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Se isto é um herói

Luanda

32 anos depois, a mesma sensação de que a realidade transpõe a ficção, a mesma perplexidade perante a quantidade de rumores e a falta de claridade dos acontecimentos, o mesmo espanto em relação à capacidade de sofrimento e de luta das pessoas. 

Estou em Luanda, é 2007, Kapuscinski morreu no início do ano, e leio pela primeira vez Mais um Dia de Vida. 

A guerra acabou em 2002, mas não acabou realmente porque continua demasiado vívida na memória das pessoas. Ainda faz parte da vida. A guerra está nas conversas às mesas dos cafés, está na paisagem dos musseques feita com milhares de deslocados, está nas ruas da cidade de cimento – e da cidade de vidro que nasce – onde os miúdos, que já não têm que ir à guerra, não têm onde ir e ficam na rua: vendem, pedem, regateiam, correm, imploram. A guerra está no comportamento das pessoas até quando estão felizes, quando dançam e bebem e escutam a noite. 

A vida de Angola ainda é definida por aqueles meses descritos por Kapuscinski: os meses em que os portugueses se foram embora e em que os angolanos iniciaram uma luta fratricida. Angola, exemplo da utopia e desilusão de todo um continente, continua a ser um lugar para ir ver o século XX: o século da pior guerra, da luta pelo fim de todas as guerras, e da continuação das guerras, apesar de tudo. 

Todos estes anos depois, Luanda ainda está cheia – como no livro de Kapuscinski em 75 – de personagens num limbo: entre tempos diferentes e culturas diferentes; e também de gente que não sabe como será o dia seguinte, para quem, apesar da paz, cada dia é mais um dia de vida. 

Luanda continua cheia de gente que sobrevive miraculosamente, de heróis comuns e acidentais, e de histórias tão extraordinárias que chegam a ser inverosímeis. Kapuscinski é muitas vezes acusado de exagerar os factos, mas em Angola tem-se a sensação de que não é preciso acrescentar nem embelezar nem tornar mais trágico para que a realidade pareça ficção.

O que ainda subsiste em Luanda daquela Luanda que Kapuscinski descreveu foi o que me chamou a atenção na minha primeira leitura de Mais um Dia de Vida: o livro continuava actual. Agora, ao relê-lo, em Lisboa, em 2018, reparo o quanto é um  livro do seu tempo e do seu lugar; um livro escrito por um europeu, quando os colonialismos europeus terminavam e ainda não havia uma geração pós-colonial e ainda se faziam generalizações sobre os “africanos” ou os “latinos” (onde Kapuscinski inclui os portugueses). 

Na edição portuguesa de Mais Um Dia de Vida (Tinta-da-china, 2013), o livro termina com uma troca de telegramas entre Luanda e Varsóvia, entre Kapuscinksi e a agência de notícias polaca para a qual trabalhava. Mas na edição inglesa, publicada na colecção de clássicos modernos da Penguin, termina imediatamente antes da troca de telegramas, com a frase: “À noite, escovei o meu fato bolorento e pus uma gravata: vou regressar  à Europa”. Como se a passagem de um continente para o outro implicasse um ritual para uma travessia transformadora.  

Ricardo Kapuscinski 

A primeira frase do livro é: “Este é um livro muito pessoal, sobre a experiência de estar sozinho e perdido.” 

No filme, Ryszard Kapuscinski é sempre chamado de Ricardo pelas pessoas que encontra, adquirindo um novo nome naquele lugar. Ele aparece – numa animação realista – cansado, despertado de sonhos longos e difíceis de esquecer, com a barba por fazer, a roupa manchada e amarrotada dos trópicos, tem um ar pensativo, fuma, fotografa, fuma, leva as mãos à cabeça. 

Mas as imagens fotográficas de Kapuscinski em Angola, em 75, mostram um homem mais descontraído e sorridente. Ele põe as mãos nos ombros de soldados das FAPLA e deixa-se fotografar com eles. 

A realidade talvez esteja algures entre estes dois retratos. A vida como ela é – ou foi – está sempre algures entre várias visões e, normalmente, entre contradições.

