente aos pré-claridosos, aos claridosos e aos pós-claridosos, por isso abrangentes de (quase) toda a História literária de Cabo Verde, e publicadas na primeira década do século XXI pela Editora da Associação de Escritores Cabo-Verdianos (AEC-Editora)..

Novo nessas antologias, designadamente naquela que abrange a prosa narrativa de ficção pós-claridosa é a emergência de duas línguas de labor literário, designadamente o português e o caboverdiano, línguas oficiais da República de Cabo Verde, todavia ainda em modo assaz diglótico e em demanda de uma coexistência mais igualitária por forma a poder tornar-se mais profícua, mais frutífera e mais mutuamente vantajosa, modus vivendi  somente possível de ser atingido, na nossa modesta opinião, mediante a operacionalização do seguinte instrumentário e com a seguinte e sumária fundamentação:

  1. A urgente superação do actual e desgraçado estado de diglossia tenaz e persistentemente

ancorado na nossa sociedade e com prejuízos evidentes tanto para o português como para a língua materna caboverdiana, graças à insistente e ignara (se bem que sempre palavrosa) inércia dos políticos de serviço nos poderes instituídos. Políticos esses que, aliás, por vezes demasiadas, e, nalguns casos, aliados a serôdios tradicionalistas apegados a passadistas e regressivas formas de encarar o lugar da  nossa língua materna na sociedade caboverdiana das  ilhas e diásporas, primam pela descrioulização nas suas eloquentes e pretensiosas tomadas de posição  de novos-ricos da língua e nas suas arrogantes oratórias e falas comicieiras de demagogos tribunos da mercancia de promessas eleitorais, da compra de consciências e da mercantilização dos votos dos eleitores e pretendem, alegadamente e a todo o custo, nobilitar a língua materna caboverdiana mediante o descarado e desaforado aportuguesamento do seu léxico, da sua morfossintaxe e do alfabeto utilizado na grafia das suas palavras crioulas.

Sublinhe-se, nesta concreta circunstância,  que essa desopinada e desatinada transmutação linguística e essa alienante e desafinada transfiguração vocabular não logram todavia atingir, nem de perto nem de longe, os reconhecidos e inovadores méritos e as potenciais virtudes  e qualidades  transformadoras intrínsecas ao chamado português literário caboverdiano de invenção claridosa porque consabidamente propulsoras da legitimação do surgimento e da consolidação (quer em registo escrito, quer em registo oral) no chão agreste e morábi das nossas ilhas afro-atlânticas e eventualmente nalgumas das  chamadas ilhas da diáspora da variante caboverdiana do idioma português, actualmente a única  língua consagrada como plenamente oficial  da República de Cabo Verde. Outrossim,  as acima referidas e por demais desqualificadas démarches de abastardamento da língua materna caboverdiana, e cujas expressões oral e escrita podiam ser perfeitamente denominadas criouluguês e/ou portuguiolo, não possuem e nem sequer carregam consigo e em si próprias as virtuosas e jocosas criatividades e inventidades dos programas radiofónicos do célebre Nho Djunga, do anedotário de Nhu Puxim ou das crónicas literárias de Mari Preta de Nho Djunga e nem tão-pouco dos poemas e de outros textos híbridos na sua fusão do português e do crioulo de Onésimo Silveira e de outros escritores  teluricistas caboverdianos.

ii. O encorajamento da institucionalização de um bilinguismo real e efectivo com a   consagração do bilinguismo oficial português-caboverdiano por via da oficialização plena (ainda que, como, aliás, proposto pelo jurista Mário Silva, inicialmente somente em modo político-simbólico e no plano jurídico-constitucional) da língua materna caboverdiana, em paridade com o português (até agora, como já referido, a única língua oficial plena da República de Cabo Verde), a sua progressiva introdução no ensino oficial  e a paulatina e concomitante ocupação pelo português dos espaços informais de comunicação na sociedade caboverdiana por forma a que o mesmo logre transformar-se cada vez mais na segunda língua língua dos caboverdianos radicados nas ilhas, mas obviamente que sem qualquer pretensão ou veleidade no sentido de algum dia o idioma luso se transformar em língua materna desses mesmos caboverdianos radicados no chão natal das suas ilhas. 

