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Fragmentos de uma nova História – Zanele Muholi

O continente africano permaneceu esquecido da história da fotografia até à década de 90 do século XX, e só então começa a surgir no cenário internacional ou mais precisamente a fazer-se notar no Ocidente. Entre outros acontecimentos, é neste período que nasce a Bienal de Fotografia de Bamako no Mali, também chamada Encontros Africanos de Fotografia. Este evento tornou-se uma referência na fotografia realizada por africanos e funciona ainda hoje como uma plataforma essencial, tanto para os fotógrafos do continente como para os da diáspora, disseminando as suas imagens e contribuindo para ampliar a paisagem visual do contexto internacional.

Esta colecção concentra-se no olhar de algumas das mulheres que participam na Bienal. Uma colecção que se define segundo dois objectivos: colocar a fotografia africana no contexto global – torná-la parte do todo e não parte do resto; e dar visibilidade à fotografia realizada por mulheres africanas. Esta colecção procura destruir as barreiras de uma dupla invisibilidade, olhando as construções narrativas destas mulheres e assim multiplicando as formas de ver, numa tentativa de alargar e ampliar as nossas próprias perspectivas.

Se, como afirma Susan Sontag, a fotografia oferece uma nova gramática do olhar1 urge, para enriquecer o nosso vocabulário fotográfico presente, incorporar a obra produzida por fotógrafas africanas. Se é possível afirmar que a partir da década de 90 muitos países começaram a destronar as suas visões narcisistas do mundo e a incluir novos fragmentos nesta história redigida com luz, podemos igualmente afirmar que são muito poucos os que tentaram e persistem em abrir as portas da linguagem fotográfica, integrando os olhares com peculiares visões do mundo.

Falamos de olhares e não de “outros” olhares para que se situe a fotografia africana no mapa da fotografia mundial sem cair nos lugares comuns da fotografia nem nos estereótipos vigentes. Para podermos verdadeiramente apreciar essa multiplicidade de discursos e pontos de vista que nos é oferecida por cada fotógrafo, devemos abolir a alteridade dos discursos e evitar objectivar e etiquetar todo um continente e a sua imensa variedade de pessoas. Devemos mergulhar na história e tentar perceber o contexto que deu origem a cada imagem. Devemos entender que as identidades culturais não são fixas, eternamente suspensas “num qualquer passado essencial, que estão sujeitas ao jogo contínuo da história, da cultura e do poder”2. Só através da destruição destas construções poderemos afastar-nos de deduções simplistas. 

Thembi Nyoka, 2007. Zanele Muholi.Thembi Nyoka, 2007. Zanele Muholi.Amogelang Senokwane, 2009. Zanele Muholi.Amogelang Senokwane, 2009. Zanele Muholi.

A realidade é que estas mulheres e homens africanos rescreveram as suas histórias e a História com as suas próprias palavras e imagens. E é precisamente esse o caso da fotógrafa sul africana Zanele Muholi, com quem iniciamos esta colecção.

A obra de Zanele Muholi é, segundo as suas próprias palavras, um trabalho de “activismo visual”. Todo o seu empenho e luta, de carácter profundamente político, consiste em dar visibilidade à comunidade negra de lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e intersexuais.

 Muholi  sente-se emocionalmente ligada a esta comunidade à qual pertence e pela qual luta e revê a sua própria construção identitária, conseguindo, através das suas imagens, romper com alguns estereótipos e ideias fixas que perduram, não só no nosso imaginário ocidental, como no seu país, a jovem democracia sul-africana, bem como no continente africano em geral.

As imagens de Muholi colocam em primeiro plano mulheres negras, lésbicas, sul-africanas ou de outros países, mulheres de todo o espectro social, indicando-nos que a comunidade retratada é composta por uma multiplicidade de identidades. Coloca em primeiro plano uma série de seres humanos – todos elas participantes voluntárias nas suas fotografias e com as quais mantém uma relação de proximidade – que participam na vida política, económica e social dos seus respectivos países: vivem, existem, mas nem por isso, como denuncia Muholi, fazem parte da história oficial. 

Esta é uma das maiores batalhas da fotógrafa: desafiar a hegemonia existente rescrevendo uma história visual que se encontra dominada por uma visão etnocêntrica  e patriarcal, e que continua a articular-se através de um pensamento heteromasculino etiquetando as lésbicas negras como as “outras”.

Martin Machapa, 2006. Zanele Muholi.Martin Machapa, 2006. Zanele Muholi.

