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Carta Aberta: Grada Kilomba e a Bienal de Veneza 2022

(please, scroll down for English version)

18 de dezembro, 2021

A 7 de dezembro, o curador Bruno Leitão partilhou uma carta aberta revelando que o processo de decisão da DGArtes (Direção Geral das Artes), que atua como Júri de Seleção Portuguesa da Bienal de Veneza, foi marcado por incoerências e irregularidades graves nos critérios de avaliação, bem como violações explícitas dos “Deveres do Júri”, que são definidos por lei. Esta notícia, no entanto, tornou-se pública, através da imprensa internacional, que revelou o facto de o projeto A Ferida / The Wound da artista Grada Kilomba ter sido afastado da representação de Portugal na Bienal de Veneza 2022, com argumentos deveras problemáticos por parte de um dos membros do júri, Nuno Crespo, crítico de arte no jornal Público, Director da Escola das Artes e Reitor da Universidade Católica Portuguesa – Porto.

Nessa carta aberta, o curador tornou público que esse membro do júri atribuiu uma pontuação incompreensível à sua candidata, atribuindo-lhe uma classificação de 10, 10 e 15 pontos (numa escala de zero a vinte), em flagrante discrepância com os outros elementos do júri, que atribuíram notas entre 19, 20 e 20. Crespo deu a pontuação mais baixa dada a qualquer uma das quatro propostas apresentadas.

Grada Kilomba, foto de JOÃO HASSELBERGGrada Kilomba, foto de JOÃO HASSELBERG

O sistema de avaliação permite que, em má-fé, um único membro do júri, ao dar uma nota exageradamente baixa, decida intencionalmente quem ganha e quem perde, anulando as notas dos restantes membros do júri. Parece também de grande importância referir que a comissão foi composta por quatro pessoas brancas, e entre elas três mulheres e um homem, Nuno Crespo, deixando-nos com a complexidade das estruturas patriarcais e coloniais do sistema. Estas revelam-se quando, pela primeira vez desde sempre, Portugal tem mulheres negras internacionalmente reconhecidas como artistas candidatas (Grada Kilomba e Mónica de Miranda) e curadora (Paula Nascimento) mas seleciona novamente uma representação branca para o pavilhão.

A aberrante diferença entre as pontuações atribuídas inviabilizou automaticamente o sucesso da candidatura de Grada Kilomba. Apesar de ter sido classificada pelas restantes juradas com notas máximas (19 e 20 valores) em todos os critérios de avaliação, nada haveria a fazer. Ou seja, um só membro do júri decidiu pelo colégio. Para além da votação feita de maneira a eliminar esta candidatura de forma premeditada, acrescem as afirmações graves de Nuno Crespo para justificar a sua pontuação, como:

“(…) a ideia de racismo como ferida aberta foi já objeto de inúmeras outras abordagens; de modo que a proposta apresentada não deixa perceber como numa exposição poderá rever, criticar ou prolongar, essa ideia tão já discutida e mesmo exibida de múltiplas formas (…).”

O trabalho da artista Grada Kilomba com o curador Bruno Leitão é complexo, singular e visionário e no entanto é aqui reduzido apenas a uma palavra: “racismo”. Esta é uma técnica que reduz artistas da diáspora africana a um único tema, obviando a interseccionalidade e futurismo das vozes artísticas diaspóricas. A obra A Ferida explora as “três crises” contemporâneas por meio de uma ópera performance exibida numa instalação de vídeo imersiva: a crise dos direitos humanos, a crise climática, e a crescente militarização das relações humanas.

A tese de que os problemas do racismo e dos legados coloniais já foram demasiado debatidos e de que não é, portanto, pertinente continuar a falar sobre estes assuntos é falsa e revela uma forte convicção anti-antirracista por parte deste membro do júri. Trata-se de uma pessoa que exerce o seu poder, sem escrúpulos, para tentar silenciar um debate urgente na sociedade portuguesa. A discussão sobre a nossa condição pós-colonial é imprescindível sobretudo quando protagonizada por pessoas racializadas, o que tem acontecido apenas nos últimos anos e mesmo assim de forma que podemos consideraresporádica. Lembramos que as chamadas “descobertas” têm 500 anos, que a escravatura durou centenas de anos e que o colonialismo português enquanto sistema político acabou há pouco mais de 40 anos – tudo isto nunca foi devidamente discutido em Portugal. A narrativa lusotropicalista convertida em ideologia hegemónica continua a impedir um debate sério sobre os racismos estrutural e institucional vigentes no país, impossibilitando o combate efetivo a estes fenómenos.

