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Resenha a “Caderno de memórias coloniais”, de Isabela Figueiredo

Caderno de memórias coloniais, de Isabela Figueiredo, publicado recentemente pela Angelus Novus, desdobra-se da atividade da autora em seu blog. O trânsito entre mídia virtual e impressa afeta a composição do Caderno, demandando que o leitor lide com traços de um novo gênero: o post. O que esperar desse gênero discursivo tão recente? No caso do livro de Isabela, os posts tendem à crônica, tanto por seu tamanho (mesmo que variável, sempre reduzido) como porque se ocupam especialmente de situações do cotidiano. O Caderno pode ser lido como um conjunto de crônicas em torno de uma mesma temática: a infância da autora marcada pelo colonialismo português em Moçambique.


Temos 43 pequenos textos, numerados, que mantêm certa autonomia, independência entre si. Como encadeamento, ainda que tênue porque pouco marcado, o leitor tem em seu auxílio a ordenação cronológica: eventos se sucedem de maneira que se possa acompanhar o crescimento da menina em Moçambique e sua mudança para Portugal. Ao escrever sobre o que viveu e testemunhou quando criança, a autora se volta a eventos cruciais da história recente desses países: a situação colonial, que brutalizava o africano e a africana; a guerra colonial ou de independência; o 25 de abril de 1974; o 07 de setembro deste mesmo ano; a situação dos colonos depois da independência e seu retorno massivo a Portugal. As esferas pessoal e coletiva surgem ligadas, tornando-se, esta autobiografia de infância, também uma espécie de heterobiografia (como considerou Antonio Candido acerca de Boitempo e Menino antigo, de Carlos Drummond de Andrade). Para que a articulação dessas esferas funcione no livro, destacam-se algumas estratégias de composição: 1) a linguagem crua e por vezes elíptica; 2) a construção de metáforas e metonímias; 3) o recurso a situações emblemáticas; 4) o destaque do corpo; 5) a metalinguagem.
O segundo post-capítulo é bom exemplo de algumas dessas estratégias. Note-se que não há introdução, ou seja, informações prévias sobre quem fala, de quem se fala, onde se passam as ações e nem quando. A narrativa é, nesse sentido, lacunar, oferecendo escassos elementos ao leitor. Aos poucos, porém, uma voz narrativa se revela em primeira pessoa (repondo o “eu” esboçado no post-capítulo anterior). O leitor é levado a considerar que a narradora escutara, em menina, conversas de mulheres como as que agora, já adulta, relata. A estratégia escolhida reforça o trânsito entre a dimensão pessoal e a coletiva, colocando as vozes dos outros em primeiro plano. Mas modificadas, a especificidade da voz autoral se instala e se afirma na escolha lexical: “As pretas tinham a cona larga, mas elas diziam as partes baixas ou as vergonhas ou a badalhoca.” (p. 13) As mulheres brancas usavam outras palavras para falar do sexo das mulheres negras, diferentes da que escolhe a narradora. Há, assim, alguém que fala das falas das mulheres brancas marcando sua distância, enfatizando sua não adesão ao discurso exposto.
Chama a atenção a assertiva inicial do post-capítulo mencionado: “Os brancos iam às pretas.” (p. 13) Uma fórmula de caráter genérico que dá os contornos de um tabuleiro social em que os indivíduos se reduzem a peças movendo-se segundo esquemas prévios e previsíveis. Nota-se que o abuso do homem branco com relação à mulher negra se repõe na depreciação da mesma por parte da mulher branca. Ou seja: o corpo da mulher negra sofre ataques concretos e simbólicos que se reforçam mutuamente. “As pretas tinham a cona larga e essa era a explicação para parirem como pariam, de borco, todas viradas para o chão, onde quer que fosse, como animais.” (p. 13) É interessante notar que esta fala de mulheres brancas é apresentada como lugar-comum, é fala sem boca que pode passar por toda boca de mulher branca, sugerindo-se que na ordem colonial a pessoa se dilui no grupo. De outra maneira: ser branco é decisivo, ser negro é decisivo, importa mais que qualquer outro traço particularizante. O singular se borra, vale o traço que identifica cada um a seu grupo, ou antes, a sua raça.
