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Nós e a seta com veneno: o risco etnicista na Guiné-Bissau

“Afinal tu és o quê?”. Como o debate era sobre os sentimentos regionalistas que têm fraturado os países europeus, presumi que a pergunta era sobre a minha nacionalidade. Respondi: “Sou da Guiné-Bissau! Sou guineense!”. Ao que o senhor responde: “Não! És o quê? És o quê de facto?”. Reforcei: “Sou guineense! Sou cidadão guineense!”. O senhor olhou-me fixamente e disse: “Não, tu não és guineense! Não existe essa coisa de ser guineense”. Sorri condescendentemente – pois pensei que estava perante alguém que tinha acabado de enlouquecer – e disse: “Meu caro, eu sou guineense, pertenço à nação guineense e tenho a nacionalidade guineense. Portanto, sou guineense!”. Nisto, diz-me ele: “Não existe a nação guineense. A nação guineense é uma coisa inventada. Logo, tu não és guineense! Tu és fula, manjaco, papel, balanta ou de uma das outras etnias que por lá andam! Não és guineense porque isso não existe!”. A indignação subiu-me pelo peito, a conversa azedou de forma irreversível e a paciência esgotou. Decidi sair de cena, seguir o meu rumo…

Na solidão dos meus pensamentos não pude deixar de reparar que aquela conversa trazia, nos seus bastidores, uma série de questões que, como guineense, não poderia ignorar. Ao meditar sobre a perturbadora e inesperada conversa, vi-me desafiado a viajar até ao âmago daquela argumentação que considerei atentatória à minha identidade. Atentatória à alma da guinendade.

Na verdade, aquela conversa, não obstante a perturbação que gerou, não poderia ter acontecido na melhor altura. Isto porque os impasses decorrentes do golpe de Estado, de 12 Abril de 2012, rasgaram, finalmente, os véus que cobriam o etnicismo – no seu sentido racista – e as pretensões de instrumentalização política que o acompanham. Tornou-se inegável a urgência do debate sobre o etnicismo que determinados segmentos de poder pretendem injetar nos guineenses. Neste sentido, as dúvidas lançadas sobre a identidade dos guineenses serviram como um excelente pretexto para embarcar numa reflexão sobre os sentidos da sua construção e dos novos desafios que a atormentam.

Todos os conceitos e símbolos são construções sociais assentes em particularidades históricas. Em rigor, todas as nações e respetivas nacionalidades são, de facto, construções – se quisermos, invenções sociais. Esta evidência, ao servir de base de argumentação para colocar em causa a existência de identidades coletivas, entra em caminhos desprovidos de qualquer sensibilidade sociológica. Descurar a importância simbólica e histórica de construções que brotam das relações sociais – em virtude de uma espécie de preconceito pretensamente naturalista – significa desconhecer o poder estruturante dessas mesmas construções. Tudo o que é construído socialmente tem um poder real. Poder que ganha realidade à medida da dimensão da sua incorporação, objetivação e legitimação.

O nosso mundo é configurado pelos sentidos que lhe atribuímos; e a nossa essência, enquanto seres sociais, é moldada nas eternas lutas que visam dar sentidos à nossa existência. Nesta linha, torna-se irrelevante, em termos de análise, que as construções coletivas de identidade sejam colocadas em causa na suposição de não pertencerem a uma espécie de natureza das coisas. A natureza social é, na sua essência, feita e refeita de forma continuada. São essas as particularidades que injetam energia nas dinâmicas de construção do nosso mundo.

Os debates sobre as identidades são mais interessantes quando a tónica é colocada nos sentidos que as configuram e que, simultaneamente, delas emanam. Por isso pergunto-me: onde estará a alma de um povo? Será que os povos têm essa espécie de recheio invisível que proclamamos dentro de nós? Questões complexas que obrigam a incursões introspetivas sobre a nossa própria existência.

No meu olhar, a beleza tropical que passeia abundante e farta nas paisagens da Guiné só encontra paralelo no tecido colorido que carateriza a nossa multiplicidade cultural e étnica. É como se a beleza da Natureza procurasse uma expressão análoga na criação humana dos sentidos do mundo. Esta tem sido a combinação que, desde menino, alimenta o meu imaginário. Um arco-íris de cores intensas e variadas que embelezam, ao mesmo tempo, as matas e as pessoas. O mais interessante desse imaginário é que, no maior tempo do meu tempo, pude vislumbrar sua tradução literal no quotidiano das memórias e das vivências. Pude observar e viver suas manifestações – plenas de energia – na construção e no reforço da identidade nacional guineense.

