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“As minhas raízes são africanas e as minhas asas são europeias”, entrevista a Yara Monteiro

Série Viver e escrever em trânsito entre Angola e Portugal (parte 5) 

Yara Monteiro nasceu no Huambo (Angola) no ano de 1979 e com dois anos de idade, em 1981, veio para Portugal com a família. Forma-se em Recursos Humanos no Instituto Politécnico de Setúbal, área na qual trabalhou ao longo de vários anos e que a levou a viver em Angola e no Brasil. É neste último país que inicia uma busca de si mesma que a impele a começar a escrever. Em 2018 publica o romance Essa dama bate bué!, sob a chancela da editora Guerra e Paz, e encontra-se atualmente a desenvolver novos projetos de escrita, como o livro de poesia Memórias Aparições Arritmias.  

Em dezembro de 2020, Yara Monteiro conversou com Doris Wieser sobre os trânsitos que marcaram o seu percurso e a influencia que tiveram na sua vida e no seu trabalho literário. Segue-se uma versão abreviada dessa entrevista. 

Começo por lhe pedir que fale um pouco sobre o seu percurso de vida entre Angola e Portugal, desenvolvendo, também, em que medida ele tem um impacto no seu trabalho literário.

Chamo-me Yara Monteiro, nasci em Angola em 1979, na cidade de Huambo. No ano de 1981 vim para Portugal com os meus avós, com a minha mãe e a minha tia e cresci na margem sul de Lisboa. Fiz a minha educação toda em Portugal, afastada das minhas origens angolanas e africanas. Licencie-me em Recursos Humanos, mas a minha vontade sempre foi ser escritora. 

Depois de me licenciar, trabalhei algum tempo em Portugal, mas no fim da Guerra Civil de Angola regressei a Luanda, em 2005, onde trabalhei numa grande petrolífera. Parte deste meu percurso profissional levou-me também ao Brasil, onde acabei por descobrir a minha identidade africana, a minha negritude. É interessante que isso não tenha acontecido nem em Portugal nem em Angola. Em Portugal, acho que não terá acontecido especialmente pela educação que tive: a escola em Portugal fala exatamente dos feitos da navegação, daquilo que se pode chamar “os descobrimentos”, mas não conta o outro lado da história. Então, para mim, a história de Angola teria começado com a chegada dos portugueses, o que não é verdade. No Brasil, apesar de estar com a vida bastante organizada, tinha uma grande insatisfação: saber quem é que era, de onde vinha. E comecei um processo de autodescoberta que passou exatamente pela análise interior e por conversas com a minha avó sobre a minha história. Eu tenho um nome tradicional, que nunca chegou a ser registado. E isso tem a ver com a cultura umbundu e a especificidade da minha história. 

Depois estabeleci-me no Alentejo, onde estamos, e decidi começar a escrever o meu romance Essa dama bate bué!, baseado em memórias e na minha trajetória de retorno às origens. Não é um livro autobiográfico, mas, como é óbvio, tem muito de mim. Vitória, como eu, nasceu em Angola, mas, devido à Guerra Civil, veio para Portugal com a família materna, onde cresceu e ficou até à fase adulta. Enquanto jovem mulher, decide fugir dum casamento, regressa a Angola e vai à procura da mãe que nunca conheceu, uma ex-combatente; e chega a uma terra que é sua, mas que não reconhece e pela qual não é reconhecida. 

O título do livro, Essa dama bate bué!, foi uma tentativa de ocupação linguística, porque “bué” é uma palavra angolana, e achei que seria interessante ter esse título num livro, porque traz uma parte da minha identidade.

Porque é que a Yara escolheu fazer a entrevista em Alcácer do Sal? 

Em Alcácer do Sal viveram africanos e descendentes de africanos, escravizados ou livres, que deixaram um grande legado, pois estiveram aqui desde o século XV e trabalharam nas salinas, trabalharam na agricultura, tendo sofrido bastante miséria e também bastante violência social. Achei interessante escolher exatamente esta área, porque existe um grande desconhecimento dessa herança africana no Alentejo. 

Como é que a Yara se percebe em relação aos trânsitos culturais e territoriais que viveu entre Angola e Portugal?