Notemos que o assunto das mulheres brancas é o corpo das mulheres negras. Ou melhor: o corpo reduzido a sexo da mulher negra que se contrapõe ao corpo de sexo reduzido da mulher branca. Na fala da branca, a negra é semelhante ao animal: “Que diferença havia entre uma negra e uma coelha?” (p. 14) A repressão sexual fica indicada, resultando na super-desvalorização da mulher negra, que será suporte para o que a branca nega em si, com efeitos de ampliação e deformação. Ou seja, a sexualidade que a branca nega em si se projeta, desfigurada, no corpo da mulher negra, desumanizando-a. O Caderno de memórias coloniais capta, assim, de maneira aguda, a brutalidade e perversidade desta sociedade extremamente racializada. Ao expor a amplitude da violência presente nas relações entre colonizadores e colonizados, o Caderno serve como antídoto à velha ideologia, que ainda sobrevive de várias formas, do “bom colono (ou da boa colona) português (portuguesa)”.
Importa atentar para a seguinte estratégia narrativa: a narradora aborda as práticas sexuais violentas (concretas e simbólicas) da sociedade colonial de maneira genérica, primeiramente, e só em seguida trata da sexualidade de seu pai. O começo do terceiro post-capítulo insere esta particularidade: “Foder. Meu pai gostava de foder. Eu nunca vi, mas via-se.” (p. 17) Seu pai se torna um dos brancos que iam às pretas. Suas ações pessoais pautam-se por uma ordem coletiva já anunciada no post-capítulo anterior, de maneira que sua figura ganhe caráter metonímico: trata-se do pai da menina, mas também de um representante da ordem colonial. A centralidade da figura paterna é importante para a economia do livro, configurando-se numa espécie de protagonista e mesmo num interlocutor subentendido (lembremos que o livro é dedicado a sua memória). O trânsito geral/particular/geral na composição dessa personagem-central torna-se decisivo: as ações e características do pai podem ser tomadas como próprias de todo o grupo de que faz parte (os colonos brancos). Falando do pai, fala-se da ordem colonial. De outra maneira: suas ações (particulares) participam e são índice de uma ordem mais ampla (geral) de brutalidade.
Formas de ataque (físico e simbólico) ao corpo ressurgem ao longo de todo o livro. Como eletricista, o pai de Isabela tinha seus empregados negros. No dia do pagamento, aos sábados, a “única hipótese de não haver milando, era meterem o dinheiro recebido no bolso das calças rasgadas e saírem, cabisbaixos. Se reclamavam, havia milando, e não eram poucas as vezes em que saíam da sala com um murro nos queixos, um encontrão dos bons.” (p. 41) Também os homens negros terão seu corpo reificado pelo colonizador: as agressões físicas contra os trabalhadores, tidas como disciplinadoras pelo patrão, sugerem uma ordem social em que o corpo negro é acessível ao homem branco, no corpo se concretiza a dominação. Para o colonizador, o corpo do colonizado lhe pertence. Não reconhecendo seus contornos humanos, o colonizador não reconhece limites, avança, invade. Esta situação emblemática das relações coloniais repõe o poder do pai (como disse já, personagem-metonímia do colonialismo português), denunciando sua violência sobre os corpos, todos (se antes de mulheres negras, agora também de homens negros). Violência que chega ao corpo da menina, castigada quando surpreendida, aos sete ou oito anos, a “brincar de foder” com o vizinho: “Senti durante muito tempo as bofetadas do meu pai a arder no rosto e os golpes que espalhou pelo meu corpo; rosto, braços, nádegas, costas, pernas.” (p. 30) A relação de Isabela com o pai adquire caráter ambíguo, de atração e repulsa, afeto e raiva, aconchego e medo (nota-se que a relação pai-filha passa sempre pelo corpo, pela descrição de como era seu pai fisicamente e de como a tocava e carregava quando menina).
