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O grande medo do Ocidente

Da Tunísia ao Bahrein, a chamada Primavera Árabe derruba ou abala uma série de regimes que eram o garante de um status quo favorável aos grandes interesses estratégicos dos Estados Unidos e da Europa. Para o chefe da diplomacia portuguesa, Luís Amado, trata-se da situação mais grave desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O Ocidente, surpreendido e apavorado, procura uma acalmia, consciente de estar a pisar um terreno minado.  

A insurreição na Líbia já ia no sétimo dia quando o Presidente dos Estados Unidos rompeu o silêncio para condenar a «escandalosa violência» do regime de Muammar Khadafi contra o seu povo. Barack Obama, que tinha ao seu lado a chefe da diplomacia dos EUA, declarou-se empenhado em «unir as nações e os povos do mundo» para responder «a uma só voz» ao banho de sangue.

Dois dias depois, a 28 de fevereiro, a União Europeia dava ordem aos seus vasos de guerra presentes na região, 15 no total, de se dirigirem para as águas líbias, prontos a participar numa operação conjunta de dissuasão e/ou salvamento. O Conselho de Segurança da ONU demorou mais dois dias para aprovar um pacote de sanções seletivas contra o clã Khadafi.

obra de Teodolinda Semedoobra de Teodolinda SemedoEntretanto, no terreno, os insurretos já tinham tomado o controlo da Cirenaica e instalado um novo poder na capital da região, Bengazi; os mortos eram centenas ou milhares; e dezenas de milhares de trabalhadores estrangeiros tinham fugido para a Tunísia e Egito, enquanto muitos outros, europeus e asiáticos (chineses, indianos, filipinos) esperavam ser retirados do inferno e escapar aos fogos cruzados da guerra civil líbia.

No momento de escrever estas linhas (27 de fevereiro) ninguém pode prever se os combates em curso na Líbia acabarão com a queda de Khadafi ou darão lugar a uma guerra tribal prolongada; não se sabe quantos dias ou semanas o rei Salman bin Hamad bin Isa Al Khalifa do Bahrein e o Presidente Ali Ahmed Saleh do Iémen resistirão às revoltas populares que já puseram em fuga o Presidente Ben Ali da Tunísia, a 14 de janeiro, e provocaram a queda de Hosni Mubarak no Egito, a 11 de fevereiro.

O certo é que todo o norte de África e o Próximo Oriente estão em ebulição e que as ondas de choque se propagam até à China e, através do continente africano, até à África do Sul.

E pela primeira vez os Estados Unidos, primeira potência mundial, não têm uma resposta pronta para o vendaval e auscultam os aliados em busca de soluções.

Se as causas das revoltas são comuns – desemprego, carestia, carências sociais e injustiça, falta de liberdade e inércia e/ou corrupção dos regimes – cada caso é um caso, os objetivos e formas de luta diferem de um país para outro, bem como as probabilidades de dar origem a curto prazo a uma nova ordem, democrática e estável.

 

EM BUSCA DA ESTABILIDADE PERDIDA

Segundo Peter Harling, especialista do Próximo Oriente no International Crisis Group, a sublevação de «rua árabe» não interpela apenas os regimes autoritários da região. Põe em xeque décadas de políticas ocidentais que levaram a alianças espúrias com poderes autocráticos e corruptos, em nome de «interesses estratégicos» e em contradição com os valores e princípios proclamados da democracia e dos direitos humanos.

Para Harling, os três pilares desta realpolitik – segurança, acesso ao petróleo e defesa de Israel – em vigor desde o fim da Segunda Guerra Mundial estão agora ameaçados com a perda de «aliados» que o Ocidente julgava sólidos (e ajudou a manter no poder), e obrigam «a acertar os relógios».

A imprensa e a opinião pública ocidental receberam com júbilo as mudanças políticas na Tunísia e no Egito, que pareciam aproximar estes países do figurino democrático ocidental. Washington, Paris ou Londres pediram (e julgaram ter conseguido) aos novos dirigentes de Tunes e do Cairo, garantias de que o status quo estratégico não seria afetado, nomeadamente no que respeita a Israel e às relações económicas e militares.

