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Da colonização à convivência

Conversa com Ariel de Bigault

por Gérald Arnauld, Paris, Outubro 2001

Especialista em culturas lusófonas, Ariel de Bigault é autora de documentários sobre música brasileira e  os músicos africanos de Lisboa, bem como de antologias em cd sobre Angola e Cabo Verde. Esta conversa anda em torno das referências culturais comuns ao “espaço lusófono” no seio do qual se desenvolveu a cooperação, desde a criação em 1996 da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a instituição supranacional da lusofonia.

ilustração de Margarida Girãoilustração de Margarida GirãoSob o ponto de vista institucional, a lusofonia pode comparar-se à francofonia?
De modo nenhum. A instituição lusófona, com poucos   anos, está ainda em gestação, é essencialmente obra de um homem, José Aparecido de Oliveira, que foi governador de Brasília, depois primeiro-ministro da Cultura do Brasil e embaixador em Portugal. O Brasil foi sempre o motor desta iniciativa que teve o seu início sob a presidência de Itamar Franco, quando os socialistas estavam no poder em Portugal. Há no Brasil uma velha tradição progressista e universalista que se reporta aos filósofos franceses do século XIX – aliás, a divisa dos Estados Unidos do Brasil Ordem e Progresso era de Augusto Comte. Trata-se de uma corrente intelectual muito importante, muito ligada a Portugal e à Europa em geral.

A diferença fundamental relativamente à francofonia, é que o território da lusofonia é o do antigo império colonial português, que durou cerca de cinco séculos, desde a descoberta do Brasil em 1500 até à independência das colónias africanas em 1975.

Foi Portugal quem esteve na origem do próprio conceito de colonização, a partir do século XVI, desde a chegada aos territórios até à exploração organizada e sua administração directa. Aliás, na cultura lusófona moderna permanece uma marca profunda desta pré-história da colonização: um culto da aventura humana individual, semelhante à dos “migrantes”.

O termo “lusofonia”, utilizado sobretudo no exterior, só muito recentemente se tornou moda em Portugal. Para os portugueses é, de certo modo, uma forma de saudade, a nostalgia do Império. Ao nível do inconsciente, falar dos “lusófonos” é uma maneira de lembrar que todas estas pessoas eram portuguesas ainda não há muito tempo, que na verdade já não são, mas quase!

Mas não existe verdadeiramente “consciência lusófona”, excepto talvez nalguns intelectuais ou políticos. O angolano ou o moçambicano médio, ainda que artista ou universitário, nunca utilizará esta palavra para definir a sua identidade, enquanto que, para um africano francófono, o termo “francofonia” tem significado e uma dimensão política supranacional. Compreendendo apenas oito países, o conjunto lusófono está bem delimitado, e o critério de pertença à CPLP é muito limitado à escolha do português como língua oficial. As situações linguísticas são muito diferentes consoante os países: em Angola, o português serve como língua de unificação, porque existem várias línguas nacionais – entre as quais o quimbundo, o umbundo, o quicongo e o chocué. Em Cabo Verde e na Guiné-Bissau, o crioulo é a língua oficial juntamente com o português, sendo que os dois países também aderiram à francofonia. Também Moçambique faz parte da Commonwealth desde 1995, em razão do seu enquadramento regional; aí a lusofonia é muito menos importante do que em Angola, porque aí só uma minoria da população realmente fala o português…

O que fundamenta, então, a unidade deste “espaço lusófono”?

Não há verdadeiramente coesão política, apesar de se multiplicarem, desde há uns anos, as reuniões da CPLP sobre certos assuntos como a defesa, os direitos do homem ou a protecção da natureza. Não há propriamente “lobby lusófono” na ONU ou na OMC, ou pelo menos nada que se possa comparar com o peso e o que representa a francofonia nessas organizações. O passivo colonial é ainda muito forte, uma vez que a descolonização portuguesa se fez com quinze anos de atraso. Um país como Angola tem um jogo diplomático muito complexo em África, as suas relações são tensas com Portugal e a União Europeia, e muito calorosas com o Brasil que foi, aliás, o primeiro a reconhecer a sua independência em 1975. Foi também o Brasil que apoiou Timor Leste e, como em muitas outras questões, forçou Portugal a implicar-se um pouco contra a sua vontade. Em muitos aspectos, o Brasil é o verdadeiro líder da CPLP e não Portugal. Actualmente a lusofonia tem pouca coesão e pouca influência no plano económico e político, mas tem uma forte identidade cultural. E a língua vem ganhando terreno.