Kapuscinski tinha 43 anos quando esteve em Angola em 75. Era jornalista há 20 anos. Viajava por África naquele tempo histórico único – em que ruíam os impérios europeus – há mais de 10 anos. 

do filme 'Mais um Dia de Vida', de Raul de La Fuente e Damian Nenowdo filme ‘Mais um Dia de Vida’, de Raul de La Fuente e Damian Nenow

Alguma coisa aconteceu de diferente na sua cobertura de Angola. Mais Um Dia de Vida foi o seu primeiro livro. O primeiro onde colocou as sobras do trabalho do repórter, que era afinal o que mais lhe interessava. Nas notícias que enviava para a Polónia não havia espaço nem relevância noticiosa para a informação mais importante: como é que se vivia sob guerra, como é que se vivia com falta de água e de comida, como é que se vivia pensando que cada dia era mais um dia de vida? Como eram os homens e as mulheres nessa circunstância? E como era ele, repórter, perante as pessoas que encontrava e, depois, o resto do mundo? 

No filme, Kapuscinski é um herói, um homem intrépido a ponto de observar e descrever pormenorizadamente o medo dos outros homens e prosseguir viagem. É um homem com um certo poder, que pode mesmo talvez alterar o curso da História (por exemplo, relatando ou não que os cubanos estão em Angola para apoiar o MPLA, embora nada disto esteja no livro). 

No livro, Kapuscinski mostra uma certa vaidade – como a maior parte dos repórteres de guerra – por desafiar tanto o destino, mas é um herói sem uma causa clara, alguém que não desiste da viagem por uma teimosia que não pode ser explicada, para contar uma história que não sabe qual é. Ele é um homem com um poder ilusório, que sabe que o que fizer será sempre pouco, porque um repórter de guerra é sobretudo testemunha do quanto não pode ser feito para ajudar. Em 75 como agora. 

Kapuscinski fotografa alguns soldados. Eles deixam-se fotografar, querem mesmo ser fotografados:

“Agora eu, camarada, eu, euuuuuu! (…) Deixar marca, registo, permanecer de alguma forma. Eu estive aqui, ontem mesmo estive aqui, ele tirou-me uma fotografia, sim, era assim que eu era. (…) Olhem para mim durante um momento, antes de se virarem para outra coisa.”

Kapuscinski sabia que logo haveria outra notícia e outras fotografias, outros soldados, outros conflitos, e o mundo rapidamente desviaria o olhar. Até os jornalistas, que chegavam de todo o lado para cobrir o dia da independência angolana, que não tinham passado ali meses como ele, rapidamente partiriam para outro lado. O livro era uma maneira de permanecer. Disse sempre que era o seu livro favorito, mas é possível que fosse apenas por ter sido o primeiro. 

Farrusco 

Eventualmente, todos acabamos por organizar os acontecimentos das nossas vidas de forma a poder contá-los aos outros, dar-lhes uma sequência e, talvez, um sentido. 

Joaquim Farrusco nasceu e cresceu no Alentejo, numa família pobre, durante o Estado Novo, e não teve oportunidade de estudar. Se tivesse continuado a estudar, talvez tivesse chegado às Belas Artes e hoje seria um artista e não um militar. Veio com 13 anos para Lisboa, para trabalhar nas obras e, mais tarde, tornou-se operário. Se não tivesse sido chamado para a tropa, e se não calhasse haver uma guerra colonial, sobre a qual nada sabia, talvez ainda hoje fosse operário. Atracou em Luanda no Vera Cruz no dia 13 de Agosto de 69, com 19 anos, e se não tivesse passado imediatamente pelos musseques, se não tivesse visto as crianças e reparado especialmente numa, descalça e esfarrapada, talvez não tivesse começado a ter simpatia pelos angolanos e a sua causa e não lhe ocorresse juntar-se ao exército do MPLA, talvez tivesse voltado para Portugal assim que acabou de cumprir a comissão com o exército português. Se não tivesse ficado enfeitiçado por Angola, talvez os seus nove filhos tivessem nascido em Portugal e não teria ficado cerca de 40 anos sem ver a terra onde nasceu. 

Kapuscinski conheceu o Comandante Farrusco no sul de Angola, numa frente de combate com poucos militares e pouco experientes, com poucos recursos e munições, destinada a uma derrota. O Comandante e Kapuscinski estão num hotel onde já ninguém quer pernoitar. Os sul-africanos aproximam-se e os reforços não chegarão a tempo como nos filmes. Numa viagem de jeep, com o vento a falar por cima das vozes, Farrusco conta um pouco da sua história a Kapuscinski. 

