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África tem nome de mulher

De Maputo a Casablanca, que realizador não sonhará erguer um dia, diante dos media do mundo inteiro, as duas mais prestigiantes distinções de cinema africano? Premiações que, todos os anos alternadamente, em Cartago e em Ouagadougou, são um motivo de orgulho para o destinatário e para o seu país, trazendo-lhe intensa satisfação interior, podendo dar o salto na sua carreira e vingar, de imediato, mil horas de sofrimento, frustrações e dúvidas.   Boris DiopBoris Diop

É interessante observar que os símbolos desta excelência cinematográfica são duas figuras míticas de mulheres africanas: a Deusa Tanit e a Princesa Yenenga. Um justo repor das coisas, temos vontade de dizer, pois desde a sua origem – pensemos por exemplo em La Noire de … – que o cinema africano situou a questão feminina no centro das suas preocupações. Os filmes de Med Hondo, Souleymane Cissé, Henri Duparc ou Djibril Diop Mambety – entre outros grandes nomes de realizadores – seriam difíceis de compreender sem ter em conta as suas preferências, manifestas ou latentes, em relação às personagens femininas. Mère-Bi, o documentário de Ousmane William Mbaye, da forma mais subjectiva possível, mostra a persistência desta obsessão no seio de cada percurso artístico, mas também de uma época para outra.

Por outro lado, as mulheres africanas já não se contentam, desde há várias décadas, em ser filmadas, ainda que com uma certa ternura, pelos seus colegas homens. Elas têm palavras a dizer, sobre si e sobre o mundo e, de câmara em riste, não deixam de fazer-se ouvir. Como explicar então tão fraca presença de realizadoras do nosso continente nas Journées Cinématographiques de Cartago e no Festival Panafricano de Cinema e Televisão de Ouagadougou? 

Por amarga ironia da História, são quase sempre os homens que, em «Cartage» ou em «Ouaga», erguem periodicamente para o céu, em sinal de triunfo, as estatuetas, aos rostos de mulheres, de Tanit e de Yenenga… 

É certo que logo em 1972 a inclassificável Sarah Maldoror – da Guadalupe mas também africana pela sua experiência militante, inspiração e escolhas – trouxe, com Sambizanga, a mais alta recompensa dos JCC. Vinte e dois longos anos passaram, no entanto, antes que Les Silences du Palais da tunisina Moufida Tlatli conhecesse a mesma honra. No intervalo Safi Faye (Fad’jal) teve de se contentar, em 1980, com o Tanit de bronze. Mas mesmo sem serem satisfatórios, estes resultados são melhores para as realizadoras africanas que os do Fespaco. Em vinte e uma edições nenhuma foi considerada digna de receber o Etalon de ouro Yenenga aquando da impressionante cerimónia de encerramento do estádio de 4 de Agosto. A burquinense Fanta Regina Nacro, quem mais se aproximou, recebeu o prémio de melhor curta-metragem em 2001 com Bintou e de melhor argumento em 2005 com La Nuit de la Vérité, filme ambicioso, sem concessões e por vezes mesmo insustentável. Muito antes dela, Kàddu Beykat valera em 1976 uma Menção especial a Safi Faye. No entanto, parece que a situação está prestes a mudar completamente. 

O palmarés da 21ª edição do Fespaco dá para pensar que a Idade de ouro – tanto em sentido próprio como figurado– do cinema africano no feminino se aproxima a largos passos. O facto de três realizadoras – Leila Kilani (Nossos Lugares Proibidos), Jihan el Tahri (Atrás do Arco-Íris) e Osvalde Lewat (Um assunto de Pretos) – terem ganho em « Ouaga » todos os prémios em competição na importante secção consagrada à longa-metragem documental é, por si, um grande acontecimento. Para além dos elogios que receberam, estes filmes, e ainda En attendant les Hommes da senegalesa Katy Léna Ndiaye, foram singularizados pela sua força humana e pela coragem política e a excepcional mestria dos seus autores. 

 Leila Kilani Leila Kilani'Nos lieux interdits' de Leila Kilani‘Nos lieux interdits’ de Leila KilaniO festival Dockanema é uma referência em matéria de documentário em África e não poderíamos sonhar melhor oportunidade do que esta 4ª edição para enfatizar as talentosas cineastas e reabrir o debate sobre a escolha que elas fizeram, tomando por vezes sérios riscos pessoais, ao se abeirarem de todas as dores. Osvalde Lewat persegue os sinistros esquadrões da morte negligenciados pelo Estado camaronês contra passíveis pais de famílias de (Yaoundé) Douala, sob pretexto da luta contra o grande banditismo; rigoroso e particularmente bem documentado, “Atrás do Arco-Íris” da egípcia Jihan el Tahri serve para meditar sobre as angústias, desafios e as esperanças da África do Sul pós-apartheid. O confronto entre Thabo Mbeki e Jacob Zuma, que é o fio condutor revela, através de personalidades radicalmente diferentes, duas relações com a acção pública mas também uma situação social potencialmente explosiva; Nossos Lugares Proibidos, documentário subversivo de Leila Kilani, regressa à repressão política em Marrocos do tempo de Hassan II. Três gerações de marroquinos evocam uma história afinal completamente humana, feita de laxismo e de heroísmo face ao terror político.  Apesar da sua serenidade, todos os intervenientes formam um perfeito quadro de um Marrocos actual – continuam assombrados pelos seus “enterrados vivos” da prisão de Tazmamart e por tantos gritos de desespero que muito poucos ousaram sequer ouvir. “Nossos Lugares Proibidos” não é, se pensarmos bem, um filme sobre um país particular: apela a todas as memórias humanas ainda atormentadas pelas formas extremas, cegas ou selectivas, da violência do Estado.  

O que comove mais, no entanto, em cada uma destas realizadoras, é a qualidade do olhar e um tratamento estético que eleva a fasquia acima de tudo o que conhecíamos até agora no cinema africano.

'Une affair dès negres' de Osvalde Lewat ‘Une affair dès negres’ de Osvalde Lewat Osvalde Lewat Osvalde Lewat Safi Faye – que deveríamos lembrar mais vezes enquanto “Mãe” do cinema africano a sul do Sahara – deu-se sobretudo a conhecer pelos seus documentários rigorosos e, digamos, discretamente meditativos. A nova geração de mulheres cineastas fez mais do que renovar esta tradição. Longe dos estencil desoladores e de uma certa insipidez, escolheu falar das lágrimas e das falhas dos indivíduos e das sociedades. De maneira muito paradoxal, é desdenhando o lado dourado e as estratégias de evitar a fuga da ficção, que esta produção documental consegue doar a força do imaginário a acontecimentos reais, bem restituídos e explorados em profundidade. Mais do que um simples processo de maturação, é sobre a revolução da Sétima Arte africana que estamos a falar.  

 

Texto publicado no catálogo da 4ª edição do Dockanema (Festival de Filme Documental de Maputo) – Setembro 2009

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