Na verdade, a língua portuguesa tem sido um instrumento importante, diria mesmo indispensável e imprescindível, nas pugnas e nas demandas da emancipação social, económica, cultural e política das gentes e das terras caboverdianas e na construção da consciência nacional do povo caboverdiano.  

Essa mesma nação que, nascida com inconfundíveis matrizes e perfis transatlânticos e paulatinamente tornada diaspórica, global e transfronteiriça, afirmou-se afectiva e primeiramente, e foi-se reafirmando cada vez mais como pátria do meio do meio  do mar (na belíssima expressão cunhada pelo  poeta e militante nova-largadista Ovídio Martins) e hoje é entendida, segundo uma visão predominante e insofismavelmente afro-crioulista mais crítica, como nação crioula soberana e pátria africana do meio do mar do povo das ilhas e diásporas, forjados como comunidade cultural e política numa longa, atribulada e, bastas vezes, trágica História.   

Nessa odisseia histórica, as várias gerações político-culturais de letrados caboverdianos têm-se evidenciado como dignos porta-vozes e porta-bandeiras do povo caboverdiano de todas as ilhas e diásporas,  e, nessa interminável corrida de estafetas rumo a um horizonte situado num infinito cada vez mais próximo, digno, humano e risonho, sempre fazendo por conjugar a língua portuguesa com a língua materna caboverdiana, em ambas tentando ser autênticos e exímios no nobre intuito de neles e nas suas obras fazerem ecoar de forma plena e nítida as vozes, as vivências, as experiências,  as aspirações, em suma, os tempos e os modos vários de o povo das ilhas e diásporas existir e se fazer sempre presente na História  e na indagação do quotidiano, do destino e do futuro. 

É  o que também atesta a ampla pluralização estética e estético-ideológica na evolução histórica da literatura caboverdiana com o surgimento, a partir da independência nacional,  de novas e diversas estirpes literárias.

Essas novas estirpes literárias pós-coloniais podem ser inegavelmente ilustradas e exemplificadas  i. tanto nas escritas poéticas de Arnaldo França, Nuno Miranda, Teobaldo Virgínio, João de Deus Lopes da Silva, Pedro Duarte, Gabriel Mariano, Ovídio Martins, Iolanda Morazzo, Onésimo Silveira, João Vário, Corsino Fortes, Timóteo Tio Tiofe, Oswaldo Osório, Arménio Vieira, David Hopffer Almada, Jorge Carlos Fonseca, Vera Duarte, Marino Verdeano (pseudónimo de Aristides Raimundo Lima), Kaká Barboza, Tomé Varela da Silva, José Vicente Lopes (iniciado nas lides literárias com o pseudónimo Flávio Camilo), José Luís Hopffer C. Almada, Filinto  Elísio Correia e Silva, Danny Spínola, Valdemar Velhinho Velhinho (depois transmutado em Valentinous Velhinho), Carlota de Barros, José Luís (depois grafado Luiz) Tavares, António da Névada, Abraão Vicente, Princezito, João Baptista Efígie, Daniel Ramos Mendes… ii. como também nas narrativas e escritas ficcionais dos autores caboverdianos, os quais podem ser integrados em dois grupos:

a) O primeiro, de feição nitidamente pós-claridosa e representado por Orlanda Amarilis (indubitavelmente pioneira nesse domínio com a colectânea de contos intitulada Cais de Sodré Té Salamansa, editada em 1974), Arménio Vieira, Oswaldo Osório, Romualdo Cruz (pseudónimo utilizado  por Germano Almeida para assinar as suas “Estórias” relativas à sua ilha fantástica da Boavista publicadas na revista Ponto & Vírgula), José Vicente Lopes (estreado como ficcionista na revista Ponto & Vírgula),  G. T. Didial, Dina Salústio, Fernando Monteiro (revelado no jornal Tribuna e na revista Fragmentos), Vasco Martins, Danny Spínola, Mário Lúcio Sousa, Ivone Ramos, Kaká Barbosa,  Joaquim Arena, Tchalé Figueira,  Filinto Elísio Correia e Silva, Eugénio Inocêncio/Dududa, Jorge Carlos Fonseca, Mana Guta (pseudónimo de Maria Augusta Teixeira), Mário Matos, etc..

