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Ver e fazer filmes, a partir de Cataguases

“Quer fazer um filme no Brasil numa cidade que se chama Cataguases?”

E estava lançado o convite para o Festival Ver e Fazer Filmes na cidade em que o cineasta Humberto Mauro rodou algum do cinema que deu rosto ao Brasil. “Nós damos as ferramentas para que isso possa acontecer”, garantiu a organização do festival, a 2ª edição de um outro, o Cineport voltado para o cinema de países de língua portuguesa.

Foto Humberto RibeiroFoto Humberto Ribeiro

De ano para ano reforçam a tónica no “laboratório”, nos “espaços de aprendizado em rede”, no “ver” e no “fazer”. Nesta edição, para além das equipas brasileiras de João Pessoa, Salvador e Cataguases, convidaram Angola, Moçambique, Cabo Verde e Portugal para parceiros na construção de um olhar cinematográfico que se quer individualizar enquanto olhar e alargar-se enquanto cinema.

E Cataguases tem tudo o que as cidades que acolhem bons exemplos de programação precisam ter. Sem ser uma cidade dos folhetos turísticos do Brasil, nem proporcionar interesse para uma deslocação propositada, tem no núcleo duro do Festival, pessoas capazes de gerar casamentos felizes: assistentes, directores, câmeras, sonhadores, pessoal da trilha sonora, cinéfilos, directores de arte, estagiários, pesquisadores, todos.

Mônica Botelho (Curadora e  Directora Geral), Henrique Frade ( Director Técnico e Artístico), e César Piva (Director Executivo) são os mestres de cerimónias, que articulam a sua visão impulsionadora e as experiências de quem chega. Um orçamento confortável da empresa Energiza, e uma concepção do cinema que sem retirar o “ver” se problematiza no “fazer”, são os outros ingredientes para que a magia aconteça.

Cataguases em directo e com a câmara às costas 

Ao longo de dez dias, sete equipas fazem o seu trabalho, no género ficção (Fic) e documentário (Doc). “Fics” e “Docs” que este ano têm como ponto de partida a obra literária do escritor cataguasense Luís Rufatto que, na cerimónia de premiação, confessa estar muito curioso para ver como as equipas adaptaram para a tela as estórias que ele escreveu. Sete curtas-metragens a concurso e “experiências para levar no coração”, como quem viveu diz, constituem resultados que superam todas as expectativas.Foto Humberto RibeiroFoto Humberto Ribeiro “Ver e fazer filmes” pode ser vista como uma plataforma complexa de criação. Não só permite a imersão total na realidade de Cataguases – cidade que tem um toque de pequena aldeia onde todos se conhecem -, como proporciona o encontro de profissionais e não-profissionais do cinema. Há sem dúvida uma vertente pedagógica que se foca no “aprendizado” do audiovisual.

A aposta que o festival deste ano fez no documentário constituirá, sem dúvida, um factor positivo para o futuro do evento, para além de poder funcionar como catalizador de relações de trabalho entre equipas locais e equipas que vêm de fora.Foto Humberto RibeiroFoto Humberto Ribeiro

Marcos Pimentel, responsável pela realização dos documentários, explica-nos: “O documentário permite que se destaquem linguagens muito diferenciadas do Brasil, dos países africanos e de Portugal” e, para além disso, “o esquema de produção e o orçamento são menores que a ficção”. Pimentel, está muito satisfeito com o “choque de visões” que se tem manifestado, “o que proporciona sotaques cinematográficos muito variados”.

Os documentários foram criados em 9 dias, e ali o trabalho nunca parou. É Babi Piva, da produção do festival, que atira com os números memorizados: “Temos mais de 200 pessoas envolvidas”, “as equipas tiveram dois dias para conhecer a cidade, quatro dias para filmar, e três dias para editar”. Uma margem de tempo confortável para produzir exercícios muito acabados que, pela diversidade de olhares das equipas, acaba por provocar o debate no seio do Festival.

Jorge Rocha, artista e produtor português, sabia que queria fazer “algo mais plástico e sensorial” quando chegou à cidade. Trouxe com ele Lia Lisa (fotografia) e Sérgio Moreira (som), de Lagos, e deixaram-se entusiasmar com os sons e as paisagens que encontraram. O resultado, Escrito nas Telhas (Portugal/ Brasil), é uma imersão na vida das pessoas de Cataguases, com o recurso às potencialidades do audiovisual. A aposta na sinestesia deu-lhes o “Prémio de melhor trilha sonora”.

A espera de Emídio, Amâncio e Nelson

Emídio Jossine, Amâncio Mondlane e Nelson Mondlane vieram “do outro lado do oceano”, de Maputo, directamente para Cataguases.

Vamos encontrá-los na “Base”, nome de guerra para o galpão onde se aprende, se testa, se erra, se trocam ideias, e se “respira cinema”. Estão a aguardar pelo genérico que finalizará a edição do seu doc A Espera no Quintal, e respondem à nossa curiosidade.

