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Let’s Not Make Hollyood Great Again – ou o último Tarantino numa sala de cinema perto de si

Em Inglorious Bastards entrava certamente em cena, pelo meio de outras coisas, uma intenção qualquer de redenção da história, fosse ela desajeitada ou apenas para ter piada – assassinar o Hitler e por aí adiante. Assim como em Pulp Fiction, bem mais atrás, víamos o lado B da história do cinema (o exploitation movie) regressar uma última vez como uma espécie de recalcado triunfante para se tornar a derradeira obra de arte cinematográfica que encerrava em beleza a mesma história do cinema. Um pouco como as Campbell’s Soup Cans do Warhol, mas no negócio das imagens em movimento: por momentos, sentíamo-nos ‘redimidos’, salvos da própria história do cinema («And you will know my name is the Lord, when I lay my vengeance upon you»). 


Sharon Tate (real) e o Jay Sebring (o namorado-amante cabeleireiro famoso que também morreu nos acontecimentos fatídicos)..Sharon Tate (real) e o Jay Sebring (o namorado-amante cabeleireiro famoso que também morreu nos acontecimentos fatídicos)..

Em Once upon a time… in Hollywood, finalmente, já não é a América que envia o seu esquadrão de ‘inglorious bastards’ para salvar a história (ou a Europa) dela mesma (da guerra): temos apenas a América, em toda a sua glória (Hollywood), a salvar-se ela mesma… da história. Não há redenção, nem inconsciente retirado das sombras e do esquecimento, há abolição da história – onde estão, onde ficaram os anos 60 americanos, o Civil Rights movement, a contracultura, o Vietname, os Black Panthers e os motins raciais, a droga e o rock psicadélico mais do que num pano de fundo envergonhado e caricatural, todas as personalidades assassinadas, a excitação no ar? 

No lugar de tudo isto, no lugar do próprio ano de 1969, assistimos a uma pobre sessão de nostalgia porn convenientemente focada em objectos-fetiche: carros, diners famosos, cowboys em séries de televisão, a aspirante a star apaixonada pela sua própria imagem no ecrã de cinema, e outras tantas maneiras de não dar a ver coisa nenhuma e de baixar o nível médio das intensidades a um mínimo inadmissível (a festa na Playboy Mansion, pelo meio do desfile incoerente de celebridades, deixa a sensação de uma pool party na Beverly Hills dos anos 90). E claro, mas quase nos esquecemos, há a aventura inédita de um actor lamechas e bronco a quem não acontece rigorosamente nada de significativo do princípio ao fim do filme (ensaia textos, bebe whisky) — e do seu duplo durão que ”chega para” o Bruce Lee, que pode ou não ter assassinado a sua mulher, e que dá uma boleia à miúda hippie-sexy mas afinal o que curte mesmo é enfiar porrada da grossa nos porcos dos hippies (que entretanto, coisa espantosa, afinal passam o dia… a ver televisão, mesmo o tal velho… cego!). Resta uma cena do filme que é interessante: a do Di Caprio com a child-actor e todo a rodagem do filme dentro do filme.

A caricatura combate a caricatura, a de uma visão redutora do ano de 1969 e da época que ele é suposto representar. Rick e Cliff são a perfeita dupla de heróis (ou ‘buddies’) na qual um tempo, que é ainda o nosso, insiste em reconhecer-se. Desinteressantes, um bocadinho irreais, com muito pouco para mostrar, quase que demasiado normais, até inseguranças têm. Mais de perto, vemos os abdominais trabalhados e a piada sobre a mulher, o comentário racista que não chega a ser, a atracção do macho alfa pela sessão de porrada gratuita (contra o Bruce Lee ou contra o freak que te furou o pneu do carro). No fim, e sem grande mérito, como quem não quer a coisa, o triunfo sem ambiguidades nem matizes sobre O Mal.