A presença de Grada Kilomba no espaço público português contraria o discurso ainda muito presente de que não há racismo em Portugal, de que o colonialismo português foi benigno e põe em causa também toda a naturalização do racismo quotidiano. A narrativa de que se fala demais sobre o tema do racismo e dos legados coloniais é própria dos setores conservadores da sociedade que querem manter tudo como está – o argumento da “saturação” esconde a falta de iniciativas consistentes para combater as violências sofridas por comunidades racializadas. Narrativa similar não se verifica em dicussões sobre obras de arte que discutem, por exemplo, fenómenos como Holocausto Nazi, debatido desde 1945, mas onde ainda se considera haver matéria para reflexão e aprendizagem.

O jurado tem o cuidado de distinguir a equipa técnica que apresenta a candidatura da artista, dizendo: “(…) ainda que a equipa técnica e artística seja competente, o mérito artístico da artista Grada Kilomba (…) não é satisfatório.” Os preconceitos racistas e misóginos de Nuno Crespo tornam-se evidentes nesta afirmação injustificada. Dizer que o mérito artístico de Grada Kilomba não é satisfatório, seria risível noutro contexto. No quadro em questão é desolador. Trata-se ‘apenas’ de uma das mais reconhecidas artistas da cena artística contemporânea. É verdade que o jurado tem o direito de considerar que a artista não tem mérito artístico, mas nesse caso, terá que justificar a sua afirmação; fundamentar criticamente a sua votação por forma a garantir que é na base do seu conhecimento sobre arte que considera esta proposta insuficiente. A forma como apenas declara a sua opinião não é satisfatória.

Nuno Crespo diz ainda que, “Grada Kilomba é uma brilhante escritora e pensadora, e são inegáveis as suas competências em termos da famosa ‘narrativa oral’, contudo enquanto proposta expositiva, o projeto apresentado não possui o alcance artístico que, a meu ver, a representação oficial tem obrigatoriamente de possuir (…).”

São de facto inegáveis as competências intelectuais de Grada Kilomba, autora do livro “Memórias da Plantação: episódios de racismo quotidiano”, publicado em 2008 (Unrast Verlag), originalmente em inglês e depois traduzido e publicado em diversas línguas, ainda antes de ser publicado em Portugal, o que aconteceu apenas em 2019 (Orfeu Negro). Este atraso, de mais de dez anos, na publicação em Portugal de uma obra considerada fundamental por uma grande parte da academia contemporânea, é sintomático do desprezo a que tem sido votada a discussão decolonial no nosso país. Referimos esta obra porque deve ser a ela que Nuno Crespo se refere quando escreve

“famosa ‘narrativa oral’”. O que quer o jurado dizer com isto? Porque coloca narrativa oral entre aspas? Porque restringe o pensamento de Grada Kilomba aos “termos da famosa ‘narrativa oral’”? O jurado quer circunscrever a intelectual a um campo do conhecimento ao qual ele não reconhece valor. O jurado quer desprestigiar a artista, encapotando o seu desprezo no artifício de um falso elogio à intelectual.

Contudo, a ignorância de Nuno Crespo não fica por aqui e afirma que o trabalho de Grada Kilomba “(…) não está comprometido com a dinamização e internacionalização da ‘cena’ artística e cultural portuguesa.” Uma breve pesquisa no Google evitaria ao jurado a vergonha de revelar tanta ignorância sobre um assunto em que se diz especialista e numa situação em que lhe é pedida a sua expertise. Grada Kilomba é uma artista contemporânea portuguesa internacionalizada e que, desse modo, marca de forma indelével a internacionalização da cena artística portuguesa. Se as inúmeras exposições de trabalhos da artista em instituições prestigiadas ao redor do mundo não fossem suficientes, o artigo que o New York Times lhe dedicou a 12 de outubro deste ano, Grada Kilomba’s Rituals of Resistance seria a confirmação do que dizemos.

