Website on global south and decolonial issues.

Devotos em cisma: a Igreja Universal do Reino de Deus em Angola

E Ele disse: Não temas; porque mais são os que estão connosco do que os que estão com eles. Reis 6:16.

Esse versículo, postado pelo perfil da Igreja Universal do Reino de Deus em Angola no Facebook, no dia 21 de julho de 2020, dá notícia de um processo em disputa: o conflito entre alguns de seus líderes pela direção da denominação no país. No último 22 de junho, bispos e pastores angolanos assumiram o controle de templos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e anunciaram sua ruptura com a direção de Edir Macedo, encabeçada, em Angola, pelo bispo brasileiro (e ex-vice-presidente da TV Record), Honorilton Gonçalves1. Liderados pelo então vice-presidente da IURD em Angola, o bispo angolano Valente Bezerra Luís, o grupo assim denominado Comissão de Reforma de Pastores Angolanos montou seu estado-maior na Catedral do Morro Bento, em Luanda2, exigindo reformas. Gestado ao longo de quase sete meses, o imbróglio adentrou a esfera política, onde a dramatização em torno dos eventos se elevou, na forma de demarcação de fronteiras, ataques de toda sorte e persuasão de fieis. As narrativas romperam as paredes dos templos e, transmitidas a plateias externas, estão sujeitas à reinterpretação. Oferecemos aqui uma reconstituição dos principais eventos desse processo, conforme notas da imprensa, e uma discussão histórica sobre a atuação e expansão da IURD. Como veremos, o cisma que a instituição fundada por Edir Macedo vive em Angola foi uma provação enunciada meses atrás, resta saber quem a vencerá.

Foto de Senado Federal - fotógrafo Roque de SáFoto de Senado Federal – fotógrafo Roque de Sá

O conflito entre a “direção brasileira” e o “movimento de reforma angolano” veio à tona em 28 de novembro de 2019, com a publicação de um “Manifesto Pastoral” assinado por mais de 300 pastores e bispos angolanos e encaminhado ao bispo Honorilton Gonçalves. Nele, exigiam que os líderes brasileiros deixassem o país e que a liderança da Igreja passasse aos homônimos angolanos, num movimento de “angolanização”. As acusações foram graves: prática de nepotismo, racismo, concessão de privilégio a religiosos brasileiros na atribuição de responsabilidades eclesiásticas e administrativas, tratamento discriminatório com os pastores angolanos, evasão de divisas para o exterior3, venda, sem consulta prévia, de mais da metade do património da Igreja em Angola, e imposição de vasectomia, entendida pelo grupo como violação dos direitos humanos e da Constituição da República de Angola4. Note-se que as principais acusações feitas à direção brasileira são antigas e comuns a outros países africanos (Van Wyk, 2014), e que queixas relativas à marginalização de pastores angolanos na organização e ao controle brasileiro da igreja em Angola datam de pelo menos o início dos anos 2000. Daí que à época, o evento pareceu prolongamento de uma crise maior, posto que aconteceu semanas depois de a IURD ser ameaçada de expulsão de São Tomé e Príncipe, por razões, em certa medida, semelhantes5

As primeiras consequências chegaram no dia 05 de dezembro de 2019, quando o diretor do Gabinete de Comunicação e Imprensa do Ministério do Interior de Angola, Waldemar José, anunciou abertura de processo-crime contra os líderes da Igreja, conforme notícia veiculada na Agência Angola Press. O processo em questão unificava dois processos-crime, resultado de denúncias apresentadas em janeiro de 2019 e no Manifesto de novembro de 2019.  Além disso, a notícia faz menção a outro processo, de tempos idos, sobre a imposição de vasectomia aos pastores angolanos, confirmado pelo então vice-Procurador-Geral da República, Mota Liz. Mais tarde, em 21 de janeiro de 2020, o diretor do Instituto Nacional para os Assuntos Religiosos, Francisco Castro Maria, aventou a possibilidade de encerramento das atividades da IURD no país, caso as acusações fossem confirmadas. 

