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Notas para uma Oresteia africana

Tratando-se de dois objectos cinematográficos impressionantes e construídos sobre pressupostos ideológicos comuns, Afrique 50 [África 50] de René Vautier é um filme militante sobre a necessária libertação, enquanto que Appunti per un’Orestiade africana [Notas para uma Oresteia africana] de Pier Paolo Pasolini, é um ensaio político sobre a invenção da liberdade. São dois filmes que nascem de questões sócio-culturais afins, mas representam movimentos de natureza intelectual e de exigência estética distintos.

O bretão René Vautier é uma lenda viva do cinema de oposição ao colonialismo, um cineasta colocado ao serviço das novíssimas nações africanas e um empenhado apoiante dos direitos dos imigrantes. Activo, com apenas 15 anos, na resistência francesa à ocupação nazi, realiza, em 1950, Un homme est mort (filme sobre a morte do operário Édouard Mazé, aquando das manifestações e greves, em Brest, naquele ano) e vários filmes sobre a independência nacional da Argélia (Une nation d’Algérie, em 1954; L’Algérie en flammes, em 1958; Un peuple en marche, em 1963; e o celebrado Avoir 20 ans dans les Aures, em 1972) ou sobre a Tunísia.

'Afrique 50' de René Vautier‘Afrique 50’ de René VautierMas é África 50 o primeiro filme realizado por René Vautier. O convite da Ligue de l’Enseignement pretendia um filme de divulgação dos usos e costumes na costa ocidental africana e das realizações educativas do governo gaulês naquela região, destinado ao público escolar dos liceus na metrópole. René Vautier tinha 21 anos e o projecto com que respondeu à encomenda institucional é um relato – surpreendente e enfurecido – dos meios de opressão cultural, de exploração industrial e de repressão violenta a que as populações autóctones estavam constrangidas pelas autoridades e pelas empresas ocidentais, na Costa do Marfim. Em ruptura com a oficialidade colonial e acabando por rodar o filme, ao longo de seis meses, entre 1949 e 1950, na clandestinidade, o realizador encontrar-se-ia, quando terminou o filme, a braços com a justiça francesa. O processo, baseado em treze acusações, resultaria na condenação a um ano de prisão efectiva do jovem cineasta e na interdição do filme, censura que se estendeu por meio século. África 50 é, hoje, considerado o “primeiro filme anti-colonialista francês” e um trabalho exemplar de cidadania.

Em África 50, René Vautier traz à luz do dia as imagens que a Europa preferia desconhecer: o esmagamento das actividades tradicionais africanas, a falta de uma escolaridade democrática, a exploração massiva da força de trabalho dos negros, o operariado infantil, os fuzilamentos sumários e o massacre de aldeias inteiras, enquanto os navios cargueiros aguardam ao largo, no mar, as matérias e os produtos destinados à Europa. André Malraux reconheceria, não sem ironia, que “René Vautier é um francês que apenas viu antes de todos os outros.” O cinema urgente de René Vautier reveste-se, pois, da mesma nobre função social de todo o instrumento de prova e pedagogia, com o que aí se impõe de funcionalidade e de simplificação.

'Afrique 50', de René Vautier‘Afrique 50’, de René VautierO caso de Pasolini é outro e Notas para uma Oresteia africana, se partilha preocupações com África 50 (e foi, como ele, objecto da desistência da instituição que o encomendou, neste caso, a televisão pública italiana), além de se desenvolver num tempo histórico distinto – a África pós-colonial dos anos 60 –, persegue vias de interrogação sociológica e de elaboração formal incomparavelmente aventureiras.

A história deste Notas para uma Oresteia africana começa, em 1959, com o pedido de Vittorio Gassman de tradução da Oresteia, de Ésquilo, a Pier Paolo Pasolini, com vista à sua encenação, pelo Teatro Popolare Italiano, no Teatro Grego de Siracusa. Pasolini dá-se então a liberdade de uma tradução criteriosa mas pessoalíssima, em que voltaria a trabalhar anos mais tarde, entre 1968 e 1970, aquando da realização de Notas para uma Oresteia africana. É essa versão moderna do texto clássico que Pasolini utiliza nos comentários que acompanham o filme e é justamente a edição dessa tradução o livro que surge, ao lado do mapa do continente africano, no plano inicial do filme.

