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Cada escritor persegue um caminho próprio mas cada geração tem algumas questões colocadas a todos – entrevista a Anita Martins de Moraes

Anita Martins de Moraes graduou-se em letras pela Universidade Estadual de Campinas (1999), fez mestrado em Literatura Brasileira (2002) doutoramento em Teoria Literária (2007) na Universidade Estadual de Campina e Pós – doutoramento na Universidade de São Paulo.

professora Anita Martins Rodriguesprofessora Anita Martins RodriguesTem investiga a questão da representação no âmbito da produção e da crítica nas literaturas africanas. Em que está a trabalhar presentemente?

Tenho investigado o trânsito entre os domínios da ficção e da não-ficção na obra do escritor angolano Ruy Duarte de Carvalho (1941-2010). O meu interesse maior tem sido tratar da imbricação entre literatura e antropologia, com foco, até o momento, n’Os papéis do inglês (2000), primeiro romance da trilogia Os filhos de Próspero. Tenho buscado me aproximar dos debates teóricos em antropologia acerca da questão da representação, especialmente no que se refere à objetividade (ou, ao contrário, ao caráter subjetivo) do discurso etnográfico. Isso porque me parece possível entender a ficção de Ruy Duarte de Carvalho como uma resposta literária a questionamentos próprios da antropologia (seus romances explicitam o caráter artefactual do discurso etnográfico, problematizando expectativas de objetividade). Tenho, assim, procurado ler estudos sobre a obra de Ruy Duarte de Carvalho, de que destaco as contribuições da professora Rita Chaves (Universidade de São Paulo – Brasil) e a dissertação de mestrado de Sonia Miceli, defendida na Universidade de Lisboa (Portugal), sob orientação da professora Clara Rowland. Destaco também as contribuições da poeta e historiadora Ana Paula Tavares, que tem uma leitura muito fina da obra ficcional e poética de Ruy Duarte de Carvalho. Sugiro, para quem se interesse em conhecer mais sobre a obra deste notável escritor angolano, a visita ao site Buala (www.buala.test), voltado para a cultura contemporânea africana. Este site, editado por Marta Lança, dedica espaço considerável ao estudo da obra de Ruy Duarte de Carvalho. Vale a pena conferir.

Enquanto professora, como é que avalia as literaturas africanas neste momento?

Como professora brasileira, falarei um pouco das literaturas africanas de língua portuguesa, que têm sido cada vez mais lidas no Brasil. Há muitos autores interessantes. Lembro que todos os cinco países africanos que têm a língua portuguesa como língua oficial têm sua literatura. Em Moçambique posso destacar, como escritores contemporâneos, Ungulani Ba Ka Khosa, João Paulo Borges Coelho, Suleiman Cassamo, Paulina Chiziane, Luis Carlos Patraquim, Eduardo White, Nelson Saúte, Filimone Meigós, além de Mia Couto. Da literatura angolana, Luandino Vieira, Arlindo Barbeitos, Pepetela, Manuel Rui, Boaventura Cardoso têm publicações recentes, mesmo sendo já escritores veteranos. Destaco também Ana Paula Tavares e Ruy Duarte de Carvalho (que faleceu em 2010) como dos escritores que têm trazido novidade no tratamento da diversidade e pluralidade cultural angolana. Como escritor jovem, destaca-se Ondjaki. Da Guiné-Bissau destacam-se Abdulai Sila e Odete Semedo; de São Tomé e Príncipe, Conceição Lima. Da literatura cabo-verdiana conheço menos, mas considero, como escritores contemporâneos, importantes Corsino Fortes (também veterano), Filinto Elísio e Germano de Almeida. Estes são apenas alguns nomes que me vêm à mente quando penso em literatura contemporânea nos países africanos que produzem literatura de língua portuguesa. Mas há certamente muito mais.

Quanto às características, penso que cada escritor persegue um caminho próprio, certamente, mas cada geração tem algumas questões colocadas a todos. Os que se viram implicados nas lutas pelas independências, mesmo os que não se integraram aos movimentos de luta armada, têm que lidar com as relações entre literatura e política, inevitavelmente, como também com uma idéia de nação, que podem querer formar ou questionar. Nesse sentido, a relação com as sociedades tradicionais e suas produções culturais se torna decisiva. As gerações que se viram, como no caso de Guiné-Bissau, Angola e Moçambique, assoladas por guerras civis se vêem demandadas a lidar com seus escombros. Bem, posso dizer que, pelo que tenho lido, a denúncia da desigualdade social e da corrupção dos governos tem se tornado muito presente nessas literaturas africanas, desde os finais dos anos 1980.

Qual o lugar da literatura angolana no âmbito das literaturas produzidas nos países africanos onde se fala a língua portuguesa?