Em entrevista ao jornal O País, no início deste ano, o bispo Valente Bezerra Luís declarou que o faturamento da IURD em Angola é de cerca de 80 milhões de dólares por ano. Parte deste dinheiro, segundo ele, sai ilegalmente do país, seja de carro até a África do Sul, um dos pilares da denominação no continente, ou em viagens de grupos de pastores para o templo de Salomão, em São Paulo. Em nota do Jornal de Angola, a Comissão de Reforma comunicou que a tomada dos templos veio em resposta a represálias que religiosos angolanos vinham sofrendo, na forma de cortes de subsídios e impedimento de acesso às moradias, provável retaliação ao Manifesto de 2019 e às ações transcorridas ao longo de 2020, como a marcha de mulheres contra a vasectomia, realizada em 14 de março. A lista de irregularidades apontadas pela Comissão vai mais além, com denúncias sobre abuso de confiança na gestão financeira, proibição de formação acadêmica e profissional às esposas de pastores, falsificação de atas em eleições de órgãos sociais e irregularidades no pagamento da segurança social. Mais recentemente, a inconsistência entre o valor de arrecadação e as baixas obras sociais executadas pela IURD em Angola, como ausência de escolas ou hospitais, somou-se como um dos motivos da reforma até aqui referida. Por fim, pastores e bispos angolanos também se sentem marginalizados na medida em que templos localizados nos principais centros urbanos são controlados por pastores brasileiros, enquanto pastores angolanos são alocados em bairros pobres. Segundo a BBC, dos 512 pastores atuantes em Angola, 419 são angolanos, 24 moçambicanos, 4 de São Tomé e Príncipe e 65 brasileiros.

Foto de Palácio do Planalto - fotógrafo Alan SantosFoto de Palácio do Planalto – fotógrafo Alan Santos

A crise engrossou no dia 10 de julho, quando o Serviço de Investigação Criminal da Polícia Nacional de Angola iniciou ações de busca e apreensão em residências de bispos, pastores, templos e escritórios ligados à IURD. No momento, o caso se encontra na Procuradora Geral da República. Frente à crise, Edir Macedo recorreu a um aliado favorito, o Presidente da República. Jair Bolsonaro enviou uma carta ao Presidente João Lourenço no dia 13 de julho, manifestando sua preocupação e pedindo aumento de proteção aos brasileiros. A tentativa de mediação da crise veio também de outro braço de apoio da IURD na política nacional brasileira: o Legislativo. A iniciativa parece se centrar em torno do senador Major Olímpio (PSL-SP), Nelsinho Trad (PSD-MS) e Marcos do Val (Podemos-ES), que formularam pedidos para envio de parlamentares brasileiros à Angola e requerimentos para formação de comissão para apurar a situação. O envio de uma missão foi aprovado na Comissão de Relações Exteriores do Senado para o início de agosto. 

A narrativa de golpe tem marcado a posição da “direção brasileira”. Em nota oficial, reproduzida pelo Portal R7, a Universal de Angola declarou que os templos foram invadidos “[…] por um grupo de ex-pastores desvinculados da Instituição por práticas e desvio de condutas morais e, em alguns casos, criminosas e contrárias aos princípios cristãos exigidos de um ministro de culto”. A direção brasileira também comunicou que pastores foram agredidos e expulsos de suas casas, e que a maioria dos membros continua fiel aos princípios da Igreja – conforme carta aberta publicada no Facebook no dia 21 de julho. Segundo reportagem da Pública, Edir Macedo culpou dois ex-bispos brasileiros pela cisão: João Leite e Alfredo Paulo. O primeiro foi o responsável da IURD em Angola até 2017, e o segundo atuou na IURD em Portugal até 2013. A razão do afastamento dos dois foi a mesma: infidelidade conjugal. A reportagem destaca que João Leite fundou, no Rio de Janeiro, a Igreja do Tratamento Espiritual e, em vídeo repostado por Alfredo Paulo no início do ano passado, anunciou sua intenção de disputar fieis com Edir Macedo na África. Bastou Alfredo Paulo divulgar informações sobre os eventos recentes em suas redes sociais para que a vinculação dos dois ao caso angolano fosse feita. As acusações foram enunciadas numa live, no dia 27 de junho, dedicada à meditação com pastores. Nessa ocasião, Edir Macedo exibiu, para completar o exercício espiritual, trechos do programa no YouTube em que João Leite anunciava que iria para Angola e reuniria lideranças da igreja. Até o momento, João Leite não instalou templos no continente. 

