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Novos passos de dança

Lembro-me de passar a infância a fantasiar com o ano dois mil, quando viria a ter vinte anos. Finalmente seria dona de mim. Teria um carro, quem sabe filhos, e viajaria pelo mundo. Seria uma cantora de sucesso, talvez, com a minha guitarra, ou então ia dominar o mundo com as minhas palavras, em filmes, ou espetáculos. 

Anos noventa bem medidos, corpo em câmara lenta. Fazendo zapping no sofá, mas ainda com os ouvidos na rua, o bip a fazer-nos entrar nas cabines telefónicas para combinar coisas. Sou da geração que não sabe plantar nem cozinhar direito, que mal aprendeu a reciclar o lixo, e sofre com o multitasking e a longa distância. Talvez sem o radicalismo da geração anterior, que já parece desajustado ao mundo atual, seremos mais fofinhos ou acomodados, mas com uma visão mais global. Não crescemos dentro do ecrã, mas ele tornou-se inevitável, arrastando-nos para um futuro cada vez mais incerto. Sinto-me com sorte por não depender dele para trabalhar ou socializar, agora.

É estranho pensar que esse “tempo de vacas gordas” que coincidiu com a minha adolescência em Alcântara, por vários liceus onde fui passando de beta a excêntrica ou solitária punk, talvez tenha sido o nosso período de maior estabilidade… havia comida, abundância e liberdade, o ar era respirável, e parecia que a Terra não comunicava tanto por meio de tsunamis, furacões ou ciclones, doenças cancerígenas e vírus letais. Até o buraco da camada de ozono parecia resolvido. No entanto, quando a Filipa Pinela, nossa colega com quem eu brincava no colégio, deixou de aparecer e sabia-se que estava doente e, mais tarde, a minha gata Marylin me morreu nos braços, aos onze, sabia que essa estabilidade era uma grande ilusão. Enquanto os douradinhos da Iglo chegavam à nossa mesa, as emissões de CO2 continuavam a aumentar, provocando as alterações climáticas que hoje fazem as manchetes de jornal. “Precisamos que os líderes escutem as nossas histórias. Eles não sabem o que é viver temendo pela vida por causa das inundações”, diz uma jovem filipina de 23 anos, moradora na cidade de Marikina, castigada regularmente por tufões cada vez mais violentos. Ela é uma das ativistas que estão neste momento na Cimeira do Clima de Glasgow representando as vozes dos países do Sul, menos industrializados, porém mais expostos aos danos do aquecimento global. 

Estou na fila do supermercado, a olhar para as grades de cerveja mini dentro do meu carrinho, e para as garrafas de molhos de maionese e ketchup, e a pensar na nossa falta de capacidade para viver bem, tirando prazer das coisas. Na tendência à repressão do afeto, a não celebrar o que se tem, e a complicar. Curioso que muitas vezes é precisamente o excesso de recursos que leva a essa confusão. Ainda que muita gente aqui viva afundada na precariedade e na angústia que ela provoca, temos garantida a segurança física e emocional em muitos aspetos, na Europa. Tudo é extremamente seguro. A fila avança, e eu oiço uma mulher queixar-se ao telefone, de como anda a trabalhar tanto, e do tempo que está mau, e vejo uma criança divertida a empoleirar-se no carrinho cheio de pacotes de massa e latas de atum à minha frente. Já está frio, e os frigoríficos dos iogurtes e dos congelados deixaram-me com a pele arrepiada. Visto o casaco, e enquanto espero, lembro-me da minha última sessão de psicoterapia, que escrevi num quadro com marcadores de diferentes cores tudo o que fiz desde que cheguei a Portugal, para interiorizar e revalorizar essas coisas. A minha terapeuta diz que tenho dificuldade em estabelecer pausas, e que isso pode ajudar-me. A vermelho o amor e a alegria, a azul o trabalho, a verde as viagens, a preto o luto… Para a piscina o azul, também. 

Como sustentar o desejo de que a curiosidade continue centelha a brilhar, ao longo do tempo? Isso não parece depender só de uma pessoa, mas antes da força misteriosa que atrai os corpos e que promove essa transformação… é uma dança conjunta. Com a crescente fragmentação do mundo, entregar-se a essa dança parece cada vez mais difícil, mas… talvez seja preciso redescobrir o ritmo dos passos. 

