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Poesia como reacção

Arnaldo Santos é autor de dois livros editados pela Casa dos Estudantes do Império na década de 60, apesar de nunca ter estudado em Portugal. O escritor recorda os tempos em que nas férias levou mensagens de Lisboa para Paris, fazendo a ponte entre Amílcar Cabral e Mário Pinto de Andrade que urdiam as independências africanas. 

 

Em 1959 Arnaldo Santos trabalhava como funcionário público em Luanda, estava ligado ao Movimento dos Novos Intelectuais de Angola e fazia parte do grupo da revista Cultura, editada pela Sociedade Cultural. Resolve tirar uma licença de alguns meses e ir de férias para a Europa. A primeira paragem é em Lisboa. Vai com frequência à Casa dos Estudantes do Império (CEI) onde, entre partidas de pingue-pongue, reencontra amigos com quem fez o Liceu em Luanda e muitos outros nomes que acabaram por desempenhar um papel relevante na luta pela independência.

«A Casa estava cheia de pessoas progressistas, de esquerda, com ideias nacionalistas. Falavam de uma forma diferente, eram já revolucionários, e com uma visão do mundo diferente da minha porque eu era católico praticante», conta na sua casa em Luanda. Relembra nomes como Amílcar Cabral (político da Guiné Bissau e de Cabo Verde), Iko Carreira (futuro ministro da Defesa de Angola), Paulo Jorge (futuro ministro dos Negócios Exteriores de Angola), entre outros.

Naqueles tempos de férias recorda alguém em particular: um luso-brasileiro que estudava Direito em Coimbra e estava na tropa portuguesa, Albuquerque Mourão (sociólogo que se viria a notabilizar com os seus estudos sobre África e na relação do continente com o Brasil). «Ele foi determinante na minha transformação ideológica. O Mourão era um elo de ligação entre os estudantes de Coimbra e os de Lisboa. Mas não só. Talvez por ser brasileiro sentia-se mais próximo dos angolanos», relembra o escritor.

Em Angola, o salário de funcionário público (cargo máximo a que um angolano podia ascender na época colonial) não lhe chegava para comprar livros. Foi em êxtase que vislumbrou os livros de Marx, Engels e outros filósofos dentro pasta negra de estudante de Coimbra de Mourão. Aquelas doutrinas eram-lhe familiares. «Foi por ser católico que já os conhecia os filósofos materialistas através da revista Brotéria na qual os teólogos contestavam esses filósofos». De católico praticante dá-se a metamorfose para um comunista assumido. «Se formos a ver a visão do Cristo revolucionário é muito parecida com o comunismo. O que os distingue é que no cristianismo não se propõe a sociedade ideal quando estamos vivos, é mais ‘fiquem na esperança que quando morrerem vão lá chegar’. O comunismo defende esse ideal mas em vida. Na minha cabeça nunca houve um grande conflito em ‘passar’ de um lado para o outro», justifica com desassombro.

 

Mensagens de Lisboa para Paris

 

No grupo de Costa Andrade e Carlos Ervedosa (escritores angolanos também publicados pela CEI) soube-se que Arnaldo Santos «escrevia umas coisas», e tinha publicado poemas no jornal Brado Africano em Moçambique através do Mário António, «figura ímpar» (Mário António viu a obra Amor ser também publicado pela CEI). Em Luanda chegou até a participar de um concurso de poesia em que «Henrique Abranches foi premiado e eu tive uma menção honrosa». No júri estava «um mais velho que não me ligava nenhuma», diz com um sorriso. Era Viriato da Cruz (líder da luta pela libertação foi o primeiro secretário geral do MPLA, cargo que abandona em 1962 por divergências com Agostinho Neto. Morreu em Pequim em 1973).

O livro de poemas Fuga foi editado em 1961 pela Casa dos Estudantes do Império. Ilustração da capa do poeta e artista plástico Costa Andrade 'Ndunduma'.O livro de poemas Fuga foi editado em 1961 pela Casa dos Estudantes do Império. Ilustração da capa do poeta e artista plástico Costa Andrade ‘Ndunduma’.Perante o historial, Arnaldo Santos é então convidado a publicar os poemas com a chancela da Casa. A Fuga foi o primeiro a ser publicado em 1960, com capa da autoria do artista plástico Costa Andrade, a que se seguiu Kinaxixi, em 1965. 

A passagem por Lisboa revelou-se profícua mas curta: a intenção de Arnaldo Santos sempre foi seguir para Paris. «Os intelectuais franceses na altura é que mandavam culturalmente», justifica. Queria gastar os dias de férias e o pouco dinheiro que tinha na capital francesa onde quase uma década depois aconteceria o Maio de 68. Ainda antes de partir conhece Amílcar Cabral em Lisboa. «Quem mo apresentou foi o Everdosa e fui almoçar com ele, a mulher, a Noémia de Sousa e a Alda Espírito Santo. Cheguei lá não havia almoço, eram todos intelectuais e ninguém sabia cozinhar. Fizeram ali uma coisa e eu fiquei muito mal impressionado», recorda com humor.

