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até para dizer as palavras podem ser precisas as mãos, sobre a apresentação de ‘Ingenuidade Inocência Ignorância’ de raquellima

Quando a Raquel Lima raquellima se levantou para falar enunciar spoken wordar os seus poemas, pensei imediatamente na música Mãos, uma colaboração entre o Mano Brown (Racionais MC) e Almir Guineto, um sambista e músico incrível. Para começar a ideia de que, apesar da declamação dos poemas, e de existir um audiobook lançado pela editora BOCA, editora de audiobooks, estávamos ali para celebrar o lançamento do livro, fisicamente, um livro vermelho e negro, lindo, quadrado, Ingenuidade Inocência Ignorância. Para escrever, assim de uma forma imediata, quase sempre é preciso ter mãos, para pegar na caneta ou para teclar (não é realmente necessário ter mãos). Para escrever aquele livro, aqueles poemas, e para editar aquele livro (estou a pensar em todo o processo de criação física do objecto físico) em algum momento mãos foram usadas.

Mas as mãos também foram usadas durante toda a performance pela autora. No princípio quase que para chamar novamente para o palco as pessoas que a foram, uma por uma, abandonando, que na verdade não a foram abandonado so much as a deixaram ali para que tomasse o palco e a palavra, sozinha, para que fizesse o que propunha: terrorismo literário. As mãos também usadas para pegar no mic, em modo mc, fio condutor da thread do pensamento, e as mãos, também usadas para fazer gestos que mostram tons pausas acelaramentos e cadências, uma espécie de staccato silábico (nem sei se se pode dizer isto assim, eu na minha Ingenuidade Inocência Ignorância), como se fosse uma maestra sem o pauzinho (eu sei que se chama batuta), a mão a empurrar as palavras para fora e ao mesmo tempo como que a desencruzilhar  

“numa paranóia da encruzilhada

de pensamentos bloqueados”

os pensamentos, como se a limpar o ar para dar espaço às palavras (pensei numa performance que vi há pouco tempo da brasileira Josefa Pereira, ela em palco nua a circular, e as mãos a rodar também, a girar, feito relógio, e pensei na ideia de tempo, claro, que nesta performance seria, precisamente, um gesto circular, enquanto que com a Raquel seria um gesto de andar para a frente, não sei se consigo explicar, uma espécie de gesto de limpeza que fazem na ante-câmara de alguns terreiros), e dou por mim a pensar em Exu, que a Raquel explicou ter sabido há pouco tempo ser o seu orixá, e da importância das encruzilhadas [exuzilhadas] para esta entidade (or so I’ve been told) e de como, quando leio o seu democracia/democoração penso em demo-coração>demo>demo=diabo e de como, no imaginário branco, também I’ve been told que Exu corresponderia assim a um diabinho, sempre a trocar as voltas, mischevious, a pregar partidas, mas quando olho para a Raquel também penso nos erês, não pela ideia umbandista de associação com a criança, mas pela associação com a palavra yoruba brincadeira, porque ela plays com as palavras, com as mãos, toda ela é playful e joyous.

Ou seja, até para dizer as palavras podem ser precisas as mãos.

E depois leio 

“então abro mais uma gaveta

à procura de um sentido

no formato circular da oratura

porque a tradição não é só feita de livros” 

e lembro-me de que há pouco tempo, via Marta Lança, ganhei contacto com uma entrevista antiga de Chinua Achebe onde ele falava na importância de contar histórias, storytelling, uma coisa muito feita pelos que vieram antes dele (passado) aos que vinham a seguir, as crianças (futuro) e de como era importante esse fio condutor narrativo, porque se deixarmos de contar as histórias que queremos ver contadas outros —e outras histórias— ocupam esse lugar de identificação/aspiração. Muito pouco tempo depois surgiu na minha dropbox um documentário sobre e com a Donna Haraway exaltando, precisamente, a importância de contar histórias (o próprio título aponta para aí, storytelling for earthly survival). E na verdade tudo o que a Haraway dizia fazia eco da introdução de um livro em que também participava, de uma secção chamada We Listen For Modes of Storytelling, onde se podia ler “Unless we learn to listen broadly, we may miss the biggest story of life on earth: symbiogenesis, the co-making of living thinggs. Practices of storytelling matter.” 

No seu poema “Práticas e instruções anti-terroristas para a explosão de uma bomba interior”, raquellima escreve/fala

“tem sido a loucura manter-me sã 

e pensar ao mesmo tempo”,

porque é realmente uma loucura pensar, nestes tempos, e não se deixar contaminar pela loucura. Talvez por isso as práticas de contar história(s) importem. E o que fica do que passa, como no título da peça de dança da Teresa Silva e do Filipe Pereira, é que estes encontros colaborativos da Gulbenkian parecem marcar não apenas a importância das histórias contadas como, tão importante, de quem está no comando contando as histórias: lembro o título da sessão de Flávio Almada com os adolescentes do Moinho da Juventude, “Agora quem faz as perguntas somos nós”. E também da importância do making with, das colaborações, dos entanglements – e que seja sempre um Exu ou, na segunda melhor hipótese, uma filha de Exu, sem réu e sem juiz, como canta a voz rouca de Guineto, a guiar-nos pelas encruzilhadas e enredamentos. Tramando alianças e provocando quebras e estilhaçamentos, conceitos que me foram introduzidos por Jota Mombaça, de resto presente nesta apresentação, Jota Mombaça que também me apresentou Conceição Evaristo, Raquel Lima que também nos apresentou Conceição Evaristo, naquele dia no Pendão em Movimento, e Conceição Evaristo que assegura a importância não apenas da escrita das mulheres negras, mas também da publicação dos livros escritos por mulheres negras, enquanto acto de dupla importância política: “Se para algumas mulheres o acto de escrever está imbuído de um sentido político, enquanto afirmação de autoria de mulheres diante da grande presença de escritores homens liderando numericamente o campo das publicações literárias, para outras, esse sentido é redobrado. O acto político de escrever vem acrescido do acto político de publicar, uma vez que, para algumas, a oportunidade de publicação, o reconhecimento de suas escritas, os entraves a ser vencidos, não se localizam apenas na condição de a autora ser inédita ou desconhecida. Não só a condição de género vai interferir nas oportunidades de publicação e na invisibilidade da autoria dessas mulheres, mas também a condição étnica e social” (Conceição Evaristo, introdução a Ponciá Vicêncio). 

O que aconteceu nesta sessão de poesia e, acredito, em todas as outras sessões de trabalho e discussão, foram actos políticos, emaranhamento de colaborações dentro e fora daquelas salas, todos imbricados e contaminados por uma (ou muitas) subjectividade(s), e isso é uma coisa bem boa. E sem querer enveredar-me por campos discursivos e teóricos para os quais não tenho ferramentas para discutir, because Ingenuidade Inocência Ignorância, estou em crer que se J. Derrida estivesse naquela sala a escutar a Raquel Lima iria finalmente compreender a metafísica da presença.

 

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