É importante sublinhar novamente que o colonialismo não é algo que ficou no passado mas que se manifesta na forma de colonialidade, um processo cujas estruturas (económicas, mentais, sociais) criadas durante o colonialismo continuam a fazer-se sentir na forma como as nossas sociedades distribuem de forma diferencial benefícios e encargos, como a manifesta divisão racial entre aqueles que a lei protege, mas não vincula e aqueles que a lei vincula, mas não protege. Deste modo, quando falamos de racismo estrutural, institucional e quotidiano falamos de um sistema construído socialmente ao longo do tempo por forma a colocar as pessoas brancas no topo de uma pirâmide social cujos benefícios são tanto materiais quanto imateriais. Nestes últimos, destaca-se, para a questão que aqui nos traz, a valorização simbólica: as pessoas da diáspora africana como Grada Kilomba não são percebidas socialmente como grandes intelectuais e grandes artistas a nível nacional.

Os exemplos do que dizemos multiplicam-se: o sociólogo e artista Rodrigo Saturnino foi apagado do debate online “Activismo Gráfico — O território da edição como espaço de afirmação de identidade(s)”, realizado no âmbito da Feira Gráfica por questionar a falta de representatividade negra numa determinada criação artística (episódio que foi reconhecido como crime da/pela Câmara Municipal de Lisboa); a coreógrafa e professora Vânia Gala foi afastada num concurso para docência numa instituição

pública de Ensino Superior Portuguesa “por ser um módulo para coreógrafas portuguesas”. O mesmo vem acontecendo na Academia portuguesa em que a investigação e a produção científica de alguns candidatos, que até são docentes (como a professora e ensaísta Inocência Mata), são destituídas de pertinência para a área em que laboram devido a uma visão ainda colonial do que é Portugal, a sua reificada identidade e a sua produção cultural. A lista de exemplos poderia continuar, mas tememos que esta carta fique longa para os propósitos que nos dinamizam.

Tudo isto é dizer que o racismo e a misoginia estão impregnados nas decisões que quotidianamente os indivíduos tomam, confirmando os sistemas, estruturas e por consequência as políticas institucionais.

Reivindicamos que os júris – conjunto de especialistas – deste e de outros concursos onde esteja em causa a representação de Portugal sejam doravante constituídos de forma a representar a diversidade étnico-racial-cultural do povo português.

Queremos declarar a nossa incondicional solidariedade com a artista Grada Kilomba, que foi eliminada até ao momento no processo ainda em curso da representação de Portugal na Bienal de Veneza 2022, através de uma avaliação grosseira, ignorante, misógina e racista da sua obra e da própria artista, possibilitada também pela falta de capacidade do órgão governamental responsável, a DGARTES no caso, de reconhecer e prevenir dolo.

Apoiamos o recurso hierárquico submetido pelo curador Bruno Leitão e exigimos uma revisão da avaliação deste concurso justa, fundamentada e transparente.

São subscritores desta carta:

Afrolink
Associação Cultural e Juvenil Batoto Yetu, Portugal Associação ForçAfricana

Coletivo Afrekete
Coletivo Zanele Muholi de Lésbicas e Bissexuais Negras – Lisboa Djass- Associação de Afrodescendentes
Grupo EducAR – Educação Antirracista
Grupo de Teatro do Oprimido
INMUNE – Instituto da Mulher Negra em Portugal
leve-leve colectivo
NARP – Núcleo Anti-Racista do Porto
O lado negro da Força

Plataforma Geni

Semear o Futuro SOS Racismo Teatro GRIOT

UNA – União Negra das Artes


Alexandre Gamelas, frontend engineer
Anabela Rodrigues, grupo de Teatro do Oprimido

Ana Balona de Oliveira, historiadora de arte e curadora

Ana Cristina Pereira (Kitty Furtado), investigadora (CES – Universidade de Coimbra)

Ana Paula Costa, Plataforma Geni

Ana Tica, animadora sociocultural, realizadora

Barbara Gois

Bruno Sena Martins, investigador (CES – Universidade de Coimbra)