Em meio a altercações e processos-crime, o dia 24 de julho foi decisivo com a publicação, pelo Diário da República de Angola (III Série, número 81), da ata de uma Assembleia Extraordinária de bispos e pastores da IURD, realizada no dia 24 de junho, que estabeleceu a dissolução da diretoria da IURD Angola, destituição do bispo Honorilton Gonçalves e encerramento do serviço eclesiástico dos missionários brasileiros em todo o território angolano. Como resultado da Assembleia, a nova gerência da Igreja Universal passou às mãos da Comissão de Reforma, coordenada pelo bispo Valente Bezerra Luís, havendo, porém, um prazo de 90 dias para realização de uma Assembleia-Geral Ordinária para eleger os órgãos sociais e o novo representante da denominação no país. O movimento foi interpretado como sinal de apoio das instituições angolanas à Comissão de Reforma, grande vitória na disputa. No entanto, as comemorações cederam lugar a um novo impasse: a “direção brasileira” informou que a ata da referida Assembleia Extraordinária não foi elaborada pelo 4º Cartório Notarial de Luanda, o que atestaria sua falsidade. 

Tudo indica que a cisão vai se resolver a seu modo, em cadência angolana, não brasileira. Na última atualização, no dia 14 de agosto, a Procuradoria-Geral da República de Angola, em ação conjunta com o Serviço de Investigação Criminal e o Instituto Nacional dos Assuntos Religiosos, apreendeu diversos templos da denominação, que permanecerão selados até decisão final da Justiça angolana. A orientação da disputa parece indicar vitória da ala reformista angolana; agora cabe acompanhar os desdobramentos do outro lado do oceano, particularmente os possíveis revides da simbiose entre bolsonarismo e neopentecostalismo. 

 

A Igreja Universal do Reino de Deus em expansão

Fundada em 1977 por Edir Macedo, a Igreja Universal do Reino de Deus é a expressão mais conhecida do que Paul Freston chamou de “terceira onda” do pentecostalismo brasileiro. Diferentemente das primeiras igrejas pentecostais, criadas por imigrantes estrangeiros, e da segunda geração de igrejas pentecostais, estabelecidas por pastores carismáticos de origem pobre no estado de São Paulo, as igrejas da terceira onda pentecostal foram fundadas no Rio de Janeiro por líderes que gozavam de situação econômica mais vantajosa (Freston, 1994, p. 131). Esse foi o caso de Edir Macedo, que atuou como servidor público numa loteria no estado do Rio de Janeiro e cuja trajetória religiosa passou pelo catolicismo, umbanda e pela igreja Nova Vida, a pioneira do pentecostalismo de classe média no Brasil. Desde sua fundação, a IURD assimilou as transformações sociais, econômicas e políticas dos anos finais da ditadura militar no Brasil, num cenário marcado pelo aprofundamento da industrialização, expansão dos meios de comunicação de massa, estagnação econômica e redemocratização. As grandes cidades foram o locus principal da expansão da Igreja Universal, que cresceu rapidamente no Rio de Janeiro.

A IURD guarda uma relação de continuidade e inovação com as práticas tradicionais das igrejas pentecostais anteriores a ela. Por um lado, ela mantém a crença na inspiração e autoridade da Bíblia, e enfatiza o batismo do Espírito Santo (o ato de falar em línguas não conhecidas) e a cura divina como indicadores do status espiritual dos crentes, características que a aproximam das demais denominações evangélicas. Por outro lado, ela sistematizou e intensificou o uso de uma gama de outros ritos e crenças pouco praticadas pelo pentecostalismo tradicional no Brasil, expandindo as possibilidades estéticas, teológicas e litúrgicas do cristianismo evangélico. Nesse sentido, a IURD faz amplo uso de símbolos materiais visíveis e tangíveis que auxiliam os crentes em sua cotidiana guerra espiritual, como o Nardo Ungido, a Rosa Consagrada, o Pão da Fartura e a Sarça dos Milagres (ibid, pp. 138-9). Em cultos e reuniões, a mensagem da cura, o exorcismo e a contribuição financeira assumem papel central (Almeida, 1996). Tudo isso já fazia parte da liturgia de igrejas pentecostais décadas antes da fundação da IURD, mas na nova igreja tais práticas foram elevadas à sua potência, criando uma linguagem religiosa específica e apropriada de diversas formas por líderes e fiéis. Outros elementos que caracterizam sua inovação em relação às igrejas pentecostais anteriores incluem o uso intensivo das mídias, especialmente o rádio e a televisão, e sua atuação na política formal, elegendo deputados para a Câmara Legislativa Federal já em 1986. Embora o uso evangélico dos meios de comunicação e sua entrada na política nacional antecedam a fundação da Universal, a igreja de Edir Macedo intensificou tais práticas, desenvolvendo mecanismos eficientes de arregimentação de votos, como é o caso do uso de pastores como cabos eleitorais, e compra de uma emissora de televisão, a TV Record, em 1989.

