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Logo Depois Da Vírgula

No inverno de 2010, em paralelo ao desenvolvimento do projeto Logo depois da Vírgula, escrevi o Traité du puit essouflé1. Porque pretendia fazer um texto abissológico, fui buscar ao inferno de Dante a sua estrutura abissal: um poço em forma de cone, que desce até ao centro da terra e cujo interior é dividido em degraus de tamanho progressivamente menor quanto mais se aproximam do fundo. Alguns destes degraus são divididos em Giron, espécie de porção de cilindro onde cada tipo de pecado é tratado da maneira que melhor lhe convém. O texto principal do Traité du puit essouflé é o próprio poço e acaba com o desapa-recimento de um dos personagens dentro de um copo de água, mais exatamente na letra “O” do composto “H2O”. Os círculos sucessivos que rodeiam o inferno são as notas de rodapé e os Girons são as metanotas (notas de notas) e as metametanotas (notas de notas de notas). É um texto que se ramifica do centro para a periferia, onde cada palavra escolhida dá origem a um outro texto e a outras entradas possíveis. Assim é este que agora vos apresento.

O texto principal é uma crónica, história que expõe os factos em narração simples e segundo a ordem em que eles vão acontecendo. É, ao mesmo tempo, um hypomnemata2:termo grego que designa auxiliares de memória como livros de contas, registos públicos ou cadernos individuais. A este texto, que assim se desdobra, acrescentei notas de rodapé3, comentários e textos mais específicos sobre temáticas diversas que são como troncos, cipós, epífitas, ramos, atalhos, veredas e bifurcações com que recheio4 o corpo do texto, mas ao contrário: do avesso.

A este conjunto, de morfologia vegetal, juntarei também a história de Honi, o traçador de círculos, personagem de ficção que me acompanha há já algum tempo e que me substitui nos desenhos como um doublé. Inspirados no deserto, estes textos vão fechar o conjunto. Só me falta saber qual é o lugar das ilhas, que têm a vantagem de não precisarem de nada que as sustente e de não estarem ligadas senão aos arquipélagos e aos continentes através do fio ténue da migração dos pássaros, dos peixes e das correntes. Estes caminhos, como linhas de perspetiva, apareceram nas áleas dos dias, nos acasos das leituras e formaram, a pouco e pouco, um conjunto de paisagem, um arquipélago de ilhas desertas e solitárias – o lugar onde: 
“Não se opera a própria criação a partir da ilha deserta, mas a re-criação, não o começo, mas o re-começo. Ela é a origem, mas origem segunda. A partir dela tudo recomeça.”5

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 Principium e Mapa Múndi, desenho de Mattia Denisse, 2011. Grafite sobre papel. Principium e Mapa Múndi, desenho de Mattia Denisse, 2011. Grafite sobre papel.

  • 1. Por encomenda da Sociedade Internacional de Abissologia. (texto que permanece inédito).
  • 2. Foucault concebia-o como escrita de si, como uma modalidade da constituição de si.
  • 3. E de canopé (dossel).
  • 4. Esta expressão é emprestada de Montaigne que, no capítulo “Que Philosopher, c’est apprendre à mourir”, de Os ensaios, fala das suas citações como de um recheio: “Il y paraît, à la farcissure de mes exemples…” [Torna-se evidente, ao recheio dos meus exemplos…] Montaigne, Michel de. Les essais (1580). Paris, Le Livre de Poche, 2001, vol. 1, p.136.
  • 5. Deleuze, Gilles. A ilha deserta e outros textos. Textos e entrevistas (1953-1974), trad. Luiz B.L. Orlandi. São Paulo, Editora Iluminuras, 2005. p. 13.

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