Carolina Elis

Cátia Severino, investigadora

Cláudia Semedo, actriz

Cleo Diára

Cristina Roldão, socióloga e professora do Instituto Politécnico de Setúbal

Danilo Cardoso, arte-educador, investigador e poeta

Di Candido, Artista e Investigador

Dori Nigro, artista e investigador

Dusty Whistles, Artist and Activist

Evalina Gomes Dias, fundadora e presidente da Djass-Associação de Afrodescendentes

Flávia Palladino, pesquisadora e sócia do SOS Racismo

Gessica Borges

Geanine Escobar, investigadora e co-fundadora do Coletivo Zanele Muholi de Lésbicas e Bissexuais Negras – Lisboa

Gisela Casimiro, escritora e artista

Inês Amaral, professora da Universidade de Coimbra Inês Beleza Barreiros, historiadora de arte
Inocência Mata, professora e ensaísta
Irene Pinto, técnica de desenvolvimento comunitário Irina Leite Velho

Isabél Zuaa, atriz

José Falcão, dirigente do SOS Racismo José Semedo, Professor/Treinador
Joseph da Silva, dirigente do SOS Racismo

Kalaf Epalanga, escritor e músico Kristin Bethge, fotógrafa
Libânia Fernandes Cá

Lucas Reis
Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo

Maria do Carmo Piçarra, investigadora e professora universitária (ICNOVA-FCSH/UAL) Mário Paris Inocêncio
Marta Pinto Machado

Melissa Rodrigues, artista e arte-educadora

Myriam Taylor (MUXIMA) Nádia Yracema
Olívio Pereira, gestor

Paola Rodrigues, artista e curadora

Paula Cardoso, fundadora da plataforma Afrolink

Paula Machava – Doutoranda em Estudos Feministas (CES – Universidade de Coimbra). Assistente Universitária- Universidade Lúrio

Paulo Gamelas, gestor

Paulo Maurício Dias, psicólogo clínico e sócio fundador da Djass

Paulo Pascoal

Paulo Taylor (PT Soft)

Pedro Pereira, professor universitário
Pedro Varela
Piny – performer, coreógrafa, professora, ativista
Priscilla Domingos – Coletivo Afrekete
Raquel Lima, poeta e investigadora
Rita Cássia Silva – antropóloga, artista multidisciplinar, ativista DH Rodrigo Ribeiro Saturnino
Theo Eshetu, visual Artist
Vânia Doutel Vaz
Vânia Gala, professora, coreógrafa
Welket Bungué, artista transdisciplinar

Apoiam esta carta:

Ana Teixeira Pinto, professora do DAI (Dutch Art Institute) e AdBK Nürnberg

Anna Boghiguian, Artist

Anselm Franke, Head of Visual Arts, Haus der Kulturen der Welt Berlin

Antonia Alampi, curator

Beatriz Gomes Dias, Deputada e Vereadora na Câmara Municipal de Lisboa

Boaventura de Sousa Santos, Professor at the Faculty of Economics at the University of Coimbra, Coimbra

Candice Breitz, Artist, Johannesburg, Berlin

Catherine Wood, Senior Curator at Tate Modern, London

Charles Esche, Professeur and Directeur Van Abbemuseum

Denise Ferreira da Silva, Academic and Artist

Djamila Ribeiro, Writer and Activist, São Paulo

Ekua Yankah, Chair of the board Savvy Friends e.V., advisory board member ANO Ghana

Emily Wardill, Artist

Françoise Vergès, political theorist, antiracist feminist

Gaëtane Verna, Director – The Power Plant, Toronto

Heidi Ballet
Jochen Volz, Artistic Director at Pinacoteca de São Paulo, São Paulo Johanne Affricot, Artistic Director at Griot Magazine, Rome

John Romão, Artistic Director at BoCa – Biennial of Contemporary Art, Lisbon

Julia Bryan-Wilson, University of California, Berkeley and Museu de Arte de São Paulo

