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N’gamabô

São Tomé e Príncipe, duas ilhas, dois ilhéus, pequeno recanto que jaz no Atlântico, junto ao Golfo da Guiné e ao longo da linha do Equador. Descoberto no séc. XV por portugueses, após “diversas jornadas bélicas”, independente a 12 de julho de 1975. Hoje tem cerca de 200 mil habitantes, segundo o INESTP.  

Irmãos do autor.Irmãos do autor.Sou filho de pais santomenses e irmão “caçula” de cinco. Portugal foi o meu primeiro lar, portanto conseguia apenas imaginar a beleza natural e esbelta deste estonteante país através das mais incríveis histórias, em tenra idade, contadas pelos meus pais. Porém estas aventuras dos “cotas” revelavam-se insuficientes para satisfazer a minha saciedade e eterna curiosidade.

África sempre foi para mim um cubo de Rubik que, desde pequeno, tento decifrar. Na minha cabeça não deixou de estar presente que o meu ponto de partida seria a terra natal, São Tomé. É para mim seguro dizer que, se São Tomé é a minha raiz, Portugal é o meu caule e flor. Faço uma pequena retrospectiva. Habituei-me a crescer com a família fragmentada. Os meus pais e irmãos cá e o resto da família no outro lado do mundo. Éramos como um corpo estranho no meio de outros tantos 11 milhões. A crise pela busca de uma identidade foi marcando as diversas etapas da minha vida. Sou europeu ou africano? Sou português ou santomense? Quem é a minha família afinal? Conjuntos de indivíduos que se conectam comigo por via sanguínea e ligações emocionais com os meus pais ou pessoas que me acompanharam desde o início da jornada e que me conhecem ao ínfimo detalhe? Muitas perguntas, poucas respostas. Família não tem de ser de sangue. 

Adiante, a minha caminhada neste mundo começou muito antes de ter nascido. Iniciou-se quando os meus heróis decidiram emigrar em busca de melhores condições de vida para nós. Sacrificaram por nós o seu bem-estar. Muitas lutas invisíveis e visíveis se passaram durante estas duas décadas para que alcançássemos a nossa própria homeostasia familiar. Filhos licenciados, uns mestres, outros a caminho do doutoramento, orgulho de pai e de mãe. Ver que a sua educação deu certo e que, acima de tudo, formaram mulheres e homens de caráter forte, preparados para as adversidades desta vida injusta. 

Pais do autor.Pais do autor.Nunca me habituaram a presentes de Natal. O conceito, algo capitalista, das festividades mal me chegou à pele. Nunca me faltou nada tampouco, meus pais saíam para trabalhar antes do sol nascer e voltavam depois do sol posto. Fui criado por minha irmã e irmãos velhos. Meus segundos pais. Era raro recebermos amor e afeto, mas tudo que faziam por nós jamais colocou em dúvida o sentimento que nutriam. A maior prova de amor e o maior presente que me deram visitar São Tomé e Príncipe, em julho de 2015. Os meus pais juntaram dinheiro sem ninguém saber durante anos e anos, para conseguir levar-me a São Tomé. Foram as duas semanas mais felizes da minha vida, so far. Lembro-me como se fosse ontem. 

Viagem de cerca de 7 horas que ligam Lisboa a São Tomé com escala em Acra, Gana. Mal saí do aeroporto, senti pela primeira vez o clima tropical. Céu cinzento, humidade elevada, calor, precipitação. Tudo conjugado. Pessoas com calções e com casaco. Tudo novo para mim. Não vi comboios, auto-estradas, semáforos. Os transportes públicos, como um relógio estragado, funcionavam apenas duas vezes ao dia. O calor humano por demais. Vida leve-leve, dizem, pessoas que se preocupam umas com as outras. A azáfama citadina, a correria e o acelerar do tempo não se sentem por ali. 

Distrito de Mé-Zôchi, vila da Piedade. Conheci finalmente a minha família. Me acolheram de braços abertos. No meio de alguma pobreza que rodeia e caracteriza o país, consegui encontrar a mais pura felicidade. As crianças são obrigadas a ser adultas. Com tenra idade, já cuidam dos irmãos mais novos e dos filhos das vizinhas, um país pequeno e bastante comunitário. Enquanto os pais passam o dia inteiro a trabalhar, frequentam a escola e, quando saem, têm de fazer o jantar e deixar preparado para toda a família comer. Eu vi, ninguém me contou. Crianças desenrascadas. Trepam árvores para pegar jaca, sape-sape, manga. Outras trabalham nos campos de cana-de-açúcar por dinheiro para ajudar os pais. Amadurecem muito rápido e, mesmo com todas as responsabilidades, conseguem ser felizes. 

