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O horror também tem infância, notas sobre “Bestas de Lugar Nenhum” de Uzodinma Iweala

Deixemo-nos de literatura: a criança-soldado que sangra este livro é filha de cada um de nós.

É assim que começa o exórdio de José Amaro Dionísio no livro de um jovem escritor de origem nigeriana que a Antígona publica. Bestas de Lugar Nenhum é o primeiro romance de Uzodinma Iweala que nos dá a conhecer os pensamentos de uma criança, Agu, forçada a combater sem  razão, por interesses de governantes de quem nunca alcançará o entendimento. Uma dessas crianças utilizadas como carne para canhão às mãos de dirigentes sanguinários que, por sua vez, são fantoches de outros interesses e, no final de tão tristes e gastas equações, todos temos uma dose de culpa.

 

Iweala tem apenas 28 anos, estudou literatura em Harvard e vive actualmente entre Lagos e Washington. Impressiona, na sua origem e condição, a forma verosímil de se posicionar perante uma realidade extrema, através de um narrador convincente que conta a sua história na primeira pessoa. Agu, este menino de 10 anos, sequestrado por um grupo de soldados de um qualquer país da África ocidental – podia ser a Libéria, a Serra Leoa, Darfur ou tantos outros lugares onde a hostilidade tomou conta de certas lógicas de vida  – transforma-se num assassino de guerrilha paramilitar.

 

Percebemos o poder de um exército como máquina de transformar pessoas em assassinos. É todo um processo de despersonalização, de alucinação, de uniformização em mais um “deles”. O início: roubar-lhe as suas bases afectivas, a família: mãe e irmã raptadas, pai assassinado. Mas são essas mesmas coisas preciosas que o ajudam corajosamente a suportar o inferno. “Já tive uma mãe e ela amava-me”, é um dispositivo de memória recorrente para se lembrar que já conheceu o amor antes desta estranha forma de vida. As lembranças das alegrias e felicidades, dos pequenos prazeres da vida anterior à sua figura de soldado tomar conta da identidade, a relação com a família – recorrentemente a mãe, as brincadeiras e imaginação da infância são convocadas como defesa e sobrevivência num contexto de guerra absurda. E é-nos revelado o mundo de uma criança cuja perspicácia vislumbra subtilezas por entre as coisas horrendas e consegue nomeá-las. Narrar parece um grito de salvação da loucura. Contar o horror, enfatizando o lado visual, descrevendo-o à medida que o mesmo acontece, dando a conhecer os efeitos para si e para as vidas dos outros nas suas fragilidades (por exemplo as pessoas das aldeias que eles são obrigados a matar) é uma forma de não esquecer, de não criar imunidades totais. E para coisas tão duras a linguagem tem de ser brutal e comovente, no limbo entre a inocência e a sua perda abrupta.

A tradução de Carla da Silva Pereira inspira-se no “pigeon english”, utilizado como língua-franca por algumas comunidades africanas, para dar voz a esta forma singular de narrar. O cuidado de preservar uma oralidade forte que faça jus à dimensão brutal do conteúdo é uma preocupação que em muito contribui para a percepção da fala: “a espontaneidade oral do relato atua como o instinto da besta feroz que reage quase cegamente aos estímulos com que se depara ou que lhe são lançados”, explica na nota da tradutora.  

A construção literária de Iweala surpreendeu enquanto novo escritor, uma voz de resistência que pretende contar uma estória dos sem voz, subalternos, marginalizados ou produtos de um mundo em colapso. Este livro apresenta-se como um ensaio sobre a guerra e a transformação de uma criança vítima de um destino vulnerável. Surgem-nos de chofre a aleatoridade do ódio, a obrigação ao ódio: odiar o inimigo à força sem saber porquê, sem haver qualquer razão (com que linhas se declara um inimigo?), cumprir as ordens do comandante sem questionamentos, pois ele está sempre zangado e corresponde à máxima figura da autoridade e do medo. “Quero dizer a ele que não posso lutar mais já, que a minha cabeça está a ficar podre, como parte de dentro da fruta. Mas eu sei que se digo qualquer coisa assim, ele dá chapada a mim como faz com outro soldado”, conta Agu na sua agonia consciente da pressão psicológica a que está sujeito.

“Esta insurreição vai despertar a besta em nós” é a frase de Fela Kuti na segunda epígrafe do livro, é também o nome do album Beast of No Nation do cantor que dá título a esta obra. O livro tem recebido inúmeros prémios e foi já adaptado ao palco, num espectáculo que passou por Lisboa no âmbito do Alkantara Festival 2008, intitulado Nine Finger, de Alain Platel, Benjamin Verdonck e Fumiyo Ikeda. Foi uma peça que explorava este universo macabro das crianças-soldado e o sadismo, que são também nossos filhos.

 

Bestas de Lugar Nenhum, de Uzodinma Iweala

(Tradução Carla da Silva Pereira)

Antígona

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