A Igreja Universal do Reino de Deus é uma igreja desconcertante, um desafio para analistas na mídia e na academia. Pesquisadores interessados na expansão evangélica no Brasil e na África se referem às suas experiências etnográficas entre pentecostais como “uma experiência chocante” (Lehmann, 1996, p. 9). Os barulhentos e agressivos sermões de pastores da IURD frequentemente provocam desconforto e aflição em pesquisadores (van Wyk, 2014, pp. 30-32). As demandas de pregadores evangélicos sobre suas audiências em contextos marcados pela pobreza, violência e marginalização soam, em muitas ocasiões, como totalizantes e intrusivas. Na IURD, problemas de saúde, pobreza, conflitos familiares, e desemprego são concebidos como consequências das ações de demônios e forças espirituais que afetam as vidas cotidianas – daí as noções de libertação e guerra espiritual ocuparem espaço central no seu repertório devocional e imagético. O estilo empreendedor da IURD e sua mensagem de prosperidade financeira levantam suspeitas sobre a sinceridade da devoção de seus líderes. O tripé cura, exorcismo e dinheiro (Almeida, 1996) ofende as sensibilidades éticas e estéticas de elites intelectuais e parece contrastar com noções republicanas de tolerância e civilidade. Sinal disso é que a postura agressiva de pastores e fiéis em relação às religiões afro-brasileiras e ao catolicismo vira e mexe ocupa as páginas de jornais e revistas no Brasil, o que levanta dúvidas sobre sua capacidade de conviver numa sociedade pluralista.

Angola foi o primeiro destino da IURD no continente africano, onde fincou presença em 1991. O cenário nacional, atrelado aos encaminhamentos da guerra civil, era de abertura política e econômica. Na toada das negociações de paz, em 1987 foi criado o primeiro instrumento jurídico direcionado à liberdade religiosa, o Decreto Executivo n. 46/87, pelo qual foram reconhecidas as 12 primeiras igrejas de Angola. O reconhecimento do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) como administração interna pela UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola), em outubro de 1990, abriu caminho para a adoção, em dezembro daquele ano, de um sistema multipartidário. Para completar o pacote de transição política, foram aprovadas a Lei Constitucional de 06 de março de 1991, que marcou o fim da Primeira República angolana, e a Lei Constitucional de 1992, que demarcou os procedimentos para a realização das primeiras eleições multipartidárias da história de Angola e estabeleceu um sistema de governo semi-presidencial, mas que reteve forte lastro presidencialista (Höring, 2018). Posteriormente, o Estado publicou o Decreto Executivo n. 46/91, de 16 de agosto, estipulando o processo de legalização jurídica de igrejas no país.

IURD em Luanda - foto de Carlos Oliveira ReisIURD em Luanda – foto de Carlos Oliveira Reis

Dessa forma, o reconhecimento oficial da IURD aconteceu em 1992, num movimento de diversificação de igrejas e confissões religiosas do qual se beneficiaram 50 outras denominações. O valor simbólico do evento é grande, posto que atualmente são apenas 84 as confissões religiosas reconhecidas pelo Estado angolano6. De acordo com Freston (2005), a IURD recrutou muitos de seus primeiros membros nas fileiras da Igreja Maná, especialmente mulheres vítimas de infidelidade conjugal. Em 1994, já possuía templos em Luanda, Lobito, Benguela, Lubango e Namibe. Quatro anos mais tarde, a IURD havia se espalhado para 36 cidades e, em 2000, estava presente em 10 das 18 províncias de Angola, embora muito concentrada em Luanda, onde dispunha de 47 igrejas e mais de 15 mil membros (Freston, 2005). Junto com os templos, transportou seu braço midiático, havendo transmissão da Record Internacional, via TV paga, desde 1998, e programas de rádio AM e FM (Sampaio, 2014). 