b) O segundo, de feições neo-claridosas pós-coloniais, portador de teores estético-literários neo-realistas e  incidências , urbanas, suburbanas ou rurais e integrado por obras de romancistas, novelistas e contistas publicadas no período posterior à independência nacional de Cabo Verde. Inaugurado no período pós-colonial com alguns contos de Oswaldo Osório publicados, a partir de 1977, na revista Raízes e intitulados “Amores de Rua” e com a publicação, em 1978, do romance Ilhéu de Contenda e prosseguido nos sete romances dos ciclos foguense e mindelense do escritor foguense, a neo-claridosidade pós-colonial é patente, nas suas diversas feições e conformações sociológicas, insulares e diaspóricas, nas obras de Maria Margarida Mascarenhas, Jorge Tolentino (desde os seus inícios  ainda muito jovem como contista colaborador das conceituadas revistas África e Raízes), Germano Almeida, Carlos Araújo, Gualberto do Rosário, Camila Mont-Rond (pseudónimo de Ondina Ferreira), Viriato de Barros, Fátima Bettencourt, Viriato Gonçalves, Manuel Veiga, Tomé Varela da Silva, Leopoldina Barreto, Jorge Silva, Ludgero Correia, Eutrópio Lima da Cruz, Vera Duarte, Carlota de Barros, David Hopffer Almada, Eurídice Monteiro…

Ressalve-se  que uma parte desses ficcionistas, tanto os de feição pós-claridoda, como os de feição neo-claridosa, têm incidido o seu labor literário no resgate da herança afro-crioula e/ou na reinterpretação do passado escravocrata de Cabo Verde. São os casos de João de Deus Lopes da Silva, Manuel Veiga, Carlos Araújo, Germano Almeida, Daniel Spínola, Joaquim Arena, Inocêncio Inocêncio, entre outros, numa démarche literária que os aproxima das cogitações rememorativas insítas e insertas nos romances de temática caboverdiana O Senhos das Ilhas e Vozes do Vento, da conceituada  escritora e feminista portuguesa de origem  caboverdiana Isabel Barreno. 

O surgimento de novas estirpes literárias  pós-coloniais na escrita ficcional caboverdiana ocorreu e vem ocorrendo  a par da continuidade e  da renovação das estirpes claridosas e da consolidação das estirpes literariamente neo-claridosas emergentes da segunda vaga claridosa e  do movimento da nova largada, representadas por Henrique Teixeira de Sousa, Nuno Miranda,  Euclides Menezes, Gabriel Mariano, Onésimo Silveira, Teobaldo Virgínio,  Pedro Duarte, Maria Helena Spencer, João de Deus Lopes da Silva, Virgílio Pires, Luís Romano, Maria Margarida Mascarenhas, João Rodrigues…

De tudo o que vem dito pode-se, pois, concluir que é de grande importância e insofismável relevância a domesticação pelos escritores caboverdianos das muitas formas literárias do português, quer nas suas feições do chamado português literário caboverdiano utilizado pela generalidade dos ficcionistas islenhos; quer no seu coloquial desassombro crítico  e satírico, nas suas iconoclastas mitografias e desconstruções dos ícones da herdada mitologia greco-latina, com Arménio Vieira, ainda que com (quase) integral e irrestrita manutenção e cabal  utilização do padrão linguístico vigente em Cabo Verde; quer na sua leveza lírica e na sua entristecida (e por vezes enlouquecida, outras vezes enraivecida) angústia, com Artur Vieira, Fernando Monteiro, Dina  Salústio, Gualberto do Rosário e Carlota de Barros, todos cientes do uso requerido pelo vigente padrão linguístico da língua  eleita para o labor literário; quer na desassossegada interpelação e na crítica interrogação e das diluídas e longínquas co-matrizes  afro-latinas das contemporâneas margens, vertentes e dimensões (por vezes petrificadas e essencializadas) e das ainda controversamente assumidas e cada vez mais consensualmente  vigentes  vestes da crioulidade caboverdiana e das suas, bastas vezes insanas, se bem que produtivas, deambulações pelo lato e vasto mundo, em Pedro Duarte, Corsino Fortes, Mário Fonseca, Vera Duarte, Daniel Benoni, João de Deus Lopes da Silva, Manuel Veiga, Carlos Araújo, Germano Almeida, Joaquim Arena, Ondina Ferreira, Eugénio Inocêncio, Filinto Elísio Correia e Silva, Margarida Fontes e Teobaldo Virgínio;  quer nas suas sofisticadas e neo-barrocas feições  e no seu elevado e complexo teor lexical, quase dicionarista, como vem ocorrendo com vários poetas e prosadores das mais antigas e das  mais novíssimas gerações pós-coloniais, com particular visibilidade nas escritas  poéticas e literárias de Pedro Duarte, Oswaldo  Osório, João Vário/Tio Tio Tiofe/G. T. Didial, Jorge Carlos Fonseca, José Luís Hopffer C. Almada, Danny Spínola, Valentinous Velhinho, Mário Lúcio Sousa,  José Luiz Tavares (que, entre os actuais escritores caboverdianos, parece ser o mais meticuloso nessa matéria), António da Névada, João Baptista Efígie, Daniel Ramos Mendes…

