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Luís Lopes de Sequeira, o “mulato dos prodígios” ou o mulato dos discursos coloniais, nativistas e nacionalistas sobre Angola

O carácter enigmático da figura de Luís Lopes de Sequeira

Filho de mãe angolana e do capitão português de infantaria Domingos Lopes de Sequeira, o mestiço Luís Lopes de Sequeira (Luanda?, c. 1634? – Katole/Kassanje, 1681) é uma figura enigmática que assumiu na historiografia sobre Angola diversas representações, as quais nos propomos analisar neste estudo. 

Se exceptuarmos as referências pontuais constantes de cartas de governadores de Angola aos reis de Portugal e alguns documentos do Arquivo Histórico de Angola – nomeadamente relatórios dos mesmos governadores -, as escassas fontes escritas acerca do percurso biográfico de Luís Lopes de Sequeira utilizadas pelos historiadores e por alguns ficcionistas são essencialmente quatro: as crónicas coevas de António de Oliveira de Cadornega (Vila Viçosa/Portugal, c. 1623 – Luanda/Angola, c. 1690), reunidas nos três volumes de História Geral das Guerras Angolanas (1680-1681) e escritas, portanto, em meados do século XVII; os dois volumes da História de Angola de Elias Alexandre da Silva Corrêa (Rio de Janeiro, 1753 -?), redigidos no último quartel do século XVIII; as Memórias do oficial de infantaria J. C. Feo Cardoso de Castelo Branco e Torres, publicadas em 1825; e o Ensaio sobre a statística d’Angola e Benguella e suas dependências na costa occidental d’Africa ao Sul do Equador do diplomata e administrador colonial José Joaquim Lopes de Lima (Porto, 1797 – Batávia, 1852), publicado em 1846.

Após a extinção, pela política repressiva de Norton de Matos, em 1923, da imprensa livre, que proliferara em Angola desde meados do século XIX, a Liga Nacional Africana, criada em Luanda 1930 – o mesmo ano em que é aprovado em Lisboa o Acto Colonial, principal documento jurídico de valor constitucional que regulou a política colonial do Estado Novo salazarista -, congrega intelectuais da burguesia nativista angolana que vão manifestar-se, quer através da publicação Angola, órgão oficial da associação, quer de O Direito, jornal da propriedade de alguns dos associados. Um deles, o jornalista e escritor António de Assis Júnior (Luanda, 1887 – Lisboa, 1960), procurando reivindicar para os letrados angolanos um estatuto de cidadãos portugueses equiparável ao dos metropolitanos, apela aos seus congéneres, em artigos publicados em O Direito durante os anos de 1932 e 1933, no sentido da contribuição financeira para a erecção em Luanda de monumentos a quatro ilustres figuras históricas (OLIVEIRA, 1997, p. 258-266). A principal era o rei D. Afonso Henriques (1109-1185), fundador da Pátria portuguesa, a quem efectivamente foi consagrada uma estátua, inaugurada em finais da década num largo de Luanda que ocupa parte do antigo musseque do Quibando (LOBO, 1967, p. 255). As outras três figuras tinham a particularidade de se tratar de mestiços ou, segundo a expressão de Assis Júnior, de “filhos da terra”: José de Fontes Pereira (1824-1891), o mais lúcido e o mais radical dos intelectuais angolanos do século XIX, que chegou a reivindicar extemporaneamente a independência total de Angola, assim como a participação dos Estados africanos na Conferência de Berlim (LOPO, 1964, p. 76-79); Geraldo António Victor (1835-1894), filho de napolitano, que se distinguiu como comandante militar do exército português em 1874, durante as revoltas dos sobas de Ambaca e do Duque de Bragança, assim como em campanhas em São Tomé e na Guiné em 1882; finalmente, o já longínquo seiscentista Luís Lopes de Sequeira. 

Destas três figuras, só Luís Lopes de Sequeira veio, de facto, a dar nome a um largo da cidade, no lugar da baixa luandense onde outrora se situara a fortaleza de Nossa Senhora da Guia. Embora popularmente o largo tenha sido conhecido, desde sempre, pela designação popular Largo do Atlético – por referência ao Clube Atlético de Luanda e Saudade, fundado em 1924 por António de Assis Júnior e por outros futuros membros da Liga Nacional Africana, num tempo em que os negros não podiam inscrever-se no Clube Naval de Luanda -, manteve, mesmo após a Independência, na parede de um dos prédios que o enquadram, no canto sudoeste, os azulejos com o dístico LARGO DE LUIZ LOPES DE SEQUEIRA (VENCEDOR DO AMBUÍLA SÉCULO XVII). No centro do largo foi instalado um pedestal encimado por um canhão evocativo da batalha de Ambuíla, o qual, aliás, seria destruído após a Independência, em 1975. Permanece, contudo, um mistério: porque é que, em vez do canhão, não foi esculpida uma estátua representando Luís Lopes de Sequeira? Será que tal se deve ao facto de o homenageado se tratar de um mulato?      

Azulejos indicativos do Largo Luís Lopes de Sequeira (ou do Atlético), inaugurado na baixa de Luanda nos anos de 1930, no lugar da antiga fortaleza de Nossa Senhora da Guia, por iniciativa da Liga Nacional Africana. foto de Marta Lança.Azulejos indicativos do Largo Luís Lopes de Sequeira (ou do Atlético), inaugurado na baixa de Luanda nos anos de 1930, no lugar da antiga fortaleza de Nossa Senhora da Guia, por iniciativa da Liga Nacional Africana. foto de Marta Lança.As transformações dos paradigmas do sentimento de nativismo angolano sofridas nos anos de 1930 viabilizaram também a publicação, em 1932, de duas obras homónimas consagradas à História de Angola, ambas da autoria de funcionários pertencentes à pequena burguesia mestiça: Alberto de Lemos e Francisco Castelbranco. No entanto, na década de 1940 e a pretexto da preparação das comemorações do tricentenário da “Restauração de Angola”, a 15 de Agosto de 1948, emerge uma historiografia que visa servir ideologicamente o colonialismo português, de onde se destacam a História de Angola de Ralph Delgado, publicada em 1948, e os ensaios de Gastão Sousa Dias, particularmente as suas obras Julgareis qual é mais excelente… (1948) e Os Portugueses em Angola (1959). Tendo estes quatro historiadores partido, em princípio, das fontes acima indicadas acerca da figura de Luís Lopes de Sequeira, que diferenças de perspectivas – se é que existem algumas – haverá a salientar entre os nativistas Alberto de Lemos e Francisco Castelbranco e os colonialistas Ralph Delgado e Gastão Sousa Dias? Haverá, a respeito de Luís Lopes de Sequeira, uma representação nativista contraposta a uma representação colonialista?

Finalmente, podemos ainda interrogar-nos sobre se classificamos ou não uma última representação de Luís Lopes de Sequeira como nacionalista. É a que resulta da análise da peça de teatro Sequeira, Luís Lopes ou o Mulato dos Prodígios, escrita em 1991 e levada à cena em 1993 pelo escritor e dramaturgo angolano José Mena Abrantes (Malanje, 1945). Neste texto, o autor, partindo da documentação e da historiografia colonial e socorrendo-se de saltos no tempo pela via da intervenção do sobrenatural, interroga-se sobre o que levou à morte em combate de Luís Lopes de Sequeira e sobre em que medida é que este homem, que derrotou os principais Estados que se opunham à penetração colonial portuguesa (Congo-1665, Ndongo-1671 e Matamba-1681), tinha ou não consciência da existência de uma futura nação angolana.

As origens e as façanhas de Luís Lopes de Sequeira segundo o seu contemporâneo António de Oliveira de Cadornega, cronista do século XVII: a batalha de Ambuíla (1665), a batalha de Mpungu-a-Ndongo (1671) e a campanha do Libolo (1679) 

O primeiro autor a dar notícia da família Lopes de Sequeira é António de Oliveira de Cadornega (Vila Viçosa/Portugal, c. 1623 – Luanda/Angola, c. 1690), um cristão-novo fugido à Inquisição portuguesa que, aos quinze anos de idade e acompanhado de um irmão, desembarca em Luanda a 18 de Outubro de 1639, integrado na comitiva do recém-nomeado governador Pedro César de Menezes. Seguiria a carreira militar até ao posto de capitão, cuja patente obteve a 29 de Janeiro de 1649, concedida pelo governador Salvador Correia de Sá e Benevides. Na sequência da invasão holandesa de Agosto de 1641, Cadornega acompanha a população luandense no seu êxodo massivo para Massangano, povoação onde permanecerá depois da “Restauração” do domínio português em Luanda – protagonizada por Salvador Correia de Sá em 1648 – até 1669, desempenhando as funções de juiz ordinário (AMARAL, 2000, p. 43-46). Uma vez regressado a Luanda, onde foi vereador da Câmara até à sua morte, provavelmente em 1690, Cadornega concluiu em 1681 os três tomos da sua História Geral das Guerras Angolanas (1680-1681)