Jumana Manna, Artist, Berlin

Kader Attia, Artist

Kristina Leno, Artist, Berlin, Zagreb

Leonor Antunes, Artista

María Berríos, independent curator

Moses Leo, Actor at Maxim Gorki Theatre, Berlin

Nana Oforiatta Ayim, director ANO Ghana and curator of the Ghanian pavilion in Venice

Nash Caldera, Artist
Norman Ajari, Lecturer in Francophone Black Studies, University of Edinburgh Oier Etxeberria, head of contemporary art department, Tabakalera
Rasha Salti, Curator
Ruth Estévez, Artistic Director at the Amant Art Foundation, New York Shermin Langhoff, Artistic Director at the Maxim Gorki Theatre, Berlin
Tamar Guimarães, visual artist
Tamsin Hong, Assistant Curator at Tate Modern, London
Valentine Umansky, Curator at Tate Modern, London
Vasco dos Reis Ferreira
Vila Kirchenbauer, Artist, Berlin

ENGLISH VERSION

On December 7th 2021 the curator Bruno Leitão shared an open letter online, exposing how the decision-making process of the panel selecting Portugal’s representation in the Venice Biennale—which was acting on behalf of DGArtes, or Direção Geral das Artes—was marked by inconsistencies and serious irregularities. Such discrepancies were apparent in both their own evaluation processes and in the explicit violations of legally-defined “jury duties”.

This letter was widely publicised via international press coverage; it revealed that the project A Ferida/The Wound, by artist Grada Kilomba (one of the potential candidates to represent Portugal at the Venice Biennale 2022), failed to be selected due to what we deem to be very problematic arguments made by one of the jurors, Nuno Crespo. Crespo is an art critic at Público newspaper and Dean of the School of Arts at the Portuguese Catholic University, Porto.

In the open letter, Leitão made public that this juror—as part of the all-white jury—attributed an incomprehensible score to Kilomba, giving her classifications of ten, ten and fifteen points (on a scale of zero to twenty). This is blatantly inconsistent with the scoring of the other members of the jury who attributed scores of nineteen, twenty and twenty. Crespo awarded the lowest score of any of the four proposals presented, and so lowered the candidate’s average score. For the first time in its history two Black Portuguese women were candidates for the Pavilion (Grada Kilomba and Mónica de Miranda represented by the curator Paula Nascimento), yet the jury still selected a white representative.

This evaluation system is susceptible to misuse in that it allows one single juror, in indiscriminately lowering a candidate’s score, to decide who wins and who loses,

overruling the will of the other jurors. The jarring discrepancy between the scores awarded made Grada Kilomba’s selection impossible: even if awarded maximum scores by all other jurors (i.e. weightings of nineteen and twenty) in a consistent manner, it would not override the extremely poor scores that lowered her average considerably.
As such, one single juror had the power to override the preferences of the other three jurors. Most concerningly, Nuno Crespo’s voting pattern seems to suggest the intention to invalidate this candidacy in a premeditated way. The juror’s written statement offered alarming and problematic arguments to justify his scores, such as:

”(…) the idea of racism as an open wound has already been the subject of countless other approaches; the proposal presented does not let you understand how in an exhibition you can review, criticize or prolong this idea, already discussed and even exhibited in multiple ways (…).”

The proposal made by artist Grada Kilomba and curator Bruno Leitão was complex and visionary, yet it is here reduced to only one word: “racism”. This is a flattening perspective that reduces artists from the African diaspora to a single theme, obviating the intersectionality of diaspora artistic voices. The work The Wound explores “three ongoing crises” through a performance opera displayed in an immersive video installation: the human rights crisis, the climate crisis, and the increasing militarization of human relations. The argument that the problems of racism and colonial legacies have already been debated too much, and that it is not pertinent to continue talking about these issues, is deeply problematic and reveals a racist conviction on the part of this juror.

Crespo has unscrupulously abused his power within this panel, and is in effect silencing an urgent debate in Portuguese society; the discussion of our postcolonial condition is necessary, urgent and long-due, especially when led by racialized people. Furthermore, such discourse has only recently entered the public sphere of Portugal, and is therefore still only in its early stages.

