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“Ouçam: a questão já não é a cor da pele!”

O homem que compra bananas no mercado do Soweto está cansado de ouvir falar em tensões raciais na África do Sul. Na África do Sul, em 2010, há brancos com medo e negros com discursos de ódio? Há. Há também negros com medo e brancos com discursos de ódio. Nem uns nem outros são a maioria.

Os abismos entre as misérias (sobretudo negras) e as fortunas (sobretudo brancas) são perigosos num país com armas à solta e uma história de violência, e a História não está do lado da África do Sul. Mas nem todos os países tiveram homens como Nelson Mandela a urdir os fios do destino. É certo que alguns questionam o legado de Mandela. É certo que muitos não vêem com agrado que 87% da terra continue nas mãos de 10% da população – a minoria branca. Mas a África do Sul está a anos-luz do país a preto e branco.

Moses Nakedi compra bananas no mercado do Soweto, a caminho de casa. Olha para o relógio. “Este é o dia em que, em 1994, pela primeira vez, eu, como negro sul-africano, pude votar. Pela primeira vez na minha vida pude disfrutar desse dia. É histórico para mim”. Na África do Sul a liberdade celebra-se a 27 de Abril. Até 1994 só votavam os brancos. “Foi há pouco tempo! É um milagre o que este país já conseguiu! Vocês são brancos, não andam à vontade pelo Soweto? Eu vivo aqui e não sinto as “tensões raciais”.

Moses NakediMoses Nakedi”Andamos à vontade pelo Soweto. Moses Nakedi está cansado de sintonizar a CNN e a BBC e ouvir falar em tensões raciais na África do Sul. “Em todo o mundo há racismo, o racismo existe! Não há racismo em Portugal? Portanto, também existe aqui. Mas o problema neste país já não é a cor da pele, é o desemprego”.

Os números oficiais do desemprego na África do Sul rondam os 26 por cento, os números reais ultrapassam os 40 por cento. A média é ainda mais alta nas townships. Os grandes bairros pobres – cidades satélite criadas pelo regime da segregação para manter os negros longe dos centros urbanos – tornaram-se atracções turísticas. Meio dia de bairro pobre custa o equivalente a 40 euros por pessoa e esta é uma das excursões mais requisitadas na Cidade do Cabo.

Mas a maioria dos sul-africanos brancos nunca entrou numa township.

Anda por aqui a conversa com Dinis Adrião, o porta-voz da polícia de Joanesburgo, quando chega um crime por sms. O telemóvel do capitão Adrião recebe notícia de todos os crimes graves cometidos em todo o país. Na preparação para as primeiras eleições multiraciais, ele representou a polícia nos contactos entre diferentes grupos étnicos e partidos políticos. Em 1994 foi distinguido como polícia do ano em Joanesburgo. “Nesse tempo, em 94, 95, 96, havia à volta de 26 mil homicídios por ano. O ano passado houve 17 mil. Tem descido todos os anos. Aqui há muitas armas porque muitas nações à volta da África do Sul tiveram guerra civil. E quando não há trabalho e há armas, o mais fácil é arranjar uma arma e ir roubar alguém.”

Dinis AdriãoDinis AdriãoAndre VisagieAndre VisagieDinis Adrião traduziu para português panfletos com regras de segurança porque muitos emigrantes portugueses ainda têm dificuldades com o inglês. Em 2009 o governo português pagou um ano de aulas de língua portuguesa a 1100 polícias das áreas com maiores comunidades de emigrantes. O número de portugueses mortos na África do Sul diminuiu. Dinís reforça: “Não é por ser português, ou grego, ou branco. Se há uma loja, os criminosos vão lá e roubam a loja. E muitos portugueses têm lojas. Naturalmente têm sido parte das vítimas.” Dinis Adrião lê o sms: um fazendeiro branco foi morto esta manhã. “A polícia tem campanhas dirigidas aos fazendeiros para melhorarem as medidas de segurança nas quintas mais isoladas.”

Em Ventersdorp, a duas horas de viagem de Joanesburgo, a extrema-direita orfã de Eugene Terre Blanche, que reagiu ao fim do apartheid com ataques à bomba, tem um novo líder. André Visagie exibe três seguranças armados. “Isto é um genocídio da nação boer afrikaner e nós não vamos ficar mais tempo sob este governo.” André Visagie lembra os 3300 fazendeiros brancos mortos desde o final dos anos oitenta e os 50 mil brancos mortos em todo o país desde o fim do apartheid. O porta-voz da polícia responde com números maiores: “Desde o fim do apartheid morreram dez vezes mais negros do que brancos”. As estatísticas não dizem nada a André Visagie. Ele quer de volta as repúblicas Boer e alimenta o sonho de uma pátria sem negros em África. “Queremos independência. Queremos soberania. Os boers afrikaners não estão disponíveis para ser absorvidos por essa nação Arco-Íris.”

Foi André Visagie que ameaçou Liepollo Pheko num debate televisivo, visto em todo o mundo como mais um sinal das crescentes tensões raciais na África do Sul. Liepollo Pheko é responsável por duas ONG’s e comentadora regular da situação política do país. “Não acho que estejam a crescer, acho que sempre cá estiveram. Esses momentos são apenas manifestações das questões que não resolvemos e das conversas que não tivemos”.

