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O encontro nacional dos combatentes: “Talvez nesta cerimónia devessemos ouvir apenas os clarins”

No dia da cerimónia de inauguração do Monumento aos Combatentes do Ultramar, a 15 de janeiro de 1994, as primeiras palavras do discurso proferido por Adriano Moreira foram: “Sr. Presidente da República, Combatentes. Talvez nesta cerimónia cívica destinada a honrar os combatentes da guerra do ultramar português fosse apropriado fazer ouvir apenas os clarins num dos toques que misturam os sons da agonia com os sons da glória”.
Desde essa data, anualmente, no dia 10 de junho, realiza-se o Encontro Nacional de Combatentes junto ao Monumento aos Combatentes do Ultramar. Todos os anos, esse encontro, que presta homenagem aos homens que morreram por combaterem em nome de Portugal, é composto por uma cerimónia inter-religiosa, discursos, desfiles, demonstrações militares, um cortejo e a deposição de flores junto ao Monumento e ao longo das lápides nominativas que cobrem o Forte do Bom Sucesso.

Árvore Azul (da série botânica) | 2016 | Filipe BranquinhoÁrvore Azul (da série botânica) | 2016 | Filipe Branquinho
Este é um 10 de junho especial. Especial não tanto por ser diferente do outro 10 de junho que comemora o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, mas sobretudo pelo que ele consegue condensar. Este encontro agrega, num só tempo e num só lugar, uma densidade e complexidade de factos, narrativas, práticas, interações e significados que, em conjunto, representam muito mais do que a cerimónia de homenagem aos combatentes.
Quando lido tendo em atenção o espaço, a data e os contextos em que acontece, bem como a forma como tem acontecido, este encontro remete para assuntos que nos fazem refletir sobre a complexa trama de significados que podem ser atribuídos a essa cerimónia no Portugal pós-imperial. O Encontro Nacional de Combatentes acontece anualmente junto ao Monumento aos Combatentes do Ultramar em Lisboa), cujas lápides nominativas, onde constam os nomes de 9273 mortos na Guerra colonial (1961-1974), foram descerradas apenas no ano 2000.
Vinte anos depois do final da Guerra, segundo a comissão executiva encarregada do projeto, este Monumento “foi construído em homenagem a todos aqueles que tombaram ao serviço da Pátria durante a Guerra do Ultramar (1961 a 1974)” para “1) Cumprir um acto de justiça, de homenagem àqueles que, como Combatentes, serviram Portugal no ex-Ultramar português; 2) Exercer uma acção cultural e pedagógica de exaltação do amor a Portugal; 3) Traduzir de uma forma simples, mas duradoura e pública, o reconhecimento de Portugal a todos esses combatentes”.
A par desses significados e objetivos associados ao Monumento e sublinhados no primeiro discurso da cerimónia da sua inauguração, proferido pelo General Altino de Magalhães – na época Presidente da Liga dos Combatentes -, é impossível ignorar a carga simbólica do local onde foi edificado: junto à Torre de Belém, Património da Humanidade desde 1983 a qual, segundo a UNESCO, “construída para comemorar a expedição de Vasco da Gama, lembra as grandes descobertas marítimas que lançaram os fundamentos do mundo moderno”. Carga simbólica frequentemente evocada nas dezenas de discursos que por lá já passaram para enaltecer e para honrar os Combatentes. Um deles foi o discurso proferido, na inauguração do Monumento, por Adriano Moreira, Ministro do Ultramar quando começou a guerra de libertação em Angola em 1961. Nele remetia para o significado comummente atribuído ao Monumento aos Combatentes do Ultramar ao situá-lo “[…] neste pequeno triângulo sagrado da terra portuguesa. Lá em cima, na colina a servir de vértice, a capela onde rezaram capitães de mar e guerra e, seguindo a linha do Tejo, a Torre de Belém da partida para as Índias, o Mosteiro da chegada e agora o Monumento àqueles que combateram a batalha que nos coube na Guerra que pôs um ponto final ao sistema político euro-mundista e que levou todas as potências da frente marítima europeia a chamarem as legiões a Roma”.
A localização deste Monumento aos Combatentes pressiona-o a associar-se a esta narrativa do ‘Portugal das Descobertas’ tal como também o fez o Ministro da Defesa Fernando Nogueira na sua inauguração quando referiu: “a nossa história e o nosso destino coletivo como nação há muito assinalaram este lugar como ponto de partida e de chegada, como ponto de separação e de reencontro. Neste espaço […] a nossa memória coletiva alcança, com dimensão multissecular e com uma força que poucos outros locais do território português conhecerão, a grandeza da vocação universal que nos caracteriza como povo e nos identifica como nação. Daqui partiram heróis, sábios e santos […] que assinalaram páginas marcantes da história de Portugal. […] ”. Depois de reforçar a ideia da vocação de diálogo, de trocas, de encontro e de solidariedade que atribuiu à cultura portuguesa, acrescentou: “[…] também cometemos alguns erros na nossa peregrinação universalista, atrevo-me, porém, a afirmar que nas culpas históricas ficámos quase sempre aquém dos outros e na postura humanista fomos, por via de regra, mais longe que os demais. […]. É, pois, da maior justiça que seja este o lugar onde a chama da Pátria permaneça lembrando a todos o esforço daqueles que, como os heróis, santos e sábios de outrora, partiram para o além mar nas décadas de 60 e 70 para aí combaterem sob o símbolo da bandeira nacional […]”.