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A língua ou “as línguas”? Não há grandes diferenças entre os diversos falares portugueses?
A língua portuguesa é uma estrutura flexivel. Contrariamente ao francês, adaptou-se, absorvendo muitas palavras e particularismos, nomeadamente africanos. Acabo de receber uma gravação do grupo da Baía Olodum que presta homenagem a Angola… o que se explica pelo facto de muitos afro-brasileiros serem de origem banto da África Central. Diz-se que há 20 por cento das palavras angolanas, quicondo ou quimbundo, na língua popular brasileira. Talvez seja um pouco exagerado, mas bastante próximo da verdade. O português já tinha ido buscar ao árabe muitas palavras. Há muitas diferenças entre o português de Portugal e o do Brasil, tantas como entre o francês de França e do Canadá, mas em sentido inverso: o francês canadiano é uma forma antiga do francês, ao passo que o brasileiro é um português modernizado; um português compreende perfeitamente um brasileiro, mas não o contrário por causa da pronúncia arcaica e fechada demais. Em duas décadas houve uma inundação de brasileiro em Portugal: as telenovelas da TV brasileira suplantaram os programas locais. Recentemente, chegaram milhares de imigrantes brasileiros, originários do nordeste. Hoje, nos bares e restaurantes de Lisboa, a maior parte dos empregados são brasileiros. Assim, a componente brasileira veio juntar-se à das comunidades africanas neste cadinho cultural formidável que Lisboa representa para todos os lusófonos.

Como evoluiu esta “Lisboa afro-europeia”?

Antes das independências, já havia uma imigração cabo-verdiana mas que ficou na periferia. Na altura da independência, chegou uma nova vaga que se comportou um pouco como os emigrantes portugueses em França, como trabalhadores muito discretos, “trabalho – casa; casa – trabalho”, e todos falavam português. Depois houve uma segunda vaga, nos anos noventa: essencialmente dezenas de milhares de angolanos, bakongos que fugiam à guerra civil e que continuaram a falar a sua língua, muito estruturados à volta das suas igrejas evangélicas, e menos preocupados em se integrar. Os bairros de lata das periferias já estavam cheios e, contrariamente aos caboverdianos, implantaram-se em diversos bairros da periferia e do centro da cidade. Em pleno centro, no Rossio, importaram a sua cultura urbana, muito festiva, próxima da dos sapeurs congoleses e abrindo discotecas que os portugueses gostam muito de frequentar.

Em consequência da guerra civil na Guiné-Bissau, foi uma África completamente diferente que desembarcou em pleno coração da capital: uma população muçulmana, vestida à africana com os seus mercados e os seus curandeiros no Rossio, um pouco como se o bairro parisiense de Barbès se mudasse para o Quartier Latin… Os portugueses ficaram atónitos, mas adaptaram-se bastante bem, porque hoje são muitos os que vão consultar os curandeiros!

bica, Lisboabica, Lisboa

Genericamente, o que faz a unidade dos lusófonos?

Os angolanos, os brasileiros, os caboverdianos, os moçambicanos e os portugueses têm consciência de partilhar uma cultura comum. Conhecem muito bem as respectivas histórias e têm os mesmos gostos culinários (o feijão, o bacalhau…) e musicais (Marisa, a fadista actualmente mais em voga em Portugal, é de origem moçambicana)… e evidentemente, a paixão pelo futebol: há uma solidariedade automática entre os apoiantes das diferentes equipas lusófonas, que partilham, aliás, uma forma parecida de jogar.

É estranho e paradoxal. Porque a colonização portuguesa significou uma grande violência: o Brasil, tal como Angola ou Moçambique, em que a segregação foi impiedosa, constituíram-se num banho de sangue e a mestiçagem era produto da violência sexual.

Apesar de tudo, existe, no quotidiano, uma convivência espantosa entre os herdeiros desta história. Pode até dizer-se que esta palavra “convivência” é o traço principal da lusofonia. Isso não exclui o racismo mas, por exemplo, se a guerra de libertação de Angola foi tão atroz como a guerra da Argélia, não houve entre angolanos e portugueses a mesma dolorosa ruptura que houve entre argelinos e franceses.

Um outro aspecto mal conhecido desta relação cultural, é o enorme trabalho etnográfico realizado de forma sistemática durante a colonização pelo Estado português. Há em Lisboa bastantes arquivos escritos, gravados ou filmados sobre as culturas locais. Estão pouco estudados e explorados. Aliás, não foram feitos com a intenção de serem divulgados, mas para informar a administração sobre os costumes das populações colonizadas.

