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Mais um dia de vida: memorialização do jornalista, esquecimento de Angola

Mais Um Dia de Vida | 2018 | cortesia Midas FilmesMais Um Dia de Vida | 2018 | cortesia Midas Filmes

Em novembro de 2018, circulou nas salas de cinema em Portugal a adaptação ao cinema do livro Mais um Dia de Vida: Angola 1975 do jornalista Ryszard Kapuscinski, originalmente publicado em 19761. Polaco (1932-2007), o jornalista foi correspondente de guerra durante grande parte da sua vida profissional, tendo acompanhado de perto os processos de independência de vários países em África, e não só. Em Mais um Dia de Vida, o jornalista regista o seu testemunho da transição para a independência em Angola e o escalar do conflito armado, entre setembro e novembro de 1975. Observador em Luanda do êxodo das forças militares portuguesas e de colonos pela ponte aérea, o jornalista decide deslocar-se à região sul do país, de onde quase não chegam notícias. Na sua viagem, verifica que a Guerra Fria também se joga em Angola: assiste à segunda incursão da África do Sul pela fronteira com a Namíbia e à chegada do primeiro contingente do exército cubano a Luanda a 19 de outubro de 1975. É a reportagem literária desta sua experiência em Angola que foi agora adaptada ao cinema pelo documentarista espanhol Raúl de la Fuente (1974) e do realizador de cinema de animação, polaco, Damian Nenow (1983), numa produção transnacional de Espanha, Polónia, Bélgica, Alemanha e Hungria.

O filme, cujo título original é Another Day of Life, é inovador por cruzar dois géneros tidos como opostos: o documentário, que procura uma representação a partir do real, e o cinema de animação que propõe realidades ficcionalizadas, alternativas, e até mesmo surrealistas. Um experimentalismo com as fronteiras entre géneros que, na verdade, dialoga bem com o estilo de Ryszard Kapuscinski, cujo trabalho jornalístico vacila entre reportagem e ficção: o livro “Mais um Dia de Vida é, por isso, um documento único. Talvez seja também bom jornalismo. É, sem dúvida, grande literatura”2. O hibridismo inovador experimentado no filme condiciona, necessariamente, a linguagem usada por cada uma das técnicas (documental e de animação). O filme causa, assim, alguma perplexidade pela ligeireza com que factos reais e pessoas concretas acabam por se diluir numa história de aventura, filme de guerra, espionagem e luta pelo poder à escala global. Os realizadores deste filme assumem que foram precisamente estes elementos que os inspiraram no livro e aliciaram para a realização deste projeto.
Mais um Dia de Vida apresenta-nos um guião focado na figura do jornalista Ryszard Kapuscinski e na sua aventura. Angola é mero contexto. O jornalista ocupa a narrativa, quer textual quer visual que o desenha com um traço que denota fortes emoções – logo grande humanidade – recorrendo a grandes planos sobre a sua face. Os restantes personagens centrais na história são igualmente brancos, desde os informantes em Luanda até ao Comandante Farrusco que se juntara ao MPLA depois de terminar a sua comissão no exército colonial português, e que lidera a resistência no “último” aquartelamento do MPLA a sul, em Pereira d’Eça. Na única cena a ela dedicada, a população negra é representada com recurso a topoi coloniais que a mantêm numa condição de alienação sobre a sua situação política e sobre o conflito, centrada em viver o quotidiano nos musseques, onde música, álcool e festa parecem ocupar o tempo, não faltando a representação híper-sexualizada da mulher negra. Também este filme deixa entrever como a sociedade angolana, conforme o jornalista a encontrou e viveu, estava profundamente fraturada, quer política, quer social, quer racialmente.
Apresentado como um filme que cruza os géneros de documentário e animação, Raúl de la Fuente adiciona excertos de entrevistas realizadas recentemente com alguns dos personagens do filme, e fotografias de época, de que destaco a utilização de fotografias de Carlota, única personagem feminina do filme. Carlota é uma militar de 20 anos, mestiça, comandante de um pequeno grupo de soldados no sul de Angola, morta com todo o seu grupo em combate, ao qual proíbe o jornalista de assistir, salvando-lhe deste modo a vida. No filme, Carlota evoca o jornalista e o seu “dever de memória”: “Faz com que não nos esqueçam!” Esta evocação, enquadrada pela sua foto tirada pelo jornalista, torna-se a epígrafe do filme. A ligação que a fotografia consegue com o público é forte porque a ‘imagetext3 criada pelos autores (ou seja, a narrativa que emerge da inter-relação entre a fotografia e o texto que lhe é aposto para a descrever) cria eficazmente uma ponte entre passado e presente. Esta evocação ao dever de memória não existe no livro original, onde o episódio com Carlota é fugaz e narrado a partir de um olhar masculino e sexual. Assim, detetamos um gesto criativo dos autores que denota a sua consciência de contribuir para uma memória de segunda geração. Porém, e apesar deste momento artisticamente bem conseguido, esta ‘imagetext’ revela simultaneamente a falência ética e documental deste projeto cinematográfico. O filme frustra o desígnio que os próprios realizadores se colocam ao atribuir a Carlota este papel de interpelação a uma memória futura. Pelas opções estéticas e narrativas dos autores, o filme alcança apenas a memorialização do jornalista tornado herói.
Em Mais um Dia de Vida, encontramos uma estética hollywoodesca, de construção e celebração do herói Kapuscinski. Terá a mais valia de dar a conhecer a outros públicos (em particular ao mais jovem, pelo estilo de filme de ação) o xadrez político regional e internacional que se jogava em Angola. Porém, ao centrar a narrativa de forma tão redutora na figura do ‘herói jornalista’, o filme não responde à evocação de Carlota, ficando suspenso num jogo dúbio de uso (e abuso) da memória e do esquecimento4, o que frequentemente subjaz na produção de memórias sobre este contexto histórico.
 
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Artigo produzido no âmbito do projeto de investigação MEMOIRS Filhos de Império e Pós memórias Europeias, financiado pelo Conselho Europeu.


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  • 1. Sobre o livro e autor, consultar António Pinto Ribeiro (2017), África, os Quatro Rios. A representação de África através da literatura de viagens europeia e norte-americana. Porto: Afrontamento.
  • 2. Pedro Rosa Mendes (2013), “Uma alegoria na história. Prefácio.” in Ryszard Kapuscinski,Mais um Dia de vida: Angola 1975. (Tradução de Ana Saldanha). Lisboa: Tinta da China, p. 7.
  • 3. WJT Mitchell (1994), Picture Theory: essays on visual and verbal interpretation. Chicago: University of Chicago Press.
  • 4. Paul Ricoeur (2006), Memory, History, Forgetting. Chicago: University of Chicago Press.

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