Esse local é assim particularmente propício à associação e à sobreposição de certas narrativas que acabam por afetar as comemorações que nele vão acontecendo. Além disso, estes encontros que são inequivocamente o lugar da homenagem aos que morreram em combate, são, em simultâneo, lugar de manifestação de ressentimentos, de reivindicações, de contestação, de confluência, de negociação, de partilha e de conflito entre as memórias públicas, coletivas e privadas relacionadas direta ou indiretamente com a Guerra.
A forma como foi recebido o Presidente da República Mário Soares na cerimónia de inauguração do Monumento é exemplo disso. Pouco depois de dar início ao seu discurso onde começa por “[…] homenagear os mortos que caíram no campo da honra ao serviço da Pátria”, Mário Soares desvia o seu discurso para a assistência que perturbava a sua alocução com assobios e insultos, dizendo: “aqueles que não sabem ouvir os outros em silêncio não são certamente democratas, a superioridade moral da democracia consiste em saber ouvir os outros mesmo quando deles discordamos”. A partir daí, todo o seu discurso vai sendo pontuado por argumentos que procuram justificar essa homenagem que Portugal, em geral, e ele, em particular, devem prestar aos mortos da Guerra. Homenagem que nas suas palavras não pode confundir-se com “[…] o regresso a um espírito passadista ou a algum revivalismo que não tem sentido nos dias de hoje. Trata-se, pelo contrário, de uma homenagem voltada para o futuro, e dando um exemplo à juventude de Portugal, um exemplo de tolerância e um exemplo de respeito pelos nossos mortos, para aqueles que morreram no ultramar independentemente das suas convicções. Porque muitos daqueles que morreram no ultramar ao serviço da Pátria não concordavam com a política colonial do antigo regime”. Esta alocução, tal como todas as outras, bem como a forma como os múltiplos significados que lhes são associados e a forma como são recebidos pela assistência, mostram bem quão complexa e densa é a matéria que dá corpo a estas cerimónias de homenagem aos combatentes.
No dia 10 de Junho de 2018 decorreu o 25º Encontro Nacional de Combatentes. Data que assinala, desde 1977, as comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, mas que também já foi o dia em que, ao longo do Estado Novo, simultaneamente se comemoravam a raça, a identidade nacional, as glórias do Império e das Forças Armadas. Desde o início da Guerra em Angola, em 1961 e até 1973, nesse 10 de Junho condecoravam-se publicamente, em Portugal e nos territórios africanos sob domínio português, soldados que se tinham destacado em combate.
Quarenta e quatro anos depois do final da Guerra, o 10 de Junho, para os antigos combatentes que o comemoram em Belém, é, acima de tudo, o dia em que se reencontram aqueles que um dia combateram juntos em África para homenagearem os seus companheiros que por lá morreram.  Em 2018 este encontro repetiu-se pela 25ª vez. Repetiu-se a cerimónia inter-religiosa. Proferiram-se discursos. Leu-se a mensagem enviada pelo Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa que se encontrava nos Açores a comemorar o outro 10 de junho. Adriano Moreira não discursou, mas encontrava-se entre os convidados de honra que, todos os anos, prestam esta homenagem aos combatentes. E repetiram-se os desfiles, o cortejo e a deposição de flores aos combatentes que morreram em nome de Portugal1.
Esta homenagem aos que morreram naquela Guerra representa o consenso em torno do qual sempre se baseou o Encontro Nacional de Combatentes. Por isso, neste lugar, multiplamente simbólico, que carrega em si todas estas narrativas, factos, memórias, significados, nem sempre consensuais, nem conciliáveis entre si, talvez “devêssemos ouvir apenas o toque dos clarins”.
Ou então, por isso mesmo, é que Talvez Não…
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Artigo produzido no âmbito do projeto de investigação MEMOIRS – Filhos de Império e Pós-memórias Europeias, financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (nº 648624), Programa Europeu para a Investigação e Inovação Horizonte 2020.

  • 1. O dia 10 de Junho de 1963 assinala a primeira dessas cerimónias militares no Terreiro do Passo, a qual se repetiria todos os anos até 1973.

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