Na ordem de dominação e opressão instaurada (“Lourenço Marques, na década de 60 e 70 do século passado, era um largo campo de concentração com odor a caril” (p. 23)), Isabela-menina pôde experimentar a posição de vítima e algoz. Isto porque, sendo mulher e filha, podia apanhar do pai como os negros, seus empregados; sendo branca, podia bater nos negros (como faz com a colega Marília, dando-lhe uma bofetada na cara). Seu lugar no tabuleiro social é dúbio: a menina Isabela está suscetível à mesma espécie de violência física que pode produzir. Mesmo sendo filha de colonos, resistiu a transmitir a mensagem unívoca de que tinha sido investida ao sair de Moçambique: “Quando paramos no aeroporto, o recado de que era portadora já me tinha sido repetido inúmeras vezes. O recado era importante: a pretalhada, nesses dias, matava a esmo; prendia, humilhava aleatoriamente.” (p. 87) Se o Caderno transmite algum recado, é o de que os eventos de brutal violência contra o grupo de que fazia parte como branca (levados a cabo por integrantes da FRELIMO) responde a violências pregressas que a autora também testemunhou (e, de certa forma, praticou e sofreu) ao longo de toda sua infância. Havia mais recados a transmitir. Não se trata, o Caderno, de justificar brutalidades e atrocidades, ao contrário. Trata-se de apreender e denunciar literariamente dinâmicas coletivas, inscrevendo eventos particulares numa cadeia mais ampla de acontecimentos: a vida do negro valia pouco, como a do branco passa a valer depois. Talvez o livro de Isabela sugira que a violência da sociedade colonial tenderia a se perpetuar, afetando gerações futuras, descendentes de colonizadores e colonizados (morando em Moçambique ou Portugal). Há um legado colonial marcado por ódio, rancor e culpa, de que o Caderno se empenha em tratar.
O post-capítulo de número 16 interessa especialmente: coloca em cena o ato de leitura e, metaforicamente, de escrita. A possibilidade de ler (“Sabia ler. Tinha sido difícil. Mas agora, este milagre” (p. 61)) associa-se a liberdade (“embora a prisão física não se alterasse, e os muros e grades de ferro continuassem altos à minha volta, em todos os lugares, tornei-me mais livre” (p. 61)) e se desdobra noutra atividade, associada à da toupeira (“Foi quando comecei a tornar-me toupeira” (p. 61)) que cava a terra, róe as raízes “até restar pó” (p. 62). Como toupeira, a narradora se torna inimiga do pai (“A inimiga lá dentro, calada.” (p. 61)). Encerrando o post-capítulo, o seguinte parágrafo: “O meu pai tinha a camisa branca e eu, o seu tesouro, a sua vida, sujei-lhe de terra para sempre.” (p. 62).  A escrita seria este cavoucar a terra, este roer raízes até restar pó? O Caderno seria, então, o resultado do trabalho de escrever/cavar/roer, tornando-se, a camisa branca suja de terra, uma metáfora para o próprio livro.
Outras roupas marcadas figuram no Caderno, como a farda do primo, que mesmo depois de enterrada “cheirava a sangue” (p. 67), ou a roupa da própria menina Isabela, de partida para Portugal: “(…) ia toda vestida de sangue: era terra vermelha, mas na verdade, sangue, que se foi soltando durante a viagem aérea, realizada na noite por pudor, não para dormir. Por vergonha, por silêncio.” (p. 109) A farda do primo, cheirando a sangue, enterrada; a terra, manchando a roupa da menina, que era na verdade sangue. A escritora-toupeira não revolveria essa terra-sangue? A escrita do Caderno, recuperando e expondo uma memória (apagada, silenciada) de brutalidade, instaura um lugar não previsto na ordem colonial, a distância crítica (não é à toa que a autora diz estar traindo o pai com a escrita). Se a faculdade da leitura permitiu à menina cavar uma distância com relação à prisão social em que vivia, contribuindo para que resistisse à posição de vítima e algoz que lhe era imposta, a escrita parece consolidar esse afastamento. Trata-se de elaborar, pela narrativa, uma nova posição diante do passado, consolidando uma perspectiva singular (para além dos discursos prontos dos grupos envolvidos na ordem colonial; para além do silêncio e da vergonha paralisantes). Ao fazê-lo, Isabela demanda o reposicionamento dos outros, leitores. O caráter literário de sua escrita, que sabe imbricar esfera pessoal e coletiva, responde pela força dessa demanda.

 

Caderno de memórias coloniais, de Isabela Figueiredo

Coimbra: Angelus Novus, 2009

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