“O nosso país não sabe que estamos aqui” diz Jossine, referindo-se à falta de apoios para o cinema por parte do Estado de Moçambique. “Tivemos bons professores, gente que lutou pela independência e pela autonomia do cinema, e graças a eles nós podemos hoje estar aqui”, referindo-se à Associação Moçambicana de Cineastas (AMOCINE), e a profissionais como Isabel Noronha, Pedro Pimenta, Ruy Guerra, Camilo de Sousa, entre outros. A Espera no Quintal é um exercício cinematográfico muito bem conseguido, acabando por ganhar o “Prémio de Melhor Documentário”. E a palavra exercício não se aplica aqui no sentido de escolar, mas sim na relação directa que este documentário tem com as linguagens do cinema: a memória (e a sua perda) evocada no lar de idosos da cidade, o acto de nomear através do cinema (o velho ex-paraquedistas com um álbum de retratos nas mãos diz: “Isto sou eu”, “isto é o avião”, “isto são os meus companheiros”), a piscadela de olho ao nascimento da 7ª arte, na estação de comboios de Cataguases, e acima de tudo, as fronteiras rasuradas dos géneros, num objecto que faz entrar a ficção no documentário.

Enquanto o genérico não lhes chega às mãos continuamos a conversa. Falam do seu país, e de como a televisão brasileira e as novelas exercem uma forte influência na vida das pessoas: “Até a rapariga moçambicana está mais brasileira na moda que usa, no lipstick que coloca, na maneira de falar”.

A aposta na formação de bons realizadores e de uma cultura audiovisual como demonstrada pelo documentário destes moçambicanos, poderá ser uma via de assegurar a continuidade do cinema no seu país.

Foto Humberto RibeiroFoto Humberto Ribeiro

“Em média um brasileiro vê um filme por ano”,  

“Queremos alargar o Festival Ver e Fazer Filmes a outros países, não só de língua portuguesa como também ibero-americanos”. Quem fala é César Piva, um dos mentores do evento, e responsável pela Fábrica do Futuro, estrutura de residência e produção em audiovisual, com os olhos sempre postos longe, mas a partir de Cataguases.

“Em média um brasileiro vê um filme por ano”, discutia-se no fórum da tarde de Sábado, no Centro Cultural Humberto Mauro. “Precisamos de fazer aumentar este número”, diz Piva, apontando exemplos da programação do festival que pretendem contrariar esta tendência: “O Tela Viva, que leva o cinema às povoações em redor da cidade, ou programas educativos como o Minuto Lumière, as exposições e as sessões de cinema diárias, especialmente dirigidos aos jovens da região, são imprescindíveis para um festival sustentado em práticas de consumo cultural”.Foto Humberto RibeiroFoto Humberto Ribeiro

A aposta de César Piva é no investimento em processos criativos cujo meio é o audiovisual, e para tal, o Festival tem de provocar uma vertigem nos espectadores, ser como a “cachoeira de cinema” de Humberto Mauro, ser jorro contínuo para toda a população.

– “O meu nome é Amanda e sou produtora do doc Quintal”, “O meu nome é Mauro e represento a Funarte”, “O meu nome é Adriana, sou actriz, e tenho uma história de amor com Cataguases”, “O meu nome é Flávia, trabalho no Vivo Lab, na área de arte móvel”, “O meu nome é Emerson e sou responsável pela companhia de alumínios de Cataguases”, “ O meu nome é Gilson, e sou responsável pelo projeto Cidade do Conhecimento”.

César Piva sabe que as redes são fundamentais para o sucesso do Festival, e chama à cidade parceiros das mais diversificadas áreas. Os “anéis colaborativos” das redes pemitem assegurar uma programação diversificada, com funções pedagógicas e sociais, e uma acção sobre a mudança da realidade.

Tambla Almeida, cineasta caboverdeano que, com a sua equipa do Mindelo, filmou Tempo-de-Criança, sabe da frágil realidade do cinema no seu país. Tambla Almeida, cineasta caboverdeano, foto BualaTambla Almeida, cineasta caboverdeano, foto Buala“É impossível, mas nós fazemos cinema”, diz-nos, e a cada palavra uma justa percepção do seu país, onde tem actuado também ao nível da formação e da programação de cinema. “Em Cabo Verde tem uma malta que se está a construir e que quando chega aqui se revela. Eu próprio sinto que estou a descobrir-me como documentarista”, revela.

Um manifesto em noite de Óscares

“Tava de olho nesse vestido, minina”, ouve-se no banheiro feminino do Centro Cultural Humberto Mauro. É a noite da entrega dos prémios, e as moças da cidade vestiram os seus melhores modelos. A mesma moda que é copiada pelas moçambicanas e angolanas, directamente da tv, e que os jovens cineastas falavam: vestidos “tomara-que-caia”, sapato alto, esmalte nas unhas, pipoca. Está tudo pronto para começarem a subir aos palcos os vencedores da noite.

Cá fora no largo, um cinema ao ar-livre transmite as premiações, agradecimentos e lágrimas.Foto BualaFoto BualaE as pessoas juntam-se, nesse “centro do mundo”, o largo, através do cinema.

A noite de entrega dos prémio é também um momento de reflexão sobre a ideia de cinema que se quer para a cidade.

A equipa de consultores do Festival que lançou mãos à obra, e fez uma fita-manifesta que é uma campanha em defesa do Cine-Teatro Edgard de Cataguases, tombado pelo IPHAN em 1994 e que se encontra hoje em péssimas condições. 

Mas Regard Edgar! é também um tributo à memória da cidade onde “o cinema é cachoeira”, como dizia Humberto Mauro, um acto de memória numa cidade que vive com os olhos voltados para o futuro.

Foto Humberto RibeiroFoto Humberto Ribeiro

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