Nesta jornada de duas semanas, recebi a maior lição de humildade da minha vida. País dotado de uma imensurável beleza, cascatas, praias, montanhas, florestas, ar puro, fruta fresca, boa gastronomia. “Doce vita”, dizem. 

Afinal quem era sortudo? Quando falava com alguém, meu sotaque português me denunciava, já sabiam que “não era de lá”. O choque cultural foi imenso, mas necessário. Desde logo, a questão linguística. Apesar de estar habituado ao modo santomense de falar português, enraizado nos meus pais, a realidade linguística no país revela-se diferente. O forro, língua autóctone mais falada em São Tomé, é bastante usado entre a classe média adulta santomense e eu, sem grande proficiência, tive alguns problemas de integração, inclusive no seio familiar. Reparei na ausência da segunda pessoa do singular “tu”. Enquanto que em Portugal utilizamos o “tu” com pessoas conhecidas e “você” para pessoas mais-velhas, mais letradas ou desconhecidas, em São Tomé utilizam o “você” como substituição do “tu” e também para o segundo caso. 

Como esperava, revelou-se uma tarefa difícil recuperar 17 anos de ausência em duas semanas de convivência. Irónico?! Apesar de partilharmos laços consanguíneos, parecia que havia uma barreira invisível cultural entre mim e os meus familiares, não me sentia à vontade. 

Também tive um certo embate com os horários quotidianos. Como já referi, São Tomé e Príncipe é um país insular localizado na linha de equador, logo os dias e as noites têm a mesma duração. Por isso, não estava habituado com o sol intenso das 6h da manhã e o céu escuro como breu às 18h em pleno horário de verão. A minha rotina mudou drasticamente, tive de acordar cada vez mais cedo para poder aproveitar o dia da forma mais proveitosa possível. Dormia numa mosquiteira, que é basicamente uma cama com uma camada de rede que impedia mosquitos de penetrar e que, por outro lado, acumulava calor. 

As pessoas movimentam-se em táxis. Estes táxis podem ser carros, motas ou carrinhas e os preços, para quem vinha de fora, eram incrivelmente baixos. Entrar num táxi de cinco pessoas e estarem nove, dez pessoas dentro da viatura. Ou num táxi-carrinha para nove pessoas e entrarem quinze, dezasseis pessoas. A fiscalização praticamente nula e os preços eram sempre negociáveis para “turistas”. Mesmo tendo em conta a diferença do peso das moedas e do nível de vida, alguns africanos pensam que os imigrantes africanos na Europa vivem muito bem e que são relativamente ricos. Desenganem-se… O acesso à internet mais restrito, as falhas da energia elétrica muito frequentes. As pessoas não ficam agarradas aos telemóveis ou à televisão porque já sabem como é a realidade do país, e por quererem aproveitar ao máximo, criar memórias, acumular experiências de vida. Foi esta conclusão a que cheguei ao longo da minha estadia no país. Privilegia-se muito o diálogo e o contacto. É costume ver-se inúmeras pessoas agrupadas na rua durante qualquer horário do dia e da noite simplesmente a falar, trocando ideias ou jogando jogos de mesa. Crianças de todas as idades a praticar desporto durante várias horas seguidas. Crianças construíam bicicletas da madeira desde raiz. Inacreditável. Crianças a brincar com fisgas. Lembro-me de pensar, esta felicidade não tem comparação. Algumas destas diferenças culturais provinham certamente da minha subconsciente postura etnocêntrica, muito forte na adolescência.  A viagem ajudou-me a ser mais humilde comigo próprio e com os outros e, além disso, a perceber as diferenças entre seres humanos idênticos mas diferentes em tanta coisa. Viagem de reflexão, conhecimento, amor e tolerância ao próximo. De fora somos tendenciosos a fazer juízos de valor, quer de forma consciente ou inconsciente sobre a pobreza em África, América do Sul, Ásia meridional, entre outros. No continente africano, existem várias Áfricas e creio que noutras regiões será o mesmo. Os mídia, na sua esmagadora maioria, só nos dão feedback negativos sem sequer conhecerem a realidade a fundo. O elemento pobreza não está diretamente ligado à infelicidade. Até porque ambos os termos são relativos. Não há receita exata para a felicidade. Existem pobres felizes e existem ricos infelizes, e vice-versa, é tudo uma questão de experiência de vida. Por mais dados estatísticos existam sobre um país, há certos aspetos que estes dados quantitativos e qualitativos nunca vão ser capazes de calcular… Eu desejo que todos vocês consigam encontrar a vossa própria felicidade, essência e paz interior. Recomendo-vos uma visita a este magnífico, mas incompreendido país.

Dêsu pagan bôôô dan San Tomê, n’gamabô!

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