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Pancho Guedes e “a nova arte africana”

Malangatana, um outro jovem colonizado que ambicionava ser artista, começou a desenhar e a pintar nesta mesma época. Não se interessou em ter lições com Frederico Aires. Preferiu ter lições de arte no Núcleo de Arte onde ensinava João Aires, um artista moderno que apreciava, e onde se encontravam outras pessoas que admirava.

MalangatanaMalangatana

Em Julho de 1959, quando integrou o Salão de Artes Plásticas organizado pela Casa da Metrópole, era aluno da Escola de Pintura e expunha pela primeira vez. Era, segundo o catálogo, “discípulo indígena” de João Aires. Algum tempo depois, já em 1960, “pintor nativo que se impõe pelas suas reais qualidades e pela sua decidida vocação”1. Já tinha vendido quatro quadros ao arquitecto Pancho Guedes e dois a umas pessoas da África do Sul e em breve a sua vida ia mudar completamente. A história desta relação que dura até hoje, o abandono do Núcleo de Arte, por conselho do arquitecto, para encontrar um caminho tanto quanto possível livre de influências, e o que aconteceu a partir daí, já foi várias vezes contada. A sua carreira seguiu um rumo completamente diferente nos anos seguintes. A carreira do arquitecto também. O mundo descobrira o arquitecto2.

As oportunidades criadas pelo contexto histórico de libertação que África vivia reforçavam a crença na possibilidade de uma nova arte africana, resultado de métodos de ensino inovativos e assente numa força criativa original. Malangatana tem referido a sua viagem ao interior, ao que já conhecia, embora sem o saber. O seu percurso está intimamente associado a este contexto. Primeiro foi a participação na escola de verão em Moçambique, em Janeiro de 1961. Alguns meses depois, em Abril, numa das salas do edifício dos Organismos de Coordenação Económica, na baixa da cidade, expôs cinquenta e sete trabalhos. No catálogo de apresentação da exposição, Pancho Guedes considerava-o, apesar de principiante, “um dos primeiros pintores de África”, “um pintor natural, completo”, um pintor em cujo trabalho “a composição e a harmonia de cores…aconteciam tão naturalmente como as histórias e as visões”. As reacções à exposição oscilaram entre um entusiasmo sem limites, um entusiasmo reservado e o choque e a surpresa. Fora de Moçambique, também por influência de Pancho Guedes, tornou-se conhecido, os seus trabalhos integraram exposições e suscitaram comentários e reflexões. Mais depressa do que na sua própria terra.

máscara lomué, arquivo Pancho Guedesmáscara lomué, arquivo Pancho Guedes

Na mesma época, um outro jovem, pintor de automóveis durante o dia, à noite estudante na Escola Industrial, curso de pintura-decorativa, tinha a mesma ambição que Malangatana. Era Abdias (Júlio Muhlanga). Tal como Malangatana expressava-se livremente sobre as suas experiências e sobre a situação que se vivia em Moçambique. Pancho Guedes seleccionou trabalhos dos dois e ainda de Augusto Naftal, Mitine Macie e Alberto Mati para a exposição de arte africana contemporânea integrada no Congresso Internacional de Cultura Africana realizado em Salisbury (actual Harare) em 1962. Pintura, desenho e bordados. Nesta selecção, Malangatana era o mais conhecido. Abdias pintava há pouco mais de um ano. Mitine Macie trabalhava como servente numa fábrica de tabaco da cidade e o seu gosto pelo desenho levara-o ao Núcleo de Arte onde revelara qualidades de pintor. Alberto Mati trabalhava como empregado doméstico e fazia desenhos para Pancho Guedes que, como já referiu, os mandava bordar ou os utilizava, ele próprio, como uma das múltiplas fontes para algumas das suas pinturas. Augusto Naftal, para além de desenhar, também pintava. Conhecidos apenas de alguns que, na época, seguiam este movimento artístico nascente, expressão da dualidade e interrelação entre a vida rural e a vida urbana. Abre-se com esta exposição a oportunidade de mostrar alguns desses trabalhos, até ao momento, não divulgados e muito pouco conhecidos3.