This life

And all its suffering

Oh Christ, am I good for nothing?

Já no carro, a voltar para casa, abano a cabeça e as mãos ao som dos Vampire Weekend sob o olhar dos turistas que sorriem, sem ligar à chuva, saboreando cocktails nos bancos altos das esplanadas.

BahiaBahia

2021

Foi um desses anos que nos marcam profundamente, na vida. Um regresso muito difícil e atribulado a Portugal, depois de um mestrado, um filme, uma pandemia. Deixei as casas que habitei no Brasil, para me encontrar na Rua da Alegria, em Lisboa. Vivi romances que prometiam o mundo, mas que logo se esvaziaram. Coisas boas e coisas más aconteceram. Tesouros em cima das nossas cabeças, sufoco no Rio de Janeiro, uma viagem à Bahia marcando o compasso com a natureza, depois a felicidade do amor, o paradoxo corpo-cabeça, a dificuldade em sustentar esse amor na nova realidade portuguesa, o atordoamento dos sinais, a desconexão das pessoas, a estranheza. Mas também a colaboração feliz com os amigos na “Charca” (projeto de filme-ensaio que estamos a montar no Beato), a profunda lição das amizades antigas, a renovação da esperança na terapia, pelo viés do autoconhecimento. A edição do meu primeiro livro de poesia, a ser publicado em breve pela editora brasileira-portuguesa-galega Urutau. A oportunidade de ver os meus escritos dos vinte anos concretizarem-se nesse objeto que como diz o Caetano se presta “ao amor tátil que votamos aos maços de cigarro”, fechando assim uma etapa importante da minha vida. E o mergulho doce na aldeia materna, na Beira interior, a leitura da biografia do meu tio (que é uma figura importante da Igreja, mas que sobretudo abriu caminho para que as irmãs mais novas pudessem sair da aldeia e estudar…), o almoço de aniversário lá, a filmagem e recolha de depoimentos para fazer um vídeo de homenagem. E antes a vivência do acampamento contra a mineração de lítio no Barroso, em Trás os Montes, sentir a união e a alegria coletiva em defesa do território. A vontade de continuar a documentar e a difundir os conflitos ambientais em Portugal, estamos finalmente a criar um site do “Pólen”, onde vamos organizar o corpo do trabalho que realizámos nos últimos três anos, e continuamos à procura de apoios, levando o barco com a colaboração dos membros da associação cultural Fogo Posto. 

E a receção calorosa ao meu filme (Visões de Copacabana, que realizei no mestrado no Rio de Janeiro) no Porto, a participação nos festivais onde vai sendo visto, na margem sul, em Coimbra… ganhei um prémio de 700 reais da Parada de Cinema do Piauí – Mostra de Cinema Brasileiro Contemporâneo, que doei à Casa Nem (lugar de acolhimento LGBT, retratado no filme), a felicidade de poder fazer este gesto tão pequenino, mas simbólico, numa altura destas. E a emoção de ouvir uma indígena Krenak cantar para nós no final da conversa promovida com os realizadores, o canto sagrado de uma senhora que morreu de Covid na aldeia. Lembrando-nos que a terra sangra, e que a pandemia é um sintoma de algo que ainda está por vir. 

Um ano vertiginoso, para ficar a decantar nos próximos anos. Ou então, como alguém disse às tantas: “o que se viveu na pandemia fica na pandemia”. Talvez possamos seguir em frente, sem culpa. 

Ano de vários eclipses em Sagitário com incidência na casa 4 do meu mapa – a da esfera íntima, relacionada com família e questões emocionais do passado. Uma noite, vi uma estrelinha riscar o céu durante uma chuva de meteoros, e do silêncio decidi fazer uma nova espada. Dias antes, tinha encontrado uma composição minha da escola primária com o título “O que é para mim a Paz”, e desejei continuar a ser essa criança, ainda que obstáculos se ergam no caminho, e uma sombra paire sobre a minha aura. Sei que para isso será preciso encarar todas as fraquezas e defeitos, que são muitos. Mas também e sobretudo, acreditar no meu instinto e não ceder a essa confusão mental que tantas vezes decorre de uma razão decadente, mascarada de grandes intenções. 