Elephant do Gus Van Saint (2003), por exemplo, filmava de maneira realista os acontecimentos terríveis de Columbine sem ofender ninguém, e conseguia ainda ser um filme sério e intenso sobre o desejo adolescente insatisfeito (no seu pior). O Spring Breakers, do Harmony Corine (2012), com os seus fetiches com armas e a estética Pussy Riot, a música da Britney Spears e o banho de sangue final em puro registo cartoon ou video game: é um filme extraordinário, para o melhor e para o pior, sobre o que significa não regressar à norma e levar as coisas às suas últimas consequências. Ou ainda os filmes do John Waters com a sua troupe de Dreamlanders do princípio dos anos 70 (Pink Flamingos, Multiple Maniacs), onde a famosa e exuberante Divine concorre geralmente pelo galardão de ”the filthiest person alive’’ – o Pink Flamingos, inclusive, é dedicado às três Manson girls envolvidas nos crimes. Estes filmes resultam não tanto apesar das suas ambiguidades, mas por causa delas.

É o que falta a Once Upon a Time…, qualquer coisa que faça pensar – e que não é de certeza a história do actor esforçado, a lutar para se aguentar e que aspira a, e no fim consegue mesmo subir na escala social.  

Em resumo, e se a nossa análise está correcta, o que o último filme de Tarantino tem verdadeiramente em comum com a sua obra maior (Pulp Fiction) é o facto de se tratar, como num pesadelo, do seu rigoroso inverso. Hoje, é aparentemente a velha Hollywood do eterno star system que quer regressar dos mortos como num mau filme de zombies para nos ”salvar de volta’’ daquele último resíduo de história que, segundo Walter Benjamin, está contido em potência na imagem e na sua dialéctica: nenhuma dialéctica nesta fraca desculpa de pós-cinema. Em Once upon a time… in Hollywood exibe-se uma luz que primeiro ofusca e depois cega: a de um conceito e de uma releitura da história como estúdio de cinema

Porque no fim de tudo nem o cinema se salva, como ainda acontecia, e em grande estilo, com Pulp Fiction. Nada restou do velho confronto entre as luzes e as sombras, do vagabundo Chaplin ‘contra’ as luzes da cidade: aqui, todos os contrastes são falsos, como que fabricados por encomenda, e a máquina gira de facto no vazio. A derradeira cena de Once upon a time… in Hollywood, entre o lamentável e o nojento, desenrola-se em registo de filme de super-heróis como os que hoje Hollywood está destinada a produzir quase exclusivamente. Ou talvez seja o filme inteiro – que também podia ser visto, do princípio ao fim, como uma longa citação daquela última cena arrepiante do Easy Rider, na qual dois americanos brancos do interior da América (ou hillbillies) atingem e matam a tiros de caçadeira os personagens de Peter Fonda e Dennis Hopper nas suas Harleys. Uma vez mais, a história repete-se e a tragédia dá lugar à farsa: acaba tudo num fartote (a sala de cinema não aguenta de tanto rir). «Because that’s exactly what we need at this moment in time: a little fake history.»

Se o Once Upon a Time… é mesmo o Make America Great Again do Tarantino, com os seus dois super-heróis ‘trumpistas’ avant la lettre, brancos, machistas e racistas quanto baste – ou que sobretudo apostam no regresso a ‘’tempos mais simples’’, então eles (o Rick e o Cliff) bem podiam ser o duplicado (ou o duplo) desse par de hillbillies sinistros que aparecem no final do Easy Rider a salvarem-nos dos hippies, dos motards e da contracultura como de outros tantos drogados, criminosos e psicopatas. Sendo que no filme do Dennis Hopper a cena é trágica, e no filme do Tarantino é uma farsa, comédia. Todo o filme é construído em vista dessa cena final, de que estamos todos à espera porque sabemos que a Sharon Tate vai morrer, etc. (há um suspense, uma tensão que percorre o filme inteiro, e que se resolve na apoteose final de ‘fake history’ filmada em registo 10ª sequela do Chuckie).

 

rubrica Cadernos do Post-Cinema

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