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Quando nem sequer os mortos veem o fim da guerra

Na obra Soliloquios en Inglaterra e Soliloquios Posteriores1, escrita entre 1914 e 1921, o filósofo espanhol George Santayana disse: “Apenas os mortos viram o fim da guerra”. De facto, quando as guerras terminam, nem tudo aquilo que elas destruíram, criaram, violentaram e profanaram parece ter fim. Contudo, entre os muitos restos, destroços e heranças que as guerras vão deixando, e que inevitavelmente contaminam várias gerações, por vezes nem sequer os mortos parecem ver o seu fim.

Casa (da série Open House) | 2006 | José BecharaCasa (da série Open House) | 2006 | José Bechara

Maurice Audin é um deles. Foi detido e dado como desaparecido no mês de junho de 1957, em plena “Batalha de Argel”. No passado mês de setembro, o Presidente Francês Emmanuel Macron reconheceu, em nome da República Francesa, que Maurice Audin foi torturado e executado, ou torturado até à morte, pelos militares franceses que o tinham detido na sua residência. Este reconhecimento, nas palavras de Emmanuel Macron “deve abrir a via para uma melhor compreensão do nosso passado, para uma grande lucidez das feridas da nossa história, e para uma vontade nova de reconciliação das memórias e dos povos francês e argelino”.  Esperemos que tudo isso venha, rapidamente, a acontecer. O que se verifica, por agora, é que este reconhecimento marca o início de uma nova etapa na guerra de memórias que se trava entre múltiplos protagonistas que experienciaram os tempos da presença colonial francesa na Argélia ou que, mesmo sem a terem vivido, entram nesta batalha por se considerarem herdeiros desse passado.
Maurice Audin desapareceu no dia 11 de junho de 1957 na Argélia, onde os movimentos independentistas lutavam pela libertação do domínio francês numa guerra que se travava desde 1954 e que duraria até 1962. Maurice Audin, matemático, tinha 25 anos, era casado e pai de três filhos. Militante comunista e anticolonialista, Audin foi detido em sua casa por forças francesas, por ser suspeito de albergar membros de células armadas independentistas. Alguns dias depois, Josette Audin, sua mulher, é informada que o marido fugiu durante a sua transferência e desapareceu sem deixar rastro. Em julho do mesmo ano, Josette Audin apresenta uma queixa-crime por homicídio, e em 1958 é publicado o resultado de um inquérito que demonstra que Audin não se evadiu, mas que foi morto por paraquedistas das Forças Armadas Francesas.
Cinco anos depois do desaparecimento de Maurice Audin, a guerra terminava, a Argélia tornava-se independente e amnistiavam-se os crimes que foram cometidos em nome desse conflito. E Josette Audin e os seus três filhos sentem-se forçados a ir viver para França porque tudo indicava que eles não pertenciam à nova Argélia que então nascia.
Sessenta e um anos separam a última vez que Josette Audin viu o seu marido e o dia em que o Presidente Emmanuel Macron foi a sua casa entregar-lhe, pessoalmente, uma carta onde reconhece a responsabilidade do Estado Francês relativamente à tortura e morte do seu marido.  Entre estes dois momentos, tão distantes e distintos entre si, sucederam-se múltiplos episódios que lhes são indissociáveis e entre os quais destacarei apenas alguns.
1957: Josette Audin apresenta uma queixa crime contra X pelo homicídio do seu marido.
1958: O historiador Pierre Vidal-Naquet invalida a versão da fuga de Maurice Audin. Henri Alleg, também detido pelas forças francesas, no seu livro La Question conta ter testemunhado as torturas infligidas a Maurice Audin.
1962: Fim da Guerra e independência da Argélia; acordos de Evian e amnistia dos crimes cometidos no conflito.
2007: Josette Audin escreve ao Presidente francês Nicolas Sarkozy pedindo-lhe que contribua no sentido de se descobrir o que sucedeu ao seu marido. Josette Audin não obtém nenhuma resposta.
2008: Michèle Audin, filha de Maurice e de Josette Audin, recebe uma carta do Presidente Nicolas Sarkozy atribuindo-lhe a condecoração Grau de Cavaleiro da Legião de Honra (pelo seu trabalho em matemática).
2009: Michèle Audin recusa a condecoração pelo facto de o Presidente não ter respondido à sua mãe.
2012: O Presidente François Hollande presta homenagem a Maurice Audin junto ao monumento que lhe foi dedicado em Argel.
2014: É revelado um registo sonoro póstumo de um general francês que a propósito do desaparecimento de Maurice Audin declarava: “matámo-lo. [… ] matámo-lo à facada para fazer crer que foram os árabes que o tinham matado”. Diz-se que quem executou Maurice Audin está vivo, tem 82 anos, reside na Bretanha e recusa dar qualquer entrevista. O presidente François Hollande admite que Maurice Audin não se evadiu e que foi morto durante a sua detenção.
2018: No dia 13 de setembro, o Presidente da República Emmanuel Macron reconhece a responsabilidade do Estado na tortura e assassinato de Maurice Audin por militares franceses em Argel em 1957 durante a guerra da Argélia.
Este reconhecimento pode constituir o fim de uma mentira que perdurou mais de meio século, e na qual penso que já ninguém acreditava. O que este reconhecimento também fez foi reavivar um debate conflituoso entre muitos daqueles que vão alimentando uma batalha entre múltiplas memórias que perduram desse passado. Debate entre os que reconhecem em Audin uma personalidade anticolonialista e independentista e que se erguem contra aqueles cuja nostalgia por uma Argélia Francesa, ou cujas vidas profundamente lesadas pelo fim dessa Argélia, o veem como um traidor, um assassino, um homem que representa os responsáveis pela morte ou desaire de muitos franceses e/ou argelinos. Um debate que reúne outras vozes tais como órfãos de outros desaparecidos, torturados e massacrados nessa guerra e que não foram contemplados por este tipo de reconhecimento. Um debate conflituoso, mas que não deixa de ser necessário e quiçá até saudável para que os fantasmas que ainda continuam a assombrar essa França pós-imperial possam manifestar-se.
Audin desapareceu em 1957 e não viu o fim da Guerra, nem assistiu à independência da Argélia que tanto desejava. Esperemos que o reconhecimento deste crime possa servir para que as memórias, aparentemente inconciliáveis e incompatíveis entre si em relação à presença colonial francesa na Argélia e à guerra que sentenciou o seu fim, possam, pelo menos, apaziguar-se. Isto, através de um debate que reconheça, acima de tudo, que a tortura e a morte, independentemente do lado da história em que nos coloquemos, nunca são legítimas, nem mesmo quando somos tentados a pensar que só através delas podemos, um dia, ver o fim de uma guerra.

 

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Artigo produzido no âmbito do projeto de investigação MEMOIRS– Filhos de Império e Pós memórias Europeias,financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (nº648624), Programa Europeu para a Investigação e Inovação Horizonte 2020.

  • 1. George Santayana, Soliloquios en Inglaterra e Soliloquios Posteriores . 2010. Madrid: Trotta.

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