É também certo e sabido que a língua portuguesa tem coexistido com outras línguas na criação, na estruturação e na consolidação  da literatura e da escrita caboverdianas.

no Tarrafal, 2010, fotografia de Marta Lança no Tarrafal, 2010, fotografia de Marta Lança

I.  Em primeiro lugar, e como já foi sobejamente referido, com a língua caboverdiana, ocorrendo esse fenómeno desde os temposnativistas de outrora e tendo  o mesmo  idioma  das ilhas sido  estudado por nativistas, claridosos e nova-largadistas e sido cultivado  por literatos e trovadores caboverdianos de todas as gerações e de todas as ilhas e diásporas na sua  inalienável condição de língua materna caboverdiana e de imprescindível e insubstituível marca identitária da caboverdianidade. 

Nessa co-existência entre o  português e o  crioulo, por vezes marcada pela interpenetração  e pelo hibridismo entre as duas línguas de Cabo Verde, tem-se verificado a tendência para a a predominante (senão priorítária) utilização do português como língua de labor literário dos escritores e escribas caboverdianos, ao mesmo tempo que se tem assistido à consolidação da escrita  em língua caboverdiana, em especial da  escrita  literária e da escrita ensaística. Nesse processo, o crioulo vem  extravasando e expandindo os domínios da escrita ensaística, iniciada com a primeira  gramática  do idioma crioulo e a fundamentação linguística do  primeiro alfabeto de base fonético-fonológica, por António da Paula Brito, da escrita poética de feições eminentemente líricas e ontológico-existencialistas, levada ao seu  máximo  esplendor por Eugénio Tavares no seu livro Mornas – Cantigas Crioulas e prosseguida nas mornas e em outros poemas de José Bernardo Alfama, José Alves dos Reis, Sérgio Frusoni, B. Lèza, Rodrigo Peres, Silvestre  Faria, Fernando Quejas e outros muitos poetas-letristas e compositores, bem como da escrita poética de teor satírico, ilustrada nos textos do Juvenal  Cabral com o poema-folheto Bejo  Caro e do Jorge Pedro Barbosa do  poema “Djom Pó di Pilon”, para  novas áreas de jurisdição  literária e discursiva, quais sejam:

I. A narrativa ficcional em prosa, com os contos escritos na variante da língua caboverdiana da ilha de Santo  Antão e incluídos, com as suas respectivas traduções em “português aproximado” no livro Negrume/Lzimparim, de Luís Romano; com o primeiro romance em língua caboverdiana  intitulado Odju d´Águ, escrito pelo linguista Manuel Veiga na variante-matriz santiaguense da língua caboverdiana) com o deliberado intuito de provar as capacidades da língua caboverdiana na formulação de discursos,  para além das tradicionais e muito apoucadas (ou pouco valorizadas) vertentes lírica, satírica e directamente política; com a colectânea de contos Natal y Kontus, de Tomé Varela da Silva,  o romance Perkurse de Sul de Ilha e o segundo romance de Eutrópio Lima  da Cruz (ambos  escritos na variante de Barlavento da ilha da Boavista), os contos de Danny Spínola constantes do seu livro Lagoa Gémia, os contos em crioulo constantes dos livros Cântico às Tradições e Descantes da Minha Ribeira, de Kaká Barboza,  os contos em crioulo constantes do  livro bilingue Primeira Antologia Pessoal (Poesia e Prosa),de António Monteiro, o conto constante do opúsculo Nhu Manel Mintirozu e outros contos de Horácio Santos (mais conhecido por Laláxu), publicados na revista Fragmentos; os contos  e crónicas de Zizim Figueira publicados com o título Crónicas Mindelenses no jornal online Liberal, as crónicas e os  contos esparsos em língua caboverdiana de alguns autores, como, por exemplo, Fernando Monteiro e Dionísio de Deus y Fonteana (pseudónimo  para  a prosa  de ficção de José Luís  Hopffer C. Almada), de entre outros  escritores bilingues, mais ou menos consagrados como autores parcial ou  primacialmente lusógrafos e/ou crioulógrafos.  