Mas o dominó não caiu onde era esperado (Síria, Irão, Argélia) e uma certa perplexidade perpassou as notícias sobre as revoltas no Bahrein e no Iémen, as manifestações na Jordânia, Djibuti, Marrocos, Iraque e Omã. E mesmo em relação à insurreição na Líbia contra Khadafi, as primeiras reações oficiais foram cautelosas, justificadas pela ausência de informações fidedignas e a necessidade de acautelar a segurança de pessoas e bens.

Consciente de se ter tornado mais dependente do que alguma vez admitiu dos autocratas no poder em toda a região e de ter perdido a confiança das «sociedades civis», o Ocidente navega à vista, procurando evitar qualquer passo em falso que possa comprometer os seus interesses a curto e médio prazo.

obra de Ynka Shonibareobra de Ynka Shonibare

ÊXODO BÍBLICO?

Vizinha mais próxima, a Europa é a mais diretamente afetada pelas turbulências em curso ao Sul e Leste do Mediterrâneo. O seu primeiro reflexo foi o medo de ser submersa por uma maré de clandestinos.

A Itália, que recebeu os primeiros boat people tunisinos na ilha de Lampedusa, alertou para o perigo de um «êxodo bíblico» de centenas de milhares de magrebinos. Embora exagerada, a ameaça é real, e começou a tornar-se mais premente com o afluxo ao sul da Tunísia de dezenas de milhares de egípcios que fogem dos combates na Líbia. O Norte de África é, há anos, local de partida para milhares de pessoas que arriscam a vida para alcançar as costas do sul da Europa, magrebinos, mas também migrantes oriundos da África subsariana e da Ásia.

O Governo italiano tinha assinado com o regime de Khadafi um acordo para travar estes fluxos de «clandestinos» em troca de 200 milhões de dólares por ano durante 25 anos, e os outros países do Magrebe tinham sido pressionados pela União Europeia a reforçar os controlos sobre as suas costas.

É previsível que esta cooperação cesse ou afrouxe, porque as forças empenhadas na «caça aos emigrantes» deixaram de existir ou têm tarefas mais urgentes, mas também para não exacerbar ainda mais a revolta da juventude, que vê na emigração um meio mais expedito de resolver os seus problemas que a revolução no seu próprio pais.

Os ministros do Interior da Itália, Grécia, Malta, Chipre, Espanha e França reuniram-se para aprovar um plano de emergência, e os membros do Espaço Schengen ativaram o mecanismo FRONTEX, de reforço dos controlos fronteiriços. Mas em toda o Velho Continente, a extrema-direita conquista novos adeptos até na próspera Escandinávia, com a insegurança, o desemprego e uma boa dose de xenofobia como bandeiras eleitorais.

 

OS CUSTOS DA FATURA ENERGÉTICA

Os mercados financeiros, que reagem negativamente a qualquer sinal de turbulência nos países exportadores de petróleo, começaram a agitar-se antes da queda de Mubarak, e os preços do crude e do gás atingiram no final de fevereiro os níveis mais altos desde a crise de 2008.

Com o barril de petróleo a 100 dólares em Nova Iorque e 120 em Londres, os efeitos da subida já se fazem sentir nos bolsos dos automobilistas e nas contas das empresas, anunciando novas falências, mais desemprego, inflação e talvez uma nova recessão.

Não há perigo de escassez da oferta, garantem os especialistas: a Arábia Saudita já aumentou a sua produção para 700 mil barris/dia e pode fornecer mais dois milhões em caso de necessidade, mais do que suficiente para compensar os 1,5 milhões de barris/dia que exportava a Líbia antes do início da sublevação.

As mensagens tranquilizadoras não acalmam a inquietação sobretudo em relação ao sul da Europa, grande consumidora de crude e gás do Norte de África (Argélia, Líbia) e já a braços com grandes problemas orçamentais.

