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Autopografias – Peter Weiss em Auschwitz

É sabido como o conceito de pós-memória foi entrando progressivamente no discurso científico a partir da publicação da obra Family Frames, de Marianne Hirsch, em 1997. A reflexão sobre as dimensões transgeracionais do conceito de memória é, contudo, naturalmente, muito anterior à proposta de Hirsch. Em particular na literatura do Holocausto, a construção de uma “memória do não-vivido”, característica da atitude pós-memorial, constitui um modelo que pode ser abundantemente documentado e que, justamente pela força do paradigma da confrontação com o Holocausto para o conjunto dos estudos sobre violência, trauma e memória, merece uma atenção particular. Neste âmbito, o texto “Meine Ortschaft”, “A minha localidade”, do escritor alemão Peter Weiss, um ensaio relativamente pouco conhecido e ainda não traduzido para português, oferece-se como exemplo particularmente poderoso, pela articulação que leva a cabo entre memória e pós-memória e a sua inscrição no espaço da violência.

You can cut all the flowers but you cannot keep spring from coming | 2018 | Mónica MirandaYou can cut all the flowers but you cannot keep spring from coming | 2018 | Mónica MirandaPeter Weiss (figura maldita para o regime salazar-marcelista, enquanto autor do Canto do Papão Lusitano, poderosa diatribe contra o colonialismo português, estreada em Janeiro de 1967), visitou Auschwitz pela primeira vez em 13 de Dezembro de 1964. Na altura, decorria, em Frankfurt am Main o processo de Auschwitz (1963-1965), contra altos responsáveis do campo, um momento absolutamente marcante e extremamente significativo da confrontação com o passado nacional-socialista na Alemanha do pós-guerra (a partir de uma montagem das actas do processo, Weiss viria a escrever uma das obras mais importantes do cânone da literatura do Holocausto, o drama Die Ermittlung[A Investigação]). Filho de pai judeu, a visita a Auschwitz constitui, aos olhos de Weiss, o regresso a um lugar que estava destinado a ser seu (o exílio da família na Suécia permitiu a fuga a esse destino). Como escreve logo no início, todos os muitos lugares em que vivera têm um carácter fugidio, o único lugar que ficou indelevelmente inscrito na sua identidade é Auschwitz:

Trata-se de uma localidade a que estava destinado e a que escapei. Não vivi nada pessoalmente nesta localidade. Não tenho nenhuma relação com ela, a não ser o facto de o meu nome figurar na lista daqueles que ali deviam ser alojados para sempre. Vinte anos depois, vi esta localidade. Está intacta. Os seus edifícios não podem confundir-se com nenhuns outros edifícios.

Em nenhum momento, o eu cria a ficção de ser capaz de reviver o horror de que o lugar que percorre dá testemunho:

Eu vim aqui de livre vontade. Não me desembarcaram de nenhum comboio. Não fui empurrado para este terreiro à força de cacetadas. Chego com vinte anos de atraso.

A distância temporal em relação ao não-vivido constitui em elemento sempre recordado da relação que o visitante estabelece com o lugar. O fundamental do texto consiste, assim, não na construção ilusória de uma proximidade com o passado, mas sim numa descrição densa que convoca, em imagens muito concretas, a materialidade do espaço, ao mesmo tempo que situa essa materialidade numa relação inseparável com os actos de violência que tiveram lugar nesse espaço. Assim, se vai construindo o que, para usar a expressão de Jennifer A. González, pode ser definido como uma autotopografia, uma reconstrução de identidade a partir da lógica do lugar – um lugar em que se mantém inquietantemente presente um passado de violência que, no entanto, é já inacessível e só se torna inteligível pelo trabalho da pós-memória:

Estive no pátio em frente à Parede Negra, vi as árvores atrás do muro, mas não ouvi os tiros da arma de pequeno calibre disparados de muito próximo na nuca.

O lugar, que como já referido, está irremediavelmente silencioso no seu significado profundo, o significado de um passado incapaz de falar por si só, é, no entanto, descrito com o máximo de proximidade pelo sujeito que por ali deambula. É através da proximidade assim conseguida com a materialidade do espaço que o sujeito faz falar esse passado, na plena consciência da distância que o separa desse passado. O final do texto merece ser citado na íntegra:

Mas, ao fim de um pedaço, também aqui se instala o silêncio e a paralisia. Chegou um vivo e, perante este vivo, o que aqui aconteceu fecha-se. O vivo que aqui veio, vindo de um outro mundo, nada possui a não ser o seu conhecimento de números, de relatos escritos, de declarações de testemunhas, tudo isso é parte da sua vida, ele carrega tudo isso, mas só pode compreender o que lhe acontece pessoalmente. Só quando ele próprio for empurrado da sua secretária e amarrado, quando for pontapeado e chicoteado, é que saberá o que é isto. Só quando acontecer junto de si eles serem arrebanhados, moídos de pancada, carregados em carroças, é que saberá o que é isto.
Agora, está simplesmente num mundo desaparecido. Nada mais pode fazer aqui. Durante um bocado, reina o maior dos silêncios.
É então que ele sabe que nada ainda acabou.

A ambiguidade da lacónica frase final suscita a hipótese perturbadora de que o passado testemunhado pelo lugar que o texto foi descrevendo em pormenor, confluindo numa série de imagens extremamente concretas, afinal não passou. Ao formular esta frase, o autor aceita colocar-se a si próprio no seio de um continuum de violência em que está irremediavelmente implicado. Por outras palavras, na sua análise, a distância intransponível em relação ao não-vivido vai de par com um sentimento de presença, através do contacto próximo com o espaço da violência que a visita a Auschwitz permite, um sentimento materializado no próprio discurso que narra o carácter intransponível dessa distância. Assim, se afirma, em toda a sua precariedade, a produtividade do trabalho da pós-memória.

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