Manifestação contra a mineração de lítio em Covas do Barroso, Trás-os-MontesManifestação contra a mineração de lítio em Covas do Barroso, Trás-os-Montes

Trumps

No Festival Internacional de Documentário de Lisboa – DocLisboa,  vi um filme que me inspirou: Let’s Say Revolution, de Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval, casal francês simpático que tinha conhecido há uns anos numa retrospetiva da Caixa Cultural no Rio, que fazem filmes num tom justíssimo sobre os imigrantes e refugiados na Europa, e que compilaram material desde 2015 pra elaborar uma viagem xamânica que acaba no Carnaval da Boa Vista em São Paulo, pra falar da potência anti-capitalista, citando livremente vários autores como Godard ou Paul Preciado, filmando os corpos a dançar e na rua, para abrir brechas sobre a possibilidade de imaginar outros mundos, tateando o Invisível. “Dizemos potência em vez de poder”, ficou-me esta frase na cabeça, enquanto decorria o debate na sala, e eles explicavam que para se conseguir fazer filmes o que interessa são as pessoas, os encontros com as pessoas, que levam a que a vida irrompa e liberte o filme do jugo das formalidades dos formatos das comissões e de todos os obstáculos que o impedem de existir. “A Europa é um pássaro com as asas enlameadas…”, lembro-me de repente desta fala do imigrante senegalês que vende rosas e à noite dorme sob uma pequena palmeira em Barcelona. 

E por falar em encontros, foram muitos e bons os que o festival me proporcionou, amigos da escola de cinema e outros mais recentes que trabalham no meio, com paixão e comprometimento, com quem gostei de trocar impressões sobre os filmes que vimos: o bairrismo de Alfama com o seu calão ainda falado pelos habitantes mais velhos, que mete a primeira letra da palavra no fim e acrescenta um “i”… por exemplo, alguém gritava “olicipi”, para avisar a malta  quando chegava a “polícia”… e eu que morei anos em Alfama, desconhecia o calão. E as viagens do Calypso de Jacques Cousteau, com a sua mulher que administrava o barco entre uma tripulação de homens, hipnotizada pelo mar, e os seus filhos todos de barrete vermelho no Ártico vendo os glaciares derreter… Cousteau que já nos anos 70 ficava indignado com a poluição que via… com o desaparecimento dos recifes e dos peixes. E que às tantas confessa que já não gosta de assistir o Mundo do Silêncio, filme que Louis Malle fez com ele em 1954 (e que ganhou a palma de ouro em Cannes), porque não gosta da forma como os seus mergulhadores tratam os tubarões, dando pancadas nas suas cabeças. A evolução da consciência ecológica, ao longo do tempo… pensar que passaram 50 anos desde então, remete-nos para um desconforto sem palavras, mediante a atual situação. Alguém comenta que a pesca industrial é o maior responsável pela poluição de plásticos nos oceanos, devido às redes de pesca e a outros tipos de equipamento, e se nada for feito, em 2050 haverá mais plástico do que peixes no mar. Lembro do corpo rijo de Cousteau aos oitenta com os seus óculos de mergulhador sorrindo para a câmara de dentro de água, e o rosto tão bonito do seu filho Philipe que morreu tragicamente numa queda de avião no Tejo, em Portugal, e do meu amigo contando que verteu uma lágrima nessa parte, o que, por causa do tipo de máscara que tinha, não foi nada prático. E vi o filme de Paloma Rocha, filha de Glauber Rocha, Tentehar – Arquitetura do Sensível, contrapondo os povos indígenas aos “civilizados”, falando sobre o Brasil e o momento político atual, que me fez chorar mais um bocadinho. Gostei ainda de conhecer Ulrike Ottinger, artista visual alemã que faz um cinema que achei a minha cara, mas de quem só consegui ver um filme, sobre a sua Paris dos anos 60, recheado de curiosidades antropológicas. Fiquei com vontade de ver os outros.

O privilégio de viver esta inspiração e a perspetiva de mundo que o documentário nos traz, conversando à volta da cerveja e fumando cigarros na esplanada do São Jorge enquanto a chuva se anuncia na calçada. A alegria de voltar às salas em boa companhia, mesmo que de máscara, num ano que começou sem saber o que iria ser de nós. Tantos de nós presos, confinados, distantes. O que aprendemos sobre mudança, improviso, limites. E o que aprendemos sobre instinto, e desaprendemos também. Um ano tão amargo… e ainda assim doce, como o tempo.