Os mais pessimistas anteveem cenários catastróficos como interrupções do transporte por via marítima (Golfo de Aden e Canal de Suez) ou da sabotagem da rede de oleodutos e gasodutos. Agora que a agitação atingiu a Península Arábica e se aproxima geograficamente dos maiores produtores de uma região que gera mais de um terço do petróleo negociado no mundo e detém 64% das reservas conhecidas, o pior pode ainda acontecer.

fotografia de Marta Lança fotografia de Marta Lança

ISRAEL, IRÃO E AL-QAEDA

Menos sensível que a europeia aos acontecimentos políticos que abalam o mundo árabe, a opinião pública norte-americana é muito mais suscetível em relação aos temas de segurança e de terrorismo islâmico. Os menos politizados dos compatriotas de Barack Obama estão convencidos que o seu inimigo número um é o Irão de Mahmoud Ahmadinejad, e que o que é bom para Israel é bom para a América.

Para os dirigentes israelitas, ao deixar cair Mubarak, a Casa Branca abriu uma brecha na defesa dos seus interesses vitais na região, que está a ser aproveitada pelo regime dos ayatollahs e os seus aliados da Síria, do Líbano e de Gaza.

Telavive conhece os sentimentos das populações árabes em relação ao conflito israelo-árabe. Sabe que a opinião pública árabe está ao lado dos palestinianos, seja qual for a posição dos dirigentes árabes e relação a Israel. Por isso, o Governo israelita qualificou de «provocação» a passagem de dois vasos de guerra iranianos no Canal de Suez, pela primeira vez desde a Revolução Islâmica, para participar em manobras navais com a Síria.

Segundo um artigo publicado a 19 de fevereiro no The New York Times por Robert F.Worth, editorialista do jornal para o Próximo Oriente, os dirigentes sauditas partilham com Israel o mesmo sentimento de insegurança e isolamento. Dizem mesmo que «a Arábia Saudita é o último aliado de peso dos Estados Unidos face ao Irão».

A revolta no Bahrein, quartel-general da V Frota norte-americana, apavora Riad que teme a chegada ao poder dos xiitas (70% da população) em Manana por via eleitoral, e o efeito de contágio sobre a região oriental da Arábia Saudita, onde se situam as grandes jazidas petrolíferas do reino, onde a população maioritariamente xiita se queixa das mesmas discriminações que os bareinis.

No Iémen, onde a Arábia Saudita apoia militarmente desde 2009 as tropas do Presidente Ali Abdallah Saleh na sua luta contra uma guerrilha xiita, supostamente manipulada pelo Irão, a sublevação popular não abranda, apesar das ofertas de diálogo e da promessa do Presidente, no poder há 32 anos, de não se candidatar às eleições de 2013. Aliado estratégico dos Estados Unidos na luta contra o terrorismo e a Al-Qaeda, o Iémen estaria, segundo observadores ocidentais, em vias de transformar-se num «novo Afeganistão» e base de operação dos seguidores de Bin Laden (ele próprio de origem iemenita).

 

E AGORA?

Aos sauditas e às outras monarquias da Península, a Casa Branca aconselha moderação, diálogo com as oposições e reformas económicas e políticas urgentes para desarmar a revolta antes de perder o controlo das ruas. De regresso a Riad após três meses de ausência por razões de saúde, o rei Abdallah, de 87 anos, concedeu aumentos de salários e outras regalias sociais aos seus súbditos, remodelou o Governo e prometeu importantes reformas políticas e económicas.

O rei da Jordânia sacrificou o seu primeiro-ministro, baixou os preços e gratificou militares e polícia; o rei de Marrocos tomou as mesmas medidas, bem como o Presidente argelino que acrescentou ao pacote o levantamento do estado de emergência em vigor há 19 anos.

Demasiado pouco, demasiado tarde? Até onde irá a revolta? Que regimes irão emergir deste tsunami? Será ainda possível impedir os falcões israelitas de lançar uma guerra preventiva? Será a Turquia ou o Irão o modelo das próximas revoluções? Perguntas por agora sem resposta, porque os jovens já não acreditam na capacidade e vontade dos Estados Unidos e da União Europeia para pôr termo ao conflito israeloárabe, e promover o desenvolvimento e uma nova ordem na região. Mesmo que quisessem.

 

publicado originalmente no África21, n.º50, Março 2011.

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