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Novas representações de áfrica: da colónia à póscolónia, uma leitura do livro de António Pinto Ribeiro

África, os Quatro Rios – a representação de África através da literatura de viagens europeia e norte-americana, de António Pinto Ribeiro, recentemente publicado pela Afrontamento, leva-nos ao encontro de uma outra faceta do ensaísmo do seu autor – o da interpretação de outras linguagens de representação. Como o título indica, a matéria aqui em análise é literária e os textos são o objeto da sua reflexão central. Sobre eles, como tantas vezes António Pinto Ribeiro fez sobre uma fotografia, um filme ou uma exposição, é lançada a interrogação que constrói a sua reflexão e estrutura o livro: que tipo de representações sobre África foram produzidas pelos livros de viagens escritos por homens ocidentais, particularmente entre a segunda metade do século XX e o início do século XXI?

Como gramática de análise destas textualidades o autor segue quatro grandes rios africanos – o Níger, o Zambeze, o Nilo e o Congo – a partir dos quais se pode ler um intenso programa de penetração ocidental no continente africano que escreve as rotas, os momentos e os espaços de uma operação de ocupação continental e de colonização estrategicamente pensada, cientificamente alicerçada, politica e militarmente musculada, ideologicamente motivada, que definiu o colonialismo moderno ocidental em áreas estratégicas do continente africano. O lastro desta literatura atual sob análise é recuperado pelo ensaísta através da leitura da literatura de viagens de africanistas dos séculos XVIII e principalmente XIX que, de certa forma impõem, ao mesmo tempo que desenham, um género literário, politicamente comprometido com o projeto colonial da modernidade europeia e crente na ideia do século – a ciência. Através da análise sumária desta literatura, António Pinto Ribeiro mostra como estes rios e esta literatura configuraram um modelo de representação sobre África que perdurou, mais ou menos estabilizado, até ao fim da Segunda Guerra Mundial e início das independências dos países africanos.

Na segunda parte do seu livro, que constitui a sua leitura mais dedicada, António Pinto Ribeiro concentra a sua análise em três autores europeus e um americano, cujos percursos decalcaram rotas traçadas ao longo dos grandes rios africanos referidos: Ébano. Febre Africana, de Ryszard Kapuscinski, Aventuras em África, de Gianni Celati, Baía dos Tigres, de Pedro Rosa Mendes e Viagem por África, uma viagem por via terrestre entre o Cairo e a cidade do Cabo, de Paul Theroux. As viagens que enformam estas obras refazem, genericamente falando, as rotas dos rios referidos e foram realizadas depois de 1945, após o fim da Segunda Guerra Mundial, em que assistimos à passagem de uma África colonizada para uma África independente e pós-colonial, ou, por outras palavras, na leitura de António Pinto Ribeiro poderíamos dizer que passamos do “fardo do homem branco” segundo Kipling, representado pelas narrativas do final do século XVIII e XIX, ao “fardo do homem rico” das ajudas internacionais, que se desenvolve a partir dos anos 70, para evocar a conhecida expressão de Sebastian Mallaby.

Mas quem são estes viajantes? Os autores destes quatro livros são quatro homens brancos, que sem a motivação científica e política dos seus antecessores, percorrem quatro rios que desenharam a colonização do continente. Kapuscinsky e Pedro Rosa Mendes são dois jornalistas que se tornam repórteres de guerra e de conflitos e são os mais conhecidos do público português. Gianni Celati é um professor de literatura e escritor, cuja obra não está particularmente centrada em África. Paul Theroux é um escritor de viagens profissional, autor de uma vasta obra na qual África é um tema recorrente, tendo a experiência de ter vivido e ensinado no Uganda durante os anos sessenta. Na leitura de António Pinto Ribeiro – e relembrando a ideia lançada pelo historiador congolês Valentim Mudimbe, no seu livro The Invention of Africa – gnosis, philosophy, and the order of knowledge – estes livros, à semelhança dos seus antecessores dos séculos XVIII e XIX, dizem-nos muito mais sobre o Ocidente, as suas formas de representação dos “outros” e as suas ansiedades e angústias do que propriamente sobre África e os africanos.

Com as independências, a construção de novos países e o investimento em revoluções ou orientações políticas maioritariamente de feição socialista emerge no campo ocidental da literatura de viagens, um outro exotismo de feição heroica relativo a África. As utopias e esperanças sobre novos modelos políticos revolucionários e socialistas, as guerras, as deslocações para África de missões das Nações Unidas e de Organizações Não-Governamentais, cooperantes, jornalistas, fotógrafos ou documentaristas de países ocidentais provocaram a emergência de novas narrativas sobre estes países, em forma, maioritariamente, de diário, fotografia, documentário ou livro de viagens. Que subjetividades, preconceitos e continuidades ou roturas existem nestes modos de narrar África? Que relação entre África e Europa é aqui re-apresentada? Dada a amplitude geográfica coberta por estes livros temos acesso a espaços e situações muito diversas, que correspondem a diferentes geografias, povos, heranças, línguas, religiões e zonas geopolíticas e estratégicas na colonização e no pós-colonial. Alguns tópicos estruturais mantêm-se, como o encantamento dos ocidentais perante a natureza exuberante africana, o sentido de aventura dos seus narradores, bem como uma outra representação da dicotomia eles e nós, sobre a qual se construiu o olhar do Ocidente sobre o mundo colonial. Nestas narrativas assistimos à emergência de “personagens” negras como companheiros ou como atuantes nas situações descritas – chefes de estado e políticos em geral, militares, prostitutas, funcionários, populares – visualizamos contextos de convívio e cumplicidade, mas a posição do narrador não se modifica, ou seja, ao seu lugar de enunciação estão ainda associadas todas as camadas de visão que lhe são inerentes em relação ao continente.  