É necessário enquadrar a luta que Zanele Muholi empreende com a comunidade LGTBI na realidade sul africana pós-apartheid a que pertence. Uma sociedade em mutação e transformação em que uma geração de jovens, na qual se insere Muholi, luta por subverter a ordem estabelecida e reclama novas formas de representação. Zanele Muholi nasceu numa township, no seio de uma família trabalhadora, e sempre lutou por viver como lésbica negra numa país que passou da luta violenta anti-apartheid à reconciliação com o seu opressor na construção de uma transição democrática. Desde jovem que Muholi participa em movimentos de direitos humanos, implicando-se como activista lésbica sul-africana e experimentando a fotografia. Frequenta um curso no Market Photo Workshop, escola fundada por David Goldblatt no final da década de 1980 como resposta ao apartheid e que se dedica a formar jovens fotógrafos excluídos do percurso formativo tradicional.

O espírito favorável que encontrou na escola impeliu-a a desenvolver o seu “activismo visual”, a fazer da fotografia um estímulo, um acto de militância que alerta para a tripla exclusão que as lésbicas negras da África do Sul suportam, forçadas a lutar contra o racismo, o sexismo e o patriarcado. Uma discriminação múltipla que se torna óbvia quando Zanele Muholi fotografa mulheres forçadas a viver as chamadas violações “curativas” perpetradas contra mulheres, pelo simples facto de serem lésbicas e com o intuito de as reconduzir à “boa” conduta heterossexual através do crime de violação. Muholi denuncia, mas sobretudo – e aí reside a força das suas fotografias – não coloca estas mulheres no papel de vítimas, pelo contrário, apresenta cada uma delas como sujeitos plenos. O valor do seu trabalho reside grandemente na capacidade de não objectivar a pessoa retratada, mas documentar de forma subjectiva cada ser humano oferecendo um incrível arquivo com inúmeras perspectivas sobre a vida destas mulheres. Munidas de identidades únicas, estas mulheres são retratadas individualmente como personagens centrais desta gradual reconstrução duma nova e contemporânea imagem visual de África e África do Sul, destruindo os mitos de que a homossexualidade não é uma realidade africana, mas algo importado.  

Em toda a África persiste a ideia de que a homossexualidade é uma praga trazida pelo homem branco do ocidente e em muitos países continua ferozmente a ser perseguida. Apesar da Constituição Sulafricana de 1996 ser considerada como uma das mais “progressivas” em todo o continente africano por proteger os direitos sexuais, a heterossexualidade continua a ser uma opção priveligiada face às restantes. Simultaneamente, o Ocidente, obcecado com a imagem da “África autêntica”, não consegue conceber a ideia de duas mulheres negras apaixonadas, pois isso é algo que simplesmente não cabe no imaginário que têm do continente.

O seu trabalho de registo, ao recompilar a história destas mulheres e rescrevendo as suas próprias experiências, não se compõe unicamente das suas lutas empenhadas, da sua coragem quotidiana, dos seus sofrimentos, das suas perdas, das suas mutilações internas e externas, mas também e fundamentalmente do amor presente em cada uma delas. A obra de Muholi transborda de sensibilidade, intimidade e sentimento, mas é sobretudo prenunciadora. Desta forma abre-nos a sua vida – as suas vidas – partilha connosco os seus momentos de felicidade e de cumplicidade, engrandecendo as relações destas mulheres e, principalmente, multiplicando os fragmentos de uma história que se escreve diariamente.

A obra de Zanele Muholi, lado a lado com as imagens das outras fotógrafas que integram esta colecção, são “fragmentos (que) se unem, se complementam (…) versos privilegiados que se fixam e se desmarcam bruscamente da desordem da linguagem privada do sentimento”. São “a história desse prodigioso crescimento das estrelas”.3

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MASASAM. Proyectos de Comisariado  Sandra Maunac y Mónica Santos 

link livro

  • 1. Sontag, Susan Sobre la fotografia. Nuevas Ediciones de Bolsillo, Barcelona, 2088. p.13.
  • 2. Hall, Stuart. “Cultural, Identity and Diaspora”. En: Identity. Community, Culture, Difference. Ed. por Jonathan Rutherford. Lawrence and Wishard, Londres, 1990, p. 225.)
  • 3. Benjamin, Walter. Breve historia de la fotografía. Casimiro Libros, Madrid, 2011. p. 59.

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