A expansão da Igreja Universal em Angola foi claudicante, seguindo o impacto regional da guerra civil. O fim do conflito, em 2002, abriu as portas para a expansão nacional. O resultado veio a galope. A igreja se estendeu para todas as 18 províncias em 2003 e contava com um total de 124 igrejas em 2004. Em 2019, a IURD afirmava ter como fiéis 2,7% da população angolana7. Freston (2005) aponta que, em 1994, havia 20 pastores brasileiros em Angola, e o primeiro bispo consagrado no país, em 1998, era também brasileiro. Para o autor, ao contrário do caso sul-africano, o lento desenvolvimento de um corpo de bispos e pastores angolanos pode ser explicado pela correspondência linguística, que facilitou a transferência de religiosos brasileiros ao país. Relatos orais coletados por ele indicam que o sentimento de marginalização de angolanos na estrutura da Igreja – e expresso na atual divisão da denominação – é de longa data. 

Um dos elementos que ajudam a explicar o sucesso da IURD em Angola, assim como em Moçambique e África do Sul, reside na forma pela qual a igreja navega pelas tensões entre globalização e localização, homogeneidade e heterogeneidade. Por um lado, a Igreja Universal possui uma organização altamente centralizada se comparada às demais denominações evangélicas. Suas ações e expansão são planejadas por comitês centrais de bispos que decidem sobre a alocação de recursos e os campos de atuação dos pastores. As congregações locais possuem um corpo de pastores remunerados que lideram os cultos e assistentes voluntários, em grande parte mulheres, que atuam em diversas frentes, coordenando grupos de oração, pequenas sessões de exorcismo e auxiliando os pastores nos cultos. Por outro lado, a expansão da igreja se beneficiou da extensa influência cultural brasileira no mundo lusófono. Sua associação com a brasilidade tem sido componente vital para seu sucesso em Angola e Moçambique (Freston, 2005, p. 58). Além da facilidade linguística, pastores e missionários brasileiros na África estão livres da “culpa pós-colonial” frequentemente atribuída a agentes religiosos oriundos das antigas potências coloniais (Freston, 2010, p. 166). Mas, como a atuação da IURD em Angola atesta, isso está longe de garantir harmonia nas relações entre brasileiros e africanos.

Determinadas práticas religiosas e estruturas eclesiais da IURD se assemelham às de outras religiões nos campos em que a igreja atua. Seu estilo de governo episcopal centralizado se assemelha ao modelo eclesiástico da Igreja Católica e de igrejas metodistas e anglicanas, com longa trajetória no continente africano. As cadeias de oração e os cultos de pedidos de oração praticados pela IURD se assemelham à tradição católica de petição aos santos. As sessões de exorcismo e o combate aos orixás e espíritos das religiões africanas e afro-brasileiras mobilizam um repertório simbólico e imagético compartilhado por diversas sociedades na África e América Latina (Lehmann, 1996, p. 209). O conjunto dessas práticas garantem que uma igreja “jovem” e aparentemente pouco apta a criar raízes locais fora do Brasil encontre ancoragem histórica e cultural em sociedades diversas. A “guerra espiritual”, central para a vida cotidiana dos membros da IURD, é quase onipresente nos campos por onde a igreja se espalhou. Crentes aprendem que há uma estrutura demoníaca e que as mais diversas atribulações que os acometem são causadas por demônios locais (van Wyk, 2014, p. 240). Dessa forma, a vaga e imprecisa noção de guerra espiritual da IURD apela para homens e mulheres que experimentam cotidianamente a suburbanidade e precariedade social (Mafra, 2001), marcando presença na imaginação religiosa do Brasil e do sul da África “não como uma presença redentora, mas como uma resposta furiosa à inevitabilidade da derrota” (van Wyk, 2014, p. 241).

