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Amazónia: Os caminhos abertos pelas palavras do xamã yanomami, Davi Kopenawa.

As palavras do líder e porta-voz do povo indígena Yanomami, Davi Kopenawa Yanomami, são amazónicas; estão no livro A Queda do Céu, estão nos filmes em que participou, acompanham a exposição retrospetiva da fotógrafa Claudia Andujar, estão nos meios de comunicação social e nas redes sociais. São palavras que transmitem um conhecimento profundo dos mitos ancestrais e de como estes podem atuar na contemporaneidade; são advertências e denúncias, que se transformam em manifesto e, por vezes, em profecia. Kopenawa dirige-as ao povo da mercadoria, mas não são para trocar por estas, sugerem uma inversão de sentido no pensamento dos não-indígenas em direção à Natureza e à Amazónia, em particular.

Foto de arquivo, Survival International. Davi Kopenawa numa comunidade yanomami. Foto de arquivo, Survival International. Davi Kopenawa numa comunidade yanomami.

Davi Kopenawa é um dos mais importantes representantes da floresta Amazónica. A sua combatividade tem uma ampla dimensão temporal e geográfica, com mais de quatro décadas de resistência e um campo de ação nacional e internacional. Há quem o chame de Dalai Lama da Floresta, mas será mais significativo entender a origem do seu nome yanomami: Kopenawa – que deriva da coragem guerreira do espírito das vespas Kopena. Davi conta que, num ritual xamânico, recebeu este nome desses espíritos, para defender os seus e proteger a sua terra. Esta é a tarefa suprema dos xamãs das comunidades dos povos originários.

Como ativista, Davi Kopenawa procura, sobretudo, denunciar a relação e o entendimento que os que não são indígenas – na sua maioria população branca, por isso chamados pelo líder yanomami de brancos – cultivam em relação à urihi, terra-floresta na sua língua. Para conseguir mudar a consciência dos brancos que, segundo este, ignoram os povos indígenas, empenha-se em dar a conhecer a filosofia de vida destas civilizações detentoras de uma cosmovisão, de práticas e saberes que incorporam o conceito da sustentabilidade, há milénios. Os povos ancestrais da Amazónia sabem que dependem da floresta e da sua fertilidade; em contrapartida, a grande maioria da população que vive fora e distante da floresta ignora ou esquece esta dependência. Já os forasteiros que nela se adentram, em geral, não a respeitam como bioma; para estes, a floresta é um recurso económico, um território por explorar, o que legitima o massacre dos seus habitantes, o roubo das suas terras e a destruição da sua biodiversidade.

É crescente, o levante dos povos nativos contra as práticas mercantilistas e predatórias que devastam a floresta amazónica. A escuta das suas vozes tem-se ampliado, contrariando a tendência enraizada da desqualificação preconceituosa dos seus saberes e conhecimentos. No Brasil, os indígenas nunca ocuparam tantos espaços como na atualidade e, embora não tenham ainda uma presença igualitária na sociedade, uma parte substancial faz-se ouvir sem intermediários ou tutelas. Ao longo de décadas de ativismo, Davi Kopenawa tem sido um dos que mais caminhos tem aberto à visibilidade indígena.

Para tal, o líder yanomami recorre a formas diplomáticas de comunicação com os brancos. Kopenawa tem cultivado alianças importantes, justamente com não-indígenas, em áreas diversas, entre quais se incluem a literatura, a fotografia e o cinema: com o antropólogo francês Bruce Albert, escreveu o livro A Queda do Céu, Palavras de um Xamã Yanomami1; ainda com Albert e com a fotógrafa Claudia Andujar desenvolveu uma campanha em defesa do seu território, que culminou no reconhecimento deste pelo Governo brasileiro como área de conservação da natureza, homologado como Terra Indígena Yanomami; no cinema tem participado e colaborado em vários filmes, que evocam ou estimulam alianças.

A política de diplomacia, desenvolvida por Davi Kopenawa, surgiu com o objetivo primordial de dar conhecer a identidade cultural dos Yanomami, um dos maiores povos originários da Amazónia brasileira. Ao longo dos anos, esta política tornou-se um instrumento de denúncia das violações sofridas pelos seus parentes e um meio para fazer chegar mais longe a mensagem que dirige não só aos brancos, mas também às novas gerações indígenas, de modo a que estas respeitem a sua própria cultura e a floresta.