It must be remembered that the so-called “discoveries” are 500 years old, that slavery lasted hundreds of years, and that Portuguese colonialism as a political system ended little more than 40 years ago. All this has never been adequately named, addressed, and discussed in Portugal. The Lusotropicalist narrative converted into hegemonic ideology continues to prevent a serious debate about structural and institutional racism, making it impossible to effectively combat these phenomena in Portugal. To enable serious debate it is necessary to change the terms of this conversation, abandoning the limited concept of racism that the Portuguese media widely instrumentalises. Racism has to be understood as a structural issue, or a geopolitical structure that benefits non-racialized groups in all instances of life (for example, in access to housing, education, health, access to work, institutional access and symbolic valorization, protection against premature death and state-sanctioned violence, etc). This struggle, therefore, is not restricted to a discussion concerning individual prejudices or to one single jury member, as some insist.

The presence of Grada Kilomba’s work in Portuguese public space contradicts the still very present discourse that there is no racism in Portugal, that Portuguese colonialism was benign; it also calls into question the naturalisation of everyday racism. The narrative that racism and colonial legacies are talked about too much is typical of the conservative sectors of society that want to maintain the status quo – the argument of “saturation” conceals the fact that not a lot has changed for communities affected by the violence produced by such legacies. It is no argument to discount this discourse: works of art discussing other phenomena of oppression such as, for example, the Nazi Holocaust, which have been produced since 1945, are still considered to be relevant and necessary material for reflection and learning, as well they should.

The juror is careful to distinguish the technical team submitting the artist’s application, saying, “(…) even if the technical and artistic team is competent, the artistic merit of the artist Grada Kilomba (…) is not satisfactory.” Nuno Crespo’s racist and misogynist prejudices become evident in this unjustified statement. To say that Grada Kilomba’s artistic merit is unsatisfactory would be laughable in any other context, but within the scenario in question is untenable. We are talking about the internationally acclaimed,

widely-praised practice of one of the most celebrated and recognized artists of the contemporary art world. It is true that the juror has the right to consider that the artist has no artistic merit, but in that case, he has to justify his statement; he must critically justify his vote in order to ensure that it is through his knowledge of art that he considers this proposal insufficient. The mere statement of opinion is not satisfactory.

Nuno Crespo further states that “Grada Kilomba is a brilliant writer and thinker, and her skills in terms of the famous ‘oral narrative’ are undeniable, however, as an exhibition proposal, the project presented does not have the artistic scope that, in my opinion, the official representation must have (…).”

The intellectual abilities of Grada Kilomba, author of the book Memories of the Plantation: Episodes of Everyday Racism published in 2008 (Unrast Verlag), are indeed undeniable. Originally published in English and then in multiple translations, her talent was evident even prior to the book’s publishing in Portugal, which only occurred in 2019 (Orfeu Negro). The decade-plus delay in the Portuguese publication of a work considered fundamental by a large part of contemporary academia is symptomatic of the contempt to which decolonial discussion has been consigned in our country. We mention this work because it must be the one to which Nuno Crespo refers when he writes “famous ‘oral narrative’”. What does the juror mean by this? Why does he put oral narrative in quotes? Why does he restrict Grada Kilomba’s thought to “the terms of the famous ‘oral narrative’”? It is apparent the juror wishes to circumscribe this intellectuality to a field of knowledge in which he does not recognize value. The juror wishes to discredit the artist, covering his contempt with the artifice of false praise.

Nuno Crespo’s ignorance doesn’t stop there, for he claims that Grada Kilomba’s work “(…) is not committed to the dynamization and internationalisation of the Portuguese artistic and cultural ‘scene’.” A brief Google search would have saved the juror the shame of revealing such ignorance on a subject in which he claims to be an expert and in a situation where he is asked for his expertise. Grada Kilomba is an international Portuguese contemporary artist, and thus indelibly a part of the internationalisation of the Portuguese art scene. If the numerous exhibitions of the artist’s work in prestigious institutions around the world were not enough, the article that the New York Times

dedicated to her on October 12 of this year, “Grada Kilomba’s Rituals of Resistance”, would be clear confirmation.