É uma pergunta interessante… eu sinto Angola como a mátria e Portugal como a pátria. Acho que poderei dizer que a minha identidade também está em trânsito, continua e continuará sempre em trânsito. Eu sei de onde vim. Eu costumo dizer que as minhas raízes são africanas, são angolanas, mas as minhas asas são europeias, são portuguesas. Eu gosto de, por exemplo, no sábado comer uma muamba e no domingo um cozido à portuguesa. Não sinto que esteja repartida, não sinto que esteja dividida; sinto que há um conjunto que faz parte de mim como pessoa, que veio acrescentar mais do que dividir. Tenho muito orgulho da minha ascendência, da minha herança angolana que vem também duma herança e ascendência portuguesas, com todas as suas complexidades, que me tornam luso-angolana, uma cidadã do mundo. Portanto, até costumo dizer que eu sou de onde estou.

O romance Essa dama bate bué! encena uma tensão entre memória e esquecimento através de um ritual à volta de uma árvore. Podia elaborar sobre como essa tensão perpassa a sua obra?

Se calhar, é importante eu partilhar parte do inconsciente que se torna consciente exatamente nestas conversas. A criança Vitória, de acordo com o ritual do esquecimento a que é submetida, teria que ser mergulhada na água, no mar da nova terra. E é interessante que eu escolhi exatamente essa situação, porque a minha primeira memória não é a árvore; a minha primeira memória é o mar da Praia das Maçãs, com a minha avó. Foi por isso que também quis relacionar a minha primeira memória com a primeira memória da Vitória, sendo a primeira memória da Vitória a árvore, porque a árvore, para mim, no livro, tem a conotação da raiz, e o mar tem a conotação da nova terra, do novo lugar. O ritual não funcionou porque as mulheres não quiseram que funcionasse. A avó de Vitória deu as voltas à mulemba, mas na realidade não se permitiu o esquecimento porque deixava uma filha para trás, deixava algo que poderia ser uma raiz. 

Isto também aconteceu na minha família, no sentido em que a memória de Angola foi uma construção. Eu cresci com uma Angola imaginada. Portanto, houve toda uma construção duma vivência, duma realidade que vivi como se usasse uma roupa em segunda mão ou em terceira: não eram minhas roupas mas tornaram-se minhas, tendo eu própria criado imagens, vivências… O problema da memória é que ela pode ser também uma fronteira para a nossa evolução e felicidade. A vivência da minha família era quase a de terem sido expulsos do paraíso. Portanto, guardaram apenas as boas memórias e remeteram para o esquecimento (ou não verbalizavam, pelo menos à minha frente) aquilo que teria sido menos positivo. Acabei por descobrir muitas más memórias, que só mais tarde me foram reveladas pela minha avó, por exemplo. 

Por falar em memória, havíamos sugerido que a Yara trouxesse objetos que, para si, carregam alguma memória de Angola. Vemos que a Yara trouxe alguns. 

Sim. Há um envelope, que é da minha família da Gamba, do Bié, porque a minha família é do Bié. Eu nasci no Huambo, porque a minha família, em 1975, já teve que fugir do Bié. É uma prova, por assim dizer. Fernando Garcia é o meu avô, com quem eu cresci aqui em Portugal, e o José Garcia era o meu bisavô. 

E este é o meu livro da primeira classe. A minha avó era professora primária e, na altura, devido ao contexto de guerra, não havia manuais escolares, então era a minha mãe quem ajudava a fazer parte dos livros, desenhando-os, colocando as frases e, numa certa altura, eu apropriei-me deste livro. 

Trouxe também esta gramática. Já na fase adulta, decidi aprender umbundu e ainda tive algumas aulas. Não sei falar, confesso com grande pena minha, mas tenho uma gramática de umbundu. A gramática, na verdade, é da minha tia, mas eu apropriei-me dela para estudar e tenho feito alguns trabalhos visuais com o umbundu.

O seu romance traz um poema falado/cantado que, além de dar título ao livro, convoca uma oralidade moderna de Angola, apresentando a oralidade africana. Como surgiu esse poema?

Fui eu que escrevi o poema. E descobriu quem é “a dama que bate bué”?

Sim, é Luanda…

Sim, é Luanda… as pessoas às vezes leem e não percebem e por isso é que eu perguntei. 