É no primeiro volume desta obra de Cadornega que ficamos informados de que, em Novembro de 1643, durante uma trégua entre os holandeses de Luanda e os portugueses de Massangano, o governador interino António Abreu de Miranda envia a Lisboa, a pedir reforços ao rei de Portugal contra os flamengos, o capitão português de infantaria Domingos Lopes de Sequeira, pai de Luís Lopes de Sequeira (CADORNEGA, 1972, Vol. I, p. 322-324). De Lisboa, Domingos Lopes de Sequeira logra seguir para o Brasil, onde, em São Salvador da Baía, consegue obter um exército de duas centenas de homens, que zarpa da costa brasileira com rumo a Angola a 8 de Fevereiro de 1645. Esta expedição, todavia, estava votada a um destino trágico, pois, havendo desembarcado em terras angolanas a 12 de Abril – algures perto de Benguela, uma vez que a crónica refere que a tropa se embrenha pelos territórios compreendidos entre os rios Cuvo e Longa -, viria a ser totalmente massacrada, a 19 de Junho, pelos guerreiros do soba Ngunza-a-Kissama (CADORNEGA, 1972, Vol. I, p. 358-359), provavelmente vassalos da rainha Njinga Mbandi (c.1582-1663), ao tempo confederada havia mais de dez anos, quer com os soberanos da Matamba e do Kongo, quer com os holandeses. Sobreviveram apenas, para dar testemunho da tragédia, os soldados André Soares e Toar, sendo este último um mercenário índio tupi-guarani.

Um pormenor curioso é que, nesta passagem do seu texto, Cadornega evidencia, entre os haveres encontrados junto ao cadáver de Domingos Lopes de Sequeira, dois documentos lavrados por D. João IV, rei de Portugal, mencionando duas filhas do desventurado capitão:

“ […] e muitos que pereceram naquele desbarato, traziam outros despachos de sua Liberal e grandiosa mão […] Domingos Lopes de Sequeira com o posto de Sargento-Mor à Fortaleza de Massangano por seis anos para quem casasse com sua filha, e a Provedoria dos defuntos e ausentes para outra filha, que ambas gozarão estas mercês com os maridos com quem casarão” (CADORNEGA, 1972, Vol. I, p. 359).

Ficamos, por esta via, a saber que o “Mulato dos Prodígios” tinha, pelo menos, duas irmãs. Em contrapartida, permanecem misteriosas, quer a identidade da sua mãe, quer a sua data e localidade de nascimento. No que diz respeito à mãe de Luís Lopes de Sequeira, tratava-se decerto de uma mulher negra, embora não necessariamente de uma escrava, como o ficciona José Mena Abrantes, podendo ter sido, com toda a probabilidade, uma parente de um chefe político com o qual Domingos Lopes de Sequeira, como aliás era frequente entre os oficiais portugueses, houvesse celebrado, pela via matrimonial, uma aliança com vista à salvaguarda de interesses políticos, económicos e militares.

Quanto ao nascimento de Luís Lopes de Sequeira, presumimos, tal como Mena Abrantes, que tenha ocorrido em Luanda no ano de 1634 ou no de 1635. Apoiamo-nos apenas na informação segundo a qual o jovem angolano se alistou como alferes na companhia de Jorge da Silva a 12 de Fevereiro de 1649 (Arquivos de Angola, vol. IV, p.3, apud DIAS, 1948, p. 149). Luís Lopes de Sequeira seria, pois, por essa altura – apenas seis meses volvidos sobre a “Restauração” de Angola aos holandeses por Salvador Correia de Sá -, um adolescente de cerca de quinze ou dezasseis anos, idade na qual a maioria dos mancebos assentava praça. Logo, admitimos que em 1641, a quando da ocupação de Luanda pelos flamengos, tenha seguido para Massangano ainda criança, acompanhando os pais no êxodo da população luandense para aquele presídio.

António de Oliveira de Cadornega, mais velho do que Luís Lopes de Sequeira apenas cerca de dez anos, tem a particularidade de ter sido o único cronista de Angola seu contemporâneo e a conhecê-lo pessoalmente. Por este motivo, a obra de Cadornega é inegavelmente a principal fonte narrativa de três das quatro campanhas militares em que Luís Lopes de Sequeira se distinguiu: a batalha de Ambuíla (1665), a batalha de Mpungu-a-Ndongo (1671) e a campanha do Libolo (1679). O incansável judeu alentejano, contudo, já não relata a campanha da Matamba, realizada ao longo de 1681, uma vez que foi nesse mesmo ano que deu por concluídos os três volumes da sua obra.

Os antecedentes do que virá a ser a batalha de Ambuíla verificam-se no início do ano de 1664, o terceiro do governo do brasileiro André Vidal de Negreiros (mandato 1661-1666), e Cadornega não os acompanha de perto, pois por essa época ainda reside em Massangano, onde exerce as funções de juiz ordinário, só se instalando definitivamente em Luanda cinco anos depois. Daí que se revele algo confuso no que diz respeito às datas e à articulação da cronologia (CADORNEGA, 1972, Vol. II, p. 204-217), pelo que se torna imprescindível a consulta às notas que, sobre o seu texto e com base na correspondência do governador de Angola com o rei de Portugal, elaborou o seu anotador, o cónego José Matias Delgado (CADORNEGA, 1972, Vol. II, p. 523-526, notas nº 56 a 61). É nos primeiros meses de 1664 – portanto, por coincidência, logo após o falecimento da rainha Njinga Mbandi, ocorrido em Dezembro do ano anterior -, que o duque (ou dembo) do Uando, vassalo do rei do Kongo D. António I Manimulaza, no trono desde 1661, envia ao governador de Luanda um mensageiro dando notícias acerca de alegadas minas de ouro e de cobre localizadas em território conguês. Entendendo que o soberano do Kongo, ao ocultar a existência de tais jazidas, desrespeitava o tratado de paz assinado em 1649 pelo seu antecessor D. Garcia II Afonso-Nkanga-a-Lukeni (reinado 1641-1652) com o então governador Salvador Correia de Sá (mandato 1648-1652), André Vidal de Negreiros apressou-se a encarregar o já então capitão-mor Luís Lopes de Sequeira de se deslocar ao local a fim de recolher amostras das ditas minas, o que, segundo Cadornega, veio efectivamente a acontecer. Permanece misteriosa a razão pela qual o duque de Uando traiu o seu soberano e se acoitou junto dos portugueses, mas o certo é que estes se viram impedidos por D. António I Manimulaza de efectuarem as pretendidas prospecções nas quiméricas minas de ouro e cobre e, consequentemente, impelidos a declarar-lhe guerra.

A batalha de Ambuíla – sobado situado a sul do rio Dande e, tal como o ducado do Uando, já sob a vassalagem dos portugueses – travou-se no vale do rio Ulanga a 29 de Outubro de 1665. Cadornega exagera na disparidade de litigantes, pois fala de 100000 homens armados do lado de D. António I e dos seus aliados – os duques de Mbamba, de Mbata e do Sundi, o conde do Soyo (ou Sonho) e os marqueses de Bumbi e Pemba – contra apenas 400 do lado das forças portuguesas, comandadas por Luís Lopes de Sequeira. Estudos recentes, contudo, indicam que a componente conguesa incluía cerca de 15 000 arqueiros camponeses,  cerca de 5 000 soldados de infantaria pesada equipados com escudos e espadas, e um Regimento de mosquetes de 380 homens, 29 dos quais portugueses, liderados por Pedro Dias Cabral, enquanto o lado português era composto, pelo menos, por 450 mosqueteiros e duas peças de artilharia, além de cerca de 1 500 soldados, entre os quais mercenários, quer brasileiros brancos e índios, quer ainda imbangalas (os chamados jagas) (THORTON, 1998). Os congueses não conseguiram quebrar a formação portuguesa e, na investida final, D. António I foi morto e decapitado, sendo a sua cabeça – assim como a coroa de prata revestida de pedrarias, outrora oferecida pelo Papa Inocêncio X – transportada para Luanda, onde foi depositada com solenidade na recentemente erguida Igreja da Nazaré. 