Claudia Andujar e Davi Kopenawa no filme Gyuri de Marina Lacerda.Claudia Andujar e Davi Kopenawa no filme Gyuri de Marina Lacerda.

Yanomami, um povo em constante luta pela sua terra-floresta.

No livro A Queda do Céu, Davi Kopenawa recorda: “Antigamente, toda a terra do Brasil era ocupada por povos como o nosso. Hoje, está quase vazia de nossa gente e o mesmo acontece no mundo inteiro. Quase todos os povos da floresta desapareceram. Os que ainda existem, aqui e ali, são apenas o resto dos muitos que os brancos mataram antigamente para roubar suas terras” (Kopenawa; Albert, 2015, p. 428).

O povo Yanomami existe, segundo pesquisadores, há mais de mil anos, distribuídos por uma área de quase 200.000 quilómetros quadrados, que foi dividida entre o Brasil e a Venezuela, sendo atualmente a maior área de floresta tropical no planeta sob controlo indígena. No Brasil, este povo contabiliza cerca de 27 mil pessoas2, que vivem em 188 comunidades nos Estados de Roraima e Amazonas, numa superfície territorial um pouco maior que Portugal. A floresta das terras yanomami é reconhecida, pela comunidade científica, como uma região prioritária em termos de proteção, devido à sua biodiversidade.

O contacto com o homem branco terá acontecido no início do século XX. Até então, os Yanomami relacionavam-se apenas com os seus vizinhos indígenas. Foi a partir dos anos 40 que se estabeleceram missões católicas e evangélicas, assim como postos do Serviço de Proteção aos Índios (SPI) nas suas terras. Embora se propusessem a dar assistência sanitária e social às comunidades, estes forasteiros terminaram por ser responsáveis por graves surtos epidémicos.

Nos anos 60 chegaram as comissões governamentais para delinear as fronteiras entre o Brasil e a Venezuela, que dividiram (arbitrariamente) o território e o povo Yanomami. À delimitação seguiu-se a prospeção dos solos, nos quais foram localizados jazidas de ouro e outros minerais. Em consequência, iniciou-se, nos anos 80, a que ficou conhecida como uma das mais espetaculares corridas ao ouro do século XX no Brasil. A invasão das áreas indígenas por cerca de 40 mil garimpeiros – homens em busca de ouro ou outros minerais – propagou doenças que dizimaram 20% da população yanomami e provocou o corte de parte da floresta.

A data de nascimento de Davi Kopenawa é apontada como tendo sido por volta de 1956 e o local, a aldeia Marakana, uma comunidade localizada no alto do Rio Toototopi. No final da década de 60 ficou órfão e perdeu praticamente toda a sua família, vítima das epidemias. Depois do seu casamento, mudou-se para a aldeia do seu sogro, Watoriki, situada nas proximidades da Serra Parima, o centro histórico do habitat do seu povo, na bacia dos Rios Catrimani e Demini, no Estado do Amazonas. Foi aqui que, seguindo o seu sogro, se tornou xamã. Kopenawa começou a ter consciência da realidade das comunidades yanomami antes, enquanto trabalhava para a FUNAI (Fundação Nacional do Índio), nos anos 70. Na década seguinte, decidiu envolver-se na luta pela sobrevivência dos seus e pela preservação do seu território, frente à invasão dos garimpeiros ilegais. Começou, então, a viajar para fora, em busca de apoios para fazer cumprir a legislação e conseguir a demarcação das terras yanomami.

Em 1989, em plena invasão garimpeira, a ONG Survival International convidou o xamã para ser o seu representante a receber, no parlamento sueco, o prémio Right Livelihood3 atribuído à ONG. Com esta primeira viagem para fora do Brasil, iniciou-se uma campanha internacional de defesa da causa yanomami. Em 2019, foi Davi Kopenawa quem recebeu o prémio. No seu regresso à Suécia, vinte sete anos depois, voltou a denunciar as mesmas ameaças.