It is important to emphasise, once again, that colonialism is not something that has remained in the past: it manifests itself in the form of coloniality. This is a process whereby structures created during colonialism (economic, mental, social, and so on) continue to make themselves felt in the way our societies differentially distribute benefits and burdens: for example, in the manifest racial division between those whom the law protects but does not bind and those whom the law binds but does not protect. Thus, when we speak of structural, institutional, and everyday racism, we speak of a system societally constructed over time that places white people at the top of a social pyramid, with both material and immaterial benefits. In the latter sense, the dynamic at work is symbolic valorization: people from the African Diaspora, like Grada Kilomba, are not socially perceived as great intellectuals and great artists at the nationally representative level.

Examples of such discrimination are multiple in the Portugese cultural sector. To cite but a few instances: sociologist and artist Rodrigo Saturnino’s exclusion from the online debate “Graphic Activism – The territory of publishing as a space for affirming identity(ies)”, held within the scope of the Graphic Fair, for questioning the lack of Black representation in a given artistic creation (in an episode that was recognized as illegal discrimination by Lisbon City Council); choreographer and teacher Vânia Gala’s disqualified application to a teaching post at an institution of the State of Portuguese Higher Education, due to it “being a module for Portuguese choreographers”. Similar discriminatory practices are at work in the Portuguese academy, in which the research and scientific production of certain academics—some of whom even working as professors, such as professor and essayist Inocência Mata—are deprived of recognition in their field due to a persistent colonial view of that which is Portugal, its reified identity, and its cultural production. The list of such examples of discounted work could go on, and is limited here only for brevity.

All of this is to say that racism and misogyny is impregnated in the decisions that individuals make on a daily basis, confirming institutional systems, structures, and therefore policies.

We demand that in all coming evaluation committees to select national representatives jurors be included that represent the multiracial diversity of the Portuguese population.

We want to declare our unconditional solidarity with the artist Grada Kilomba, who has been eliminated so far in the still ongoing process of representing Portugal at the Venice Biennale 2022, through a crude, ignorant, misogynistic and racist evaluation of her work and of the artist herself, enabled by a governmental agency incapable of recognizing and preventing misconduct.

We support the hierarchical appeal submitted by the curator Bruno Leitão and demand a review of the evaluation of this contest that is fair, reasoned and transparent.

Signed by / Subscritores da carta:

Afrolink
Associação Cultural e Juvenil Batoto Yetu, Portugal Associação ForçAfricana

Coletivo Afrekete
Coletivo Zanele Muholi de Lésbicas e Bissexuais Negras – Lisboa Djass- Associação de Afrodescendentes
Grupo EducAR – Educação Antirracista
Grupo de Teatro do Oprimido

INMUNE – Instituto da Mulher Negra em Portugal

leve-leve colectivo
NARP – Núcleo Anti-Racista do Porto O lado negro da Força

Plataforma Geni

Semear o Futuro SOS Racismo Teatro GRIOT

UNA – União Negra das Artes

Alexandre Gamelas, frontend engineer

Anabela Rodrigues, grupo de Teatro do Oprimido
Ana Balona de Oliveira, historiadora de arte e curadora
Ana Cristina Pereira (Kitty Furtado), investigadora (CES, Universidade de Coimbra) Ana Paula Costa, Plataforma Geni
Ana Tica, animadora sociocultural, realizadora
Barbara Gois
Bruno Sena Martins, investigador (CES – Universidade de Coimbra)
Carolina Elis
Cátia Severino, investigadora
Cláudia Semedo, actriz

Cleo Diára

Cristina Roldão, socióloga e professora do Instituto Politécnico de Setúbal

Danilo Cardoso, arte-educador, investigador e poeta Di Candido, Artista e Investigador
Dori Nigro, artista e investigador
Dusty Whistles, Artist and Activist

Evalina Gomes Dias, fundadora e presidente da Djass-Associação de Afrodescendentes

Flávia Palladino, pesquisadora e sócia do SOS Racismo Gessica Borges

Geanine Escobar, investigadora e co-fundadora do Coletivo Zanele Muholi de Lésbicas e Bissexuais Negras – Lisboa