A existência da nossa essência encontra-se fundada no diverso que se funde e coexiste com o único. Uma combinação impressionante que deu à luz e tem alimentado o conceito de unidade nacional – uma das maiores criações civilizacionais do nosso povo. É através da elevação da multiculturalidade à dimensão de interculturalidade que os guineenses têm alicerçado pilares fundamentais da sua nacionalidade. Um conceito de unidade que promove a diversidade – e que, ao mesmo tempo, a concebe enquanto riqueza cultural – tem imenso potencial construtivo. A guinendade traduz-se em múltiplas pertenças étnicas que se conjugam e se misturam, formando uma teia que nos une e nos faz pertencer uns aos outros.

A nossa identidade nacional não é apenas algo que nos tipifica. É qualquer coisa que tem vida dentro de nós. É um poder mágico que faz com que o mundo nos pertença na partilha com os outros. É uma energia vital que recheia a nossa existência e nos faz ser. A nossa identidade é a nossa alma enquanto povo. A nossa identidade é a alma da guinendade.

Hoje, esse imaginário-realidade tem sofrido abalos que ameaçam a sua existência. Uma seta envenenada e divisionista vagueia, livre e perversa, no coração da guinendade. Uma seta espetada, num gesto suicida, por gente cujas vistas não alcançam o horizonte.

Temos assistido a uma espécie de promoção progressiva e ostensiva de clivagens étnicas nos jogos políticos. Este facto tem-se traduzido num inevitável adensamento da importância atribuída a essas mesmas clivagens nos esquemas de racionalidade política. Neste quadro, o fator étnico tende a ser encarado como algo convertível em recurso político para, de seguida, ser instrumentalizado enquanto tal. Esta tem sido a lógica de jogo que tem encontrado o acolhimento e o abraço de muitos atores do nosso campo político. A questão é que o acolhimento e a consequente legitimação desse tipo de racionalidade promove, justamente, o abalo da condição essencial da nossa existência enquanto nação – a unidade nacional.

Encontra-se em marcha uma tentativa de naturalizar um sistema político baseado na aplicação da velha fórmula imperialista: dividir para reinar. Esta tentativa tem sido veiculada através da promoção e do aproveitamento político de estigmas entre os diferentes grupos étnicos. Não será, certamente, exagerada a constatação de que a instrumentalização étnica com finalidades políticas é uma espécie de armadilha que merece, da parte dos guineenses, uma profunda reflexão e a mais veemente reação cívica. O cenário etnicista e divisionista só encontrará a luz do dia se os guineenses forem cúmplices na sua promoção e institucionalização.

É importante que compreendamos que nenhum povo resiste intato à destruição genética daquilo que lhe faz ser nação e que a construção do conceito de unidade, onde assentam as bases nacionais, é das nossas maiores heranças civilizacionais. Colocar em perigo o conceito de unidade nacional significa cortar com a nossa própria fundação. Significa bradar ao mundo e aos guineenses que o nosso projeto de nação está em vias de falhar.

Acima de tudo, importa que impermeabilizemos os nossos espíritos contra as vagas etnicistas que visam a divisão e a promoção do desrespeito pela diversidade que nos une e nos enriquece. É na evocação do nosso ideal de unidade que encontraremos os caminhos para a preservação da união que nos foi legada. A nossa memória histórica deverá insurgir-se perante esta armadilha que procura dividir-nos. Que procura distrair-nos com falsas oposições.

Os segmentos socias que lucram – material e simbolicamente – com a instabilidade política e com divisionismos étnicos, encontram na unidade nacional um obstáculo óbvio. Na esteira da unidade surge sempre a potencialidade do fortalecimento de causas comuns e do envolvimento alargado nas mesmas. Assim, sendo a unidade algo que coloca em causa as pretensões de dominação através da divisão, observa-se que parte do poder exercido pelos etnicistas tem visado, justamente, a sua eliminação.

É fundamental que nas nossas mentes, enquanto cidadãos guineenses, seja plena a consciência de que o poder exercido por diversos segmentos do nosso espetro político é, essencialmente, – ainda que muitas vezes usurpado – um poder consentido e tolerado por todos nós. Nenhum esquema de dominação consegue exercer a sua influência se não encontrar no dominado a permeabilidade necessária para tal. A exploração dos nossos sentimentos de pertença étnica é a armadilha perfeita dos que querem lucrar com a instabilidade política. Uma armadilha que só terá sucesso se nós a incorporarmos e a legitimarmos.

É possível que fronteiras renegadas no nosso nascimento, enquanto nação, possam hoje assombrar-nos? Penso que isso acontecerá no dia que esquecermos quem somos. No dia em que concordarmos com a ideia de que a nacionalidade guineense não existe. No dia que aceitarmos que a nação guineense é um projeto falido e sem sentido. No dia que a nossa diversidade cultural e étnica deixe de ser motivo de enriquecimento e orgulho. No dia que preenchermos os nossos corações com os etnicismos e racismos que nos querem dividir. Acima de tudo, no dia que deixarmos morrer a guinendade que nos recheia a alma.

Não nos iludamos! Estamos perante uma armadilha fatal. A nós … caberá cair nela, ou não!

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