A devastação não se deteve. Nos últimos anos, esta tem recrudescido de maneira alarmante, colocando parte do povo Yanomami, de novo, numa situação de tragédia social e sanitária, em que se assiste a uma explosão dos casos de malária e outras doenças infecto-contagiosas, à exploração sexual das jovens indígenas e à violação sistemática dos direitos humanos. Prossegue-se também à destruição do ecossistema com o derrube da floresta e com o envenenamento dos rios, o que faz com que as comunidades indígenas sejam privadas dos seus meios de subsistência. Devido à sua persistência na denúncia e na demanda de ações de fiscalização, Kopenawa tem recebido várias ameaças de morte.

A Queda do Céu, Palavras de um xamã yanomami.

No livro A Queda do Céu, Kopenawa denúncia: “Se deixarmos os garimpeiros cavarem por toda parte, como porcos-do-mato, os rios da floresta logo vão se transformar em poças lamacentas, cheia de óleo de motor e lixo. Eles também lavam o pó de ouro misturando-o com o que chamam de azougue. Os outros brancos chamam isso de mercúrio. Todas essas coisas sujas e perigosas fazem as águas ficarem doentes e tornam a carne dos peixes mole e podre. Quem os come corre o risco de morrer (…) O pensamento desses brancos está obscurecido por seu desejo de ouro. São seres maléficos. (…) Por isso também os chamamos de uruhi wapo pë, os comedores de terra” (Kopenawa; Albert, 2015, p. 336-337).

Na cosmologia yanomami, Omama, o Criador do universo, escondeu o minério debaixo da terra para ninguém lhe tocar. Os brancos, segundo Kopenawa, o povo da mercadoria, o povo do esquecimento, removem a terra para extrair os minerais e libertam a Xawara, o fumo do metal, que se transforma no fumo das epidemias: “com suas mentes fincadas nas mercadorias, não querem saber de nada. Continuam a estragar a terra em todos os lugares onde vivem (…) Nunca passa pela cabeça deles que se a maltratarem demais, ela vai acabar revertendo ao caos. Seu pensamento está cheio de esquecimento e vertigem. Por isso eles não têm medo de nada e acham que estão a salvo de tudo” (2015, p. 436).

Estas são “as palavras da gente da floresta” que “são outras”, diz Davi Kopenawa. O livro A Queda do Céu está escrito na primeira pessoa, mas a narrativa do líder yanomami foi transcrita por Albert, sendo por isso, como define o antropólogo francês, “um texto escrito/falado a dois”, “uma identidade partilhada”, “no qual dois autores coabitam no mesmo eu” (2015, p. 537). Bruce Albert ouviu, durante mais de uma década, as palavras em Yanomami do xamã. No início do livro, Kopenawa diz “eu entreguei a você [Bruce Albert] minhas palavras e lhe pedi para levá-las longe, para serem conhecidas pelos brancos, que não sabem nada sobre nós” (2015, p. 63).

Desde 1978, Albert desenvolveu uma aliança com Kopenawa e um “pacto etnográfico” que resultou neste livro e numa amizade que dura há décadas. O exercício de alteridade literária e etnológica por parte de Bruce Albert complementou as intenções diplomáticas e etno-políticas de Kopenawa, que queria contar, a partir da sua experiência pessoal, décadas de história opressora estabelecida desde o afã colonizador e predador. No prefácio ao livro, o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro escreve que a obra é um “depoimento-profecia”. O vaticínio vai ganhando forma ao longo do livro; no final o xamã deixa um último alerta: “não devem pensar que estamos preocupados somente com as nossas casas e nossa floresta ou com os garimpeiros e fazendeiros que querem destruí-la. Estamos apreensivos, para além de nossa própria vida, com a terra inteira, que corre o risco de entrar em caos. Os brancos não temem, como nós, ser esmagados pela queda do céu. Mas um dia talvez tenham tanto medo disso quanto nós! Os xamãs sabem das coisas más que ameaçam os humanos. Só existe um céu e é preciso cuidar dele, porque se ficar doente, tudo se vai acabar” (2015, p. 498).

Foto de divulgação. Yanomami durante o ritual xamânico na média-metragem Xapiri.Foto de divulgação. Yanomami durante o ritual xamânico na média-metragem Xapiri.

O cinema como aliado.