A querela de Mpungu-a-Ndongo (ou Maupungo ou Pungo Andongo) é indissociável da disputa centenária travada entre os portugueses e os mbundu pelo controle da rota comercial do escravo entre o interior e o litoral angolano, particularmente ao longo do corredor do rio Cuanza. Desde 1575, data da sua instalação oficial na região, que os portugueses conseguiram, pela via de acordos de vassalagem com os chefes africanos locais, erigir uma rede de sete presídios, entrepostos comerciais fortificados: São Paulo de Luanda (1575); Santa Cruz ou Calumbo (1578); Mocumbe (1580); Massangano, na confluência dos rios Cuanza e Lucala (1583); Muxima (ex-Sêxi) (1599); Cambambe (perto da antiga feira do Dondo) (1604); e Ango (ou Pemba Real, mais tarde Ambaca) (1614). Em 1626, por iniciativa do governador Fernão de Sousa (mandato 1624-1630), os portugueses logram reforçar o presídio de Ambaca, ameaçado pela então temível rainha Njinga Mbandi, e reactivar a antiga feira de escravos de Mpungu-a-Ndongo, avassalando D. Filipe Ngola Airi, um parente bastardo dos soberanos mbundu, que proclamam rei de um fictício Estado do Ndongo sob o nome de Filipe I, Senhor das Pedras do Maupungo (CADORNEGA, 1972, Vol. I, p. 139-143). Filipe I manter-se-ia um aliado fiel dos portugueses durante dois períodos críticos distintos: os vinte e dois anos que antecederam 1648, marcados pela coligação hostil de Njinga Mbandi com a Matamba, com o Kongo e, nos últimos sete anos, com os holandeses, e os anos que se seguiriam a esta data, nos quais se assiste ao desmantelamento progressivo desta aliança, ao ponto de a própria Njinga Mbandi aderir ao cristianismo e estabelecer relações diplomáticas e comerciais com Luanda em 1656, abdicando das suas pretensões ao controle dos presídios de Ambaca e Mpungu-a-Ndongo. Porém, o desaparecimento da rainha em 1663 viabilizou que no ano seguinte, a quando da morte de D. Filipe I e da sucessão de D. João Ngola Airi, Mpungu-a-Ndongo se tornasse alvo dos interesses do sucessor de Njinga no trono da Matamba, o seu cunhado António Carrasco Jinga Amona, e ainda de Ngunza, o soberano do Libolo. Os assaltos e saques aos comerciantes portugueses que, por sua instigação, D. João Ngola Airi foi perpetrando ao longo de anos contra comerciantes portugueses acabaram por desencadear, em 1671, a declaração de guerra por parte do jovem governador de Luanda, Francisco de Távora (mandato 1669-1676). 

Luís Lopes de Sequeira desempenhava ao tempo as funções de capitão-mor de Ambaca, o presídio mais próximo de Mpungu-a-Andongo e o mais cobiçado pelos três soberanos africanos. Foi, por isso, destacado para dirigir um cerco às Pedras de Maupungo, que se prolongou entre os meses de Agosto e de Novembro. Não havendo D. João Ngola Airi, durante este período, manifestado o menor desejo de capitulação, Luís Lopes de Sequeira decidiu atacar o reduto durante a noite, escalando com os seus homens as estranhas formações rochosas e pondo em fuga o inimigo em direcção ao Cuanza. Foram-lhe então atribuídas as palavras “Entra lá o Sol? Pois eu também lá hei-de entrar…”, assim como aplicados os apodos “terror do gentio” e “Atlante das conquistas”. Sequeira perseguiu D. João Ngola Airi até às margens do Cuanza, onde o capturou e mandou decapitar no próprio local (CADORNEGA, Tomo II, p. 298-301). Com este feito e com a construção de uma fortaleza, Luís Lopes de Sequeira inaugurava o oitavo presídio português da rede comercial do Cuanza.

A disputa pelo controle do corredor do “rio de Angola” continuou, contudo, mesmo depois do desmantelamento da coligação da Matamba, a acirrar os soberanos africanos, particularmente os montanheses do Libolo, região do antigo reino do Ndongo situada a sul do Cuanza e vizinha das savanas da Kissama. A par de outros comandantes militares que combatiam do lado dos portugueses, Luís Lopes de Sequeira veio igualmente a distinguir-se na campanha do Libolo, a qual, por iniciativa do governador Aires Saldanha de Menezes (mandato 1676-1680), prosseguiu ao longo de todo o ano de 1679 e submeteu ao domínio de Luanda a maioria dos sobas desta região (CADORNEGA, Vol. II, p. 384-435). 

O mito da vitória de Luís Lopes de Sequeira em Ambuíla em 1665 e da sua morte em Katole em 1681 segundo os historiadores vindouros: o brasileiro Elias Alexandre da Silva Corrêa (último quartel do século XVIII); os nativistas Alberto de Lemos e Francisco Castelbranco (1932); os colonialistas Ralph Delgado e Gastão Sousa Dias (1948).             

A fonte narrativa mais remota para o relato da campanha da Matamba, esse empreendimento militar onde Luís Lopes de Sequeira perderia a vida – durante a batalha de Katole, a 4 de Setembro de 1681-, mas que a historiografia colonial elege como o encerrar do ciclo da “Conquista do Reino de Angola”, uma vez que dele sai derrotado D. Francisco Guterres Ngola Kanini, sucessor legítimo da famosa rainha Njinga Mbandi e vencedor do usurpador António Carrasco Jinga Amona, é a História de Angola de Elias Alexandre da Silva Corrêa (Rio de Janeiro, 1753-?). 

Aqui figurava um canhão evocativo da Batalha de Ambuíla (1665), que figurou no Largo Luís Lopes de Sequeira, em Luanda, até ser destruído em 1975, por ocasião da Independência, mantendo-se a base sem cabeça. Subsiste um mistério porque é que, em vez do canhão, não foi esculpida uma estátua representando Luís Lopes de Sequeira? Será que tal se deve ao facto de o homenageado se tratar de um mulato? foto de Marta LançaAqui figurava um canhão evocativo da Batalha de Ambuíla (1665), que figurou no Largo Luís Lopes de Sequeira, em Luanda, até ser destruído em 1975, por ocasião da Independência, mantendo-se a base sem cabeça. Subsiste um mistério porque é que, em vez do canhão, não foi esculpida uma estátua representando Luís Lopes de Sequeira? Será que tal se deve ao facto de o homenageado se tratar de um mulato? foto de Marta LançaO autor é um filho de portugueses natural do Rio de Janeiro que assenta praça no Regimento de Santa Catarina em 1771, seguindo depois para Lisboa, onde é alferes de infantaria durante quatro anos, sob a protecção de Martinho de Melo e Castro (1716-1795), Ministro e Secretário dos Negócios do Ultramar e da Marinha entre 1770 e 1795 e Primeiro-Ministro entre 1785 e 1786. Em 1775 parte como voluntário para Angola – participa da expedição que em 1783 estabelece a efémera fortificação militar de Santa Maria em Cabinda (CORRÊA, 1937, Vol. II, p. 81-82) -, ascendendo a capitão de granadeiros em 1788, sob os auspícios do Barão de Moçâmedes (governador de Angola entre 1784 e 1790). Presume-se que tenha regressado ao Brasil por ocasião do fim do mandato deste governador, em 1790, não se conhecendo qualquer informação a seu respeito depois de 1805 (MÚRIAS, 1937, p. V-XV).

Elias Alexandre da Silva Corrêa redige, decerto, a sua História de Angola durante a última década do século XVIII. A mais de cem anos de distância da batalha de Ambuíla (1665) e da campanha da Matamba (1681) e do destino que nestes acontecimentos coube a Luís Lopes de Sequeira – venturoso no primeiro e desditoso no último -, o historiador brasileiro reconstrói-os baseando-se, evidentemente, em arquivos da época, mas também em relatos orais que, entretanto, já haviam atravessado, pelo menos, quatro gerações. Sobre a batalha de Ambuíla, acrescenta dois pormenores interessantes no que diz respeito à descrição da contenda. O primeiro é o facto de, segundo o seu texto, ser o próprio Luís Lopes de Sequeira quem, em pleno campo de batalha e expondo-se às balas do inimigo, se evidencia dos seus homens para capturar e decapitar de um só golpe o rei do Kongo, cuja cabeça exibe vitoriosamente espetada numa lança (CORRÊA, 1937, Vol. I, p. 282). 

O segundo pormenor, que, tal como o primeiro – e conforme o próprio Elias Alexandre o reconhece, ao falar em “tradição” -, resulta de efabulações concebidas pela oralidade durante os cem anos que decorreram desde o desaparecimento de Luís Lopes de Sequeira, introduz em Ambuíla um elemento transcendental tendencialmente cristão:

“A tradição instrui de que os inimigos afirmavam haverem visto entre os portugueses uma formosíssima Mulher ministrar-lhes a pólvora e alentá-los na peleja” (CORRÊA, 1937, Vol. I, p. 282-283).

É tentador ver nestas palavras uma primeira aproximação alegórica da batalha de Ambuíla ao “milagre” de Ourique e da figura de Luís Lopes de Sequeira a D. Afonso Henriques, à qual, aliás, outras se seguiriam, nomeadamente as dos projectos de estatuária dos anos de 1930, preconizados por António de Assis Júnior.