Gisela Casimiro, escritora e artista
Inês Amaral, professora da Universidade de Coimbra Inês Beleza Barreiros, historiadora de arte
Inocência Mata, professora e ensaísta
Irene Pinto, técnica de desenvolvimento comunitário Irina Leite Velho
Isabél Zuaa, atriz
José Falcão, dirigente do SOS Racismo
José Semedo, Professor/Treinador
Joseph da Silva, dirigente do SOS Racismo

Kalaf Epalanga, escritor e músico Kristin Bethge, fotógrafa
Libânia Fernandes Cá

Lucas Reis
Mamadou Ba, dirigente do SOS Racismo

Maria do Carmo Piçarra, investigadora e professora universitária (ICNOVA-FCSH/UAL) Mário Paris Inocêncio
Marta Pinto Machado

Melissa Rodrigues, artista e arte-educadora

Myriam Taylor (MUXIMA)

Nádia Yracema

Olívio Pereira, gestor

Paola Rodrigues, artista e curadora

Paula Cardoso, fundadora da plataforma Afrolink

Paula Machava – Doutoranda em Estudos Feministas (CES – Universidade de Coimbra). Assistente Universitária- Universidade Lúrio

Paulo Gamelas, gestor

Paulo Maurício Dias, psicólogo clínico e sócio fundador da Djass

Paulo Pascoal

Paulo Taylor (PT Soft)

Pedro Pereira, professor universitário

Pedro Varela
Piny – performer, coreógrafa, professora, ativista
Priscilla Domingos – Coletivo Afrekete
Raquel Lima, poeta e investigadora
Rita Cássia Silva – antropóloga, artista multidisciplinar, ativista DH Rodrigo Ribeiro Saturnino
Theo Eshetu, visual Artist
Vânia Doutel Vaz
Vânia Gala – professora, coreógrafa
Welket Bungué, artista transdisciplinar

Supporters / Apoiam a carta:

Ana Teixeira Pinto, professora do DAI (Dutch Art Institute) e AdBK Nürnberg

Anna Boghiguian, Artist

Anselm Franke, Head of Visual Arts, Haus der Kulturen der Welt Berlin

Antonia Alampi, curator

Beatriz Gomes Dias, Deputada e Vereadora na Câmara Municipal de Lisboa

Boaventura de Sousa Santos, Professor at the Faculty of Economics at the University of Coimbra, Coimbra

Candice Breitz, Artist, Johannesburg, Berlin
Catherine Wood, Senior Curator at Tate Modern, London

Charles Esche, Professeur and Directeur Van Abbemuseum

Denise Ferreira da Silva, Academic and Artist

Djamila Ribeiro, Writer and Activist, São Paulo

Ekua Yankah, Chair of the board Savvy Friends e.V., advisory board member ANO Ghana

Emily Wardill, Artist

Françoise Vergès, political theorist, antiracist feminist

Gaëtane Verna, Director – The Power Plant, Toronto

Heidi Ballet

Jochen Volz, Artistic Director at Pinacoteca de São Paulo, São Paulo

Johanne Affricot, Artistic Director at Griot Magazine, Rome

John Romão, Artistic Director at BoCa – Biennial of Contemporary Art, Lisbon

Julia Bryan-Wilson, University of California, Berkeley and Museu de Arte de São Paulo

Jumana Manna, Artist, Berlin

Kader Attia, Artist

Kristina Leno, Artist, Berlin, Zagreb

Leonor Antunes, Artist

María Berríos, independent curator

Moses Leo, Actor at Maxim Gorki Theatre, Berlin

Nana Oforiatta Ayim, director ANO Ghana and curator of the Ghanian pavilion in Venice

Nash Caldera, Artist

Norman Ajari, Lecturer in Francophone Black Studies, University of Edinburgh Oier Etxeberria, head of contemporary art department, Tabakalera
Rasha Salti, Curator
Ruth Estévez, Artistic Director at the Amant Art Foundation, New York Shermin Langhoff, Artistic Director at the Maxim Gorki Theatre, Berlin

Tamar Guimarães, visual artist
Tamsin Hong, Assistant Curator at Tate Modern, London Valentine Umansky, Curator at Tate Modern, London Vasco dos Reis Ferreira
Vila Kirchenbauer, Artist, Berlin

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