Notas para uma Oresteia africana integra a trilogia que Pasolini dedicou a Ésquilo com Édipo Rei (1967) e Medeia (1969). Todos os filmes do conjunto denotam o interesse de Pasolini pelo passado mítico (era, nesses anos, um leitor atento de Mircea Eliade) e pelas mediações culturais como necessidade para a leitura do presente. O corpo de textos que formam a Oresteia descreve um ciclo de mortes – vinganças sanguinárias e familiares – a que o advento da justiça conciliadora de Palas Atena (que, em Euménides, último texto da Oresteia, julga com temperança o crime de Orestes) coloca um fim, criando idealmente o primeiro tribunal democrático da História. É Atena quem apazigua ainda as forças incontroláveis das Erínias (ou Fúrias, para os Romanos) e as transforma em Euménides ou “as benevolentes”, energias irracionais finalmente harmonizadas com o mundo ordenado da civilização.

Pier Paolo Pasolini previa que Notas para uma Oresteia africana integrasse um projecto mais vasto intitulado Appunti per un poema sul Terzo Mondo [Notas para um poema sobre o Terceiro Mundo], projecto redigido em 1968 e que previa cinco capítulos, cada um dedicado a uma região geográfica e cultural: a Índia, a África negra, os países árabes, a América do Sul e os guetos norte-americanos. Com este projecto cinematográfico ambicioso e inacabado, prolongado numa lógica de work in progress, se relacionam outros filmes de Pasolini (a que Jean-Claude Biette chamou o “ciclo dos Appunti”) caracterizados pelo desejo de ensaiar “novas formas” que cruzassem a metadiscursividade, o pensamento político e a experimentação estética. A saber: Sopralluoghi in Palestina per il vangelo secondo Matteo (1964), Appunti per un film sull’India (1968) ou Appunti per un romanzo dell’immondezza (1970, hoje perdido).

'Notas para uma Oresteia africana', de Pasolini‘Notas para uma Oresteia africana’, de PasoliniSe Pasolini escolhe Marrocos para cenário de Édipo Rei e a Turquia para Medeia, em Notas para uma Oresteia africana, os lugares de rodagem tornam-se eles próprios assunto do filme e a matéria imediata para o trabalho de reflexão sobre a actual condição pós-colonial dos países africanos recém independentes.

Este Notas para uma Oresteia africana é um falso estudo preparatório voltado sobre os espaços e as gentes da África Oriental (Tanzânia, Uganda e Tanganica), com vista a um suposto filme a realizar posteriormente. Mas o interesse de Pasolini é o de transformar este fictício trabalho de répérage de paisagens e de corpos num exercício livre de colagem que, sobre o fundo de uma “intenção de filme”, tem nos apontamentos aparentemente desconexos o fim último do projecto. Pasolini radicaliza, pois, aqui, uma “estética do inacabado”, proposta já nos seus primeiros filmes mais claramente inscritos no movimento neo-realista.

O labor das recontextualizações inusitadas começa na ideia extravagante de transferir, cronológica e geograficamente, a tragédia esquiliana da Grécia Antiga para a África do final dos anos 60, segundo este “estilo sem estilo que é o estilo do documentário e das notas”, segundo definição do próprio cineasta. Mas outras deslocações de motivos temáticos e figurativos renovam os sentidos das representações estabilizadas (da Europa, de África e dos conflitos internacionais), a que nos fomos acomodando, como as violentíssimas imagens de arquivo da Guerra do Biafra que Pasolini propõe como hipótese de “imagens-metáforas que actualizam a guerra entre Gregos e Troianos”.

É o princípio da colagem que organiza todo o filme. Senão vejamos: numa das primeiras sequências, a imagem de um Pasolini com câmara ao ombro surge reflectida no vidro da vitrina de um estabelecimento comercial, superfície onde se acumulam os reflexos do movimento da rua e do interior da loja; noutro momento, a profecia de Cassandra é convocada pela extensa e encantatória sequência de free-jazz com Archie Savage, Yvonne Murray e o saxofonista Gato Barbieri; o templo de Apolo é figurado pela moderna Universidade de Dar es Salam; a imagem das árvores nuas longamente sacudidas por ventos violentos representa a ingovernabilidade das Erínias e é um dos momentos de maior intensidade poética do filme; e, por fim, a feliz dança da tribu Wa-gogo formaliza o desejado nascimento das Euménides.