A campanha da Matamba, que culminaria com a vitória dos portugueses em Katole em Setembro de 1681, constitui, tal como os outros conflitos bélicos em que se distinguiu Luís Lopes de Sequeira, uma consequência do desmantelamento progressivo da confederação entre os Estados do Ndongo e da Matamba – ou seja, entre os povos mbundu e imbangala -, concebida pela rainha Njinga Mbandi em 1631, fenómeno que se vinha operando desde a saída dos holandeses de Angola, em 1648. Desde que capitulara com os portugueses e acolhera os missionários capuchinhos italianos na sua capital em Uamba, em 1657, que Njinga Mbandi, sem descendência directa, projectava a sua sucessão por intermédio de uma aliança de parentesco com uma linhagem mbundu cujo chefe era um indivíduo chamado João Guterres Ngola Kanini, em detrimento de uma linhagem imbangala – provavelmente aparentada com o jaga da Matamba – liderada por António Carrasco Jinga Amona. Contudo, por morte da soberana, em 1663, a Igreja não aprovou o projecto de casamento de D. Bárbara Nkambu, irmã de Njinga, com João Guterres Ngola Kanini, alegando ser este já casado com uma mulher de Ambaca. D. Bárbara veio a desposar António Carrasco Jinga Amona, que reinou efectivamente na Matamba até ser morto em 1674, durante um período marcado por uma longa guerra civil na qual João Guterres perderia a vida em 1670, mas de que o seu filho Francisco Guterres Ngola Kanini sairia vencedor quatro anos depois. 

O reinado de Francisco Guterres na Matamba veio a ser perturbado pela aliança estabelecida em 1680 entre os seus vizinhos, os imbangala do Estado do Kasanje, e o governador português João da Silva e Sousa (mandato 1680-1684). As hostilidades perpetradas pelos homens de Francisco Guterres contra o jaga do Kasanje, assim como contra os comerciantes portugueses, levaram o governador português a declarar-lhe guerra e a enviar a Luís Lopes de Sequeira, então ainda a residir em Ambaca na qualidade de capitão-mor deste presídio, a ordem de organizar um exército constituído por

 “ […] 530 infantes [entenda-se peões], 37 Cavalos [entenda-se cavaleiros], 10 mil Arcos de gente preta, e muitos outros Sobados, destinados para a condução de Artilharia, bagagens, e mais petrechos de guerra” (CORRÊA, 1972, Vol. I., p. 302).

Após prolongada caminhada a partir de Ambaca, o exército acampa em Katole, a três dias de jornada da corte de Francisco Guterres. Contudo, na madrugada de 4 de Setembro de 1681, é surpreendido na retaguarda por um ataque do inimigo e pela propagação de um incêndio provocado pelos assaltantes. Luís Lopes de Sequeira consegue dominar a situação e orientar os seus lugares tenentes no sentido de as forças portuguesas saírem vencedoras da contenda, mas perde a vida trespassado por uma flecha. A descrição deste episódio por Elias Alexandre da Silva Corrêa é, porventura, o primeiro registo escrito da representação que, ao longo de cem anos e pela via da oralidade, vinha sendo construída em torno do estatuto de herói que coube a Luís Lopes de Sequeira, quer no tocante à sua reputação de invencibilidade, quer no que diz respeito ao mito sobre o seu enigmático assassínio:

“ […] e também morre, /que sensível perda /, o famigerado Sequeira, este ilustrado Comandante, terror dos Sertões, e honra dos Angolenses: contudo os portugueses vencem; e assim consegue o memorável e falecido Chefe ser o vitorioso até o fim dos seus dias; por que não gozem os inimigos a vaidade de vencer a quem jamais poderão competir. O seu Nome respeitado, ainda hoje é temido entre os bárbaros; e as suas Cinzas veneradas entre os brancos. […] A maior sensibilidade que sentiu a conquista portuguesa nasceu da presunção de que não foi inimiga mas sim traidora a flecha que, com pontaria certa, atravessou o Coração deste invicto Comandante, e o derrubou do Cavalo, subitamente morto. Efeitos, sem dúvida, da emulação e inveja sempre oposta ao valor e fortuna daquele famoso Homem, que não se podia lembrar do meio mais vil para um infame desafogo” [sublinhado nosso] (CORRÊA, 1972, Vol. I., p. 303).

Nem o texto de Elias Alexandre da Silva Correia, nem o único documento escrito anterior que se conhece sobre a morte de Luís Lopes de Sequeira, um relatório do governador João da Silva e Sousa datado de 18 de Março de 1682 – portanto, de seis meses depois da batalha de Katole -, são suficientemente claros sobre se a flecha que vitimou o “Mulato dos Prodígios” foi disparada pelas costas, isto é, à traição e do lado das forças portuguesas, ou se foi disparada de frente, ou seja, pelo inimigo. Em todo o caso, são ambos unânimes em reconhecer que a causa da morte do capitão-mor foi uma flecha e não uma bala. Assim sendo, na primeira hipótese, a da traição – a qual Elias Alexandre procura reforçar ao falar em “inveja” -, há que ter em conta que, do lado português, os únicos soldados munidos de arcos e flechas eram os componentes da chamada “Guerra Preta”, isto é, os mercenários africanos. A crer nesta possibilidade, a aludida “inveja” tanto podia provir dos africanos, um dos quais dispararia a flecha fatal, quanto dos portugueses, que poderiam ter encarregado um africano de ser o autor material do crime. Mas seria Luís Lopes de Sequeira efectivamente digno de “invejas”? Só a sua condição de mulato, de algum modo encarada como o seu calcanhar de Aquiles, poderia suscitar tais ambiguidades a seu respeito.

As ambiguidades em torno de Luís Lopes de Sequeira estendem-se, curiosamente, à segunda hipótese acerca da sua morte, a de ter sido causada pelo inimigo. Neste ponto, emerge uma terceira efabulação inusitada: a de que Luís Lopes de Sequeira poderia ter-se suicidado. O relatório do governador João da Silva e Sousa, que reproduzimos a partir de Ralph Delgado, para tal aponta:

“Contra as minhas advertências, passou a noite naquele sítio com tanto descuido, e sem prevenção, quando devia estar muito vigilante e cuidadoso pela vizinhança do inimigo em que se achava. Na madrugada de 4 do dito mês de Setembro de 1681, […] vendo o capitão-mor do campo naquele conflito que estava perdido, fez conveniência de se acabar de perder e mais tímido da vergonha que, escapando, havia de padecer, do que do horror da morte que se via ameaçar, precipitado se entregou às flechas do inimigo, adonde com poucas se acabou” (DELGADO, s.d. [1971], 4º Vol. p. 60, nota nº1). 

Como foram Luís Lopes de Sequeira e os episódios de Ambuíla e de Katole vistos pelos historiadores do século XX? No que diz respeito a fontes, os dois historiadores angolanos dos anos de 1930, Alberto de Lemos e Francisco das Necessidades Castelbranco, só tiveram acesso ao tomo II da obra de Cadornega, publicado em 1902, segundo o seu anotador, o cónego José Matias Delgado. Os outros dois volumes só veriam a luz do dia em 1940, oito anos depois do falecimento do próprio anotador. O mesmo é válido para a obra de Elias Alexandre da Silva Corrêa, que só veio a ser publicada em 1937, havendo até então o manuscrito permanecido inédito na Sociedade de Geografia de Lisboa. As fontes consultadas por Alberto de Lemos e por Francisco das Necessidades Castelbranco foram, portanto, preferencialmente as Memórias de J. C. Feo Cardoso de Castelo Branco e Torres, de 1825, e o Ensaio sobre a statística d’Angola e Benguella e suas dependências na costa occidental d’Africa ao Sul do Equador de José Joaquim Lopes de Lima, de 1846. A primeira destas obras, a de Feo Cardoso, inclui um catálogo anónimo dos governadores de Angola, datado de 1784, que aliás é citado amiúde por ambos os historiadores. Segundo o cónego José Matias Delgado, contudo, tal catálogo apresenta muitas similitudes com o texto de Elias Alexandre da Silva Corrêa. Delgado chega mesmo a desconfiar que o autor brasileiro seja um plagiador. Tratando-se ou não de plágio, tal é insuficiente para que se altere a nossa convicção de que datam do início do último quartel do século XVIII os primeiros registos escritos que reproduzem o que oralmente se efabulou em cem anos sobre a vida e a morte de Luís Lopes de Sequeira.