“O Presidente Mandela prejudicou-nos”

Liepollo PhekoLiepollo PhekoLiepollo avisa: o que se segue não é um ponto de vista popular na África do Sul. “Mas eu considero que o presidente Mandela nos prejudicou com a noção de perdão e reconciliação. Porque não nos foi permitido, como nação, ter as conversas que precisávamos de ter, e que ainda precisamos de ter. Muitos dos assassinos e dos protagonistas do apartheid nunca foram à Comissão da Verdade e Reconciliação. Alguns estão ainda a trabalhar no governo, outros são professores, empresários… Vivem vidas tranquilas, com o sórdido e desgraçado legado do seu passado inexplicavelmente apagado. Vão à mercearia sem o estigma de ninguém saber as coisas horríveis que eles fizeram. E isso é uma coisa terrível.”

A luta pela libertação, prossegue Liepollo, “não alcançou a igualdade social”, o governo “deixou-se corromper” e faz “demasiadas cedências à minoria branca” e “há uma geração de mini-Malemas a crescer zangada”. Julius Malema é “um líder jovem e imaturo, com tiques estalinistas”. O líder da Liga Jovem do ANC foi condenado pelo partido a frequentar aulas de gestão de raiva e a pedir desculpas públicas por causar danos à reputação e à imagem do ANC. O partido julgou-o mas não o afastou do lugar que já foi ocupado por Nelson Mandela.

Malema expulsou um jornalista da BBC de uma conferência de imprensa aos gritos de “maldito agente” e “bandalho” com “tendências brancas”, cantou a canção proibida que tem por refrão “morte ao boer”, declarou apoio ao partido de Robert Mugabe no Zimbabué e desafiou o presidente quando Jacob Zuma o criticou publicamente.

Ethel MofokengEthel MofokengMalema tem trinta anos e uma fortuna, vive na zona mais rica de Joanesburgo, é ridicularizado nos jornais e nas ruas e nem Ethel Mofokeng, com toda a desilusão que cabe numa cozinha da zona pobre do Soweto, o leva a sério. Ethel esperava que o fim do apartheid trouxesse empregos e vidas desafogadas, para além da liberdade. Mas vieram emigrantes de todo o continente, em busca de melhores condições de vida no coração da economia africana, Joanesburgo. A vida real invadiu a antiga redoma da cidade branca. Ethel tem tanto medo de andar na baixa de Joanesburgo como os brancos que fugiram para os subúrbios ricos protegidos por empresas de segurança.

Manuel de FreitasManuel de FreitasManuel de Freitas é deputado da Aliança Democrática, o maior partido da oposição, e orgulha-se das conquistas da jovem democracia sul-africana. Ao AWB de André Visagie não dá importância – “é um grupo de homens que gostam de fardas e de armas, não é mais nada” – mas vê perigo em Julius Malema. “Ele é oposto de Mandela, ele está a dividir. Mas ele não assusta só os brancos. Os meus amigos negros têm medo do discurso de Malema. Nós queremos andar para a frente e construir uma nova África do Sul. É por isso que o Mundial é tão importante para nós. Porque é uma oportunidade para mostrar que somos uma nação que está a ser construída, para nos livrarmos do estigma do apartheid e para crescermos economicamente.”

Gabriel de Abreu Gabriel de Abreu O autor do logotipo do Mundial 2010 também é filho de portugueses. Gabriel de Abreu aprendeu a desenhar nas tabelas de preços da mercearia do pai madeirense. Sobre a vida do outro lado do apartheid sabia pouco – pouco mais do que lhe contava a ama negra que o criou – e sobre o pós-apartheid fala em termos práticos: “Como cidadão sul-africano, eu precisava de construir um futuro. E para isso tinha de ser mais positivo do que a maioria dos sul-africanos brancos. Tive de abraçar as mudanças e tirar o melhor partido delas, porque os meus filhos iam crescer aqui”. Acrescenta: “E, do ponto de vista humano, era seguramente a coisa certa a fazer.”

Dinis Adrião quis ser polícia para combater o apartheid por dentro e Manuel de Freitas chegou às comunidades negras na adolescência, através de grupos católicos. Em 16 anos de governo negro, nenhum dos três luso-descendentes se sentiu desconfortável na sua pele branca. Diz Gabriel: “Talvez no campo, fora das cidades, ainda se sinta alguma tensão entre negros e brancos. Eu não a sinto, especialmente não em Joanesburgo. E os meus filhos andam na escola com crianças negras e eles já nem vêem a cor da pele. Os problemas que temos hoje têm a ver com classes sociais. Mas quando vou a Portugal, ou a outros países da Europa, também vejo claramente as diferentes classes e os confrontos sociais. Acontece que, neste país, as classes mais pobres são negras.”

“O sonho de Mandela realizou-se”

É ainda Gabriel: “O sonho de Mandela realizou-se. A imprensa tem empolado os elementos mais radicais deste país, por causa da nossa história. Mas todos os países têm um lado radical. Nós temos 11 línguas oficiais. Isso diz muito sobre o país que é hoje a África do Sul, sobre o que já conseguimos fazer juntos.”

Liepollo Pheko: “Se conseguirmos um governo que nos ouça e que honre as apirações da libertação, que encare seriamente as questões da redistribuição da terra e da riqueza, estaremos no bom caminho. Mas exemplos como o Zimbabué, a Namibia ou o Quénia mostram-nos que a história não está do nosso lado. A transição de políticas de libertação para políticas de governo é muito complicada.”

Alfredo Correia conduz um taxi na Cidade do Cabo, não fala uma palavra de português – se não contarmos com os nomes dos jogadores da selecção portuguesa – e nunca visitou a Calheta, onde nasceu o pai, Alfredo Correia. A mãe é afrikaner e ele fala um inglês britânico, em voz suave. Sobre tensões raciais diz quatro frases: “Nunca tive medo por ser branco. Aprendemos a viver juntos. Não houve guerra. Acho que tem estado a correr bem”.

Publicada originalmente na revista Única, Expresso, 6/6/2010

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