 A literatura angolana é certamente muito lida por escritores africanos de língua portuguesa. Posso citar a importância de Luandino Vieira, cujo uso inventivo da língua foi decisivo para Mia Couto, escritor moçambicano. Mia Couto considerou que era necessário reinventar o português para fazer literatura em Moçambique, e essa literatura tinha que incorporar a palavra oral, seus gêneros, sua vitalidade e força (mágica, salvadora, inclusive), sua lógica. Esse caminho Mia Couto trilhou na esteira de Luandino Vieira, que por sua vez o trilhou na esteira de João Guimarães Rosa, escritor brasileiro. Então tocamos em um aspecto interessante, a importância da literatura brasileira na formação dos escritores africanos de língua portuguesa. Até hoje podemos notar esta relevância, como em Ondjaki, que tem Manuel de Barros, Adélia Prado e também Guimarães Rosa, como autores importantes em sua formação.

Gostaríamos, que estabelecesse uma relação entre as literaturas africanas produzidas em língua portuguesa e as outras veiculadas em francês e inglês.

Falarei apenas de um autor de língua inglesa, que considero dos escritores contemporâneos mais interessantes, J. M. Coetzee. Penso que sua obra coloca, de maneira extremamente aguda, certos impasses próprios das literaturas produzidas nos países africanos de maneira geral. Algumas de suas estratégias (como a criação de alter-egos e a mescla entre ficção e não-ficção, incorporando traços dos discursos da filosofia e da crítica literária em seus contos e romances) podem ser comparadas às estratégias de Ruy Duarte de Carvalho. Um conto de Coetzee que me parece expor alguns dos dilemas do escritor africano é “O romance na África”, que integra o volume Elisabeth Costello. Lendo este conto, perguntamos: afinal, o escritor africano escreve para quem? Muitas vezes, tem em mente um leitor estrangeiro, em busca de uma África pré-concebida, por vezes exótica. Respondendo ao desejo da crítica literária e do público europeu ou americano, o escritor pode se inserir em mercados e nichos acadêmicos. Mas que África é essa? Coetzee problematiza certas idéias de África que circulam pelo mundo, resistindo a servir para seu reforço. Mia Couto, em o Outro da sereia, também ataca este problema. Acredito, assim, que talvez uma relação possível entre as literaturas africanas de língua portuguesa, francesa e inglesa, seja a herança de certa idéia de África produzida ao longo das relações coloniais, que não se dissipou com as independências. Torna-se, nesse sentido, para todos que se envolvem com o estudo dessas literaturas, muito produtiva a leitura dos trabalhos de V. Y. Mudimbe, filósofo nascido na República Democrática do Congo, em particular dos livros The invention of Africa e The idea of Africa.

Pode-se falar de angolanidade na literatura de Angola?

A “angolanidade” é uma questão muito presente nos estudos da literatura angolana, um pouco como a da “africanidade”. Afinal, o que é ser africano? Difícil responder sem incorrer em certos estereótipos construídos ao longo das relações coloniais. Alguns estudiosos, como o filósofo Kwame Anthony Appiah, de Gana, consideram que a idéia de uma identidade, uniformidade, entre as sociedades africanas, é devedora do olhar europeu. Para Appiah, o conceito de raça reforçou este olhar homogeneizante, atribuindo características psicológicas e cognitivas aos negros, distintas das características dos brancos. Segundo defende em Na casa de meu pai, esta noção de raça foi apropriada por africanos em luta contra o colonialismo, com valor positivo – ou seja, aquilo que o europeu via (ou melhor, inventava) como sendo negativo, tornava-se positivo. Em sua opinião, contudo, esta inversão de valor não é suficiente, a própria categoria, com seus pressupostos de que haja certas características comportamentais específicas aos negros e outras aos brancos, deve ser abandonada.

Quanto à noção de “angolanidade”, podemos pensar em seu uso estratégico no período de luta contra o colonialismo. Afirmar uma especificidade cultural angolana (certo modo de ser e ver o mundo, certas formas de comportamento) distinta do colonizador português, podia render na luta contra a ideologia da grande nação portuguesa, forjada pelo regime de Salazar. A independência política se via amparada, e até justificada, por uma independência cultural. Se lemos, por exemplo, A vida verdadeira de Domingos Xavier, de Luandino Vieira, notamos claramente o esforço por representar os angolanos do musseque como integrados ao espaço, à paisagem natural, enquanto os moradores do bairro de asfalto, os colonos, não são propriamente angolanos, estando descolados, desligados da terra angolana. A força do rio Kwanza é a mesma força de Domingos Xavier, a resistência contra o colonizador é do povo, é da terra. Posteriormente Luandino Vieira vai problematizar esta oposição fácil entre o povo do musseque, angolano, e o colono. Um exemplo é o genial livro Nós, os do Makulusu, de uma lucidez assombrosa, que já aponta para possíveis desdobramentos violentos da guerra anti-colonial.