Alberto de Lemos, que ocupou lugares de destaque na administração de Luanda e teve particular intervenção, mesmo depois dos anos de 1930, na organização da Repartição de Estatísticas e do Arquivo Histórico de Angola, era um simpatizante avant la lettre das visões “luso-tropicalistas” ou “crioulizantes” da sociedade angolana e, enquanto tal, perspectivou uma História de Angola tendencialmente lusocêntrica (HENRIQUES, 1997, p. 98-99). A propósito de Ambuíla e de Katole, não hesitou em reproduzir a versão de Elias Alexandre da Silva Correia – lida em Lopes de Lima – nem em afirmar peremptoriamente que a morte de Luís Lopes de Sequeira foi causada por portugueses ínvidos:

“Mas o grupo português em que se encontrava o capitão-mor, e que se batia contra o do rei do Congo [em Ambuíla], não deixa escapar a ocasião. Desfaz a golpes de espada aquela muralha de dedicações e Sequeira dum só golpe decepa a cabeça de D. António I, que faz mostrar aos seus atónitos vassalos do alto dum pique. […] A batalha da Matamba [ou de Katole] (4 de Setembro de 1681) foi uma proeza incomparável. Perdeu nela a vida o maior cabo-de-guerra da conquista de Angola, o invencível Luís Lopes de Sequeira, que foi assassinado traiçoeiramente por mão portuguesa!” (LEMOS, 1932, p. 240 e p. 247).

Francisco das Necessidades Castelbranco, que também publica a sua História de Angola em 1932, é um homem mais velho do que Alberto de Lemos e pertence a uma burguesia angolana assumidamente nativista, assaz interveniente no século XIX e no início do século XX. Há indícios de que em 1912, quando Norton de Matos legaliza finalmente a Liga Angolana após a revisão de uma primeira versão dos seus estatutos, Francisco das Necessidades Castelbranco encabeça um grupo de descontentes com a nova versão, fundando em reacção o Grémio Africano, associação que, sobrevivendo à Liga Angolana e coexistindo, desde 1930, com a Liga Nacional Africana, viria, depois de 1947, a chamar-se Associação dos Naturais de Angola (ANANGOLA, sigla que, em quimbundo, significa igualmente filhos de Angola) (ANDRADE, 1997, p. 86-92). Procurando dar mais protagonismo aos africanos, Castelbranco preocupa-se em pôr em evidência, durante a batalha de Ambuíla, o arrojo do rei do Congo, atribuindo a sua morte a uma bala perdida do seu próprio exército e mitigando, assim, o efeito espectacular e ímpio da espadeirada desferida por Luís Lopes de Sequeira:

“O rei do Congo, de espada e rodela, procurou o comandante da força inimiga para com ele combater. Encontrou-o e, quando com maior ardor se batiam, uma bala do seu próprio exército prostrou-o, morto. […] Lopes de Sequeira cortou-lhe então a cabeça que mandou colocar num poste. À vista da cabeça do seu chefe, os pretos puseram-se em debandada, devendo Sequeira a vitória a esta fuga” (CASTELBRANCO, 1932, p. 134).

No que diz respeito à causa da morte de Luís Lopes de Sequeira em Katole, o historiador angolano é muito discreto, limitando-se a referir, em nota de rodapé, que o oficial mulato foi “traiçoeiramente assassinado durante o combate, por um dos componentes da força que comandava” (Sic.) (CASTELBRANCO, 1932, p. 143, nota nº1), mas atribuindo tal informação a Lopes de Lima, que certamente a colheu no Catálogo dos Governadores do Reino de Angola ou no texto de Elias Alexandre da Silva Correia, ao qual Castelbranco não teve acesso.

Não menos discreto o é, curiosamente, a propósito do acto de violência presuntivamente praticado em Ambuíla por Luís Lopes de Sequeira em relação D. António I do Congo, o transmontano Gastão Sousa Dias (Chaves, Portugal, 1887 – Sá da Bandeira [Lubango], Angola, 1955). Contudo, este antigo oficial do exército português, fundador e reitor do Liceu Nacional Diogo Cão do Lubango e, paradoxalmente, grande entusiasta das políticas segregacionistas em Angola, é o primeiro historiador a apresentar abertamente Luís Lopes de Sequeira como mestiço e a atribuir – apoiando-se no Catálogo dos Governadores do Reino de Angola – as invejas de que alegadamente foi alvo e que o vitimaram em Katole a essa sua condição:

“ […] a figura de Lopes de Sequeira adquirira um grande prestígio, não isento, como sempre acontece, dos dissabores provenientes de mesquinhas invejas: a sua qualidade de mestiço mais uma vez o tornou alvo de despeitos, que facilmente se poderão imaginar, tratando-se de uma sociedade em que perduravam os preconceitos de sangue e um invencível orgulho de raça” (DIAS, 1948, p. 151).

Quanto a Ralph Delgado, conforme já o vimos acima, tem a particularidade de introduzir a respeito de Luís Lopes de Sequeira, embora especulando sobre o relatório de um governador, a hipótese do suicídio.

Quais as consequências destas representações de Luís Lopes de Sequeira na literatura nacional angolana?   

O herói de Ambuíla, Mpungu-a-Ndongo, Libolo e Katole na ficção dramática nacionalista angolana do último quartel do século XX: Sequeira, Luís Lopes ou o Mulato dos Prodígios de José Mena Abrantes 

O texto da peça de teatro histórica Sequeira, Luís Lopes ou o Mulato dos Prodígios, de José Mena Abrantes, escrita em 1991 e levada à cena em Luanda pelo grupo Elinga-Teatro em 1993, começa por enunciar, logo abaixo das dedicatórias, a seguinte informação:

“A atormentada, trágica e desconcertante trajectória de um mulato filho de escrava que, ao ajudar a destruir em pleno século XVII os três principais reinos de Angola (Congo/1665, Ndongo/1671 e Matamba/1681), não sabia (?) ainda que preparava já a existência futura de uma Nação” (ABRANTES, 1999, página inicial não numerada)”.

Concisas indicações definem a estrutura cénica:

“Cinco actores e duas actrizes discutem a montagem de uma peça de teatro sobre Luís Lopes de Sequeira. Representarão oportunamente, a par de outros actores, o papel de alguns dos personagens a que se vão referir. […] Todos estão vestidos com a roupa de todos os dias, mas convém que tenham à mão elementos de vestuário e objectos o mais historicamente correctos” (ABRANTES, 1999, página inicial não numerada).

José Mena Abrantes prepara, assim, o terreno para o desenrolar de uma ficção onde vão jogar-se os processos da transcendência e da auto-reflexividade (WESSELING, 1991), próprios da narrativa histórica pós-modernista, isto é, por um lado os saltos do tempo da escrita para o tempo diegético, por outro lado a posição epistemológica de dúvida permanente do autor em relação à verosimilhança do tempo histórico da narrativa, aqui concretizada através das discussões entre os sete actores. Deste modo, Luís Lopes de Sequeira será transformado em herói que serve os ideais do Estado-nação, não na acepção romântica, que identificava o nacionalismo com o colonialismo, e sim numa acepção, diríamos, “pós-colonial” (ou anti-colonial?), que visa legitimar um nacionalismo angolano em construção.

Além dos diálogos travados entre os cinco actores e as duas actrizes, a peça é ponteada por duas conversas havidas entre dois oficiais portugueses, que se mostram mordazmente invejosos de Luís Lopes de Sequeira. Uma delas antecede a batalha de Mpungu-a-Ndongo (1671) e encontra-se, no texto, dividida por dois momentos (ABRANTES, 1999, p. 36-38 e p. 65-66). A outra segue-se imediatamente à vitória de Ambuíla (1665) (ABRANTES, 1999, p. 49-50). 

'O Mulato dos Prodígios', de José Mena Abrantes (1993)‘O Mulato dos Prodígios’, de José Mena Abrantes (1993)

A peça é constituída por dois actos, marcados por duas fases distintas da vida de Luís Lopes de Sequeira: o primeiro pelo período que decorre entre o seu nascimento (c. 1634?) e a batalha de Ambuíla (1665); o segundo, a partir desse momento até à morte do herói em Katole, em 1681. O primeiro acto é constituído por cinco cenas e o segundo acto por quatro. Vale a pena inventariá-las, assim como os respectivos títulos:

I ACTO

CENA 1 – DESLEIXO OU SUICÍDIO? (p. 33-36)

CENA 2 – A PEDRA (p. 36-40)

CENA 3 – A CARREIRA MILITAR (p. 40-43)

CENA 4 – A BATALHA DE AMBUÍLA (p. 43-50)

CENA 5 – AMORES (p. 51-56)

II ACTO 

CENA 1 – VIAGEM AO FUTURO (p. 57-62)

CENA 2 – MPUNGU-A-NDONGO (p. 63- 68)

CENA 3 – OS SERES ALADOS (p. 69 – 75)

CENA 4 – MORTE E FINAL (p. 76- 81)

No olhar tendencialmente nacionalista que José Mena Abrantes lança sobre a figura histórica de Luís Lopes de Sequeira, quais os elementos significativos que marcam as diferenças entre o Acto I e o Acto II da sua peça de teatro?

O I Acto ou o confronto íntimo entre a herança paterna do colonizador e a materna do colonizado como embrião da identidade nacional angolana

Na Cena 1, como o próprio título o indica, a discussão entre os cinco actores e as duas actrizes incide sobre a hipótese, veiculada por Ralph Delgado a partir do relatório do governador João da Silva e Sousa, de a morte de Luís Lopes de Sequeira em Katole haver sido suicidária. Contudo, a mesma conversa entre os actores informa das origens de Luís Lopes de Sequeira, afirmando-se peremptoriamente ser ele filho de uma escrava e de um oficial de carreira.

