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Uma terrina lascada

A terrina estava no alto do armário da sala, onde conversámos naquela tarde, mas só reparei nela quando Amande ma apontou e me explicou a origem daquela peça, já eu me levantara para partir. Uma terrina antiga, grande, elegante, cor de leite com café, leite e café misturados em partes iguais, semeada de flores. Uma asa lascada. Parecia uma canoa maltratada pelas intempéries.

Paulo Faria | A caminho da ordenha das vacas, às seis da madrugada | Landes (França), Agosto de 2020 (cortesia do autor)Paulo Faria | A caminho da ordenha das vacas, às seis da madrugada | Landes (França), Agosto de 2020 (cortesia do autor)

O marido de Amande era retornado da Argélia, pied-noir, chamava-se Jean-Pierre. Amande era dali, nascera naquela aldeia das Landes, em França. Aquela era a casa de família dela, passada de geração em geração. Uma família abastada, de proprietários rurais. Respirava-se ali uma riqueza austera. «Nasci no quarto por cima desta sala», disse-me ela, e apontou para o tecto. «Na cama onde agora dormimos, eu e o meu marido.»

Fui ali para conhecer a história dele, uma história do retorno francês. O avô paterno era de Alicante, trabalhava à jorna nos campos. Chegou à Argélia em 1917. Mandou vir os pais, os irmãos. O avô materno também era de origem espanhola, chegou à Argélia com a família no final do século xix. Era artesão, fazia enxergões. Jean-Pierre viu-o muitas vezes a remexer a lã, com o braço enfiado até ao ombro no forro de um colchão, a remendar as coberturas, a coser. Duas linhagens de pobreza transumante, em fuga à fome, à miséria, que encontraram na Argélia uma terra de desafogo, depois de anos sem fim a errarem no deserto, gerações e gerações a alimentarem um sonho, à espera do momento em que o coração e o estômago lhes dissessem: «É aqui.» Os pais dele conheceram-se, amaram-se, entrelaçaram aquelas duas genealogias ibéricas, subiram um pequeno degrau na escala social. A mãe era costureira, cerzia peúgas. O pai era secretário nos serviços administrativos da Legião Estrangeira. Viviam em Sidi Bel Abbès, o centro nevrálgico da Legião. Foi ali que Jean-Pierre nasceu. Retornou em 1962, com vinte anos, trazido na vaga de um milhão de pieds-noirs fugidos da Argélia.

Jean-Pierre disse-me que, para ele, para os pais, para os avós, a Argélia era a França. Havia a França metropolitana e havia o ultramar, mas tudo era a França. «Quando viajávamos até Marselha, para visitar o meu tio ou para uma colónia de férias, no Verão, nunca dizíamos: “Vamos a França.” Dizíamos: “Vamos à metrópole.”» Afirmavam assim, talvez sem darem por isso, a posse daquela terra africana prometida. Não se davam conta de que a mesma terra, o mesmo lugar, não pode ser a terra prometida de uns e o lugar de exclusão de outros. Os sonhos de uns quantos, construídos à custa da felicidade da maioria, são sonhos a termo certo.

Perguntei a Jean-Pierre como é que ele e os pais chamavam aos nativos, que palavra usavam para os designar. Mais tarde, pensando na maneira como formulei esta pergunta, tive dificuldade em recordar o termo exacto a que lancei mão. Terei mesmo dito «os nativos»? Terei falado em «autóctones»? O próprio Jean-Pierre, assim como os pais dele, eram nativos da Argélia. Eram autóctones. Certas palavras sentam-se no meio do caminho e recusam-se a deixar-nos passar. Não nos facilitam a vida. Ele pôs-se a pensar. Tinha olhos muito grandes, ampliados pelas grossas lentes dos óculos, braços magros de insecto laborioso.

— Deixe ver se me lembro… Talvez disséssemos «os árabes». Não dizíamos «os argelinos», nem pensar. Não dizíamos «os muçulmanos». É isso, dizíamos «os árabes». Havia «os árabes» e «os europeus». Sim, porque havia o «bairro árabe», lembro-me agora.

 Uns e outros viviam à parte, não se misturavam, não se frequentavam. Jean-Pierre morava com os pais num bairro de vivendas, umas oitenta famílias, ao todo. Só uma destas era árabe, a família de um comissário de polícia. Mais abaixo, não muito longe, mas fora dos limites do bairro, moravam os árabes. Jean-Pierre lembrava-se de ouvir gritos de júbilo pela noite dentro, música vinda do sopé da encosta. Eram festas de casamento, noivos e noivas inevitavelmente árabes. Não havia casamentos mistos. As mulheres árabes subiam a rua ao romper do dia, vinham limpar as casas dos europeus. Algumas de véu, outras de rosto descoberto. Também limpavam a casa do comissário de polícia árabe. Os muezzins chamavam ao longe. «Árabes» e «europeus» viviam lado a lado sem se conhecerem, quase sem se verem. Estavam reduzidos aos estereótipos uns dos outros. Talvez tenha sido isso que Jean-Pierre me tentou dizer quando lhe perguntei em seguida se havia racismo na Argélia. Ele hesitou, depois respondeu-me que sim, que havia um pouco, mas apressou-se a fazer uma ressalva:

— Havia racismo dos dois lados. O racismo não existe só num sentido.

