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Memoirs na Brotéria

Entre os dias 5 e 10 de Julho, o projeto Memoirs promove – em parceria com a Brotéria – um curso que quer criar ferramentas para que quem participa nele possa analisar e pensar criticamente a questão pós-colonial em Portugal, na Europa e no mundo. Para isso, partir-se-á de um conjunto de tópicos que tem vindo a preencher e questionar a atualidade do século XXI e as suas relações com o social, o político, o tempo e o espaço.

acrílico sobre tela | Amna Mahmoud | 2020  (cortesia da artista)acrílico sobre tela | Amna Mahmoud | 2020 (cortesia da artista)

Brotéria nasceu em 1902 como uma revista científica. Ao longo dos últimos 118 anos, foi-se reinventando permanentemente, passando a ter uma abordagem cada vez mais ligada à cultura, às ciências sociais e às humanidades.

Em janeiro de 2020, transferiu-se para o Bairro Alto e transformou-se num centro cultural que conta com a revista, uma biblioteca, uma galeria de arte, uma livraria, espaços de estudo e de trabalho, salas de conferências e um café. Esta iniciativa reforça o desejo da Brotéria de empreender uma transformação social justa e humana, através da análise pluridisciplinar dos aspetos sociais e históricos que estejam na base de situações eticamente injustas, procurando e testando alternativas concretas com vista a uma transformação social.

Este curso tem como objetivo ajudar a pensar criticamente muitas dimensões da contemporaneidade, olhando para o passado e para o impacto das heranças coloniais e da descolonização como uma ferramenta de construção de um futuro mais justo e humano. Mais do que debater questões pós-coloniais, interessa-nos a relação desta questão com a contemporaneidade que tem dado origem a numerosos debates de revisitação da história. A questão da memória e da pós-memória mostram-se fundamentais não só para (re)pensar a nossa relação com o passado, mas também para melhor compreender o presente.

A contribuição direta da Brotéria passa pela organização de cinco blocos de programação que ao longo do curso serão oferecidos. Para ajudar a pensar filosoficamente a importância que a intenção tem para a avaliação da ação, Marta Mendonça apresentará uma comunicação com base na investigação e docência universitária que tem desenvolvido a propósito – entre outros – do legado de Elizabeth Anscombe. Propor-se-á que é fundamental tomar consciência de que a intenção é um elemento fundamental para a avaliação moral das ações, rejeitando desse modo uma ética anacrónica e puramente consequencialista na avaliação do passado.

Partindo da discussão que ao longo dos últimos dois anos ressurgiu em torno da vida e missionação do P. António Vieira SJ, convidou-se também Pedro Calafate para guiar os participantes por um percurso de encontro com a obra de Vieira. A expressão “esclavagismo seletivo” tem sido usada infrequentemente para caracterizar a posição de Vieira. Pedro Calafate, co-organizador da edição mais recente da obra completa de Vieira, apresentará e comentará, inseridas no seu devido contexto, alguns passos das obras de Vieira tal como foram escritas.

Como forma de entrar na problemática da justificação teológica do racismo nas chamadas religiões “do livro”, Francisco Martins SJ apresentará aquilo a que veio a ser conhecido como a “maldição de Cam”. Incluída em Gen 9, esta maldição usa a linguagem da “negritude” e, graças a uma inacreditável história de receção, tornou-se o texto-base da justificação teológica do racismo e da escravatura nos países onde o Islão e o Cristianismo tomaram a dianteira do ponto de vista religioso.

Num esforço por garantir atualidade e pertinência contemporânea ao tema do curso, pediu-se ainda a André Costa Jorge, diretor do Serviço Jesuíta aos Refugiados em Portugal, para oferecer uma releitura da virtude cristã da “hospitalidade”. A possibilidade de acolher o que se refugia ou migra apresenta dificuldades relacionadas com soberania, economia, segurança ou integração. A experiência do JRS tem permitido repensar naquilo a que a hospitalidade obriga, o que pede e em que medida melhora a sociedade.

Finalmente, na manhã do último dia, o convite será de visitar a igreja e o museu de São Roque. Guiados por António Júlio Trigueiros SJ, historiador e reitor da igreja de São Roque, esta visita permitirá visitar a intenção por detrás da missionação empreendida pelos padres jesuítas.

MEMOIRS é financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC) no âmbito do Programa-Quadro Comunitário de Investigação & Inovação Horizonte 2020 da União Europeia (n.º 648624); MAPS – Pós-Memórias Europeias: uma cartografia pós-colonial é financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT – PTDC/LLT-OUT/7036/2020). Os projetos estão sediados no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra.  

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