Depois da festa de encerramento do festival, acabei a dançar com um amigo no Trump’s, onde por entre troncos nus e suados, e máscaras de Halloween, uma miúda veio perguntar-me ao ouvido: “És kinky? Estou à procura de uma dama”. Respondi-lhe assim: “Sado-maso? Nem por isso, porque sou muito preguiçosa. Mas estou aberta.” Fico chocada com a forma direta de proceder desta nova geração.

“Visões de Copacabana”“Visões de Copacabana”

Terra molhada 

Não sei se quero continuar a fazer filmes, ou a escrever. Tenho a impressão de que já ninguém se importa verdadeiramente com isso. Estou cansada de ver pessoas enaltecendo coisas que considero afetadas e pouco conscientes do mundo além-fronteira, ao mesmo tempo que assisto a pessoas talentosas e humildes serem maltratadas. Vejo o poder, em todas as suas formas de arrogância, em vez da potência, na sua forma de liberdade. Ando cansada dos egos dos artistas e sobretudo do meu, e a única coisa que me apetece é aquilo que ainda não sei fazer… cozinhar, plantar. Tratar de animais. Ver crescer coisas, tentar amar como deve ser. 

Foi nessa altura que as pombas

Solicitaram nas agências as tarifas

Mas não viram mais o poeta

Que gozava na Suíça

Duma licença graciosa

Os meus colegas fazem um bolo de Alexandria para a pausa da montagem, e Pisco Sours, porque a gente trata-se bem e não há rumba que não cure das amarguras do ano. Cada um vai tirando a barriga de misérias como pode, e ocupando a pista de dança quando o sol desponta no céu da fantasia, ainda que demore uma eternidade a paz que o Zeca Afonso canta por entre o ladrar dos cães. No Réveillon, farei um brinde aos anos do silêncio, com mais sobriedade e amor. Pedirei pela saúde mental dos meus amigos, como uma água viva que investe entre as ondas, transparente. Prometo aos astros não desistir, e me organizar melhor, recuperando a fé na alegria ínfima das pequenas coisas, dos pequenos prazeres. Sempre achei que é neles que reside o segredo dos deuses. Uma leitura do jornal com o cheiro do café coado e um brigadeiro de colher na língua, o perfume do sabonete nas mãos, a água quente no banho, caindo nas costas, o cheiro da terra molhada, a vista da serra e a urze cintilante, as plantas crescendo, uma canção que gostamos de ouvir ao violão, um shot de tequila numa noite alegre, os olhos de alguém contando uma novidade boa. 

Confortar-se com uma carta escrita por Rilke, talvez o poeta que melhor compreendeu a tristeza: “Nada mais que possibilidades. Nada mais que desejos. E, de repente, ser realização, ser verão, ter sol.” Sei que sonharei eternamente com as traineiras dos fins de tarde na Caparica, onde o amor renasce. E com os caranguejos no mangue da Bahia, e os sabiás que vinham roubar-me a comida de manhã… com essas cores se entranhando. 

Em 1999 eu estava a viver em Paris. Trabalhava no MacDonald’s, e cuidava de uma criança filha de uma brasileira jornalista e de um fotógrafo francês, ia buscá-la à escola, dava-lhe banho e brincávamos. Praticava o meu francês com ela e com as canções de Gainsbourg. Nos meus passeios nos cafés junto ao Sena, pensava nos poetas que lia. Uma vez, fui visitar a casa de Rimbaud em Charleville, lembro-me dos facsímiles em vitrines pouco convidativas, e de ficar a olhar para a sua mala de viagem através do vidro, e chorar. E do rio que existia atrás da casa, o Meuse, do qual ele fala no “Barco Bêbado”, poema que escreveu sem ter visto o mar. Chovia muito, nesse dia, e eu quase não tinha dormido. Charleville era um porto de onde Rimbaud partia ciclicamente, e eu compreendia essa vontade de partir. 

Nas minhas últimas arrumações em Lisboa, encontrei uma carta que enviei ao meu pai de Paris, em que explicava que estava contente porque tinha encontrado um colchão bom na rua, tinha um candeeiro novo, e o meu quarto estava a ficar confortável. Quando o ano 2000 chegou, eu não era cantora nem tinha filhos, mas de alguma maneira eu já dominava o mundo. 

Ceiroquinho, a aldeia da minha família na Beira InteriorCeiroquinho, a aldeia da minha família na Beira Interior

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