iii. A poesia épico-telúrica, com o Kaká Barboza do livro Konfison na Finata e com o José Luiz Tavares da versão em língua caboverdiana do livro Paraíso Apagado por um Trovão; a poesia ontológico-existencialista com o Zé di Sant´y Águ do caderno “Ta Madura  na Spiga” do segundo volume da obra em dois volumes intitulada À Sombra do Sol; com o Danny Spínola dos livros Na Kantar di Sol, Na Nha Sol Xintadu e Adon y Eva y Otus Puemas e de poemas vários  constantes de cadernos em crioulo de outros títulos/livros  da sua autoria… 

iv. O teatro, com o Kwame Konde (pseudónimo do poeta e médico-guerrilheiro Francisco Fragoso) do livro Korda Kaoberdi e da peça teatral “Preto Toma Tom” constante do nº 1 dos Cadernos Korda Kaoberdi; com o Ano Nobo (pseudónimo do músico, compositor e dramaturgo Fulgêncio Baptista) e da sua muito apreciada e premiada dramaturgia em versos rimados, constante das suas peças teatrais publicadas na revista Fragmentos; com o Artur Vieira da peça bilingue  Matildi – Viage di Distino (Matilde – Viagem do Destino) e de outras peças teatrais da sua autoria; com o Donaldo Macedo da peça teatral Descarado; com o dramaturgo  e poeta  crioulógrafo Armindo Tavares das  várias peças teatrais bilingues constantes dos seus vários livros; com o poeta José Luís Tavares  do mais longo poema-peça dramatúrgica  até hoje escrito em crioulo e intitulado  É ka Lobu ki Fase, para além  de outros autores dramatúrgicos, alguns deles  activos no Grupo de Teatro do Centro Cultural Português e em outros grupos de teatro integrantes do Festival Mindelact e de outros festivais de teatro.

v. A poesia de teor crítico e de crítica social e política muito cultivada pelos nativistas e retomada com o Ovídio Martins da sequência “Camim Criol” dos seus livros de poemas Caminhada (1962) e Gritarei, Berrarei, Matarei, Não Vou para  Pasárgada! – 100 Poemas (1972); com o Gabriel  Mariano, de icónicos poemas,  alguns deles musicados, como por exemplo “Sina de Cabo Verde” e “Co Paz, co Ligria,co Sossego”; com o Kaoberdiano Dambará (pseudónimo de Felisberto Vieira  Lopes) do muito emblemático livro Noti, fundante da poesia caboverdiana de negritude crioula; com o Emanuel Braga Tavares do icónico “Kabral ka More” e de outros emblemáticos poemas recolhidos na colectânea Mirabilis- De Veias ao Sol (Antologia Panorâmica de Novíssimos Poetas Cabo-Verdianos), de José Luís Hopffer C. Almada e na antologia bilingue Contra-Vento, de Luís Romano; com o Corsino Fortes dos poemas em crioulo (designados pelo autor como sendo poemas de Corsa de David) e constantes dos livros Pão & Fonema, Árvore & Tambor e A Cabeça Calva  de Deus; com o Tony Lima (nominho e pseudónimo poético-musical crioulógrafo do poeta António Lima) dos poemas-canções constantes do disco  Korda  Skrabo e retomados no livro trilingue (francês, crioulo e português) Reminiscences et  Errances; com o Viriato Gonçalves  dos poemas em crioulo do livro Grito; com o Arménio Vieira do poema “Canta  co Alma sem Ser Magoado”, publicado nas antologias No Reino de Caliban, de Manuel Ferreira, e Contra-Vento, de Luís Romano, e outros poemas publicados nas praienses Folhas Verdes; com o Viriato Gonçalves dos poemas em crioulo do seu  livro Grito; com o Kaká Barboza dos seus livros Vinti Xintidu Letradu na Kriolu, Son di ViraSon e Konfison na Finata; com o Tomé Varela da  Silvssa dos livros Kumunhon di Áfrika, Kardisantus, Na altar di Nha PetuForsa di AmorNa Kaminhu; com o Danny Spínola dos livros Na Kantar di Sol, Adon y Eva y Otus Puemas, Piskador di Strela di Alba Na Nha Sol Xintadu; com o Ariki Tuga/Badiu Branku (pseudónimos do português radicado Henrique Lopes Mateus) dos livros Sen Mantxontxa e Kunba; com o David Hopffer Almada dos poemas em crioulo dos seus livros Canto a Cabo Verde e Vivências; com o malogrado Kaliostro Fidalgo (pseudónimo de Pedro Delgado Freire) dos  poemas em crioulo publicados no Voz di Letra (suplemento literário do semanário Voz di Povo), na revista Fragmentos e na colectânea Mirabilis – De Veias ao Sol (Antologia Panorâmica dos Novíssimos Poetas Cabo-Verdianos); com o Canabrava (pseudónimo de Pedro Vieira) dos  poemas em crioulo publicados no Voz di Letra (suplemento literário do semanário Voz di Povo), na revista Fragmentos e na colectânea Mirabilis – De Veias ao Sol (Antologia Panorâmica dos Novíssimos Poetas Cabo-Verdianos); com o José Luís Tavares do longo poema dramatúrgico É ka Lobu ki Fase, do poema “Thug” e de outros poemas publicados nos jornais online Liberal e Santiago Magazine; com a malograda Eneida Nelly do livro Sukutam;  com o Princezito (nominho e pseudónimo artístico de Carlos Alberto Sousa Mendes) dos livros  Antigu Pensamentu e Manual di Mudjer; com o Ymez (pseudónimo de Ramiro Alberto Carvalho Silva) do livro Sentimentus; com o Ngozi Nelly (pseudónimo de Afdolfo Lopes) do Livru Puétiku Sanpabadiu; com o Charlie Mourão do livro bilingue Disbanderadu; com o Ngosi Nelly (pseudónimo de Adolfo Varela) do livro Sanpabadiu, entre outros muitos poetas bilingues e monolingues, alguns deles muito presentes na blogosfera e no facebook. 