Digo que Kapuscinski conheceu Farrusco, porque Farrusco não chegou a conhecer Kapuscinski. Ninguém chegava a conhecer o repórter porque era ele quem fazia as perguntas. Para Farrusco, era um estrangeiro que estava ali, um  jornalista que talvez pudesse, efectivamente, contar alguma coisa do que se passava naquele país que começava a ser palco da Guerra Fria. Kapuscinski despede-se de Farrusco como de um condenado, mas Farrusco sobreviveu. 

Está aqui. É um senhor mais velho, que usa chapéu e ninguém tem dificuldade em ver que é um típico alentejano, apesar de ter passado quase toda a vida em Angola, onde chegou a general. Fala com uma mistura de sotaque alentejano e angolano. Continua a ser carismático. É um homem que se comove com facilidade quando se lembra do passado, contradizendo o mito militar da dureza. 

Farrusco veio a Lisboa para a estreia do filme, realizado por Raul de La Fuente e Damian Nenow, que mistura cinema de animação e documentário – tentando reconstituir os passos de Kapuscinski em Angola e falar com pessoas que se cruzaram com ele – e em que Farrusco se tornou protagonista. É entrevistado por jornais, rádios, televisões. Todos querem ver o homem real por trás da personagem real. Mas o que pode ele contar no tempo de uma entrevista? Que os sul-africanos atacaram 4 dias depois de Kapuscinski partir da frente sul, que foi ferido, entrou em coma e quando acordou a cidade estava tomada. Que o filho bebé que Kapuscinski refere e imagina vivo foi morto pela UNITA aos 18 anos. Porque 18 anos depois ainda havia guerra. E muitos anos depois ainda havia guerra. Uma guerra tão longa que não seria possível continuar a ser um herói, ano após ano. 

Luís Alberto 

Um comandante do MPLA toca piano e canta uma canção portuguesa no edifício de uma câmara municipal de uma pequena cidade, depois de ter sido assaltado pela UNITA. Uma militar, branca, fala sobre uma camarada morta. Um professor primário que deixou de o ser para combater fala do sonho da independência que não chegará a viver, porque morrerá dentro de pouco tempo, numa clareira ali perto. Um trabalhador português pede ajuda depois de fugir de uma propriedade onde todos foram massacrados. 

Nada disto aparece no livro de Kapuscinski embora tenha acontecido nos dois ou três dias que Kapuscinski viajou para frentes de combate a partir de Benguela com o jornalista angolano Luís Alberto Ferreira e a sua equipa de operadores de câmara e som, enviados pela RTP para cobrir a ponte aérea e os confrontos em Angola. 

Luís Alberto é outra das “personagens” do livro. Nasceu e cresceu em Angola, vive em Portugal, viveu em Espanha e no México. 

Tem 85 anos, mais ou menos a idade que Kapuscinski teria se fosse vivo. Há algo nele, ainda, do homem “vivo”, “irrequieto” que Kapuscinki descreveu, porque a cabeça dele não pára, mesmo quando o corpo ou a voz não obedecem.

Talvez como Kapuscinski, se ainda fosse vivo, não desistiu de ser jornalista e continua a pensar em projectos. E como Kapuscinki, se fosse vivo, é um arquivo vivo: um repositório de histórias da História de uma Angola acabada de nascer ou de um México Zapatista ou da Espanha de Franco. 

Lembra-se de tudo com um pormenor invulgar. Lembra-se na perfeição da Casa Amarela, onde estava o Comandante Monti e o quartel-general das FAPLA em Benguela. Lembra-se do nome do hotel onde ele e a sua equipa ficaram hospedados e onde, ao pequeno-almoço, se aproximou um sujeito europeu: 

– Os senhores são jornalistas? Estão a fazer guerra? Eu estar sozinho, não saber que fazer, desconfiam de mim. O que vão fazer?

– Vamos para a frente do Balombo.

Lembra-se da estrada a caminho do Balombo cheia de mortos, como foi descrita por Kapuscinski, e de que foi Carlota – a militar destacada para os escoltar e uma heroína do livro – quem disparou a Kalashnikov para atear fogo aos cadáveres depois de os regarem com gasolina. 

Lembra-se de ter dito: 

– Carlota, não é melhor vir connosco? – quando a militar decidiu não regressar com eles para Benguela.

