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“Virgem Margarida”, a insurreição das mullheres

fotos de cena: Joao Costa (Funcho) 

 

“A Virgem Margarida”, longa-metragem do realizador moçambicano-brasileiro Licínio de Azevedo, é uma co-produção entre Mocambique, Portugal e França e foi filmada em Maputo e em florestas do centro do país, entre Abril e Maio de 2010.

Trata-se de uma ficção baseada em factos reais. Passa-se no período logo a seguir à independência de Moçambique (1975/76), em pleno ambiente revolucionário que caracterizava a epoca, quando os vitoriosos combatentes da guerra anti-colonial assumiram o controle do país e chegaram às cidades, cheios de boas intenções, querendo transpor para o “corrompido” meio urbano a experiência coletivista implantada por eles nas zonas rurais que geriam durante a guerra.

O filme centra-se num aspecto particular desse conturbado momento, em que os grandes ideais se sobrepunham ao indivíduo, narrando as histórias de mulheres enviadas coercitivamente para centros de reeducação para prostitutas, numa floresta infestada por animais selvagens, em região quase inacessível, distante das suas zonas de origem. Entre as reeducandas, prostitutas, dançarinas da night, encontra-se Margarida, camponesa adolescente, que se deslocara à capital pela primeira vez,  para comprar o seu enxoval de casamento, inadvertidamente sem bilhete de identidade, e que se encontrava no local errado no momento errado.

Margarida e Rosa a caminho do campoMargarida e Rosa a caminho do campo 

Moçambique, anos setenta, logo após o fim da dominação colonial. Os que lutaram pela independência encontram-se no poder e põem em prática os seus ideais revolucionários. As prostitutas têm que ser reeducadas para se libertarem do seu passado e se transformarem em “mulheres novas”, ao serviço da revolução.

Numa grande operação militar desencadeada na capital, e noutras cidades, centenas de mulheres, prostitutas reais ou presumíveis, são detidas e concentradas num pavilhão desportivo. Embarcadas em machimbombos escoltados por soldados, elas iniciam uma longa viagem através do país, com destino desconhecido.

No mesmo assento de um dos machimbombos, encontram-se Rosa, rebelde e violenta, marginal que exerce o seu métier nas ruas da capital, e Suzana, dançarina de cabarés chiques, mãe solteira preocupada com os filhos pequenos que deixou na casa da vizinha. Noutro, estão Luísa, jovem amante de um colono, e Margarida,  uma camponesa adolescente, detida ao deslocar-se à capital para comprar o seu enxoval de casamento, por estar indocumentada.

As mulheres são levadas para um local isolado, na selva, sem qualquer infra-estrutura. Ali, sob a guarda de camponesas que combateram na guerra anti-colonial, deverão assimilar novos valores. O trabalho agrícola, para o qual são completamente inaptas, e a rígida disciplina militar imposta pela severa comandante Maria João constituem a base do processo de reeducação, sem prazos definidos. As que se rebelam sofrem violentas torturas.

the disciplinarity campthe disciplinarity camp

No centro de reeducação, de um lado as guerrilheiras camponesas, puras e duras, que o dirigem. De outro, as “corrompidas” vítimas urbanas da exploração colonial que se recusam a assumir os seus erros e que, pelo trabalho e pela disciplina militar, têm que se transformar em mulheres novas, aptas para servir o pais nas tarefas que os novos tempos impõem.

Duas personalidades se destacam no conflito entre estes dois mundos antagónicos que se instala desde os primeiros momentos. Rosa, prostituta marginal, que lidera as reeducandas. Maria João, a comandante do centro, heroína da guerra anti-colonial. Margarida, a virgem inocente, situa-se entre os dois grupos, sem compreender as motivações de nenhum deles.

Desde o princípio se estabelece o confronto entre Maria João e a indisciplinada Rosa, que lidera as colegas. Rosa pensa em escapar e procura cooptar Margarida, companheira de fuga ideal por conhecer os segredos da selva. Margarida resiste mas, torturada por uma falta que não cometeu, acaba por acompanhar Rosa, Luísa e Suzana numa fuga fracassada. 

Margarida e Rosa Margarida e Rosa

A longa convivência entre guardas e prisioneiras, no ambiente de completo isolamento, leva à descoberta do lado humano umas das outras. E, por fim, à conclusão de que tanto umas como as outras são prisioneiras de um sistema que não podem influenciar. A morte de Suzana e a comprovação da virgindade de Margarida, o absurdo da sua permanência ali, leva a perda de poder de Maria João, fragilizada por não ter resposta quanto ao desenlace do processo de reeducação. Estabelece-se uma total indisciplina que Maria João já não consegue controlar.

A violência do conflito e os desafios quotidianos impostos pela natureza hostil acabam por aproximar os pólos opostos, que se descobrem prisioneiros das mesmas cadeias. Juntas, militares e prostitutas acabam por se opor a um comando superior que se revela verdadeiramente corrupto e optam pelo perigoso caminho da sua libertação. Um “acordo de paz” é celebrado entre Maria João e as reeducandas por ocasião da visita do comandante militar com poder para libertar Margarida. A violência a que esta é submetida pelo comandante, acaba por forjar a aliança definitiva entre militares e reeducandas que, juntas, decidem libertarem-se. Para Margarida, no entanto, não há mais saída e ela opta pela morte como forma de libertação.

Maria João a comandante do campoMaria João a comandante do campo

créditos

Dez actrizes principais, todas mocambicanas, algumas atuando pela primeira vez em cinema, um único actor principal, fazem parte do elenco, junto com 150 figurantes mulheres.

A produção contou com uma equipa técnica e artística proveniente de Portugal, Angola e África do Sul, com uma importante componente local. Na direção de fotografia esteve o experiente Mario Masini, da Italia.

Licínio Azevedo, escritor e cineasta, é autor da história original e co-guionista, juntamente com Jacques Akchouti, da Franca. O moçambicano Pedro Pimenta, que já esteve à frente de várias produções em Africa, é o produtor.

TIFF Festiva(Toronto International Film Festival)

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