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No coração dos Andes há um país cuja selecção nacional mais parece de uma nação africana

As raízes africanas do Equador

Naquela tarde de um domingo de Abril, o sol quente que se fazia sentir a 2800 metros de altura efervescia os ânimos, já então agitados, dos apoiantes das equipas que definiam as cores dos dois lados do relvado. Em Quito, capital do Equador, situada na mais extensa cordilheira do mundo, os Andes, tinha lugar uma das eliminatórias para o mundial da África do Sul, entre a Selecção Nacional de Futebol do Equador e a Selecção Nacional do Brasil. Já quase no final da entoação de ambos os hinos, surpreendo-me que a grande maioria dos elementos da equipa do Equador, concretamente 18 em 22, eram indivíduos de raça negra.

Eu chegara ali há escassas semanas, depois de três anos em Angola, num voo quase directo para a América Latina. Aqueles rapazes despertaram de imediato a minha atenção e curiosidade. Inquiro logo um amigo equatoriano por tal fenómeno mas ele, totalmente imerso no primeiro lançamento, responde rápido e quase a pedir para deixar esses assuntos de natureza historico-antropológica para outra ocasião, “sim, temos uma província de afro-equatorianos chamada Esmeraldas”. Detive-me novamente no jogo que já ia avançando, retive o nome da província mas ficou a curiosidade que impulsionaria a minha pesquisa e viagem ao terreno.

O Equador, país situado na América Latina, vizinho da Colômbia a norte e do Perú a sul e a oeste, tem cerca de 14 milhões de habitantes. Além fronteiras, a sua imagem de marca é a de um Equador andino, de rasgos índios (actualmente utiliza-se a designação indígenas) e de um paraíso natural chamado Galápagos, ilhas justamente consideradas uma das reservas naturais mais bonitas do mundo. No entanto, há um Equador de cor negra e ritmos africanos que ainda tende a ficar esquecido.

A população afro-descendente constitui, segundo o último censo populacional de 2001, 5 por cento da população equatoriana. O historiador Juan García, natural de Esmeraldas, afirma no entanto que se trata de um número inferior à realidade. Este grupo populacional encontra-se disperso pelas 22 províncias do país mas 76 por centro concentra-se no litoral. Em termos relativos, a província com maior número de afro-ecuatorianos, termo oficialmente utilizado no Equador, é Esmeraldas, a zona mais a norte do país e limite com a Colômbia.

O Brasil e Cuba foram os países que receberam maior número de escravos africanos. Mas o Equador também fez parte do circuito marítimo comercial espanhol do século XVI ao XVIII. Bartolomeu Ruiz, um dos pilotos da expedição marítima de conquista da América liderada por Francisco Pizarro terá sido o primeiro navegador a desembarcar na província de Esmeraldas. Com o objectivo de alcançar o ouro do Perú, o explorador espanhol Pizarro iniciou a sua expedição pela América do Sul em 1524, sendo que há registos de que em 1530/40 já haveria indivíduos de raça negra nesta região.

Até cerca de 1550 sabe-se de um certo contacto e aproximação inicial dos negros que faziam parte das expedições marítimas originárias do sul da Europa com o território do Equador. Com a intensificação dos esforços de conquista da América e a dinamização do triângulo marítimo comercial África-América-Europa, a costa do Equador foi-se tornando progressivamente um ponto de passagem e de paragem frequente para os navegadores que viajavam desde o Panamá ou do grande porto comercial de Cartagena de Las Índias, na Colômbia. No entanto, o naufrágio de um barco por volta de 1555 é tido como a origem dos primeiros negros que estabeleceram comunidades na zona de Esmeraldas. Na verdade, de acordo com o historiador, as fortes correntes daquele lugar provocaram diversos naufrágios, o que terá contribuído para o crescimento desses assentamentos. Deste contingente de africanos, que faziam parte ou eram levados pelas expedições marítimas, emerge um movimento de cimarrones, escravos que, aspirando a obter a liberdade, se uniam para formar as suas próprias comunidades à margem dos assentamentos hispânicos. Estas comunidades fugitivas acabaram por se tornar uma forma de resistência durante todo o período colonial, representando uma ameaça para os colonialistas. Significava também a procura, por parte dos africanos, de uma autonomia identitária e mesmo territorial. Neste período, e tirando proveito do inimigo em comum (a coroa espanhola), regista-se um contacto e comércio regular entre estes cimarrones e piratas ingleses e holandeses, nomeadamente o conhecido inglês Sir Drake que, apesar das suas actividades de pirataria, foi considerado um dos grandes homens da marinha inglesa. Não é por acaso que ainda hoje rezam histórias de tesouros escondidos, já desvendados ou por descobrir em solos daquela área do Equador bem como nalgumas ilhas não longínquas do oceano pacífico.