Lembra-se do que é que comiam e em que restaurante – era sempre o mesmo e o mesmo menu: bife com batatas fritas – e lembra-se do nome do enfermeiro (e não um militar, na versão de Kapuscinski) que ao chegar ao restaurante anunciou a morte de Carlota Machado.

– Mas como? Não pode ser! Ainda há bocado a vimos!

Lembra-se do pioneiro, um miúdo de não mais de nove anos, que andava sempre atrás de Carlota, e que morreu com ela no mesmo ataque. 

Lembra-se da despedida de Kapuscinski. Foi Luís Alberto que trouxe os rolos de filme onde estavam as fotografias de Carlota e os entregou na embaixada da Polónia em Lisboa como Kapuscinski tinha pedido. 

Luís Alberto não voltou a ver Kapuscinski e só muito mais tarde veio a saber da publicação de Mais um Dia de Vida. Não leu o livro. Tinha tantas outras coisas para ler, coisas talvez que ele não tinha vivido ou sobre as quais nada sabia. Talvez ainda venha a ler o livro, diz. 

Carlota 

Ausente do livro, há ainda a cena da morgue, descrita por Luís Alberto, em que Carlota morta é igual à Carlota viva. Carlota está morta, mas ainda tem as botas calçadas e o seu penteado afro, ao estilo dos anos 70 americanos, ainda está intacto. Carlota não está suja de sangue, embora tenha caído em combate. Carlota está sozinha, deitada numa cama fria da morgue. Luís Alberto, os seus companheiros de equipa e Kapuscinski olham para ela em silêncio. 

o repórter com Carlota no filme 'Mais um Dia de Vida', de Raul de La Fuente e Damian Nenowo repórter com Carlota no filme ‘Mais um Dia de Vida’, de Raul de La Fuente e Damian Nenow

Carlota morta continua igual à Carlota viva nas memórias deles e na História da guerra angolana. Ela terá sempre aquele cabelo afro, que era típico das militares, mulheres que para combaterem já tinham que ter quebrado várias convenções. Ela será sempre uma heroína de guerra. Ela ficará sempre com aquele corpo pronto para a guerra, pronto a não ser só corpo de esposa, de mãe, de dona de casa, mas um corpo livre. Carlota ficou para sempre com 20 anos. Nunca ficou desiludida: nem com o seu país, nem com os direitos das mulheres nem consigo mesma. 

Dia da Dipanda

Miúdos vestidos de soldados – e não se percebe se são soldados mesmo ou meninos que se vestiram de soldados – marcham, mas os passos são dançados, pouco “militares”, como se contivessem um desejo de festa ou de fuga. No filme “Uma Festa para Viver”, de Ruy Duarte de Carvalho, vê-se a noite da independência no bairro do Cazenga, um dos musseques de Luanda. Há festa, há palavras de ordem, há canções, mas o momento mais comovente é o momento de silêncio em que se vê simplesmente uma bandeira portuguesa a descer da haste e uma bandeira angolana a erguer-se no céu nocturno. 

À meia-noite de 11 de Novembro de 75, Kapuscinski não estava em nenhum dos bairros, mas na praça onde discursou Agostinho Neto – mais tarde, o Largo da Independência, onde foi colocada uma estátua do primeiro presidente angolano.

”(…) As luzes do palco apagaram-se e toda a gente se foi embora rapidamente, perdida na escuridão. Na frente de combate do norte, a artilharia estava em silêncio. Mas, de súbito, os soldados na cidade começaram a celebrar, disparando para o ar. Houve uma agitação caótica e a noite encheu-se de vida.”

Naquele noite, o Comandante Farrusco ouviu a proclamação da independência na rádio, ainda convalescente dos ferimentos, ainda sob captura dos sul-africanos, e emocionou-se. O Luís Alberto estava de volta a Luanda, desta vez sem equipa, por conta dele, e também foi à praça ouvir Neto. Tinha trazido com ele posters da Carlota, que tinha impresso em Portugal, e que esperava que ajudassem a que não se esquecessem dela. 

Não sei se naquele 11 de Novembro, Dia da Dipanda, depois de amanhecer, alguém terá ido visitar o túmulo da Carlota e também o do pioneiro sepultado ao lado dela, de que ninguém se lembrará o nome, pois não teve tempo sequer de ser um herói. 

Originalmente publicado no Weekend, Jornal de Negócios, 23 de Novembro de 2018

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