Pensei que se tratava de um poema de uma pessoa real, um rapper que a Yara conheceu em Luanda…

Não… Eu é que escrevi como se fosse, porque a personagem que o diz é um poeta de rua. Mas acho que é bastante importante, a oralidade, porque ela explica exatamente como as memórias são preservadas. Se não fosse através da oralidade, eu não saberia a minha história. Depois há os guardiões da memória, que na minha vida é a minha avó… 

A oralidade sempre foi bastante importante para a preservação da memória. São exemplos disso as conversas que fui tendo com ela, por meio das quais fui descobrindo a minha história e recolhendo informação também para a elaboração do meu livro. Por isso, há que também saber preservar exatamente a palavra falada. 

Em Essa dama bate bué!, Luanda acaba por ser descrita como uma cidade que testemunha a guerra, mas também como uma cidade que é preconceituosa e classista. E se, na capital, a protagonista não constrói nenhuma conexão com as origens, é no Huambo que Vitória tece laços emocionais com as próprias raízes, nomeadamente através das histórias que escuta de Mamã Ju. Foi consciente a criação de um certo contraste entre essas duas cidades, entre duas Angolas, uma mais assustadora e a outra mais emocional? 

Quando eu tirei o meu primeiro BI em Angola, ainda existia a classificação da raça, se seria negra, se seria branca, se seria mestiça… Não nos podemos esquecer da herança colonial. Foi exatamente o colonialismo que criou essa divisão, essa hierarquia de tonalidades que acabei por retratar em Luanda, em 2005. Até em termos de linguagem, por exemplo, surge a palavra mulato, que tem uma conotação negativa, como é óbvio, mas isso foi intencional, porque era assim que o estado português hierarquizava a população local. E quem eram os privilegiados no tempo colonial? Eram os portugueses, eram os brancos. Quem eram os segundos privilegiados nessa hierarquia? Eram os birraciais, não é?! Quem eram os menos privilegiados, sobretudo se não fossem assimilados? Seriam os negros, os da terra, por assim dizer. 

Muito do que está retratado no livro, sobre Luanda, foi por mim vivido. Eu também, como Vitória, tive exatamente a mesma sensação de choque, de estar numa cidade em que a guerra tinha acabado, mas não tinha acabado; sensação de que, portanto, a guerra continuava, uma guerra não de armas, mas uma guerra que continuava a ser bastante espiritual, emocional. Foi uma fase em que eu sentia que só conseguia absorver, nem sequer diluir ou traduzir aquilo que estava a absorver, porque era tudo muito intenso. 

E, como Vitória, eu também fui ao Huambo, fui visitar a minha cidade, e encontrei também uma outra realidade, encontrei verde, encontrei raiz, encontrei calmaria também, tempo para pensar, para sentir, porque estava longe do frenesim de Luanda. Mas estas duas realidades existem e é importante também frisar que Angola não é Luanda: Luanda faz parte de Angola, é a capital, é a cidade de Angola, mas, em termos de geografia do país, é mínima.

A Yara mencionou, no início da nossa conversa, que tem um nome africano. A seu ver, qual é a importância dos nomes para a construção identitária de um indivíduo que está em trânsito entre nações?

No livro, a Mamã Ju diz a Vitória: “A origem da tua história começa no teu nome”. Wayula é o nome tradicional dela, e que ela desconhecia. Eis o que eu fiz no livro, sobretudo quando Vitória descobre qual é o seu nome: toda a narrativa passa a ser relatada, deixando de ser narrada na primeira pessoa, e isto também tem a ver com uma transição do Eu. Portanto, não é que ela deixe de ser Vitória, mas passa a ser algo mais; é quando ela, na realidade, se encontra. Eu também descobri que o meu nome tradicional é Navitangue, em que “vita” quer dizer “guerra”. Mas o meu avô não quis que eu fosse registada com o nome tradicional. Os meus pais eram muito novos. Portanto, quando nasci trouxe alguns problemas sociais e tradicionais à própria família. E foi só neste percurso de procura da memória que entendi e aceitei parte dessa minha história. 

As personagens de seu romance parecem ter uma necessidade de perdão ou de expiação. Para a Yara, em que ponto estão as pessoas relativamente a esse perdão? 