vi. E, finalmente, a escrita ensaística  com o Manuel Veiga do livro  Diskrison Strutural di Língua Kabuverdianu; o  Tomé Varela da Silva do livro Tributu pa Kultura Kabuverdianu   e inúmeros textos de outros autores, em forma de discurso político, conferência, opinião,  reflexão,  ensaio, crítica ou crónica literária, como nos casos de Abílio Duarte, Tomé Varela da Silva, Manuel Veiga, José Luís Hopffer Almada, Tony Pires (enquanto director da folha praiense Xatiadu Si, redigida exclusivamente em crioulo), Marciano Moreira, José Luiz Tavares, José Maria Pereira Neves (enquanto Primeiro-Ministro, no seu Discurso perante a Assembleia-Geral das Nações Unidas, e como Presidente da República, no Discurso bilingue de Tomada de Posse e em outras ocasiões)…

II. Em lugar seguinte à sua co-existência com o crioulo caboverdiano na expressão linguística da literatura caboverdiana, a língua portuguesa tem co-existido com outras línguas ocidentais, com destaque para o francês e para o inglês, bastas vezes também desempenhando as funções de segunda e/ou terceira língua das comunidades  e(i)migradas caboverdianas, e assaz frequentemente a primeira língua das várias gerações dos caboverdiano-descendentes radicadas em vários países da África, da Europa, das Américas, em especial nos Estados Unidos, no Brasil e na Argentina, e na Ásia/Oceânia, em especial na Austrália. 