Talvez o problema de qualquer construção identitária seja aquilo que ela deixa de fora, ou seja, as margens que produz. Se a “angolanidade” se definir, por exemplo, por uma cultura mestiça, excluirá os não mestiços culturalmente. Ou seja: nesse acaso, os “verdadeiros” angolanos seriam os moradores dos musseques de Luanda, digamos, mas não os pastores kuvale do Namibe. Ruy Duarte de Carvalho foi um escritor muito atento a esta problemática, trazendo, em sua literatura, o mosaico cultural angolano, sem buscar reduzi-lo ao denominador comum da “angolanidade”. Outro autor que se ocupa de maneira muito viva desta questão é Arlindo Barbeitos. De maneira bastante breve, posso dizer que Barbeitos entende ser a construção de uma identidade pela negação do outro mecanismo extremamente perverso, que tende à violência na medida em que se faz pela aversão ao diferente. Tanto em suas reflexões e estudos (Barbeitos é doutor e professor em história da África) como em sua poesia, temos a defesa de uma identidade em curso, inconclusa, aberta. Penso que tal perspectiva enforma sua própria poesia: esta promove a multiplicidade de olhares, propõe novidade na maneira de dizer o mundo, e não a confirmação de formas prévias, prontas, rígidas. Considero Arlindo Barbeitos dos poetas mais agudos que Angola possui. Sua poesia é sutil e contundente ao mesmo tempo, de uma beleza espantosa. Fiapos de sonho é dos livros mais fortes que já li.

Em que medida se pode falar desta matriz e o que é isto de angolanidade?

Quando falamos muito sobre nossa identidade é porque há algum problema… Provavelmente, sentimo-nos desvalorizados, queremos afirmar nosso valor diante de uma visão depreciativa. Mas podemos tentar apenas ser, e pronto. Como disse Wole Soyinka: “O tigre não proclama sua tigritude. Ele simplesmente salta”.

Quais são os escritores angolanos com projeção internacional e por quê?

Um escritor angolano muito conhecido atualmente é José Eduardo Agualusa, autor de vários romances, como Estação das chuvas, O ano em que Zumbi tomou o Rio e Nação Crioula. No Brasil, outros escritores também têm sido publicados e bem recebidos, como Pepetela, Luandino Vieira, Ruy Duarte de Carvalho e Ondjaki. Em Portugal, a presença de escritores angolanos é muito grande, ocupando lugar importante nas feiras e livrarias. O porquê de certa projeção internacional não é fácil de precisar, acredito que depende da qualidade literária das obras, mas também pode dever-se a um trânsito mais intenso, por parte de certos escritores, por editoras, além de poder ser resultado de uma resposta confortável ao gosto ou expectativas internacionais. Seria interessante comparar a projeção interna, em Angola, à projeção externa dos escritores. Esta é uma pesquisa a ser feita: quais são os escritores mais lidos no país? Como os escritores são vistos em Angola hoje?

Alguns estudiosos das literaturas africanas dizem que a literatura angolana ocupa um espaço privilegiado no conjunto das outras literaturas dos PALOP´s, concorda?

A literatura escrita, impressa, é uma atividade urbana. Luanda é uma cidade bastante antiga, tendo gestado, ao longo de mais de quatro séculos, uma cultura urbana dotada de camada letrada. Esta realidade é muito particular a Angola, não se verificando da mesma maneira nos outros países africanos de língua portuguesa, com exceção de Cabo Verde. Acredito que esta seja uma das possíveis motivações para a o espaço importante que a literatura angolana ocupa, em termos de número de autores, no conjunto dessas literaturas.

Em seu entender, como é possível ocupar esse lugar, quando uma crítica literária angolana bastante incipiente?

Sim, esta é uma questão interessante. Talvez possamos pensar que a crítica literária dependa de um ambiente de discussão vivo, de conjuntos mais ou menos organizados de autores, leitores e editores. Esta configuração não se verifica em Angola de maneira consolidada. Penso que quando não há espaço de liberdade de expressão, como era certamente o caso no período colonial em Angola, toda forma de crítica, inclusive a crítica literária, vê-se impedida. Além disso, os estudos universitários em literatura não têm tradição consolidada no país, diferentemente de Moçambique, por exemplo. Acredito que quanto mais consolidadas as instituições acadêmicas e democráticas, mais espaço haverá para a crítica literária. É preciso lutar por educação de qualidade e liberdade de expressão, e então podemos começar a esperar a presença da crítica nos jornais.

Que conselho daria aos estudantes angolanos que pretendem aderir à crítica e aos estudos das literaturas africanas? 

Atravessar a barreira da língua. Sugiro que os estudantes leiam escritores não apenas de língua portuguesa, que ampliem seu repertório. Isso porque as universidades portuguesas e brasileiras têm investido mais em abordagens comparativas entre autores de língua portuguesa, havendo já um conjunto de pesquisas muito rico. Apesar desta abordagem comparativa não estar exaurida, acredito que a comparação entre escritores africanos de línguas diferentes ainda não foi bem explorada. Sugiro ainda que os estudiosos angolanos leiam com especial atenção teóricos, sociólogos, historiadores e filósofos africanos. Sem xenofobia, certamente. Apenas porque, pela minha experiência, pensadores africanos têm colocados questões de enorme relevância. Cito nomes que me parecem fundamentais: Arlindo Barbeitos, Ruy Duarte de Carvalho, José Luís Cabaço, V. Y. Mudimbe, Kwame Anthony Appiah, Achille Mbembe, entre outros.

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