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Rituais de uma memória fraturada

s/t (Rádio), da série Escuta os Bárbaros em Primeiro Lugar, Planalto Norte, Santo Antão | 2016 | Diogo Bento (cortesia do artista)s/t (Rádio), da série Escuta os Bárbaros em Primeiro Lugar, Planalto Norte, Santo Antão | 2016 | Diogo Bento (cortesia do artista)Num livro clássico dos estudos da memória, The Ethics of Memory, de Avishai Margalit, observa-se que, na memória, muitas vezes não há moralidade. Por isso, é necessário refletir sobre uma ética, individual e coletiva, dos seus usos. Este traço da memória torna-se evidente em contextos históricos de guerras de memória, deflagradas e em curso. Trata-se dos conflitos que surgem quando o uso do passado não cria elos comunitários. Estamos perante essa situação quando, a partir de uma dialética de salvação e esquecimento – ou, também, de uma política de perdão –, os traumas vivenciados e sofridos não conseguem fundar uma imagem inclusiva e não fraturante da história.

O caso macroscópico de uma memória que não se desbloqueia, mas se reproduz, apesar dos processos de reconciliação postos em prática, é o da Irlanda do Norte, em que o potencial de conflitos e de disputas sobre o passado é extremo. Não por acaso, a Irlanda do Norte constitui o elo mais problemático das negociações de um Brexit que não se encerra. Apesar dos acordos do Good Friday, de 1998, que criaram o contexto de pacificação depois de três décadas de Troubles, uma cidade como Belfast continua a ser uma cidade fraturada que, apesar do processo de paz, nunca recompôs as suas fraturas mais profundas.
As associações da cidade organizam roteiros temáticos, extremamente interessantes, a lugares da memória dividida que exibem feridas ainda expostas. A guerra que dilacera ainda a memória do Ulster é também um pacote turístico. Mas uma dessas visitas organizadas – o “Political Tour”, que tem início na simbólica Divis Tower – carateriza-se por uma componente particular: reproduz vistosamente a fratura que ainda divide Belfast. Nisto reside a ligação mais próxima do passeio histórico com a atormentada história da Irlanda do Norte. A oferta de um percurso que se desenvolve em dois segmentos da cidade, a primeira parte, na zona oeste, católica e republicana, com um guia idoso, Jack, militante do IRA, que proporciona uma narrativa dos Troubles do lado nacionalista. O segundo segmento ocorre na área unionista e protestante com um outro guia, Robert, ele também senhor de um passado que lhe deixou marcas físicas na perna, enquanto militante das milícias paramilitares filo-inglesas. Entre as duas regiões, o muro da Peace Line que divide os dois mundos. E, ainda, os dois homens. Entre as duas narrativas opostas sobre passados irredutíveis que resistem a fundar uma memória comum, ocorre o clímax da visita que coincide com o meio do caminho.
No portão ferrugento de Lanark Way, que separa o bairro unionista do bairro republicano (e que, num ritual sombrio, todas as noites, ainda hoje, 20 anos depois da assinatura do acordo de 1998, continua a ser fechado, só sendo reaberto de manhã), os dois guias encontram-se e passam um ao outro o grupo de ouvintes. O silêncio do momento é embaraçoso e ocorre só um aperto de mão mecânico. Como logo explica o guia unionista, eles não são amigos e enfatiza imediatamente a questão crucial que passa por uma semântica sem equívocos: “a nossa geração não perdoará”. Um aspeto que se torna imediatamente claro passando do campo republicano para o campo unionista é que a paz não é um facto, é um processo e todos os habitantes de Belfast estão no meio desse processo. Prontos a recuar, se assim se impuser. O futuro não é óbvio. A dualidade da visita permite captar também duas retóricas de rememoração do passado que distinguem os dois campos com materiais (simbólicos) muito mais espessos do que somente um muro divisório.