Interessante destacar que nos primeiros anos que se seguiram à independência de Angola, alguns intelectuais aventavam um cenário em que o Cristianismo se tornaria cada vez menos significante na organização das sociedades africanas (Comerford, 2007). No entanto, se nos primeiros anos do regime de partido único a religião foi tratada como elemento secundário, ante um projeto de mudança social e construção do “novo homem”, os passos para a abertura do sistema político apontaram para outra direção. Como vimos, indicativo disso é que, desde 1987, práticas e instituições religiosas passaram a ser reconhecidas pelo Estado para atuarem e manterem templos (Sampaio, 2014). Até 2019, o Estado regulamentava a questão religiosa pela pela Lei n.02/04, de 21 de maio, sobre Liberdade de Consciência, Culto e de Religião. Nesta, era necessária apresentação de 100 mil assinaturas para se reconhecer uma nova igreja no país, via Ministério da Justiça, e com prazos difíceis de serem cumpridos8. Mais recentemente, com a aprovação da Constituição de Angola de 2010, os direitos relativos à religião também foram reformulados e a Lei anterior, instrumento de difícil aplicação, foi harmonizada pela Circular n. 228/15, de 25 de junho9, que estabeleceu seis plataformas ecumênicas, que congregavam as diversas confissões ilegais e as auxiliavam no processo de reconhecimento pelo Estado10

No entanto, a regulamentação religiosa se consolidou ainda depois, com a Lei 12/19 de 14 de maio, da Liberdade de Religião e de Culto, que deslocou a autoridade sobre os fenômenos religiosos em Angola para o Ministério da Cultura, via Instituto Nacional para os Assuntos Religiosos (INAR). A nova lei avalizou o processo histórico de controle estatal sobre expressões religiosas, visando resguardar a laicidade do Estado angolano e mantê-lo a salvo de competidores (ou potenciais colaboradores) oriundos da esfera espiritual, dos quais destacam-se as igrejas neopentecostais brasileiras11. O instrumento jurídico tampouco facilitou a legalização de novas igrejas, havendo necessidade de apresentação de 60 mil assinaturas de maiores de 18 anos, reconhecidas por notário, das quais figurem ao menos mil residentes em cada uma das províncias de Angola, além de comprovação de uma série de pontos, como: dados sobre a fundação – inclusive se resultado de cisão ou desmembramento –, nacionalidade dos ministros de culto, indicação dos principais atos a serem praticados, obrigatoriedade de formação certificada, finalidade, princípios de doutrina, regras para membros, dentre outros12

Desde o fim da guerra, o governo do MPLA incentivou a colaboração de fundações, grupos e instituições, dentre elas as religiosas, no seu projeto de reconstrução nacional. Pesquisadores já sinalizavam a transformação da economia política angolana mediante uma dupla operação de concentração do poder do Estado, de um lado, e privatização – numa lógica de apropriação – pelo domínio privado, de elementos da esfera pública, de outro (Messiant, 2001; Höring, 2018). Para Sampaio (2014, p. 5), o trunfo da IURD foi saber se posicionar nesse projeto de reconstrução nacional, agradando a gregos e troianos na forma de instituição benevolente que direciona doações e obras assistenciais de acordo com as necessidades públicas, como é o caso de campanhas de doação de sangue, prevenção de doenças, arrecadação e distribuição de bens não duráveis. 

O incentivo dado pelo Estado angolano à atuação de entidades religiosas em tarefas tradicionalmente executadas pelo poder público reconduz nossa atenção à peleja entre os membros da IURD. Em reportagem da Agência Angola Press, o porta-voz do grupo reformista, pastor Jimi Cardoso, aponta um novo fator para a cisão: a ausência de qualquer infraestrutura social para benefício do povo angolano, apesar das altas somas colhidas dos dízimos. Ele assim lamenta: “‘A IURD em Angola não tem cumprido o seu papel como parceira do Estado, visto que, até ao momento, não tem nenhuma escola de raiz, universidade ou posto médico’”13. Além disso, a Igreja Universal possui características distintas em relação às demais denominações cristãs na África e América Latina. Apesar de reconhecer a inspiração espiritual e autoridade da Bíblia, ela não faz uso intensivo das escrituras em seus cultos e reuniões de fiéis. E em contraste com as demais igrejas evangélicas que historicamente se direcionaram à África e constituíram-se enquanto espaços de intensa sociabilidade, a IURD é uma igreja que não encoraja a socialização de seus membros. Pastores geralmente mudam de igreja em igreja em curto espaço de tempo e criam laços frágeis com os fiéis. A liderança da igreja não dá suporte à criação de espaços de confraternização entre seus membros e parece não se incomodar com o caráter flutuante de sua membresia (van Wyk, 2014; Mafra, et al, 2012).