Com efeito, a experiência bi(multi)lingue na literatura caboverdiana remonta ao poeta neo-clássico José Lopes – autor de obras em francês, em inglês e, até, em latim-, passando por João Vário que, no âmbito da  obra de toda a sua  vida Exemplos,  publicou dois livros de poesia em francês, designadamente Exemple Reistreint e Exemple Irreversible, tendo igualmente cogitado, anunciado e preparado, em larga medida, a publicação de dois livros de poesia em inglês, intitulados European Example e American Example, e culminando no poeta modernista e contestatário Mário Fonseca que lavrou e  deu à estampa em língua francesa a maior parte da sua importante obra poética consubstanciada nos livros Mon Pays Est une Musique, La Mer à Tous les Coups e L´ Odiférante Evidence de Soleil qu´Est une Orange. Como é sabido, Mário Fonseca  iniciou a sua escrita poética utilizando a língua de Camões, vate maior da língua portuguesa e das literaturas lusógrafas e cuja poesia era muito apreciada, estimada e, até, amada por esse importante poeta caboverdiano, não obstante o seu arreigado apego à África Negra matricial, a qual interpelou, no poema “Eis-me Aqui, África”, com as tenazes e comprometidas palavras da desalienação anti-assimilacionista e anticolonial: “Nada nos separa/nem o mar nem os lusíadas”. Depois de escrita a sua obra poética em francês, ocorrida essencialmente durante o seu exílio político a partir do ano de 1964 e publicada imediatamente antes e depois do seu regresso definitivo a Cabo  Verde, no ano de 1989, Mário Fonseca retomou a sua escrita poética em língua portuguesa, anteriormente publicada no Boletim Cabo Verde e nas folhas Seló (suplemento do jornal mindelernse Notícias de Cabo Verde) e também vazada no livro O Mar e as Rosas (extraviado em razão de um assalto da polícia  política colonial-fascista portuguesa às instalações da sede da Sociedade Portuguesa de Escritores em Lisboa) e em poemas avulsos escritos durante os seus tempos de  exílio, alguns  publicados depois do 25 de Abril  de 1974 na revista África, dirigida por Manuel Ferreira,  e na revista Raízes, dirigida por Arnaldo França, e no livro Se a Luz é para Todos, tendo deixado, pelo menos, um livro  inédito, intitulado Morrer Devagar, e de que alguns poemas foram publicados nas revistas Fragmentos e Pré-Textos bem como no jornal-revista Artiletra

 

VI O papel da tradução de obras literárias para o crioulo e do crioulo para outras línguas 

Uma feliz ilustração das ainda inexploradas potencialidades e possibilidades de um convívio produtivo, são e profícuo entre a língua portuguesa e a língua caboverdiana tem sido a tradução para o caboverdiano de algumas grandes obras vazadas em língua portuguesa ou em outra língua ocidental. Tal foi o caso com a tradução para a variante de Santo  Antão de excertos de Os Lusíadas pelo Cónego Manuel da Costa Teixeira e com a tradução para o crioulo da ilha Brava das Endechas para a Bárbara Escrava, também de Luiz Vaz de Camões pelo grande Eugénio Tavares.Tal ocorreu com a tradução para a variante do crioulo da ilha de São Vicente dos Evangelhos por Sérgio Frusoni a partir duma sua versão em dialecto romano e vazado no livro Vangéle Contode de nos Moda. Sérgio Frusoni que também transpôs para o português os seus sonetos e outros poemas escritos em crioulo, desse labor resultando o livro bilingue publicado por Augusto Mesquitela Lima, que o anotou, comentou e completou e intitulou A Antropologia Poética de Sérgio Frusoni. O mesmo ocorreu com a tradução para a variante de Santiago de sessenta e cinco Sonetos, de Luiz Vaz de Camões, para o efeito intitulados Ku ki Vos/Com que Voz, e da Ode Marítima, de Álvaro de Campos, para o efeito intitulado Odi Marítimu, por José Luiz Tavares, depois de essa mesma experiência ter sido encetada por Arnaldo França, que, além de sonetos de Luiz Vaz de Camões, e da Ode Marítima, de Álvaro de Campos, também traduziu para o crioulo a Ode Triunfal, de Álvaro de Campos, e vários poemas de David Mourão Ferreira, publicados na folha praiense Xatiadu Si, tendo o mesmo poeta igualmente traduzido para o português vários poemas em crioulo de Corsino Fortes, com destaque para “Recóde d´Humbertona” e “Pesadéle na Terra de Gente”. A mesma situação verifica-se com a tradução para o crioulo de A Invenção do Amor, de Daniel Filipe, e Capitão Ambrósio, de Gabriel Mariano, por Danny Spínola. Tal como Danny Spínola  que tem traduzido para o crioulo textos de poesia ou de prosa literária de lavra própria,  quer para o crioulo, quer para o português, conforme a língua original de labor literário, também José Luiz Tavares tem  traduzido para o crioulo textos de lavra própria originalmente escritos em português, com destaque paras o livro Paraíso Apagado por um Trovão, ocorrendo o mesmo com Manuel Veiga, que traduziu para o crioulo o seu romance Diário das Ilhas; com António Lima que traduziu para o francês as canções em crioulo do disco Korda Skrabu, dos Kaoguiamo, e alguns poemas em português e traduziu  para o português os seus poemas escritos em francês, a sua principal língua de labor literário,  integrando todos esses textos o  seu livro Reminiscences et Errances; bem assim com Eutrópio Lima da Cruz que vazou nas duas línguas de Cabo Verde o seu segundo e o seu terceiro romances. E os exemplos multiplicam-se no passado com Luís Romano que traduziu, de forma pioneira, para “um português aproximado” os contos que de forma pioneira, escrevera na variante de Santo Antão da língua caboverdiana, editando em versão bilingue o seu livro Negrume/Lzimparima, sendo ele igualmente o organizador de Contra-Vento – Antologia Bilingue (Crioulo-Português) de Poesia Cabo-Verdiana. Mais recentemente ocorreu o mesmo com Viriato de Barros que traduziu para o crioulo (Sonhu Sunhadu) o livro de poemas Sonho Sonhado, da autoria da  sua irmã e confrade Carlota de Barros; com Filinto Elísio Correia e Silva e a sua tradução para o crioulo de uma obra de José Luís Peixoto (Morreste-me -Bu More-m) e de outra de Gonçalo M. Tavares (Os Velhos Também Vivem – Bedjus Tanbe ta Vive), para além dos louváveis casos da tradução para a variante de Santiago da obra Die Gewehre der  Frau Karar /Spingardas di Tia Karahr a partir da sua tradução portuguesa pelo malogrado Horácio Santos (mais conhecido por Lalacho/Lalaxu) e para a variante de São Vicente da língua caboverdiana para efeitos da sua encenação pelo Grupo Teatral do Centro Cultural Português do Mindelo de vários dramaturgos de ressonãncia universal e repercussão mundial, como William Shakespeare e Federico Garcia Lorca, para além do escritor Armindo Tavares  que tem editado a maior parte da sua já  importante obra dramatúrgica em versão bilingue português-crioulo. 

