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Um encontro REDE para repensar a escola

A escola é vista como um dos primeiros espaços de socialização, um espaço no qual depositamos a nossa confiança e crescemos, aprendendo lado a lado com os nossos colegas, no entanto, o sistema educativo não é nem nunca foi verdadeiramente igualitário. O problema faz-se notar quando tentamos implementar mudanças e existe uma forte resistência por parte do espaço escolar, quando a confiança se perde e quando ouvimos os professores que nos ensinaram a nós, e agora a outros jovens dizer que não concordam com o que está a ser discutido porque “os brancos também sofrem racismo quando vão a África”, “sou só um peão no meio disto tudo”, ou que “o tema é abordado dependendo da sensibilidade do professor” quando se debate a descolonização. 

Quando somos colocados perante um grupo de discussão e observamos os vários intervenientes, é preocupante quando os professores, e apenas estes, se encontram tanto na defensiva e relutantes em criar uma proximidade com o outro, desconhecendo absolutamente o significado da palavra empatia. Permanece a dúvida que sempre se colocou, onde está a a representatividade? O sistema educativo carece de professores racializados que possam preocupar-se em querer de facto fazer a diferença, e não se considerem meros peões, que consigam criar empatia com os alunos e mostrar-lhes as várias oportunidades que os aguardam. Note-se que numa amostra de 300 professores só existe uma professora negra. 

Alunos da escola secundária Seomara da Costa Primo, no âmbito do projeto 'Pass the Mic!'Alunos da escola secundária Seomara da Costa Primo, no âmbito do projeto ‘Pass the Mic!’

Conversas que fazem sentido 

No passado dia 1 de outubro, a REDE – Associação de estruturas para a dança contemporânea – organizou e promoveu um debate sobre “Arte e Educação como ferramenta antirracista e anticolonial” que contou com a presença de António Guterres, Cleo Diára, Nádia Yracema, Paula Cardoso e Puta da Silva. O evento decorreu na Escola Secundária Seomara da Costa Primo, onde tivemos oportunidade de tomar contacto com o projeto “Pass The Mic! Decolonizing Education Through Art” que contava com uma roda de conversa com alunos; o projeto foi apresentado e desenvolvido por Francesca de Lucca e com residências de artistas na escola com Alesa Herrero, Rita Natálio e Helena Elias. O BUALA acompanhou o debate e partilhamos vários tópicos abordados pelos alunos presentes na sessão e apontados pelos mesmos como uma falha no sistema educativo e aprofundar o que foi tratado no encontro.

A sessão foi iniciada com a mostra de um pequeno vídeo no qual podíamos observar a interação dos alunos, as diferentes atividades que estes realizaram, a inclusão e interação promovida, bem como se destacava, quer através dos movimentos, quer através das poucas palavras proferidas ao longo do clip, a forte iniciativa por parte dos alunos de quererem contribuir e participar ativamente no projeto. Estes aspetos transpuseram-se para o meio físico quando nos foi dada a chance de escutar o que os alunos e alunas tinham aprendido com este projeto, bem como os contributos que pretendiam deixar. Na base do projeto “Pass the mic” encontramos uma palavra-chave: pluralidade; durante todo o processo, os promotores do mesmo encarregaram-se de dar os instrumentos corretos aos alunos, para que estes complementassem o seu exercício de reflexão acerca da temática “descolonização”: que conflitos surgem a partir da mesma, e de que formas podemos trabalhar nesses conflitos? Um exercício de reflexão que, segundo os alunos, fica aquém do esperado e exigido no espaço escolar. 

Tendo tido então oportunidade de entrar no debate, as opiniões convergiam quase todas no mesmo sentido: os currículos escolares necessitam de ser revistos para que todos os alunos se sintam iguais no espaço de aula. Quer isto dizer que o correto seria deixar de ensinar a história dos descobrimentos mostrando apenas um dos lados, com toda a glória, ignorando o facto de que este acontecimento foi uma enorme chacina, de que os professores estão a falar de vidas e corpos, que continuam a ser comparados a objetos como ouro, madeira e especiarias. O sistema educativo deveria ser reajustado, não só para os alunos como também para os professores, quer isto dizer que os lugares de ensino são maioritariamente ocupados por professores não racializados (brancos) que têm à partida uma vantagem e são privilegiados, estes professores ensinam alunos de diversos tons de pele e com diferentes culturas, “pequenos” aspetos ignorados até hoje por parte das escolas, que se recusam a enfrentar a realidade, considerando como um ataque pessoal estes reparos. 