O cinema tem-se revelado um terreno fértil, que tem aberto espaços de visibilidade para os Yanomami. A representação, pela linguagem imagética, da perspetiva política e cosmológica deste povo, permite entender como as tradições e os mitos são centrais para a sua sobrevivência. Como gesto diplomático, Davi Kopenawa empenha-se em estabelecer ou aceitar alianças nesta área. O líder yanomami acredita que os filmes sobre o seu povo permitem a compreensão necessária para uma convivência mais harmoniosa não só entre indígenas e não-indígenas, mas também entre os Yanomami e outros povos originários: “Nós estamos no mesmo caminho, no mesmo pensamento, na mesma luta. Vamos pedir o apoio dos nossos parentes, que já vêm sofrendo muito antes que nós. Vamos mostrar [os filmes] para os jovens líderes e pedir apoio para salvar as nossas vidas.”4

Xapiri, Gyuri, O Sopro dos Xapiri – Xapiri pë në mari e A Última Floresta são filmes que têm em comum abordarem a riqueza intelectual e poética dos Yanomami e resultarem de uma construção coletiva entre estes e não-indígenas, com os últimos a lançarem-se no desafio de encontrarem perspetivas cinematográficas que melhor se aproximem da cultura ancestral indígena, em parte, imaterial. Deste modo, o cinema amplia-se como linguagem, liberta-se da matriz colonial que afeta os filmes que exploram a imagem dos povos ancestrais como algo exótico, para um público que deseja outras estéticas.

Foto de divulgação do filme Xapiri.Foto de divulgação do filme Xapiri.

A média-metragem Xapiri (2012)5 foi a primeira de uma série de parcerias cinematográficas em que David Kopenawa se envolveu. Em Xapiri o xamã partilha a autoria do guião com o sociólogo Laymert Garcia dos Santos e com Bruce Albert. O documentário foi filmado em março de 2011 e abril de 2012, ao longo de dois encontros promovidos por Kopenawa, que reuniram 60 xamãs yanomami, com o propósito duplo de dar a conhecer as diferentes etapas do ritual xamânico e de atrair a estes rituais as gerações indígenas mais jovens.

Através dos conhecimentos espirituais, os xamãs ativam processos de cura, cuidam da união do seu povo e da relação deste com a floresta e com os seus habitantes físicos e metafísicos. Os seus rituais mantêm vivas as tradições que passam de geração em geração, como explica Kopenawa: “enquanto houver xamãs vivos, como eu e outros filhos de nossos antigos, enquanto os xapiri protegerem nossa floresta, não vamos desaparecer. Vamos nos empenhar sem descanso para fazer nossos filhos e genros beberem yãkoana. Com isso eles vão poder fazer dançar os espíritos, como fizeram nossos pais e avós antes de nós. Desse modo, suas palavras nunca vão se perder” (2015, p. 507).

Os xapiri, figuras centrais na cosmologia yanomami, guardiões invisíveis das florestas, são os espíritos dos animais ancestrais, que apenas os xamãs conseguem ver e contatar quando bebem o pó alucinogénio yãkoana durante os rituais xamânicos. Vários relatos de Kopenawa, no livro A Queda do Céu, explicam a função dos xapiri, que entram em contato com o universo, para segurar a queda do céu. Estes “dançam” para os xamãs desde sempre: “Nós conhecemos a valentia dos xapiri. Antes dos remédios da cidade chegarem até nós, foram eles que sempre nos curaram. Os xamãs morrem um atrás do outro, mas os espíritos não, eles não morrem nunca. É por isso que eu defendo suas palavras contra a hostilidade dos brancos. Se os nossos xamãs antigos tivessem morrido sem transmitir suas imagens para seus filhos e genros, nossa ignorância daria dó. (…) Não seriamos capazes de cuidar dos doentes, nem de evitar que a floresta recaia no caos, nem de conter a queda do céu” (2015 p. 506).