É interessante, porque, como é óbvio, a Guerra Civil dividiu o povo. Houve conhecidos que assassinaram conhecidos. Há ali muita mágoa, muita revolta e seria necessário, na minha opinião, fazer um luto, um komba nacional ao invés de pôr os problemas debaixo do tapete. É claro que temos que seguir em frente, mas existe uma necessidade de perdoar, de abraçar, de unir, de construir uma identidade nacional dentro de uma multiculturalidade que existe. É preciso aceitar o conflito. É algo de que não se gosta de falar, mas depois as emoções acabam por vir ao de cima, e são exatamente estes problemas não resolvidos que continuam a existir nos militares, nas famílias, no cidadão comum que passou pela morte, que viu alguém morrer. Acho que é um trabalho que tem que ser feito a todos os níveis, a nível individual, mesmo por quem não viveu mas tem a lembrança (por exemplo, pessoas como eu), e a nível coletivo, enquanto país e nação. 

E quero falar de uma outra coisa importante: o colonialismo foi um ato atroz, desumano, violento. Mas o processo de descolonização também e não se fala muitas vezes deste processo de descolonização para quem ficou. Ganhou-se a liberdade, ganhou-se uma nação, mas é como se existisse um abandono. Há um trauma, portanto, há todo um contexto pós-traumático que não foi resolvido. 

Essa dama bate bué! conta basicamente a história de três mulheres: Vitória, Rosa e Mamã Ju. Por outro lado, essa relação que a Vitória tem com uma mulher em Portugal é um elemento que aparece de forma bastante natural. Houve uma preocupação de género específica?

Não gosto de dizer que é um livro feminino ou que é um livro de mulheres, porque nós não colocamos esta questão quando falamos de livros que só têm personagens masculinas, mas é um livro em que dei destaque a personagens femininas. Penso que surgiu de forma natural, por um lado; por outro lado, eu tinha recentemente lido um livro da Margarida Paredes, Combater duas vezes. Gostei bastante do que descobri na leitura e, de certa forma, quis também ficcionar histórias de mulheres e exatamente o contributo da mulher angolana na construção da paz em Angola. Achei importante focar a narrativa a partir da perspetiva feminina. E resolvi colocar essa cena em que Vitória se relaciona emocional e sexualmente com outra mulher porque, na altura, e também resultado do Código Penal Português, que nunca tinha sido alterado em Angola, as relações entre pessoas do mesmo sexo eram criminalizadas. E eu também acho que a sexualidade tem que ser normalizada, assim como a cor dos olhos. Daí eu ter situado exatamente esta cena emocional de forma natural; não tentei fazer disto uma bandeira de identificação de género ou identificação sexual, mas exatamente normalizar, porque é uma característica de qualquer ser humano. 

Tive uma formação religiosa que, na minha opinião, foi bastante castradora. No livro, de certa forma, nós temos as Lilith’s: a revolta ou a libertação da mulher do patriarcado, que é representado, neste caso, pelo avô de Vitória. Mas também fiz esta tentativa de revolta e de projeção das mulheres da família em Vitória. Por isso criei, na obra, alguns símbolos que retratam muito do que é a condição feminina, da condição da mulher no mundo atual, no mundo africano também e até europeu: a imposição do casamento, a imposição da obediência ao homem, que vem muito da religião católica, e isto está relacionado, por um lado, com a negação da mulher e, por outro lado, com a sua contribuição tanto num contexto extremo de guerra como no contexto social em geral. 

Esta entrevista é a quinta de uma série de entrevistas com escritores/as que transitam entre Angola e Portugal. Pertencendo a diferentes gerações, tornam-se testemunhas das relações culturais e políticas entre estes países, e da herança do colonialismo que os une e os separa. A série faz parte do projeto “Identidades Nacionais em Diálogo: Construções de Identidades Políticas e Literárias em Portugal, Angola e Moçambique (1961-presente)”, coordenado por Doris Wieser, financiado pela FCT e sediado no Centro de Literatura Portuguesa, Faculdade de Letras, Universidade de Coimbra.


7 de dezembro de 2020, por Doris Wieser I Transcrição e edição de vídeo: Paulo Geovane e Silva.

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