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Edouard Glissant (1928-2011), um legado magnífico

Sabíamos que Edouard Glissant estava doente e a sua morte não foi infelizmente uma surpresa, vindo recordar-nos que até os maiores são mortais. Mas será correcto falar de uma perda, quando ele nos deixa tantos escritos e um pensamento extraordinariamente desenvolvido? No entanto, a sua capacidade de resposta face à actualidade far-nos-á uma enorme falta, a nós que somos seus discípulos. É impossível dizer até que ponto o Africultures foi marcada por este legado e o reclama. Preparamos um número especial da revista em homenagem a este mestre mas, entretanto, aqui fica um pequeno texto de Boniface Mongo-Mboussa que irá coordenar esse número:

 

Edouard Glissant morreu, mas deixou-nos as suas palavras: um legado esplêndido, proteiforme e fértil. Quando, em 1956, ele publica o seu ensaio-poema, Soleil de la Conscience – um texto a redescobrir – Edoaurd Glissant apresenta-se como o seu próprio etnólogo. Ele escreverá mais tarde: “Odiamos a etnografia: sempre que, realizando-se num outro lugar, ela não fertiliza o desejo dramático da relação”. Edouard Glissant já está todo aí. Porque Le Soleil de la Conscience, que é uma meditação sobre o encontro do poeta com a paisagem francesa, é uma forma de pensar a alteridade pela natureza.

Neste primeiro encontro, Edouard Glissant constata que esta paisagem lhe é simultaneamente familiar e estranha. Próxima porque, apesar de tudo, ele é francês e possui, portanto, uma certa cultura da geografia francesa; estranha, porque esta paisagem não lhe fala como falaria a um habitante da Normandia ou de Bordéus.  Este choque abre-lhe os olhos para a sua condição de antilhano, que o leva a investir na história.

Porém, ao reler os filósofos que se interessaram por esta disciplina, Glissant depressa se apercebe que ele foi relegado para a periferia da História universal por Hegel: “Na verdade, toda a história, escreve ele (e, por conseguinte, toda a razão da História concebida projetada nela), foi decididamente a exclusão dos outros: é isso que me conforta de ter sido excluído do movimento por Hegel.”

Enquanto os filósofos africanos gastam um energia louca e vão a correr atrás da sombra, Edouard Glissant afronta Hegel de forma oblíqua. A esta visão totalizante, pretensamente universal, Edouard Glissant opõe a Opacidade, o Diverso, o Rizoma e, sobretudo, a Relação. Esta recusa dos sistemas constituirá ao longo de toda a sua vida, a sua marca. Deste ponto de vista, o pensamento de Glissant, que é uma ode à fraternidade, corrobora, em alguns aspectos, os de Derrida e Levinas: dois pensamentos do Outro, mas também dois discursos da opacidade. Mas enquanto os filósofos profissionais propõem tratados, Glissant apresenta o fragmento, o estilhaço, o aforismo, subvertendo os géneros.

Romancista, filósofo, dramaturgo, ensaísta, Edouard era acima de tudo um poeta sensível à crioulização do mundo. Cabe aqui recordar, como ele próprio soube fazê-lo com elegância, que a crioulização não é a crioulidade. Porque Edouard Glissant não tinha a mínima pretensão de oferecer ao mundo um sistema. Ele era a encarnação do pensamento em movimento.

Os seus escritos são dialógicos, reescritas, ressonâncias. Reescritas de Saint-John Perse, diálogo com Faulkner, Césaire, Hegel, Segalen, Leiris, Deleuze, etc. Mesmo quando interpelava Barack Obama, em A intraitable beauté du monde (A inefável beleza do mundo), ele era um poeta. Aliás, o título deste opúsculo foi inspirado por Char: “Dans nos ténèbres, il n’y a pas une place de la beauté. Toute la place est pour la beauté.” E de Césaire: “La justice écoute aux portes de la beauté.” Esta celebração da beleza como terceira forma do conhecimento do mundo, para retomar a feliz fórmula de Paz, tornou-se a preocupação essencial de Glissant nos seus últimos anos.

Não admira que a última obra que nos deixa seja, afinal, uma antologia da poesia de Todo-Mundo, glorificando a terra, o fogo, a água e os ventos.

 

Retirado do site Africultures

 

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