Como já acima o indicámos, embora a mãe de Luís Lopes de Sequeira fosse uma mulher africana, duvidamos da sua condição de escrava, o que corresponde, sem dúvida, a uma efabulação de José Mena Abrantes destinada a acentuar a ideia da dominação sexual do colonizado pelo colonizador, que Robert Young designou por “colonial desire” (YOUNG, 1995). Esta ideia vem, aliás, a ser retomada mais adiante, na Cena 5, consagrada à vida sentimental de Luís Lopes de Sequeira, onde o mulato, obedecendo à síndroma de Fanon, se envolve de amores com uma escrava do pai. No entanto, há que registar neste ponto, um aspecto interessantíssimo que se prende com o género dos actores/personagens: é que a ideia da relação fictícia de Sequeira com a escrava do pai se deve aos cinco actores homens, que rejeitam as propostas das duas actrizes. Ambas propõem em vão que a namorada do herói de Ambuíla seja uma mulher livre: a Actriz 1 sugere que seja uma mulata e a Actriz 2 uma branca (ABRANTES, 1999, p. 53-56).

A Cena 2 – A PEDRA e a Cena 3 – CARREIRA MILITAR reportam-se à infância de Luís Lopes de Sequeira, incidindo a primeira na sua relação com a mãe e a segunda com o pai. Na ficção de José Mena Abrantes, a mãe de Luís Lopes de Sequeira, além de ser uma escrava, é natural de Mpungu-a-Ndongo, a feira de escravos rodeada de estranhas e abruptas formações rochosas que os portugueses lograram controlar a partir de 1626, quando fizeram desse recinto pedregoso natural a capital de um reino fictício a que chamaram Ndongo – o mesmo nome do antigo reino dos mbundu -, proclamando como soberano deste artifício o seu vassalo D. Filipe I Ngola Airi, remota e duvidosamente aparentado com os Ngola. Porque não alvitrar que Luís Lopes de Sequeira fosse antes filho de uma parente deste príncipe mbundu que, por ocasião da sua submissão a Portugal, viabilizasse uma aliança familiar com o capitão português Domingos Lopes de Sequeira? Os documentos que, segundo Cadornega, foram encontrados junto ao cadáver deste oficial em 1645 atribuem-lhe, como vimos, mais duas filhas angolanas, o que leva a crer que a prole de Domingos Lopes de Sequeira era vasta e que a sua relação com uma africana, podendo remontar a 1626, estaria longe de ser ocasional e seria, provavelmente, legitimada pelo matrimónio. Esta nossa especulação permitir-nos-ia entrever um vínculo de parentesco do “Mulato dos Prodígios” com o soberano do Ndongo e, consequentemente, com a linhagem dos Ngola.

Voltando à ficção de José Mena Abrantes, a mãe de Luís Lopes de Sequeira representa, indubitavelmente, o seu lado africano, colonizado, mas também o seu lado obscuro, desconhecido, exótico – numa perspectiva que, aliás, provém do discurso colonial -, e tal é corporizado no talismã que ela oferece ao filho no momento em que o pai, Domingos Lopes de Sequeira, decide interná-lo no Colégio dos Jesuítas de Luanda. Tal talismã mais não é… do que uma pedra negra de Mpungu-a-Ndongo! Esse talismã, contudo, também representa, para Luís Lopes de Sequeira, uma memória histórica africana silenciada perante a ameaça da presença paterna, isto é, da presença portuguesa, como é bem evidente nestas palavras da mãe, ao pretender partilhar com o filho a interiorização desse silêncio:

“Segura bem nesta pedra, meu filho. Trouxe-a de Mpungu-a-Ndongo, onde nasci. Nunca a deites fora, nunca a mostres a ninguém. Quando tu olhares para ela e vires que está a brilhar, é porque eu estou também a olhar para ti” [sublinhado nosso] (ABRANTES, 1999, p. 39).

É, aliás, neste ponto da peça que intervêm pela primeira vez os “prodígios”, sugeridos pela Actriz 1, como se verá num diálogo entre os actores reproduzido mais adiante, onde a mesma Actriz 1 anuncia uma subversão do mito tendencialmente cristão, veiculado no século XVIII por Elias Alexandre da Silva Corrêa, da intervenção do sobrenatural na batalha de Ambuíla:

“ACTOR 4 – Mas quem é que inventou essa história da pedra mágica que a Mãe lhe ofereceu no momento da separação? Isso cheira-me a uma cena que já vi no cinema… / ACTRIZ 2 – A mim parece-me plausível. Se hoje, que é hoje, há para aí tanta quimbandisse, fará naquele tempo. / ACTOR 4 – Começamos com pedras mágicas, ainda vamos acabar nos discos voadores… / ACTRIZ 1 – E porque não? Há registos da época que falam de extraordinários prodígios nunca vistos, da aparição de uma formosíssima mulher nos campos de batalha, de um cometa que durante muitas noites varreu o céu com a sua cauda, da visão de estranhos seres voadores antes dos combates…” [sublinhado nosso] (ABRANTES, 1999, p. 43-44).

Depois de assistirmos a um episódio onde, no Colégio dos Jesuítas, em Luanda, o pequeno Luís Lopes de Sequeira é ameaçado por um padre de ser punido com chibatadas e jejum a pão e água durante uma semana pelo facto de se recusar a mostrar a “pedra mágica” que a mãe lhe oferecera, travamos conhecimento com o pai do herói. Domingos Lopes de Sequeira conversa com o filho em Massangano em Outubro de 1643, presumimos, pois prepara-se para seguir para Portugal a fim de, como diz, “buscar reforços para correr com o flamengo daqui para fora” (Sic.), vindo efectivamente a partir, como já o vimos, a 2 de Novembro. Luís Lopes de Sequeira foi, portanto, ainda criança, para Massangano, durante o êxodo dos luandenses de 1641 e, segundo a ficção de José Mena Abrantes, deixa então de estudar e manifesta o desejo de seguir a carreira militar, pese embora o descrédito a que, a esse respeito, o pai o vota:

“LUÍS LOPES – Vou fazer todos os possíveis para não o desiludir, senhor meu Pai. Mas… (hesita), com todo o respeito, meu Pai. Eu não queria continuar a estudar para ser padre. Queria antes seguir a carreira do Pai… / PAI – Com essa cor de macaco pardo? Só se for para limpares os tachos ou para te enfeitarem com as flechas dos indígenas” (ABRANTES, 1999, p. 42).

Encontram-se, evidentemente, subjacentes na vocação de Luís Lopes de Sequeira para a carreira militar dois elementos que se prendem com a sua condição de colonizado, de mestiço e de angolano: por um lado, o desejo continuar a esconder do pai e dos Jesuítas a pedra mágica oferecida pela mãe, isto é, o ensejo de perpetuar o silenciamento sobre a história africana perante o colonizador português; por outro lado, a clássica aspiração do colonizado, tão teorizada por Memmi e por Fanon, de igualar o colonizador. A réplica do pai também merece, por sua vez, uma interpretação dupla: além de expressar o sentimento do colonizador de que o colonizado, o seu “filho”, jamais o conseguirá igualar, assume neste contexto um carácter de vaticínio virulento em relação ao que virá a ser o destino trágico de Luís Lopes de Sequeira em Katole em 1681, ao morrer crivado de flechas disparadas por africanos, quer estes sejam mercenários da “Guerra Preta” ao serviço dos portugueses, quer sejam antes soldados do Rei da Matamba D. Francisco Guterres Ngola Kanini. Aliás, já no fim da peça, um comentário sarcástico do Actor 5 vem confirmá-lo: “Razão tinha o Pai, quando disse que ele só serviria para alfineteiro dos indígenas…” (ABRANTES, 1999, p. 79).

A relação de Luís Lopes de Sequeira com o fantasma da mãe e com a pedra por ela oferecida – que o mesmo é dizer, a sua relação com os antepassados e a memória silenciada dos africanos – evidencia-se logo na batalha de Ambuíla (1665). No silêncio que antecede a contenda, Luís Lopes de Sequeira contempla atentamente a pedra mágica e apercebe-se, por um lampejo desta, que a mãe quer transmitir-lhe um sinal. Logo a seguir, um subordinado vem anunciar-lhe que “ […] surgiram das nuvens uns pássaros negros muito grandes e medonhos, que estão a assombrar todo o mundo e que nunca ninguém viu por aqui” (ABRANTES, 1999, p. 45), realidade que o capitão-mor interpreta como sendo o sinal transmitido pela mãe e como um augúrio de vitória. Reúne então os oficiais e ordena-lhes que reforcem a formação em quadrado e que o cubram com o fogo da artilharia enquanto ele corre afoitamente em direcção ao Rei do Kongo para o decapitar.