A crítica à ausência de aparato institucional pela Universal em Angola, presente na fala do pastor Jimi Cardoso, está em desacordo com o que já é lugar comum na bibliografia sobre o Estado angolano – e teorizações sobre o “Estado africano” – no sentido de cooperação público-privado. No entanto, ela é uma das características que vem sendo ressaltadas na literatura sobre movimentos pentecostais, tanto na África quanto na América Latina. Independente disso, os eventos em Angola parecem andar na contramão do funcionamento padrão da IURD, daí o assombro. Se dentro do Brasil ela galgou espaço como colaboradora de grupos políticos, onde o ecoar de sua voz no Legislativo e Executivo não é de agora, em Angola o alcance dos interesses de Edir Macedo parece ter atingido um ponto de inflexão. Se no Brasil, seu alcance político se consolidou por sua feição de alinhamento pragmático e pela ascensão ao poder de grupos conservadores afeitos a ela, tudo indica que, no país africano, ela não foi capaz de reproduzir o sucesso. O processo como um todo parece indicar duas coisas: de um lado, um cenário de enraizamento da IURD na cena política brasileira, e que não se verifica na outra ponta, e, de outro, um movimento histórico de independência do Estado angolano frente a interesses religiosos (e, neste caso, estrangeiros). O reposicionamento político vivenciado em Angola desde a eleição de João Lourenço para a presidência, marcado pela luta contra a corrupção, não só dá o tom, como também justifica quaisquer avanços nesse sentido. 

 

Referências bibliográficas:

 

 

Almeida, Ronaldo de. ‘A universalização do reino de Deus’ Novos Estudos CEBRAP nº 44 (1996), pp. 12-23

 

Freston, Paul, ‘Breve história do pentecostalismo brasileiro’, in Antoniazzi, Alberto et al (orgs) Nem anjos nem demônios: interpretações sociológicas do pentecostalismo (Petrópolis: Vozes, 1994)

 

Freston, Paul, ‘The Universal Church of the Kingdom of God: a Brazilian church finds success in southern Africa’ Journal of Religion in Africa vol. 35, nº 1 (2005), pp. 33-65

 

Freston, Paul, ‘Reverse mission: a discourse in search of reality?’ PentecoStudies vol. 9, nº 2 (2011), pp. 153-74

 

Höring, Jéssica da Silva. ‘(Re)construindo a nova ordem: o processo constitucional angolano (1998-2010)’ (Dissertação de mestrado em Sociologia, Universidade de São Paulo, 2018)

 

Lehmann, David. Struggle for the spirit: religious transformation and popular culture in Brazil and Latin America (Cambridge: Polity Press, 1996)

 

Mafra, Clara; Swatowiski, Claudia; Sampaio, Camila. ‘O projeto pastoral de Edir Macedo: uma igreja benevolente para indivíduos ambiciosos?’ Revista Brasileira de Ciências Sociais vol. 27, nº 48 (2012), pp. 81-96

 

Mafra, Clara. Os evangélicos (Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001)

 

Messiant, Christine. ‘The Eduardo dos Santos Foundation: or, how Angola’s regime is taking over civil society”. African Affairs, nº 100 (2001), pp. 287-309.

 

Sampaio, Camila, ‘Conosco e contra eles?’: a Igreja Universal do Reino de Deus , Estado e a demolição de templos islâmicos na ‘reconstrução nacional’ de Angola’. Anais da 29ª Reunião Brasileira de Antropologia (2014)

 

Van Wyk, Ilana. The Universal Church of the Kingdom of God in South Africa: a church of strangers (Nova York: Cambridge University Press, 2014)

 

Lorem ipsum dolor sit amet, consectetur adipiscing elit. Ut elit tellus, luctus nec ullamcorper mattis, pulvinar dapibus leo.