Fez-se silêncio, ele não quis desenvolver a ideia. Eu também não. Por cortesia, não lhe disse que aqueles dois sentimentos, a que ele chamava dois racismos, talvez não fossem equivalentes. Olhar de cima para baixo e olhar de baixo para cima não é, nunca, a mesma coisa. Há gestos confortáveis e há gestos penosos. Escassos minutos a olhar de baixo para cima bastam para nos causar dores insuportáveis na nuca. E Orwell escreveu que, quando sentimos uma dor física, todos os nossos desejos e anseios se reduzem a um só: pôr-lhe fim, seja lá como for.

Jean-Pierre preferiu contar-me os atentados. No final da guerra, em 1961 e 1962, começou a haver em Sidi Bel Abbès atentados constantes dos fellaghas e da OAS1. Ao contrário do que sucedera até aí, a condição de quartel-general da Legião Estrangeira deixou de valer àquela cidade uma espécie de salvo-conduto para escapar à violência desenfreada. Num domingo de manhã, atiraram uma granada para dentro de um café. Os clientes fugiram para a rua. No passeio em frente estava um fellagha com uma metralhadora, que abriu fogo. Depois fugiu a correr, de arma em punho. O pai de Jean-Pierre ia a passar de carro numa rua ali próxima, viu um homem a precipitar-se para o meio da rua, um árabe, travou a fundo, por pouco não o atropelou. Estupefacto, reparou que o homem corria com uma metralhadora na mão. Percebeu depois que era o tal fellagha em fuga. «Se tivesse acelerado», dizia sempre o pai quando contava esta história, «tinha atropelado o gajo. Não se perdia nada.» Aquele fellagha não era um homem de carne e osso, não era um semelhante. Era um vulto, uma imagem fugaz, uma silhueta de arma na mão. Era o fim da terra prometida. Era a praga bíblica que desce dos céus para expulsar os eleitos.

Jean-Pierre queixou-se de que, na metrópole, havia um grande preconceito contra os pieds-noirs. Uma espécie de inveja, a irritação de quem se sente espoliado de um lugar à mesa de um grande banquete imaginário. «As pessoas daqui achavam que, na Argélia, todos os colonos brancos eram ricos. Havia lá colonos ricos, é verdade, mas eram muito poucos. Donos de vinhedos, de laranjais. Esses todos puseram a fortuna a salvo bem antes de 1962. Nós éramos gente remediada.» A mãe de Jean-Pierre veio para França com os irmãos dele, ainda crianças, no início de Junho de 62. O pai providenciou o regresso do filho mais velho num avião militar, em meados do mês, e ficou na Argélia mais algumas semanas, tentando despachar para a metrópole tudo o que pudesse, salvar as mobílias, os electrodomésticos. Mandou o automóvel num navio de transporte de tropas, depois de encher a bagageira com os brinquedos dos irmãos de Jean-Pierre, e embarcou para Marselha. Em final de Julho, pai e filho foram de Marselha a Port-Vendres, um porto próximo da fronteira espanhola, buscar o automóvel. Abriram a bagageira, encontraram-na completamente vazia. Os estivadores franceses, à chegada, tinham-se servido. Afinal de contas, os pieds-noirs eram todos ricos, não lhes fazia diferença.

Perguntei a Jean-Pierre se voltou à Argélia, a Sidi Bel Abbès, para mostrar à mulher e aos filhos a terra onde nasceu. Respondeu-me que não. Que um amigo dele voltou lá e depois lhe telefonou, a chorar. Amande acudiu: «Foi em busca do que lá deixara. Fez mal.» Se agora lá fosse, disse-me Jean-Pierre, seria como visitar um país estrangeiro.

 — A Amande não conhece África, portanto — comentei, para rematar aquela parte da conversa.

Mas Amande já estivera em África, afinal. Em 1992, enquanto fazia o serviço militar, o filho deles foi destacado para Bamako, no Mali, e eles foram visitá-lo. Gostaram do Mali, dos malianos, trouxeram aventuras para contar. Amande meteu-se em apuros, uns malianos desconhecidos salvaram-lhe a vida.