A versão de Elias Alexandre da Silva Corrêa é aqui seguida à risca por José Mena Abrantes. Não falta, inclusive, a aparição da Virgem no campo de batalha, como pode ver-se por esta marcação cénica:

“Apagam-se as luzes do palco e acende-se de repente um foco de luz vertical, formosíssima, por trás dos espectadores, iluminando uma mulher que se supõe ser a Virgem. Luís Lopes arranca em câmara lenta em direcção ao público, ultrapassa os espectadores e chega ao local onde está a luz. Esta apaga-se tão subitamente como se acendeu. Ilumina-se de novo o palco. Luís Lopes volta pelo mesmo caminho, agora à velocidade normal, com uma cabeça ensanguentada na mão. Ouvem-se gritos de terror e o alarido da dispersão precipitada de muita gente. Luís Lopes chega ao palco e mostra, triunfante, a cabeça do rei” (ABRANTES, 1999, p. 47).

Segue-se um diálogo entre os actores cuja função principal é informar o público do destino que foi dado à cabeça de D. António I Manimulaza, ao ser levada para Luanda e depositada na Ermida da Nazaré em obediência à promessa do governador André Vidal de Negreiros. Mas o mais interessante neste diálogo, pese embora o tom burlesco visando servir a auto-reflexividade, é que ele consegue introduzir, nos elementos sobrenaturais provenientes da tradição oral a respeito de Ambuíla e de outras batalhas angolanas, o sincretismo da religião cristã com o culto tradicional africano dos antepassados, pela via da equiparação da Virgem à mãe de Luís Lopes de Sequeira:

“ACTOR 1 – [A cabeça do rei do Kongo] Acabou por ir para a Nazaré por causa de uma promessa de um Governador, para agradecer a colaboração da Virgem na hora decisiva… / ACTOR 4 – Da Virgem ou da mãe de Luís Lopes? / ACTRIZ 1 – Que diferença faz? / ACTOR 5 – A diferença entre uma Virgem e uma mãe. / ACTRIZ 2 – E então a Virgem não era Mãe?… / ACTOR 5 – Virgem Mãe não é o mesmo que mãe virgem. / ACTRIZ 1 – Deixem-se de tretas. Alguma coisa estranha se deve ter passado realmente. Senão os cronistas da época não falavam nisso. /ACTOR 5 – Os cronistas da época? Para eles a Virgem estava em todas. Parecia o Rambo de saias. /ACTRIZ 1 – E o cometa, e os pássaros, e a chuva de fogo sobre os exércitos?…” (ABRANTES, 1999, p. 49).

Será que, para Luís Lopes de Sequeira, esta aproximação entre os valores incutidos pelo pai e pelos Jesuítas, que se vão evidenciar com a aparição da Virgem, e os valores ancestrais africanos transmitidos pela mãe e corporizados na pedra mágica, é suficiente para que nele se forme uma convicção de angolanidade?

O II Acto ou a relativização do nacionalismo: os atlantes de Mpungu-a-Ndongo, o fantasma da Rainha Jinga em Katole e as dúvidas sobre o carácter visionário do “Mulato dos Prodígios”

No II Acto, à cena impregnada de fantasia onde Luís Lopes de Sequeira efectua uma viagem ao futuro acompanhado pela mãe (ABRANTES, 1999, p. 57-62), segue-se uma outra integralmente dedicada à campanha de Mpungu-a-Ndongo, em 1671. Às vésperas de efectuar o arrojado assalto aos aparentemente inexpugnáveis maciços rochosos das pedras Negras e de neles encurralar o recalcitrante D. João Ngola Airi, Luís Lopes de Sequeira volta a consultar o fantasma da mãe por intermédio da pedra mágica, desta vez angustiado com a ideia de ir combater contra a família materna. A mãe autoriza-o a combater o seu próprio povo, mas depois da batalha, quando a vitória portuguesa é festejada com cânticos e tambores, o “Mulato dos Prodígios” é surpreendido com a aparição de dois homens alados que identifica como sendo os pássaros negros que auguraram a vitória de seis anos antes, em Ambuíla. Os dois seres estranhos – ou “do outro mundo” ou “extraterrestres”, como eles próprios se assumem – conseguem convencer Luís Lopes de Sequeira de que provêm de um cometa – provavelmente o cometa de Newton, de 1680 – e que foi a eles e não à Virgem que ficou a dever a vitória de Ambuíla. Convencem-no também a entregar-lhes a pedra mágica oferecida pela mãe alegando que, sendo ela escura e com uma luz dentro, se trata de um dos muitos resíduos metálicos por eles espalhados na região.

Foi, provavelmente, o facto de ter sido em Mpungu-a-Ndongo que Luís Lopes de Sequeira recebeu o epíteto de “atlante das conquistas” que inspirou José Mena Abrantes a transpor para este lugar a milenária lenda da Atlântida, o continente desaparecido mencionado nos Diálogos de Platão (Atenas 428/427 – 348/347 a.C.) por Crítias (460 – 403 a. C.) e por Timeu de Locros. As pedras negras cintilantes de Mpungu-a-Ndongo seriam, portanto, o oricalco (em grego, literalmente, metal da montanha), o metal desconhecido que o primeiro autor citado por Platão descreve insistentemente. A bibliografia sobre a Atlântica é vastíssima, constituída por mais de 20 000 obras, e as hipóteses sobre a sua localização geográfica – pese embora a clareza com que Platão afirma que o continente desaparecido se situava “para lá das Colunas de Hércules”, isto é, para oeste do Estreito de Gibraltar – já abrangeram todos os continentes, inclusive o africano, nomeadamente o deserto do Sara e a Nigéria. Porque não a Atlântida em Angola?

Às teorias sobre a localização geográfica da Atlântida há a acrescentar, além das inúmeras que a concebem como uma ilha intemporal e inalcançável – que, para além da própria Bíblia, viriam a proliferar particularmente em obras literárias do século XVI, como Utopia de Thomas More (1516) ou Os Lusíadas de Camões (1572), neste último caso no episódio da “Ilha dos Amores” nos cantos IX e X -, as que especulam sobre os motivos do seu desaparecimento, as quais apontam tendencialmente para duas ordens de hipóteses: ou para a da submersão oceânica, ilustrada por múltiplos ficcionistas, nomeadamente por Júlio Verne em 1869 no romance Vinte Mil Léguas Submarinas; ou para a hipótese extraterrestre, que vê na Atlântida uma gigantesca nave espacial, ideia que, aliás, não é tão recente quanto se julga, uma vez que em 1726 Jonathan Swift já a utiliza em As Viagens de Gulliver, no episódio da “Ilha Voadora”.

Em 1955, Edgar-Pierre Jacobs (Bruxelas, 1904-1987) concebeu um clássico da banda desenhada belga que concilia as duas orientações: o álbum da série Black & Mortimer O Enigma da Atlântida. Situando a Atlântida no fundo da Lagoa das Sete Cidades, na Ilha de São Miguel, no arquipélago dos Açores – aliás, conforme a uma lenda açoriana -, Jacobs confronta os seus heróis com homens voadores, os “planos”, cujo chefe tem um nome mitológico e significativo, Ícaro. Segundo um relato do mesmo Ícaro, Blake e Mortimer são informados de que a submersão da Atlântida, provocada por um cataclismo anunciado por um cometa por volta do ano de 10 000 a.C., poupara uma elite de sábios que residiam no Monte Posídon (cujos picos corresponderiam ao actual arquipélago dos Açores) e que os seus descendentes, no fundo dos mares, lograram, graças ao oricalco, desenvolver a tecnologia ao ponto de por vezes assustarem os habitantes da Terra com as suas incursões, efectuadas, quer por homens voadores munidos de equipamento especial, quer por aeronaves em forma de disco, que o senso comum convencionou designar por OVNI (Objectos Voadores Não Identificados) (JACOBS, 2008, p. 21-23). 

Os homens voadores de Mpungu-a-Ndongo da peça de teatro de José Mena Abrantes lembram particularmente os “planos” dos Açores da banda desenhada de Edgar-Pierre Jacobs. Mas a coincidência não fica por aí. É que Jacobs declara, na sua auto-biografia, ter concebido e desenvolvido o enredo da história a partir de uma hipótese darwinista social veiculada por um tal Donnely, segundo a qual a população primitiva da Atlântida seria constituída por duas “raças” diferentes: uma “negra” ou “vermelha”, similar aos africanos ou aos ameríndios, a outra caucasiana; tal como o povo do rei Utopos na obra de Thomas More, a segunda “raça”, considerada “muito evoluída”, dominaria (ou, para ser mais exacto, colonizaria) a primeira, considerada “bárbara” (JACOBS, 1981, p. 138).