O filme Xapiri oferece uma representação cinematográfica da subjetividade da tarefa dos xamãs. Segundo a sinopse, o filme pretende “tornar sensível, através das imagens digitais, as ideias yanomami sobre as imagens xamânicas, sua ontologia e sua estética, sua transdução e mutabilidade nos corpos”. Para conseguir esta representação, Laymert Garcia dos Santos partiu de um trabalho de pesquisa sobre a relação entre o pensamento xamânico e as tecnologias da imagem. Por exemplo, o uso de uma câmara com um sensor de radiação infravermelha para conseguir uma luz e temperatura que sugere a conversão do invisível em visível. Stella Senra, Bruce Albert, Gisela Motta e Leandro Lima completaram o coletivo de autores do filme. Estes dois últimos foram os responsáveis pela edição de Xapiri, e através de uma montagem experimental, transcendem os padrões cinematográficos para entrar no campo da videoarte, com sobreposições e deformações da imagem.

Este tipo de manipulação da imagem remete-nos para o trabalho desenvolvido pela fotógrafa Claudia Andujar (Suiça, 1931), que expandiu o registo documental da fotografia introduzindo as questões da iconografia dos povos indígenas na história da fotografia brasileira. Carlos Brandão, antropólogo e escritor brasileiro, definiu o trabalho de Andujar como uma “etnopoética da imagem que funde meio e imagem como lugar etnográfico na arte contemporânea”.6 No trabalho desenvolvido sobre o povo Yanomami, Andujar estabelece um diálogo entre o material e o simbólico através de um tratamento imagético – com sobreposições, fotomontagens e o tratamento experimental das luzes e sombras – que nos sugere uma representação visual do invisível na cosmologia yanomami.

Foto de Claudia Andujar. Ritual xamânico yanomami.Foto de Claudia Andujar. Ritual xamânico yanomami.

Com a sua prática artística, Claudia Andujar construiu uma obra fotográfica que é testemunho e instrumento de reivindicação dos direitos dos Yanomami. Andujar estabeleceu uma relação afetiva profunda com este povo e com Davi Kopenawa, que a considera “uma mãe para nós”7. O líder indígena reconhece que Andujar lhe ensinou a lutar e defender a sua terra, a sua língua, os seus costumes e o seu xamanismo. Deu-lhe um arco e flecha, diz Kopenawa: “Não para matar. Eram o arco e a flecha da palavra, da minha boca e da minha voz, para defender o meu povo”.8 Por seu lado, a fotógrafa diz: ”Senti que, com os Yanomami, eu poderia encontrar a minha própria identidade e tentar dar para eles o que não consegui dar para a minha família: vida”9

Andujar vivia em Oradea, ex-Hungria e atualmente território romeno, quando as tropas alemãs levaram o seu pai e a restante família paterna, judia, para o campo de concentração de Dachau, onde foram exterminados. Para escapar da Segunda Guerra Mundial, Claudia refugiou-se com a sua mãe em Nova Iorque, de onde viajou, em 1955, para São Paulo. No Brasil iniciou-se na fotografia como repórter fotográfica, mas, a partir de 1971, abandona o fotojornalismo para explorar caminhos mais autorais. Um trabalho para a revista brasileira Realidade, nos inícios dos anos 70, levou-a pela primeira vez à Amazônia brasileira e à Terra Indígena Yanomami.

O documentário Gyuri (2022) traça, segundo a realizadora Marina Lacerda, uma “linha geopolítica improvável” entre a pequena cidade húngara, onde vivia Claudia Andujar e a Terra Indígena Yanomami, ao reunir experiências traumáticas provocadas por estigmas racistas, pela exclusão e pelo extermínio de certos povos às mãos de outros povos. A vivência dos horrores do genocídio europeu gerou, em Andujar, uma força transformadora que a levou ao ativismo contra o genocídio yanomami.

Nos primeiros anos de convivência com os Yanomami, Andujar testemunhou momentos dramáticos da existência deste povo, com epidemias de sarampo e malária a dizimarem comunidades inteiras. As doenças foram levadas pelos garimpeiros e pelos operários da construção da Perimetral Norte, uma estrada paralela à Transamazónica, que foi aberta no território entre 1973 e 1976. Nessa época, a fotógrafa viveu longos períodos com os yanomami até ser expulsa, em 1978, pela FUNAI, sob ordens do governo militar.

