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Tabu de Miguel Gomes

Ao cineasta português Miguel Gomes não falta ousadia para dar à sua terceira longa-metragem o título de um dos monumentos do cinema mudo. Mas a sua ousadia compreende-se quando se vêem simultaneamente a pertinência deste empréstimo e a qualidade do resultado. A sua pertinência consiste em trazer Murnau para nos falar hoje da perda em termos de cinema. Se o seu filme mergulha na nostalgia, não é seguramente para lamentar a colónia nem sequer para evocar a frustração amorosa, mas porque ligar as duas lhe permite falar da ambivalência das imagens. O resultado é magnífico porque esta experiência a preto e branco, tão desestabilizadora como envolvente, redesenha a nossa relação com o imaginário tanto da colónia como da relação amorosa.

Em Murnau (1931), a paixão que une nas paisagens paradisíacas de Bora-Bora o jovem pescador de pérolas Matahi e a bela Reri acabará tragicamente, dado que a sua aliança constitui tabu. Em boa lógica, o filme divide-se em duas partes: Paraiso e Paraíso perdido. Em Gomes (2012), as duas partes estão invertidas, unidas pela frase com que inicia Out of Africa (Sydney Pollack, 1985): «Eu tinha uma fazenda em África» As duas partes já não são a lógica de uma história dramática, mas dois períodos históricos postos em perspetiva: hoje e o tempo colonial. Elas são tratadas de forma diferente, adotando a parte colonial a forma de cinema mudo e a estética de Tarzan. Aí se descobre a narrativa apaixonada de Ventura, o amante de Aurora, a velha senhora rabugenta da primeira parte, que, na sua velhice, se encontra rodeada apenas por uma vizinha bondosa e uma criada caboverdiana tão dedicada quanto impassível. O nome de Aurora também não caiu do céu: Murnau consagrava Aurora (1927) ao poder trágico da sedução…

O que é maravilhoso em Tabu de Miguel Gomes, é que ele dispara em todos os sentidos, com uma alegre desenvoltura, mas também com uma notável mestria, pistas tão generosas que nos abre um reino onde nos acolhermos. As piscadelas de olho abundam, muitas vezes cheias de humor, sempre irónicas, em que o cliché é exacerbado para instaurar a ambiguidade: fazem apelo aos que nos tentam para dançar em coro uma valsa que não só pode ser saudade uma vez que o paraíso colonial não pode deixar de autodestruir-se de tal modo é falso. A nostalgia – muito real em todas as antigas potências coloniais – do tempo antigo, da paixão perdida, aparece-nos em toda a sua ambivalência porque Gomes faz-nos entender  que, para lá dos nossos discursos, ela não é só a sua, mas a nossa. A sua força está em nada denunciar para lhe restaurar a veracidade, e mais ainda a dor, porque lamentamos tão vivamente a perda do nosso imaginário de antigamente, o que fundava o nosso poder e a nossa glória imperial, o nosso arrogante e violento domínio do mundo. Se choramos esta perda é porque a nossa ingenuidade ainda está bem viva, que continua a fechar o Outro, o antigo colonizado, na exploração e no desprezo, à imagem da criada Santa (a criada santa).

Esta visão redutora e condescendente de uma África pseudo-paradisíaca, ainda a celebramos ao maravilharmo-nos com Out of Africa e todos os seus avatares de aventura e de exotismo em que o africano não é mais que um cenário, exatamente como  seguimos com voluptuosidade os amores incestuosos de Ventura e Aurora numa África de papelão. Gomes conduz-nos assim habilidosamente pelo terreno movediço das nossas visões pós-coloniais. Faz isso com uma liberdade impressionante, que é sua mas respeita a nossa, uma forma de afirmar a sua fé no cinema das origens, o de Murnau. Quando as suas personagens vêem animais nas nuvens, quando o romantismo o disputa ao barroco, quando é um crocodilo que conduz a narrativa, Gomes assume esta filiação crítica. Na primeira parte, o passado parece tabu: regressa em força como mito na segunda. Só assim, a exemplo de Miguel Gomes, escavando nos nossos imaginários, se poderão finalmente fazer filmes em vez de estarmos eternamente a inventar filmes sobre o nosso passado e sobre nós próprios.    

 

publicado originalmente no site Africultures 

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