Louváveis são igualmente as traduções para a variante santiaguense da língua caboverdiana do Evangelho de São Lucas com o título Lukas – Notísia Sábi di Jizus (existindo uma  tradução equivalente para a variante de São Vicente); da Constituição da República, por Frutuoso Carvalho, Bernardo Carvalho e Raimundo Tavares, sendo que foi já entregue à Presidência da República, que a encomendou, uma segunda tradução da Constituição da República da autoria do linguista Manuel Veiga, que, para além de outras obras literárias da sua lavra,  também traduziu para o crioulo,  como já referido, o seu romance lusógrafo Diário das Ilhas); da Declaração Universal dos Direitos Humanos, promovida e editada pela  Comissão Nacional dos Direitos Humanos, e  da Declaração Universal  dos Direitos Linguísticos, da UNESCO, neste caso promovida pela Embaixada de Cabo Verde em Lisboa e da autoria  de José Luiz Tavares.  

Por isso, só podemos estar moderadamente optimistas com o futuro imediato e a médio prazo das duas línguas da República de Cabo Verde, desde que finalmente se ouse dar o passo decisivo: a co-oficialização plena dessas nossas duas línguas, assim instituindo de uma vez por todas o bilinguismo oficial em Cabo Verde (e sem quaisquer restrições que não sejam as advenientes da norma constitucional programática e relativa à natureza gradual dessa mesma oficialização plena da língua caboverdiana (aliás, complementar daquela que venha a oficializar de forma plena se bem que somente político-simbolicamente), bem como a introdução com a máxima urgência da língua caboverdiana no ensino formal caboverdiano.

 

Lisboa,  Casa Fernando Pessoa, 15 de Setembro de 2018

Revisão e versões  mais recentes de 4 de Maio de 2021 e de 12, 25 e 28 de Novembro de 2022 

* Nota do Autor: O presente ensaio serviu de base, na sua primeira e inicial versão, para uma conferência proferida na Casa Fernando Pessoa em 15 de Setembro de 2018 no âmbito de um Festival sobre a Literatura-Mundo organizado pela Editora Rosa de Porcelana e, na sua presente versão desenvolvida, para duas aulas  sobre a Literatura Caboverdiana ministradas por mim na Faculdade de Letras  de Lisboa a convite da Professora Ana Mafalda Leite.

 

Ler a parte 1

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