Na realidade, talvez possamos admitir que o problema principal reside no léxico e na forma como se interpreta a mensagem que tentamos passar ao outro, utilizamos como exemplos dois equívocos tidos no encontro: “os brancos também sofrem racismo, tenho uma amiga branco que tem assim um aspeto meio estranho e as pessoas também a julgam”; “será que foste vítima de racismo ou só te sentias sozinha?”. Estas afirmações confirmam o que afirmámos, existe um enorme problema de interpretação de conceitos e muitas vezes, conhecimento dos mesmos. O racismo continua a ser confundido com discriminação, levando a equívocos, atritos e posturas permanentes de superioridade que exigem explicações como se de algum tipo de autoridade se tratassem ou a tivessem.

O mesmo exemplo pode, e deve, ter sido em conta quando falamos de educação sexual, um tópico muito negligenciado nas escolas. No âmbito escolar falam sobre a reprodução sexual, ensinando as crianças e adolescentes que o homem fecunda a mulher para esta poder ter filhos, e assim o ciclo se repete. Imaginem o quão confuso deve ser para uma pessoa homossexual, não binária, ou transsexual ser apresentada a este tema, sem qualquer inclusão, e apenas com um propósito, o da reprodução. Não ensinam sobre o corpo da mulher, a diversidade de corpos que existem, que o sexo não é apenas para reproduzir, que duas mulheres e dois homens podem ter relações sexuais juntos e isso não é estranho. No tópico da educação sexual existe uma enorme barreira entre pessoas e a sua própria sexualidade, causada pela sociedade e séculos de opressão, que se reflete desde sempre no espaço escolar, causando muitas vezes uma sensação de “não pertença”, o que em casos extremos pode ser danoso. Acabamos por procurar conselhos na internet, o que não é de todo o mais aconselhável quando se trata da nossa saúde. 

Os alunos puderam aprender com os profissionais da área, e todos os que estiveram presentes e que agora estarão em contacto com eles terão muito a retirar e a aprender com a experiência dos mesmos. Ficou sugerido pelos alunos um novo projeto, nomeadamente falarem com as crianças mais novas sobre o racismo, a ideia surgiu depois da irmã de um dos alunos envolvidos ter chegado a casa e lhe ter perguntado “porque é que os brancos não gostam de nós?”, e ele não ter sabido responder. Querem igualmente livros de autores negros na biblioteca. 

A conquista de um espaço próprio

Os papéis que a escola deve cumprir, mas já não o faz, abriu espaço para conversarmos sobre identidade, na medida em que alguns desabafos giravam em torno de não existir aceitação e consequente falta de autoestima. No entanto, apesar destas adversidades, algo em comum e que se destaca foi a decisão tomada para conseguir percorrer o caminho até os dias de hoje. Lutar. Escolher um lugar de luta e suceder nele. 

No caso de Cleo e Nádia, o lugar de luta foi através do teatro, e contavam-nos com alegria e poder de conquista que celebram a ancestralidade na sua peça Aurora Negra, não só celebram como também convidam todas as pessoas de cor a celebrar as suas ancestralidades e conquistarem o seu espaço. É nesta medida que a representatividade é importante e significativa, porque para uma pessoa de cor, ver o cartaz da Aurora Negra é sinónimo de sentir-se empoderada, celebrada, é darem-lhes voz e palco, mesmo que não seja ela no palco físico.

No entanto também nos revelaram que em Portugal a área da Arte é igualmente fechada e conservadora, existindo bastantes entraves ao acesso à mesma, por isso os artistas defendem que a Arte tem que ser feita a partir de um ponto de vista político, tudo terá uma consequência, um efeito, irá captar a atenção de alguém. Existe hoje quase que o dever de utilizar a arte enquanto instrumento ativista, consciencializar os demais e alertar para aquilo que nos move. É desta forma que podemos criar espaços de diálogo e escuta ativa, seguros e pertinentes que possivelmente alterem a dinâmica controversa para a qual lentamente caminhamos, mas cujo poder de mudar de direção se encontra nas nossas mãos, mentes, palavras. 

Bibliografia 

https://www.rededanca.pt

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