De regresso a São Paulo, Claudia Andujar decide seguir a sua luta e cria a ONG Comissão Pró-Yanomami (CCPY)10 – em parceria com Bruce Albert e o frade católico, defensor dos povos originários, Carlo Zacquini – com o objetivo de reivindicar o direito dos povos indígenas Yanomami e Ye’kuana ao seu território. A CCPY desenvolveu, durante 14 anos, uma campanha de revindicação, a nível nacional e internacional, durante a qual Davi Kopenawa e Claudia Andujar visitaram vários países para denunciar o que ocorria no norte da Amazónia brasileira. A demarcação da Terra Indígena Yanomami e Ye’kuana aconteceu em 1991 e a sua homologação em 25 de maio de 1992. Apesar de tal vitória, um ano depois, 23 garimpeiros assassinaram de forma selvagem 16 indígenas – na maioria mulheres, crianças e idosos – no chamado Massacre de Haximu, o primeiro ataque desta natureza que foi julgado como tentativa de genocídio pela justiça brasileira.

A longa-metragem Gyuri testemunha um encontro, em 2018, entre Claudia Andujar, Carlo Zacquini e Davi Kopenawa, na aldeia Watoriki. A narrativa mistura as memórias pessoais da fotógrafa com as coletivas, vividas por Kopenawa e pelos outros parceiros de ativismo social e político pró-yanomami. No filme, claramente dedicado à fotógrafa, as memórias são, sobretudo, ativadas pela palavra: primeiro, através da interlocução do filósofo húngaro Peter Pál Pelbart; depois pelas conversas entre Kopenawa e Andujar, que revelam, aos poucos, a sólida aliança de quatro décadas que o xamã sintetiza, no filme, com a declaração: “A minha alma está no colo dela!”.

Gyuri estreia nos cinemas brasileiros no próximo dia 7 de julho. Uma versão reduzida do filme, intitulada Gyuri Extraits, acompanha a exposição retrospetiva Claudia Andujar, a Luta Yanomami11, integrado na instalação Genocídio do Yanomami: Morte do Brasil (1989/2018), um manifesto audiovisual distribuído por 16 ecrãs, composto por fotografia e vídeos.

Gyuri é a primeira longa-metragem de Mariana Lacerda, realizadora que faz parte da Rede Pró-Yanomami e Ye’kwana, um grupo de investigadores e ativistas, que se juntaram, recentemente, pela defesa dos direitos territoriais, culturais e políticos de ambos os povos. Mariana Lacerda constituiu também, com as realizadoras Gisela Motta e Isabella Guimarães, o grupo Barreira Y., responsável pela intervenção artística que assinalou o encerramento da campanha #ForaGarimpoFora Covid de 2020, uma ação que foi registada na curta-metragem O Sopro dos Xapiri – Xapiri pë në mari (2020).

Foto de divulgação. A intervenção artística no Palácio do Congresso Nacional, registada no filme O Sopro dos Xapiri.Foto de divulgação. A intervenção artística no Palácio do Congresso Nacional, registada no filme O Sopro dos Xapiri.

Trinta anos depois da homologação do seu território, a Hutukara Associação Yanomami12 alerta, no relatório Yanomami Sob Ataque: Garimpo Ilegal na Terra Indígena Yanomami e Propostas para Combatê-lo, publicado em abril deste ano, para o risco de que a sua terra-floresta se torne uma nova Serra Pelada, a maior exploração de ouro a céu aberto do mundo, no sudeste do Pará, na década de 1980. A situação de extrema gravidade levou ao envio de um pedido à Corte Interamericana de Direitos Humanos para que sejam aprovadas medidas provisórias que protejam os direitos à vida, à saúde e à integridade física dos povos Yanomami, Ye`kwana e Munduruku.

