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‘Cacheu Cuntum’ Um filme de Welket Bungué

Mostre ao Mundo, com orgulho, a diferença de ser dominado e de ser livre. Aplique a “riqueza da terra na terra”. E ama ao teu irmão como a ti mesmo. Aliás, é o que justifica a chama da Revolução.

Paulo T. Bungué, in ‘Cabaró, Djito Tem!’ (1996)

Entre maio e junho de 2019, estive pela primeira vez na Guiné-Bissau, após ter saído de lá em 1991 a caminho de Lisboa com apenas três anos de idade. O meu regresso à terra-mãe foi especial, profundo e muito cósmico.

Nesse retorno, já com 31 anos de idade, aventurei-me por terras de Cabral e Okinka Pampa, levando em minha companhia a Kristin Bethge, a minha mãe (Fátima B. Alatrache) e ainda a minha irmã Rosete, que vive em Bissau. Ao longo de cerca de 30 dias, pude conhecer a praça (nome dado à zona centro da capital Bissau), conheci o Bairro Cuntum Madina e outros bairros populares de Bissau, conheci as regiões onde se situa Nhacra, Bambadinca, Ilhéu do Rei e claro Cacheu.

Descobrir Cacheu e o seu famoso Forte, com as figuras estatuárias que antagonizaram as culturas e gentes da África ocidental durante cerca de 400 anos, tais como Honório Pereira Barreto, significou confrontar-me com o passado esclavagista profundo que redefiniu o curso da história do território da Guiné-Bissau (nativo Reino Papel, e de Bissalanca), – porque justamente Cacheu foi um entreposto de grande relevância para o escoamento de pessoas escravizadas.

Essas pessoas eram capturadas e trazidas de vários lugares da costa ocidental de África, para serem vendidas às embarcações que ali iam “reabastecer-se” de corpos expropriados ao continente africano. Miguel de Barros, o célebre sociólogo bissau-guineense panafricanista, levou-me ao Memorial de Escravatura e de Tráfico Negreiro de Cacheu, onde, pela primeira vez, ouvi falar da história pré-colonial da Guiné-Bissau através da voz de um jovem homem negro de nome Pascoal Gomes.

Pascoal guiava-me pelo Memorial enquanto relatava quase que instrutivamente aquilo que foi o modus operandi dos escravocratas e regentes que se instalaram na Guiné-Bissau a mando da Coroa portuguesa, e que exploravam todos os recursos naturais, humanos e simbólicos, gerando uma triangulação de lógica mercantilista e lucrativa, que funcionava no eixo Guiné-Bissau, Cabo Verde e Brasil.

A história recente da Guiné-Bissau assenta muito em episódios da pré-revolução independentista e os que se lhe seguiram, – pelo menos na minha geração – é o que mais proliferou enquanto informação das crónicas da vida social-política na Guiné-Bissau, entre o séc. XX até à atualidade. É certo que o período colonial, dado a sua violência, deturpou muito a visão e estima que se tem pelo país, mas também escamoteou a pérfida herança da escravatura desferida pelos europeus não só na Guiné-Bissau, como em toda a África. Essa perda identitária incomensurável continua por saldar.

No entanto, ao longo dos dias passados em Bissau, fui a Cuntum Madiana, onde pude presenciar pela primeira vez um toka tchur que é, por assim dizer, um ritual de passagem da alma terrena para o mundo espiritual. Noutra ocasião, acompanhei a Kristin a esse mesmo bairro, para fotografar um jovem chamado Buba que tem o sonho de ser futebolista mas rapidamente se encantou pela máquina fotográfica da Kristin. Filmei-os ao longo desse encontro.

Cacheu Cuntum apresenta em imagem o que nem a distância, nem o tempo, nos permitiram até hoje compreender, acerca da percepção que o povo bissau-guineense tem sobre o seu passado. Falo de um passado velado por inúmeras falsidades geradas pela ocupação territorial no período da escravatura e colonial. Esse passado quer-se resgatar através da impressão e fixação de um renovado registo vivo, daquilo que é o cotidiano atual e “metaficional” daquilo que poderia ser a reminiscência dos que resistiram à opressão ao longo de 4 séculos de ocupação e exploração desumanas.

Cacheu Cuntum propõe uma experiência audiovisual, visual ou até apenas sonora, daquilo que são as várias dimensões que compreendem a genética da construção da verdade histórica em oposição à realidade dos factos que, por sua vez, deveriam humanizar e expiar os que sempre foram representados no lugar de oprimidos. Buba segura a câmara e retrospetiva toda uma compreensão inconcebível na lógica imperialista e de dominação que outrora e ainda hoje é praticada pelas nações hegemónicas que lucram com a precariedade generalizada em alguns territórios em África.

Este filme agora existe, tal como existiram muitos outros filmes e escrituras que não puderam ser contados, não nesta liberdade com que vos falo hoje. E por isso é preciso repensar a História e, nem que seja por instantes, a possamos reescrever de modo mais livre, vivo e justo.

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