No caso da região de Esmeraldas, estas comunidades de cimarrones estavam de tal forma estabelecidas e fortalecidas que, apenas por volta de 1640, quando os espanhóis já ocupavam o sul do país, os colonizadores conseguem entrar naquela região. Depois de várias estratégias e tentativas, os espanhóis conseguem, através dos missionários, transformar estas comunidades em assentamentos controlados. É exactamente a partir deste momento que se inicia o período de escravatura na que é hoje a província de Esmeraldas. Com base nesta mão-de-obra desenvolve-se o trabalho das minas e estabelecem-se grandes fazendas à medida que Esmeraldas se torna a porta de saída para o mar com rumo ao Panamá e a Cartagena de Las Índias.

Apesar de todas estas ocorrências, conclusão de vários anos de investigação, conta-me o historiador Juan García que o cidadão comum acredita que em Esmeraldas não houve escravidão e que se tratou de uma zona livre, com um certo grau de serventia benigna. Segundo este historiador “é mais fácil conceber a história e trajectória dessa forma”, o que desde logo representa uma negação de um passado e até mesmo da relação com África. “O cidadão comum não tem realmente curiosidade pelo continente africano, está muito longe (temporalmente) e durante muito tempo se trabalhou para que essa origem fosse esquecida. Além disso, as pessoas querem apenas sobreviver”. Com uma percentagem de analfabetismo de 10,3 por cento (superior à da média nacional, 9 por cento), a mais alta percentagem de desemprego do país, a mais baixa percentagem de assistência escolar secundária e universitária e sendo o segundo grupo populacional com o mais baixo rendimento per capita, compreende-se que a prioridade do cidadão de Esmeraldas é essencialmente a procura de melhores condições de vida. Estes números denotam ainda a exclusão social que tem caracterizado este grupo, sendo difícil, com estas condicionantes, haver espaço para um processo de reflexão massivo sobre a procura ou o reencontro de uma identidade com raízes africanas. Para uma análise mais completa, é bom lembrar que 5 por cento do total da população não representa um número política e eleitoralmente interessante, perante os cerca de 30 por cento de indígenas, que justifique um verdadeiro esforço e investimento social a longo prazo. Além disso, a existência nesta zona de ouro e a crescente plantação de palma africana para a produção de biocombustível tem feito a cobiça crescer da parte do sector privado nacional e internacional em detrimento da “desterritorialização” dos locais e da manutenção da riqueza dos solos; apesar da gravidade desta situação este não é, ainda, um assunto de debate ou interesse generalizado a nível nacional. Daí que o meu interlocutor mencione mais do que uma vez ao longo da entrevista, com um ar calmo mas não resignado, a “existência de um processo com o objectivo de tornar invisível” a cultura e origem africana. Prova disso é a construção da nacionalidade equatoriana e até o conceito andino essencialmente fundado no grupo indígena, tendo cond deixar à margem durante muito tempo a população afro-descendente.

No entanto, os intelectuais e artistas afro-descendentes revelam espontaneamente uma atenção especial quando se fala de África. Ao travar uma breve conversa com Nelson Freyre, um trabalhador social com quem convivi por motivos de trabalho, foi imediato o seu grande interesse por Angola e por África. Pouco depois de o ter conhecido, e de forma totalmente inesperada, convidou-me a acompanhá-lo até à rádio local Voz del Amigo onde ia ser entrevistado sobre música produzida por ele num programa dedicado aos artistas afro-ecuatorianos.