O apelo às organizações internacionais é um recurso que se impõe, já que o atual governo brasileiro apoia o avanço do garimpo, desmonta as políticas ambientais e enfraquece as entidades com competência para proteger a floresta e as suas populações. Em dezembro de 2020, o Fórum de Lideranças Yanomami e Ye’kwana entregou no Congresso Nacional brasileiro o abaixo-assinado #ForaGarimpoFora Covid que exigia a retirada imediata dos garimpeiros do terrotório indígena. A ONG Survival Brasil, que apoiou a denúncia do Fórum de Lideranças, responsabilizou, então, o Governo brasileiro de criar condições para outro genocídio do povo Yanomami.”13

Para assinalar a entrega das quase 500 mil assinaturas do abaixo-assinado e chamar a atenção para a causa yanomami, Gisela Motta, Isabella Guimarães e Mariana Lacerda foram convidadas a elaborar uma ação artística com projeções na fachada do Congresso Nacional: “O trabalho partiu de fazer os xapiri sobrevoarem Brasília. Não tínhamos outra escolha a não ser recorrer aos espíritos da terra-floresta e à linguagem inebriante do mundo Yanomami, com os desenhos, as músicas e o pensamento. Desde o início, queríamos fazer um trabalho em interlocução e colaboração direta com os Yanomami, a partir de suas formas de expressão”.14

Nesta intervenção foram projetadas, no conjunto arquitetónico modernista do Palácio do Congresso, as ilustrações do artista Joseca Yanomami que representaram os espíritos das araras, das onças, das sucuris e dos macacos, alguns dos xapiri da terra-floresta yanomami. Da curta-metragem O Sopro dos Xapiri – Xapiri pë në mari fazem parte estas imagens e as palavras de Davi Kopenawa que sugerem a união entre o povo da cidade e o povo da floresta, através de uma conexão feita pelo sonho, no sentido epistemológico.

No livro A Queda do Céu, Kopenawa diz que “os brancos sonham consigo mesmos”, porque “em suas cidades não é possível conhecer as coisas do sonho. Nelas não conseguem ver as imagens dos espíritos da floresta e dos ancestrais animais. Seu olhar está preso no que os cerca: as mercadorias, a televisão e o dinheiro” (2015, p. 438). “Nós, xamãs, ao contrário, somos capazes de sonhar muito longe. As cordas de nossas redes são como antenas por onde o sonho dos xapiri desce até nós diretamente. (…) e logo percebemos, na escuridão, seus inúmeros caminhos luminosos enredados se aproximando, cintilantes como o brilho da lua. Então começamos a responder a seus chamados e, assim, seu valor do sonho chega a nós” (2015, p. 460-461). A esse valor, os xamãs chamam Xapiri pë në mari, o valor de sonho dos espíritos, induzido pela visita noturna dos xapiri.

Naquela noite de dezembro de 2020, através do poder do sonho dos xapiri, os Yanomami evocaram, em Brasília, um pesadelo antigo descrito assim por Kopenawa no livro A Queda do Céu: “se os brancos continuarem avançando, vão fazê-la [a floresta] desaparecer bem depressa. Já estão dizendo que ela é grande demais para nós. É mentira, claro. Ela não é tão vasta como se pensa e logo será a única floresta ainda viva” (2015, p. 330). 

Foto de divulgação. Yanomami no filme A Última Floresta.Foto de divulgação. Yanomami no filme A Última Floresta.

Com o filme A Última Floresta (2021), a mensagem dos Yanomami também chegou longe. O documentário estreou no Festival de Berlim em fevereiro de 2021, onde recebeu o Prémio do Público, e foi também apresentado noutros lugares e festivais, incluindo no Brasil, onde estreou em abril do ano passado. Recentemente, recebeu o Prémio Platino 2022 para melhor documentário ibero-americano.

A resistência dos Yanomami é o foco da narrativa do documentário. A sua luta pela sobrevivência depende de uma identidade cultural forte, que seja capaz de garantir a sua coesão como povo e de o defender das suas próprias vulnerabilidades perante as ameaças externas, como relata Davi Kopenawa no livro A Queda do Céu: “Hoje, as falas que não param de chegar da cidade abafam a voz de nossos ancestrais. As palavras dos xapiri se enfraquecem na mente dos jovens. Temo que estejam interessados demais nas coisas dos brancos. (…) Será que os brancos vão conseguir obscurecer o pensamento dos nossos filhos e netos a ponto de eles pararem de ver os xapiri e de escutar seus cantos? Então, sem xamãs, eles vão viver no desamparo e seu pensamento se vai perder. Vão passar o tempo todo vagando pelas estradas e cidades. Lá serão contaminados por doenças, que transmitirão a suas mulheres e filhos. Não vão mais pensar em defender sua terra.” (2015 p. 507).