Pancho e DoriPancho e DoriFrancisco Relógio (1926-1997) que em 1963 passou alguns meses na então Lourenço Marques realizando um mural para a nova sede do ex-Banco Nacional Ultramarino (actual Banco de Moçambique) teve a oportunidade de tomar contacto com o meio cultural. Muito crítico sobre o que lhe foi dado ver (o que lhe valeu severas críticas locais) distinguiu Pancho, um bom artista em qualquer parte, Malangatana e Abdias. Os dois podiam, em seu entender, ultrapassar a fase primitiva e serem grandes pintores de mural. Na pintura de Malangatana notava “um grande equilíbrio de composição e um ritmo violento de cor”. Nas pinturas de Abdias “uma perfeita unidade entre cor, composição e conteúdo”; nas figuras sentia medo e um pressentimento trágico4. Abdias continuou a pintar mas o seu percurso foi, por diversas razões, muito irregular. Há vários anos que se isolou e vive em lugar recôndito na província de Gaza5. Relógio opinou também sobre a galeria de arte para a cidade, um projecto de Pancho Guedes que a Câmara Municipal convidara o arquitecto a apresentar. O anteprojecto ficou apenas no papel. Só depois da independência (1975) nasceria o Museu Nacional de Arte.

Outros africanos vão sentir-se encorajados pelo exemplo destes artistas e beneficiar das poucas oportunidades e de apoios disponíveis: Shikhani (n.1934), Chissano (1935-1994), Alberto Chachuaio, Paulo Come (1946-2000?), Jorge Nhaca (1943-1997). O Núcleo de Arte continuou a sua missão, prosseguiu, apesar das permanentes dificuldades financeiras, as suas actividades regulares, já com a participação de alguns africanos negros. Era o caso de Macie, de Afonso Tembe, para além dos já referidos. Uma nova iniciativa, a partir de 1962, foi o espaço da crítica de artes plásticas no jornal Notícias. Entre os que assinavam as críticas incluía-se Amâncio D’Alpoim Guedes. Desvalorizava muito do que então se fazia na cidade. Entendia que a actividade, o grande número de exposições que acontecia não significava desenvolvimento e que faziam falta bons críticos e mais intercâmbio. Estava cada vez mais interessado na actividade que passava quase desapercebida do público artístico e nascia da necessidade de fazer coisas bonitas que existia em todos os homens, as decorações espontâneas das casas, os desenhos e sinais de crianças e adolescentes e dos que queriam realmente pintar. Via assim o caminho percorrido: “Há muito tempo era a escola do pai Aires. Depois a do Aires filho, no tempo duma pintura de coisas de cá – foi até nesse tempo que se pintaram os melhores quadros cá na terra. Depois, houve os Zé Júlios e as Bertinas. Recentemente houve os Independentes que não são escola mas grupo multidireccional e os Aires postaleiros. Para breve, com certeza, vamos ter os Malangatanas”6.

Pancho GuedesPancho Guedes

Através dos interesses pessoais e contactos de Pancho Guedes nos meios culturais da região e internacionalmente abriam-se múltiplas oportunidades. Luís Bernardo Honwana refere essa faceta do arquitecto e reconhece o apoio que recebeu na publicação do livro de contos Nós Matámos o Cão Tinhoso. O livro foi ilustrado com desenhos de Bertina Lopes para quem, na época, os temas de natureza social apareciam como centrais no seu trabalho. Bertina entendia que tinha, como pintora, responsabilidade na transformação do clima social que se vivia. Para Pancho Guedes os seus desenhos situavam-se no mesmo espírito dos contos de Honwana. A artista deixaria, pouco tempo depois, Moçambique rumo a Portugal e Itália onde se fixou e ainda hoje vive, dividida. A “política intrometeu-se” e, como diz Pancho, toda a gente se meteu em apuros. As prisões que se seguiram, incluindo a de Malangatana, mudaram muita coisa. Uma outra fase ia começar.

 

Extracto de “Revisitando os anos em que Pancho Guedes viveu em Moçambique: As artes e os artistas”, in As Áfricas de Pancho Guedes, ed. CML/Sextante, catálogo que acompanha a exposição com o mesmo nome comissariada por Alexandre Pomar, e organizada pela Câmara Municipal de Lisboa, no Mercado de Santa Clara (Lisboa), de 17 de Dezembro de 2010 a 8 de Março de 2011.

  • 1. ‘Notícias’, 14 de Janeiro de 1960, última pág.; p.9.
  • 2. ‘Notícias’, 20 de Agosto de 1961.
  • 3. O Museu Nacional de Arte, o Museu-Galeria Chissano, a Galeria de Malangatana, entre mais uma ou outra colecção, possuem trabalhos de Abdias e Augusto Naftal.
  • 4. ‘A Tribuna’, 17 de Março de 1963, p.6.
  • 5. Informação de Shikhani e, recentemente, confirmada por Malangatana. Em 2007 tentei, embora sem sucesso, localizá-lo.
  • 6. ‘Notícias’, 5 de Abril de 1962, p.6, última página.

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