Fiquei então a saber que este cidadão afro-equatoriano também era músico. Pede-me para entrar no estúdio, estranho mas não hesito e, de forma pouco contextualizada mas muito divertida, integrou-me no diálogo em directo com o locutor. Depois de revelados os porquês da minha estadia no Equador, a atenção virou-se totalmente para a minha experiência em Angola, percepção sobre os africanos e realidade do continente. Quiseram saber mais sobre as músicas e danças angolanas ao qual retorqui “é que explicar o semba, kizomba…..fica difícil descrever por palavras tanto ritmo e movimento” para de imediato lançar ao ar a sugestão de convidarem grupos angolanos ou outros africanos para participarem no festival anual de dança e música afro-equatoriana que se realiza em Esmeraldas na época do carnaval.

Este programa de rádio é, aliás, um reflexo do movimento de promoção da origem africana que emerge dos próprios afro-descendentes. Este processo de auto-promoção surge nos anos 40 e, de acordo com a opinião do historiador, terá tido influência de um movimento vindo da Europa e de Cuba. Certo é que a causa afro no Equador nasce associada a movimentos culturais relacionados com a música e a dança, e acaba por se materializar também a nível académico, por exemplo através do estabelecimento de um centro de investigação afro-equatoriano, e também na promoção da marimba e da bomba (danças específicas deste grupo), com ritmos e traços marcadamente africanos. Com um visível orgulho no trabalho até aqui desenvolvido, Juan García fala em nome destes artistas e intelectuais afirmando que estão “a fazer um esforço para que a nossa origem não seja esquecida”. Como plano para o futuro e conta-me com cumplicidade que tem “um encargo antes de morrer: formar uma escola de tradição oral” onde incluirá uma das lendas mais interessantes sobre a origem dos afro-equatorianos: o rei Tumbatu, alta personalidade de um longínquo reino africano, terá caminhado desde África para chegar e estabelecer-se naquelas paragens da América Latina.

Apenas mais tarde, em 1998,  este grupo populacional se enquadra numa vertente de cariz social ao incluí-lo pela primeira vez na constituição nacional.

O desconhecimento, generalizado no resto do Equador, sobre a verdadeira realidade de Esmeraldas e sua gente, é notório na apreensão e, em certas ocasiões, no medo que as palavras emitidas sobre esta província transmitem. É um facto que sendo uma província fronteiriça com a Colômbia (um dos maiores produtores de cocaína do mundo), numa condição populacional pobre e com uma geografia natural – de vastos braços de mar e diversos rios – propícia ao desenvolvimento do comércio ilegal, refúgio predilecto de delinquentes e grupos armados, tem zonas específicas que requerem certa prudência particularmente à noite. Tomando certas cautelas, pode-se desfrutar em Esmeraldas os sabores, cores e tons únicos. Basta caminhar pelas ruas da cidade de Esmeraldas, capital da província, para sentir o aroma dos deliciosos “encocados” (comida tradicional, frequentemente de peixe ou marisco, feita à base de leite de coco e acompanhada por arroz) que são preparados e apreciados ao ar livre ao som da salsa ou marimba, presente em qualquer recôndito canto da cidade. O seu clima tropical ajuda a manter esse cálido ambiente de rua, onde predominam os vendedores ambulantes com os mais variados sumos de frutas tropicais e as longas conversas de esquina entre vizinhos. Tudo muito simples mas extremamente agradável e afável. Deixando a cidade, a paisagem vai-se tornando progressivamente deslumbrante como reflexo da mistura do verde da luxuriante vegetação, do brilhante azul do mar e dos caudais dos rios a perder-se no horizonte. A minha percepção deste povo é de uma enorme hospitalidade, simplicidade e alegria de viver. Definitivamente, a beleza natural e humana desta província e seus habitantes é merecedora da designação que lhes foi atribuída, “Esmeraldas”.

Com a invejável vantagem de ser um país rico pela sua diversidade étnica e cultural, o Equador tem ainda pela frente o desafio da integração de toda esta heterogeneidade.

Agosto 2009, fotografias de Sílvia Norte

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