'Notas para uma Oresteia africana', de Pasolini‘Notas para uma Oresteia africana’, de PasoliniPara Pasolini, “a Oresteia resume a história de África destes últimos cem anos. A passagem, quase brutal e divina de um estado selvagem a um estado civil e democrático. (…) O problema verdadeiramente aceso e actual, nos anos 60 – os anos do Terceiro Mundo e da Negritude – é a «transformação das Erínias em Euménides».” Se a uma primeira leitura, a afirmação do cineasta parece uma visão mitificadora do continente negro como se fora, antes da chegada dos europeus, uma sociedade sem história, Pasolini explica logo depois a actualidade dessa herança insubstituível de crenças e de ritos obscuros que se perde na noite dos tempos e que vive do contacto privilegiado com as pulsões inexplicáveis do mundo e do homem: “a civilização arcaica – chamada superficialmente «folclore» – não deve ser esquecida, desprezada ou traída. Ela deve ser integrada na nova civilização, de maneira a enriquecê-la e a torná-la particular, concreta, histórica.” O que Pasolini defende é, afinal, a miscigenação entre os valores da “cultura branca” (racionalista e industrial) e a “cultura negra” (ancestral e lúdica), opondo-se àquilo que aponta como o “genocídio” das culturas campesinas e populares perpetrado pelo neocapitalismo.

Perante as jovens nações africanas que Pasolini descreve como países económica e culturalmente hesitantes entre a inspiração da China Maoísta e as tentações do capitalismo anglo-saxónico, Notas para uma Oresteia africana é um caderno de apontamentos que procura as “formas sobreviventes” (no sentido da iconologia de Aby Warburg) nas sociedades negras contemporâneas, ao mesmo tempo que dá conta dos seus esforços em levantar os seus próprios sistemas democráticos. Mas aqui, Pasolini incorre num olhar paternalista e etnocêntrico (a África é um continente que, em certas passagens do filme, se confunde com uma realidade homogénea; o termo “tribo” é usado de modo pouco consequente nos comentários de um filme que trata do nascimento de nações; e a democracia é tacitamente indicada como o modelo ocidental que mais convém aos Estados africanos e que lhes caberia simplesmente adoptar), faltas que o próprio Pasolini reconhecerá, ao integrar no filme, duas sequências que, partindo do ecrã branco numa sala de cinema recentemente iluminada em direcção aos jovens instalados na plateia, documentam o debate organizado na Universidade de Roma entre o cineasta e um grupo de estudantes africanos. Na senda da “antropologia partilhada” e num franco decalque do debate que Jean Rouch e Edgar Morin organizam em Crónica de um Verão (1962), com os actores do seu filme (mesmo que em Notas para uma Oresteia africana não sejam, provavelmente por razões técnicas, os actores directamente implicados os comentadores das rushes), os estudantes universitários não deixam de criticar com firmeza as ideias preconcebidas de “homem branco” que ressaltam das sequências de trabalho ali visionadas.

Neste “cinema de poesia” em que Pier Paolo Pasolini propõe que a revalorização das formas ligadas a uma ancestralidade cultural e o movimento social no sentido da revolução andam a par, sentimos constantemente a presença da câmara através da afirmação dos grandes planos, dos zooms acidentados e dos falsos raccords propositados, num ensaio que – ao contrário de África 50 e do cinema da indignação em que, com legitimidade, persiste René Vautier – nos convida a acompanhar o nascimento da dúvida sobre as próprias fundações em que o trabalho toma forma. E dessa dúvida brota uma renovada experiência – tanto para o cineasta como para os espectadores – das exigências a que o trabalho da observação e do entendimento obriga. Donde, Pasolini sabiamente deduzir, no final deste filme imperfeito, que não resta à conclusão de Notas para uma Oresteia africana senão mantê-la em suspenso.

 

Fichas dos filmes:
Título em português: África 50
Título original: Afrique 50
Realização: René Vautier
Ano: 1947
Argumento: René Vautier
Fotografia: René Vautier
Música: Keita Fodela
Voz: René Vautier
Género: documentário
Origem: França
Duração: 20 min
Cor: P/B

 

Título em português: Notas para uma Oresteia africana
Título original: Appunti per un’Orestiade Africana
Realização e argumento: Pier Paolo Pasolini
Ano: 1970
Música: Gato Barbieri
Fotografia: Giorgio Pelloni
Produtora:I Film Dell`Orso/IDI Cinematografica/ Radiotelevisione italiana
Género: documentário
Origem: Itália
Duração: 65min
Cor: P/B

 

 

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