Do lado católico, define-se uma modalidade de elaboração das perdas e dos traumas mais voltada para a construção de uma épica coletiva. Os inúmeros mortos que ocorreram do lado republicano são parte de uma narrativa de resistência que tem como foco a construção de uma justiça negada desde os anos 20 por uma minoria dominadora. Os lugares da memória que comemoram o passado e a evocação dos seus mortos refletem esta opção narrativa, inscrevendo as vítimas num esforço coletivo de construção de um outro futuro. O símbolo mais turístico desta opção condiciona fortemente os murais realizados nos edifícios da zona leste (o mais famoso é provavelmente aquele que perpetua a greve de fome mortal de Bobby Sands e de outros dez militantes do IRA). É curioso notar que a tradição dos “Murals”, surgida do lado Orange nas primeiras décadas do século XX, depois do declínio sempre no século XX, é desapropriada pelos republicanos em função da construção ritualística do próprio imaginário heroico, o que cria mais um motivo de conflito, neste caso de um conflito de representações.
Do lado unionista, a narrativa carateriza-se por um duplo traço: por um lado, trata-se de uma épica muito mais individualista nas suas figurações; em segundo lugar, há um apelo à vitimização, que procura projetar a responsabilidade histórica nos outros (os republicanos, mas também os Labour da política inglesa) e alimentar um inesgotável – e ainda muito vivo –ressentimento. Também neste caso, as retóricas comemorativas afetam os lugares da memória. Estes oferecem uma elaboração do luto que se consubstancia sobre o culto individual dos mortos. Um modelo muito próximo da construção dos cemitérios, onde não é fácil depreender qual é o céu coletivo da memória a que apela.
A divisão não poderia emergir com maior evidência, porque se dissemina em todos os rituais públicos de elaboração do passado, tanto do lado republicano, como do lado unionista. Um pouco contra a corrente da impetuosa força divisória do passado, inscrevem-se projetos de reconciliação que procuram ir além do impasse ameaçador de novos conflitos. Vale a pena citar dois. Um primeiro exemplo é o volume, de 2019, Reconstructions. The Troubles in Photographs and Words, de Steafán e Bobbie Hanvey. Neste livro, há um fotógrafo famoso, Bobbie Hanvey, que cobriu muitos dos trágicos eventos desta guerra silenciosa (carros destruídos por bombas, incêndios, enterros, escombros etc.) como ele próprio diz, numa posição “behind the lens and between the lines”. Hanvey encontra, nas palavras líricas da nova geração, Stéafan, o filho, uma poética do vivenciado que apazigua os contrastes e procura um sentido “póstumo” das cicatrizes ainda exibidas. É um exercício pleno de pós-memória, dir-se-ia.
Um segundo exemplo, que vai na direção da construção de uma outra memória pública da guerra, é representado, como evidencia o próprio nome, pela galeria permanente “The Troubles and Beyond”, organizada no Museu do Ulster. A exposição, pensada a partir de uma cronologia lógica articulada por décadas, exibe objetos que metonimicamente põem o visitante em relação com o passado traumático. No entanto, inscreve os materiais da memória dentro de uma perspetiva de história cultural. O conceito do qual decorre esta opção é claro: a guerra que dilacerou a Irlanda do Norte foi vivenciada por toda a população, não só pelas vítimas, mas por todos os “sobreviventes”. É, portanto, necessário fundar uma memória compartilhada que integre as cicatrizes na história cultural das décadas de sangue. Os objetos do passado são intersectados por eventos culturais que mostram as transformações que ocorreram, nos modos de vestir, nas vitórias desportivas, nas transformações da sociabilidade e da vida sexual, etc. Assim, os traumas encontram uma inscrição na trama do cotidiano e contribuem para a fundação não de uma memória dividida, de uma só parte, mas de todos.
A memória fraturada irlandesa mostra outros contextos de memória dilacerada e conflituosa em que, do trânsito geracional, pode emergir um lugar de elaboração comunitário com as gerações testemunhais e além delas. E pode também emergir um outro modo que permita ultrapassar a escassa moralidade da memória e, assim, fundar, através de rituais renovados, uma ética coletiva das relações memoriais que mostre como o uso do passado fraturado deve ocorrer a partir de um sentido de responsabilidade público e não privado, presente e não passado. Uma responsabilidade que não interessa só à Irlanda do Norte, mas cujo alcance remete para os incontáveis contextos de memória dividida. Também a nossa.

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MEMOIRS é financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC) no âmbito do Programa-Quadro Comunitário de Investigação & Inovação Horizonte 2020 da União Europeia (n.º 648624) e está sediado no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra.

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