É a este facto colonial intemporal, transposto para os “atlantes” de Mpungu-a-Ndongo, que parece aludir a alma da mãe de Luís Lopes de Sequeira quando, na peça de José Mena Abrantes, repreende o filho por lhes haver cedido a pedra mágica, o oricalco:

“Disse-te que nunca mostrasses a pedra a ninguém, Luís Lopes. Concordei que lutasses contra o meu próprio povo, na terra onde nasci, e que ganhasses. Mas agora acabou-se a minha protecção… […] Esses homens voadores há muito que desconfiavam que em Mpungu-a-Ndongo havia pedras dessas, mas nunca as tinham encontrado. Eles precisam delas para voltar para donde vieram… Da próxima vez serão muito mais, para nos oprimir… Agora ficas entregue a ti próprio… a ti e a esses demónios…” [sublinhado nosso] (ABRANTES, 1999, p. 73).

Os “atlantes” ou homens voadores simbolizam doravante os colonizadores, e Luís Lopes de Sequeira reconhece essa realidade ao implorar em vão à mãe que não o deixe porque ele não os tinha visto. Ou seja, não se tinha apercebido das consequências perversas do colonialismo para os angolanos. 

Mas resta ao “Mulato dos Prodígios” uma fé que, muito embora incutida pelos Jesuítas e pelos compatriotas do pai, é universal e inquebrantável, a fé na Virgem. É Ela própria quem lhe aparece para lhe assegurar que, mesmo com outras crenças e outros valores que não os tradicionalmente africanos, os angolanos devem permanecer unidos:

“Não desesperes, Luís Lopes. […] continuo do teu lado. Nem sequer me importo que tenhas acreditado no que aqueles seres alados te disseram. Parecem anjos, mas são verdadeiros demónios, como a tua Mãe te disse… Foi realmente a mim que tu viste em Ambuíla… […] Não! Não foi o fogo que eu derramei sobre aqueles pagãos fingidos. Foi apenas luz. Eu não podia aceitar que tu e os teus homens fossem massacrados. Havia uma desproporção muito grande entre vocês. […] E além disso gosto de proteger as pessoas que andam confusas neste mundo, mas têm o coração limpo. E sei que o teu sofrimento foi sempre sincero. Tu és um homem bom e puro!…” (ABRANTES, 1999, p. 75).

Nesta intervenção, a Virgem chega ao ponto de se equiparar indirectamente à rainha Jinga, evocando uma crença popular angolana segundo a qual a soberana da Matamba teria deixado as marcas dos seus pés nas pedras de Mpungu-a-Ndongo: 

“Meu pobre Luís Lopes. Eu não me zango com a tua falta de fé porque o teu desamparo me comove. Pois bem! Eu vou deixar gravada nestas rochas a marca do meu pé descalço. [sublinhado nosso] (ABRANTES, 1999, p. 75).

Muito embora seja pouco provável que Njinga a Mbandi tenha estado alguma vez em Mpungu-a-Ndongo, porquanto, entre 1625 e 1656, período em que, fortificando-se nas ilhas do Cuanza, ofereceu resistência enérgica aos portugueses, já estes controlavam esta localidade por intermédio de D. Filipe Ngola Airi, só a sua evocação subentendida por intermédio da Virgem é suficiente para que, nesta narrativa, seja aparentemente reforçada a simbologia do nacionalismo angolano.

É de notar que a Rainha Jinga morreu em 1663, dois anos antes da batalha da Ambuíla, o primeiro feito heróico em que Luís Lopes de Sequeira se distinguiu. No entanto, na batalha de Katole, em 1681, onde, conforme o concluem os sete actores “o suicidaram” (Sic.) – a transformação em transitivo do verbo “suicidar” viria a ser, aliás, infelizmente, uma prática muito frequente, não só em Angola, mas em muitos outros países da África pós-colonial -, o “Mulato dos Prodígios” sucumbe ao defrontar, não apenas o fantasma – conforme muito sugestivamente o declara o Actor 5 -, mas também o sucessor da unificadora da Matamba, D. Francisco Guterres Ngola Kanini.

Sendo certo que o nativismo do século XIX e o nacionalismo de depois de 1948 elegeram a Rainha Jinga como um símbolo na Nação angolana, há que recordar que qualquer um destes discursos emerge em reacção à retórica colonial que legitimava a hegemonia portuguesa através da visão dos angolanos – e dos africanos em geral – como povos “selvagens” que, atavicamente, se digladiavam entre si. Sem dúvida que o principal elemento que suscitou aos nativistas e aos nacionalistas angolanos a simpatia pela figura de Njinga Mbandi foi o facto de esta mulher haver conseguido congregar politicamente, na resistência ao colonizador, pelo menos três povos oriundos de territórios que integravam o que futuramente viria a ser a Angola colonial e, consequentemente, nacional: os mbundu, compatriotas da soberana, do primitivo Ndongo de entre Cuanza e Dande; os bakongo, do Reino do Kongo; e os imbangala, do Estado da Matamba. A conjugação das duas ideias, a da unificação dos povos e a da resistência ao colonizador, levou a que o nativismo e o nacionalismo angolanos – à semelhança do que o nacionalismo português o fez com o lusitano Viriato (? – 139 a. C.) e o nacionalismo francês com o arverno Vercingetorix (72, a.C. – 46 a. C.) – transformassem Njinga Mbandi, que era tão angolana quanto Viriato português e Vercingetorix francês, em símbolo nacional.

Ao “suicidar-se” ou “ser suicidado” em Katole a 4 de Setembro de 1681, Luís Lopes de Sequeira entrega o corpo e a alma à mãe, ou seja, a Angola, simbolizada pela Virgem, que afinal de contas é o fantasma da Rainha Jinga. Este desfecho hagiográfico é comentado com entusiasmo pelo Actor 3:

“Para mim, o tipo destrói em menos de 20 anos os três principais reinos de Angola por intuir que a sua existência separada enfraquecia os angolanos e os impedia de se virem a constituir numa única Nação. Ele era um visionário, daqueles que aparecem uma vez em vários séculos… […] Cumprida a sua missão, morreu!” (ABRANTES, 1999, p. 81).

Ao vermos Luís Lopes de Sequeira alcandorado a visionário, não podemos deixar de nos recordar de um poeta português seu contemporâneo, Brás Garcia de Mascarenhas (1596 – 1656), que aliás, durante os dez anos em que viveu no Brasil, foi companheiro de armas, na luta contra os holandeses, de André Vidal de Negreiros, o futuro governador de Angola responsável pela batalha de Ambuíla e pela construção da Ermida da Nazaré em Luanda. Mas o que celebrizou Brás Garcia de Mascarenhas foi o poema épico em vinte cantos e oitava rima Viriato Trágico, onde procurou estabelecer um paralelismo entre os súbditos do chefe lusitano, ao lutarem contra as invasões romanas, com os portugueses seus contemporâneos, que antes e depois de 1640 se opõem ao domínio espanhol. No Canto Décimo Quinto da epopeia, Viriato sonha com o que virá a ser o reino de Portugal, desde D. Afonso Henriques até ao “Restaurador” da independência em 1640, o Duque de Bragança, D. João IV.

Seguindo esta ordem de ideias, a efabulação do Actor 3 é completada por uma outra do Actor 5:

“E… quase 300 anos depois, ficámos realmente independentes. Não deixa de ser uma história edificante. E podemos sempre pensar que no momento da morte ele [Luís Lopes de Sequeira] teve a revelação da bandeira rubra e negra a subir no mastro, ao som dos “monacaxitos” de Quifandongo… (ABRANTES, 1999, p. 81).

Refere-se, evidentemente, ao dia 11 de Novembro de 1975, quando, à meia-noite, a bandeira foi hasteada e Agostinho Neto declarou solenemente a Independência de Angola depois de, na véspera, as FAPLA (Forças Populares de Libertação de Angola) haverem repelido em Quifandongo, com “monacaxitos” – BM-21, engenhos bélicos de fabrico soviético introduzido em Angola pelos cubanos -, os exércitos zairenses que, apoiados por americanos e por um destacamento português, ameaçavam invadir Luanda.

  Porém, pela boca da Actriz 1, a mesma a quem se deve a ideia dos “prodígios”, o autor relativiza, se não o nacionalismo, pelo menos o peso das simbologias que o sustentam:

“Este tipo está realmente insuportável. Vamos acabar com isto o mais depressa possível (ABRANTES, 1999, p. 81).

O angolano Luís Lopes de Sequeira, como todas as figuras da história, estará sempre dependente, portanto, das representações que os homens, segundo os seus interesses e em todos os tempos, dele queiram fazer.

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https://www.cm-nazare.pt/custompages/showpage.aspx?pageid=48d53d58-0b11-41b8-86bb-c262c09723f8&m=b24

 

 

ensaio originalmente publicado em Alberto Oliveira Pinto, Imaginários da História Cultural de Angola (Prémio Sagrada Esperança, 2016), Luanda, INIC, 2017, pp. 232-260.

 

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