Jane alexander. Infantry with beast, 2008.Jane alexander. Infantry with beast, 2008.

Todavia, e ao contrário das narrativas dos séculos XVIII e XIX, o tópico que percorre todas as narrativas é o da violência como caraterística da póscolónia, não só dada na forma mais extrema e tradicional dos conflitos armados, mas também a violência quotidiana que vai desde o assalto à prepotência do Estado sobre os cidadãos, da menina que se prostitui aos velhos homens ocidentais que ali vivem as suas fantasias sexuais satisfeitas em relações de enorme desigualdade, das enormes riquezas dos países, mas só de alguns, ao acesso precário a bens básicos. Mas a questão apontada por António Pinto Ribeiro na sua análise das continuidades e descontinuidades é a da visibilidade com que essa violência é descrita nestas narrativas e a invisibilidade em que ficou nas narrativas dos séculos XVIII e XIX, possibilitando assim uma paradoxal imagem de ordem e não-violência no tempo colonial, a que se contrapõe a imagem da violência estrutural na pós-colónia.

O que muda significativamente não é de facto a diferença da categoria violência, real e simbólica, sobre a qual se fundam estes espaços africanos, mas a da visibilidade que essa violência adquire quando falamos da pós-colónia, fazendo emergir uma possível leitura sobre as duas orfandades de África – por um lado, a da colonização e, por outro, a da Guerra Fria, que geraram sistemas de representação diferentes, mas unidos pela desapropriação, a violência e o extrativismo. De que tipos de continuidades e descontinuidades estamos então a falar nestas narrativas?

Essa é a dúvida essencial que encontro no primeiro texto do livro de António Pinto Ribeiro, expressa na fotografia de Pieter Hugo que constitui a capa deste livro. Na foto, olha-nos um rosto negro e o seu olhar devolve-nos essa questão essencial europeia que nos interroga desde os gregos, mas que aqui é enunciada a partir de outros lugares e de outros sujeitos etno-culturais. Agora pela máquina fotográfica de Pieter Hugo, e de tantos outros textos, essa pergunta vem vocalizada por aquele que foi designado na narrativa histórica ocidental como o outro e que hoje nos olha perplexo sobre os discursos que continuamos a produzir sobre si próprio e sobre o seu continente. Este é, na minha opinião, o grande desafio epistemológico lançado por António Pinto Ribeiro no final do seu livro em “Abandonando os rios: a emergência de outras representações de África”, convidando-nos a ouvir e a olhar outros modos de olhar o mundo, a partir de epistemologias africanas, que na verdade sempre existiram, mas que condições em que exerciam o seu pronunciamento condenavam ao silêncio. Não se trata porém de nenhum mitológico regresso às origens cuja empreitada seria tão difícil como encontrar as fontes do próprio Nilo. Trata-se sim de ir ao encontro dos pronunciamentos locais há muito elaborados, resultantes do encontro do continente com o Ocidente e que se têm vindo a densificar sobre em modos, formas e códigos possíveis para receção e debate com o Ocidente. Estes pronunciamentos tinham começado a surgir sob a forma escrita nas línguas imperiais ocidentais primeiro pela via literária e jornalística – onde ficou inscrita a diferença cultural que, a prazo, iria reclamar a independência política – e que hoje nos é acessível sob os mais diversos dispositivos, a partir do continente e das suas múltiplas diásporas.

E aqui emerge a multifacetada personalidade do ensaísta António Pinto Ribeiro que há muito nos traz estas outras epistemologias através de outras linguagens, seja nos grandes programas culturais que liderou na Culturgest e na Fundação Calouste Gulbenkian, como o Próximo Futuro, seja nas suas múltiplas direções artísticas, curadorias ou produções que conduziu. Desde a década de 90 António Pinto Ribeiro tem vindo a marcar o ambiente cultural português, a internacionalizá-lo e simultaneamente a inscrever os espaços de língua portuguesa, ibéricos e ibero-americano nas agendas internacionais de forma consistente, rigorosa e inovadora, ao mesmo tempo que tem vindo a trazer a Portugal os grandes nomes das artes visuais, performativas e cinematográficos tanto de África como da América Latina. Os catálogos, jornais e informações que acompanham grande parte desta atividade de programação cultural constituem hoje um património muito significativo para estudar e compreender os anos 90 e 2000, não só ao nível da produção artística, mas também da sua formação e interpretação crítica, a nível nacional e internacional. Trata-se de programações culturais cosmopolitas – veja-se a atual programação de Passado e Presente, Lisboa capital ibero-americana de cultura – baseada numa investigação interdisciplinar rigorosa e numa visão política, social e cultural que procura as novas linguagens de expressão e questionamento do mundo. Do ponto de vista da posição do seu autor este livro é exatamente isso: a procura de outras linguagens de expressões do mundo, a partir de uma atitude interrogativa que constitui a essência do melhor ensaísmo.

 

António Pinto Ribeiro

África, os Quatro Rios – a representação de África através da literatura de viagens europeia e norte-americana, Porto: Afrontamento, 2017.

 

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