Luiz Bolognesi, realizador de A Última Floresta, já tinha abordado a questão do papel do xamã na preservação da identidade indígena no filme Ex-Pajé (2018), no qual conta como um pastor evangélico, que condena o xamanismo, leva o Pajé a abandonar as suas práticas ancestrais. No filme sobre os Yanomami pretendeu voltar ao tema, mas numa perspetiva que contrastasse pela positiva com a narrativa do Ex-Pajé: “Há aldeias e povos que ainda possuem um xamã muito forte, que luta e resiste para manter o centro deles de política, saúde e saber. Quis então fazer um filme que retratasse também este outro lado, a vitória da resistência”, contou Bolognesi à RFI Brasil.

Davi Kopenawa não é apenas protagonistas do filme, é também autor do guião, a convite de Bolognesi, que queria que a sua cosmologia e experiência de vida contribuíssem para a construção do documentário. Kopenawa, por seu lado, queria ver a beleza e a potência do universo dos Yanomami no filme, assim como as subtilezas do quotidiano da aldeia Watoriki, a força dos rituais xamânicos e a poética dos mitos de origem do seu povo. No documentário, habitantes da aldeia, familiares de Kopenawa, interpretam as narrativas míticas, representam a Omama, ao seu irmão Yosi e a outros personagens míticos que regem o saber coletivo dando o sentido à sua existência.

Assim como nos outros filmes que o xamã apoiou e participou, A Última Floresta também incorpora a visão política de Kopenawa e a motivação da sua luta: “Para nós o importante são os animais da floresta, a fertilidade. Importante é dividir o alimento entre o nosso povo, nossa sobrevivência, nosso crescimento, nossa forma de viver e nossa existência como povo”.

Série: Filmes que contam

  • 1. O livro A Queda do Céu foi publicado no Brasil em 2015, pela Companhia das Letras, cinco anos depois da sua edição original em França
  • 2. Dados de 2019. Fonte: Sesai/DSEI Yanomami.
  • 3. Conhecidos por serem os prémios Nobel alternativos. https://rightlivelihood.org/
  • 4. Sobre o filme O Sopro dos Xapiri – Xapiri pë në mari em declarações a Evilene Paixão na página do Observatório dos Direitos e Políticas Indígenas. https://obind.eco.br/2021/08/23/isa-filme-o-sopro-dos- xapiri-estreia-n…
  • 5. O filme Xapiri pode ser visto online em https://www.youtube.com/watch?v=BA2L5Lta1tA
  • 6. Carlos Brandão é escritor, psicólogo e antropólogo brasileiro. Autor de “Fotografar, documentar, dizer com a imagem.” Cadernos de Antropologia e Imagem, Rio de Janeiro. 2004.
  • 7. Declarações feitas à EFE, agência de notícias espanhola, em Paris, a propósito da inauguração da exposição retrospetiva da obra de Claudia Andujar, na Fundação Cartier, em Fevereiro de 2020.
  • 8. Declarações feitas à EFE, agência de notícias espanhola, em Paris, a propósito da inauguração da exposição retrospetiva da obra de Claudia Andujar, na Fundação Cartier, em Fevereiro de 2020.
  • 9. Entrevista de Claudia Andujar ao Jornal do Brasil, 29/05/2002.
  • 10. Durante cerca de trinta anos, a CCPY implementou programas de saúde, de educação bilíngue e proteção ambiental, com a participação direta dos seus fundadores. A CCPY foi dissolvida em 2004, depois da criação da Hutukara Associação Yanomami, em 2004.
  • 11. A retrospetiva, produzida pelo Instituto Moreira Salles, em São Paulo, foi aberta ao público em Dezembro de 2019. Desde então já foi apresentada em vários países, entre eles França, Espanha Suíça, Itália.
  • 12. A Hutukara Associação Yanomami foi fundada e é presidida por Davi Kopenawa. O seu filho, Dário Kopenawa é vice-presidente da associação.
  • 13. Declarações de Fiona Watson, diretora de pesquisas e campanhas da ONG Survival. https://www.survivalbrasil.org/ultimas-noticias/12515
  • 14. Declarações na página do Observatório dos Direitos e Políticas Indígenas, no texto de Evilene Paixão.

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