 — Salvaram-lhe a vida? — perguntei.

Ela não se fez rogada, contou a história. Tinha um olho de vidro, que não acompanhava os movimentos do olho são, parecia deslocar-se ao retardador, fixando-se muito tempo em cada objecto para só depois rodar lentamente na órbita em busca do objecto seguinte. O aquartelamento do filho deles, em Bamako, era a duzentos metros do estádio nacional. Houve um jogo da Taça das Nações Africanas, Mali contra Egipto. O filho arranjou bilhetes para ele próprio, para o pai e para a irmã. Achou que a mãe se iria aborrecer no futebol. Deixaram-na no quartel. Ao fim de meia hora, farta de olhar para as paredes e de ouvir os urros da multidão ali a dois passos, ela decidiu sair. O estádio só tinha bancadas em três lados do terreno de jogo. Na quarta face havia um morro, onde uma multidão sem bilhete assistia ao desafio. Amande foi para o meio das pessoas, sentou-se no chão a ver a partida. Disse-me que sempre foi muito aventureira. E que, naquele tempo, ainda não tinha sido operada ao cancro, ainda tinha os dois olhos sãos. Ao intervalo, a multidão precipitou-se em massa pelo morro abaixo, tentando invadir o estádio. A polícia de choque disparou granadas de gás lacrimogéneo, balas de borracha. Dois malianos espadaúdos, dois irmãos, correram para ela no meio do tumulto, disseram-lhe: «Mamã, vem connosco!» Ergueram-na em braços, levaram-na para um recanto protegido. Amande era muito pequena, muito frágil, não deve ter sido difícil carregá-la. Quando Jean-Pierre, o filho e a filha chegaram ao quartel e não a encontraram, assustaram-se. Foram procurá-la, deram com ela numa praça, em cima do pedestal de uma estátua, a gritar: «Viva o Mali!», no meio do cortejo de carros cobertos de cachos de gente, entre buzinadelas. O Mali ganhara o jogo, tudo terminou em festa. Os irmãos malianos fizeram questão de os receber em sua casa, de lhes apresentar o pai e a mãe. Fizeram questão de pôr frente a frente os seus verdadeiros papá e mamã e aqueles «papá» e «mamã» convencionais de pele branca. Ofereceram-lhes água, eles beberam a medo. Jean-Pierre passou a noite a vomitar, de nada lhe valeu a condição de autóctone de terras africanas. Amande sentiu-se bem. Na língua do colonizador, qualquer branco era o pai de um maliano, qualquer branca era a mãe. Os negros eram todos filhos adoptivos de um branco qualquer.

No Mali notaram a miséria, que saltava à vista. A mesma miséria que, na Argélia, escapou aos olhares de Jean-Pierre, aos olhos dos pais e dos avós dele. Talvez seja mais fácil sentirmo-nos incomodados pela miséria distante, exótica, a miséria das pessoas que vemos fugazmente e que não mais tornaremos a ver, os miseráveis cuja miséria tem com o nosso desafogo uma relação de causa-efeito indirecta, obscura, difícil de traçar. Talvez os pais e os avós de Jean-Pierre sentissem ainda na nuca o sopro da miséria dos seus antepassados, impedindo-os de se condoerem da miséria dos «árabes». Jean-Pierre e Amande viram no Mali a gasolina adulterada vendida na berma da estrada, em garrafas de plástico, o lixo, os esgotos a céu aberto. Ficaram hospedados numa moradia do complexo militar que partilhava com as suas congéneres um pátio central comum. No pátio, ao ar livre, havia uma televisão, em frente da qual, aos serões, os negros se sentavam a ver os episódios do Dallas. Amande disse-me:

— Percebemos logo que eles iam começar a chegar à Europa aos magotes.

Acrescentou depois: «Quando voltámos do Mali, todos os dias partiam de França aviões cheios de malianos ilegais, a repatriá-los. O ministro do Interior era Charles Pasqua. Apeteceu-me dizer: “Pasqua, mete-te num desses aviões e vai até lá ver como é que eles vivem, para perceberes porque vêm para cá.”» Mas em nenhum momento Jean-Pierre ou Amande compararam os dois êxodos, o dos pieds-noirs e o dos malianos. A verdade é que talvez não seja a mesma coisa, abandonar à força a terra prometida e partir em busca dela. Também não lhes ocorreu estabelecer uma outra analogia, essa bem mais evidente, entre a experiência dos avós e bisavós de Jean-Pierre, a cruzarem o Mediterrâneo de norte para sul, e a dos africanos que o cruzam agora em sentido inverso. Antes pelo contrário, o pormenor caricatural da televisão no pátio, com os negros sentados em frente ao ecrã, a verem o Dallas, a vibrarem com as peripécias de um bando de broncos e de mamalhudas de chapéu de cowboy e ar de imbecis, tirava dignidade à saga dos malianos. No fim de contas, Jean-Pierre e Amanda disseram-me que os negros vêm até ao Ocidente em busca de uma falsa terra prometida, seduzidos pelo estereótipo. Disseram-me que os negros se convencem de que o Ocidente é, todo ele, um longo episódio do Dallas, em que eles querem participar como protagonistas, ou, à falta de melhor, como figurantes. Mas que não passam, afinal, de párias conduzidos por um Moisés de opereta, um Moisés parolo, de botas vistosas e palito na boca, sentado ao volante de uma enorme limusina branca, com um par de chifres de boi a enfeitar a grelha do radiador. Quando se parte assim em demanda do sonho, não chove maná do céu nem os mares vermelhos se abrem: a derrota é garantida.