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Actualmente, qual é a relação com a francofonia nos países lusófonos?

Os anos 1950-80, foram simultaneamente aqueles em que os portugueses formavam a primeira comunidade da emigração económica em França e aqueles em que Paris acolhia os intelectuais no exílio que fugiam às ditaduras, brasileira e portuguesa. Toda a elite cultural brasileira e portuguesa era, nessa altura, perfeitamente francófona e apaixonadamente francófila em todos os domínios, desde o cinema à política, passando pela arte, pela literatura, pela filosofia e pela sociologia. O mesmo acontece com essa geração na África lusófona, a das independências, que passou longos anos exilada em Paris e, sobretudo, em Abidjan, Argel, Brazzaville ou Kinshasa. Mas todas estas pessoas estão hoje com sessenta anos e, de há vinte anos para cá, é a cultura anglosaxónica que se impõe por toda a parte. Em Portugal, lê-se cada vez menos e, por isso, há uma grande penúria de traduções, ainda que o Brasil comece a tomar a dianteira. Nas universidades, a maior parte dos livros dos programas escolares são em inglês. Em Angola e Moçambique, entre jovens artistas e intelectuais, o inglês tende também a suplantar o francês como segunda língua de comunicação. Existe, aliás, um desconhecimento surpreendente da África francófona. As suas referências situam-se noutros lugares. Citarei apenas um exemplo, o de José Eduardo Agualusa, sem dúvida o mais importante dos escritores angolanos actuais, apesar de ser atípico porque é filho de pequenos colonos portugueses. A sua obra romanesca1 é apaixonante, desconstruindo pelo absurdo a sociedade angolana urbana contemporânea. Ele situa-se claramente na linha dos grandes escritores brasileiros e latino-americanos. Reivindica a sua “crioulidade”. Infelizmente, a literatura africana francófona continua praticamente desconhecida no mundo lusófono. Pode parecer surpreendente. Os dois países (Angola e o Congo) têm uma fronteira comum, etnias comuns e há uma forte presença angolana num e noutro Congo. No entanto, são dois mundos completamente diferentes. A rua é diferente, o vestuário, o ritmo de vida, o comportamento social. De um lado, existe uma cidade africana e, do outro, uma cidade mestiça, em que as relações são muito policiadas. A explicação deve-se, sem dúvida, à longa duração da colonização portuguesa, e ao facto do cristianismo, católico ou protestante, quase ter apagado as religiões ancestrais. Deste ponto de vista, Salvador da Baía parece-me ser uma cidade muito mais “africana” do que Luanda.

A música tem estado sempre no centro dos seus esforços para a promoção das culturas africanas lusófonas. Será a “lusofonia” acima de tudo musical?

Para lá da língua, há um parentesco evidente que remonta ao tempo da colonização, com essas músicas “pré-urbanas” que se tocavam nas plantações. Os guitarristas nem sequer têm necessidade de se harmonizarem em conjunto, quer venham de Portugal, de Angola, do Brasil, de Cabo Verde ou de Moçambique. Está-se numa situação muito diferente da francofonia: quando um Higelin ou um Lavilliers fazem música com africanos, isso é sentido como um passo voluntarista, experimental, quase político, enquanto no mundo lusófono esta “mestiçagem musical” é absolutamente natural, é um assunto resolvido há pelo menos um século. E isto é tanto mais verdadeiro no que diz respeito aos angolanos, porque seu património musical ligado a rituais de iniciação, foi apagado pela colonização e a evangelização, e ainda sofreu muito das devastações da guerra de independência e dos confrontos armados que duraram até 2002.

Mesmo o lamelofone likembe e o xilofone marimba, que eram verdadeiramente instrumentos nacionais, estão em vias de desaparecimento. Actualmente, os xilofones são importados de Moçambique ou do Zimbabué harmonizados segundo escalas ocidentais, para poderem ser associados às guitarras. O MPLA, o partido que detem todos os poderes em Angola, foi fundado por poetas e intelectuais como Agostinho Neto, mas hoje não parece dar importância à cultura enquanto expressão autêntica e livre da identidade do povo.

estátua de Agostinho Neto, Huamboestátua de Agostinho Neto, Huambo

 

 

  • 1. José Eduardo Agualusa, a Estação das Chuvas. Edições Dom Quixote, Lisboa.1996; O vendedor de passados, Publicações Dom Quixote, Lisboa, Portugal. 2004

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