De Amílcar Cabral lembra o facto de ser «uma pessoa muito interessante, com uma grande vivacidade, inteligente, muito alegre, encarava tudo com muito sentido de humor». Amílcar Cabral deu-lhe «recados» para Mário Pinto de Andrade (fundador e primeiro presidente do MPLA, considerado o primeiro africano de língua portuguesa a elaborar textos críticos sobre poesia africana lusófona), que vivia em Paris. Na cidade-luz andou a calcorrear o bairro do Quartier Latin «a fazer aquela vida de pseudo-intelectual», brinca. Regressa quando a Lisboa quando o dinheiro começa a faltar e apanha o barco para Luanda. 

 

No epicentro dos massacres de 61

 

De regresso, espera-o a sua condição de funcionário público nos serviços de saúde de Luanda e é transferido para o Uíge. Por essa altura, o café soube nas cotações internacionais e o seu preço aumenta. Há uma corrida em direcção ao Norte e é preciso gente para trabalhar as terras.

Foi naquela cidade que Arnaldo Santos, criado na fé católica, viu coisas que até o diabo duvida. Por ser uma zona onde havia muitos fazendeiros brancos e trabalhadores bailundos ao seu serviço, foi um dos locais escolhidos pela UPA/FNLA para os massacres de 1961 e que marcam o início da luta armada. Guerrilheiros empunhando catanas mataram colonos, não poupando nem mulheres nem crianças de berço.

Arnaldo Santos iria chegar nas vésperas de outra carnificina: os massacres perpetrados pelo exército e pelos colonos em retaliação. «Faz parte do meu arquivo morto. É uma história que guardei, não contei. Há um poema meu ou outro que fala disso», conta emocionado. O escritor lembra os fuzilamentos a que assistiu. «Indivíduos que compravam armas e, sem mais nem menos, experimentavam logo na rua no primeiro negro que aparecia à frente. Isso está num dos poemas», como está “Retrato de Mulher Nua, com Soldados” e tantos outros.

A poesia surge como reacção aquilo a que assiste. É a brutal realidade que o dirige para escrita. A trabalhar nos serviços administrativos tem contacto diário com os contratados que iam para os trabalhos árduos das fazendas de café. «Assistia aos exames médicos para ver se os contratados tinham condições de executar aqueles trabalhos. Eram meras formalidades. O médico assinava a guia e seguiam todos para as fazendas». (Vinham ao longe/Aglutinados/Baforada de sussurros no horizonte/Como ressonâncias fundas de uma força, no poema “Contratados”).

Novamente em Luanda, a partir de certa altura começa a notar pela acção da PIDE que não era bem visto em Angola. Periodicamente, e na sua condição de funcionário público tem de assinar uma declaração de fidelidade a Portugal e ao regime. «Tudo isto demarca-nos em relação às coisas, às injustiças, às disparidades, em relação à forma de ver o dia-a-dia, e leva-nos a reagir na medida do que é possível a cada um», diz, assumindo que «era um pouco ingénuo politicamente nessa altura».

«Era um político mais por sentimento, na minha poesia reflecte-se isso: uma relação com as coisas e com as pessoas que conheci desde o Kinaxixi onde vivi durante a infância e adolescência. A poesia surge como necessidade de reagir ao ver as coisas. Foi isso que fez com que me encontrasse na poesia».

 

 

Quimbundo como herança familiar

 

A língua nacional quimbundo marca a obra de Arnaldo Santos. Um facto que parece óbvio para o escritor: «Desde criança que me relaciono com pessoas que falam quimbundo», explica. 

No dizer do escritor angolano Jorge Macedo, Arnaldo Santos usa «lexias-kimbundo no interior de um português de luzidia correcção». Críticos da obra referem que «o seu nome é uma referência incontornável, associada àquele minimalismo narrativo que, nas gerações seguintes, encontraremos em Boaventura Cardoso. É um dos poucos narradores que evidencia elevado sentido de rigor na selecção dos tipos de personagens. Na sua obra inicial, reconhecemos traços caracteriais de uma perfeita articulação da psicologia das personagens a esse espaço urbano de Luanda que obedece à lógica e história predominantemente autóctones» (retirado do blogue do crítico literário Luis Kandjimbo).

Arnaldo Santos vai buscar a explicação à sua herança familiar. «A minha mãe era mestiça, filha de uma negra da Kissama e de um militar português. O meu avô enviou a minha mãe para Portugal para deixar de ser gentia levando a minha avó ao suicídio pouco depois», lembra.

Quando a mãe voltou a Angola conhece o pai de Arnaldo. «Um português, pobre, extremamente honesto, de uma família rural de Valongo», recorda. Do norte de Portugal emigrou para Angola em busca de um destino menos fatídico do que aquele que lhe esperava no Portugal de Salazar. «Cheguei a ir conhecer a minha família paterna que vivia naquelas casas com porcos em baixo», conta emocionado.

Entrou em conflito com o pai depois de se «tornar marxista. Dizia-lhe: ‘Pai, tu também és explorado!’. Mas ele não me admitia isso». 

Arnaldo Santos romanceou a sua história familiar numa obra muito esperada se tivermos em conta as palavras do poeta Mário António num texto publicado no Boletim da Câmara Municipal de Luanda, em 1967, no qual indagava: «Para quando, Arnaldo o teu romance?». Chegaria em 1999 com A Casa Velha das Margens. Arnaldo Santos foi ainda jornalista em diversas publicações, director e mais tarde cronista do Jornal de Angola. É um dos membros fundadores da União de Escritores Angolanos.

 

Artigo originalmente publicado no semanário Sol.

 

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