 Foi então, quando me levantei, que ela me apontou a terrina, no alto do aparador.

 — Vê aquela terrina? — disse-me. — Durante a Segunda Guerra Mundial, a linha de demarcação entre a zona ocupada pelos alemães e a zona livre passava além, ao fundo, a cem metros da nossa casa — e, voltando-se na cadeira, apontou para a janela. Anoitecera enquanto conversávamos, a vidraça era agora um quadrado negro. — A minha mãe tinha um salvo-conduto para ir à zona livre comprar pão. Havia uma padaria do lado ocupado e outra do lado livre. Esta casa estava do lado ocupado, mas a minha mãe era cliente do padeiro da zona livre, lá adiante, na estrada, a cinco minutos daqui.

Olhei para a terrina, achei-a delicada e elegante. Era pena ter a asa lascada. Como Amande, pequena e delicada, com aquele olho esquerdo arregalado, a rodar na órbita ao retardador.

— Apareciam por aqui muitos judeus a tentarem passar para o lado livre. Vinham pela estrada, passavam em frente à nossa casa, aproximavam-se da guarita pé ante pé, para verem se estava lá a sentinela alemã. Havia quase sempre um soldado alemão de atalaia, e eles então voltavam para trás, ficavam na estrada, sem saberem o que fazer. A minha mãe saía, chamava-os, levava-os por atalhos, pelos campos da nossa família, ajudava-os a atravessar à socapa. Sem lhes cobrar um tostão. No fim da guerra, um judeu mandou aquela peça de presente à minha mãe, como agradecimento.

Jean-Pierre perguntou-lhe se ela queria que ele tirasse a terrina do alto do armário, para eu ver melhor, e ela disse que sim. A terrina surgiu à minha frente e era antiga, via-se que passara por muitos dissabores, não era só a asa que estava lascada, a base também exibia cicatrizes esbeiçadas, golpes profundos. O vidrado era percorrido por uma teia de aranha de fissuras delicadas. Era, provavelmente, uma relíquia de família.

— Mas deixe-me dizer-lhe uma coisa — continuou Amande, puxando a terrina meigamente para si e cobrindo-a com as mãos, talvez para evitar que eu lhe tocasse, talvez receando algum gesto descuidado da minha parte. — Houve pessoas aqui da aldeia, cujos nomes não lhe vou dizer, e que, aliás, já estão mortas, que ganharam pequenas fortunas a extorquir dinheiro aos judeus em fuga. Um deles enriqueceu tanto que, assim que a guerra acabou, abriu um café.

A aldeia era pequena, todos se conheciam, Amande sabia que eu ia falar com outros habitantes. Provavelmente, ao mostrar-me a terrina, quis antecipar-se a eventuais mexericos. Naquele mesmo serão, um outro morador da aldeia, um veterano da guerra da Argélia, confidenciou-me que o pai de Amande ocupou, durante a Segunda Guerra Mundial, funções na administração local que implicavam contactos frequentes com os alemães. E que, à boca pequena, só por causa disso, muitos lhe chamavam «colaboracionista». Mas depois disse que isso fora há muito tempo e que já quase ninguém se lembrava dessas histórias.

MEMOIRS é financiado pelo Conselho Europeu de Investigação (ERC) no âmbito do Programa-Quadro Comunitário de Investigação & Inovação Horizonte 2020 da União Europeia (n.º 648624); MAPS – Pós-Memórias Europeias: uma cartografia pós-colonial é financiado pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT – PTDC/LLT-OUT/7036/2020). Os projetos estão sediados no Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra.

  • 1. “Fellaghas” – combatente da Frente de Libertação Nacional, o movimento nacionalista argelino que lutou pela libertação da Argélia do jugo colonial francês. OAS Organisation Armée Secrète / Organização Armada Secreta – uma organização clandestina francesa que se opunha à independência da Argélia.

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