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Contadores da sua própria história

Consumimos histórias sobre África no tempo antigo e o velho Portugal: branco. Os negros com quem nos cruzamos todos os dias ainda não chegaram à ficção portuguesa. Fomos conhecer dois actores portugueses nascidos em Angola que querem contar histórias do novo Portugal

 

“Griot”: contadores de histórias, seguidores das tradições orais africanas. Vem do francês “guiriot”, por sua vez, proveniente provavelmente do português: “criado”.

Zia Soares, foto de Joana FreitasZia Soares, foto de Joana FreitasZia Soares quis ser actriz aos 16 anos. Chegou a pensar ir para Londres, onde vivem os quatro irmãos, uma cidade de sonho para fazer teatro, mas acabou por não deixar Lisboa, para onde veio em 1975 com dois anos de idade.

O pai é timorense e participou na revolta de 1959 contra o regime português. Foi apanhado e levado para outro continente: África. Ficou preso no Bié, no sul de Angola, e quando o libertaram, começou a trabalhar numa fazenda de um português. Por essa fazenda, passava todos os dias a mãe de Zia. Em 75, pouco antes da independência de Angola, voavam com a família para Lisboa, onde iam parar, para seguir para Timor. Foram adiando a viagem. A estadia temporária em Lisboa foi se prolongando. Até que tinha passado uma vida, os filhos eram adultos, tinham netos. Os pais de Zia ainda vivem em Portugal e nunca voltaram a Angola. Zia também não.

Zia acabou por nunca se juntar aos irmãos em Londres, porque conheceu o seu companheiro. Talvez pudessem ter ido juntos para Londres porque, por coincidência, também ele tem todos os irmãos em Londres. Mas entretanto tiveram filhos, primeiro o Rodrigo, agora com 10 anos, depois Marta, que hoje tem cinco.

A sua história não é tão dramática, o enredo não tem lutas contra a independência nem prisões nem fazendas africanas, mas estão juntos há 14 anos. O companheiro de Zia é meio português, meio moçambicano, e tinha um avô indiano. Os seus filhos são portugueses, angolanos, timorenses, moçambicanos e ainda um bocadinho indianos.

Em Lisboa, Zia encontrou o seu teatro. Começou por fazer escola com Os Sátiros e mais tarde foi uma das fundadoras do Teatro Praga. Nunca parou para pensar que ser negra era uma condicionante para a sua carreira de actriz. Não ficou à espera que a escolhessem em castings, onde não iria corresponder à aparência física mais pretendida. Juntou-se à Associação Griot, fundada por Daniel Martinho, Miguel Sermão e Ângelo Torres, actores e contadores de histórias africanos há muitos anos a trabalhar em Portugal. A Griot está aberta a qualquer actor ou encenador ou artista, mas pretende incentivar os africanos ou afro-descendentes a criarem o seu próprio espaço, a contarem as suas histórias, histórias que também são nossas mas que nem sempre são contadas.

No supermercado, cruzamo-nos com famílias negras. Nos supermercados das telenovelas, não. Na vida real, temos amigos afro-descendentes ou mestiços descendentes de várias nacionalidades, que estudam e trabalham em diversas profissões. Na ficção, os afro-descendentes, os “imigrantes” – mesmo que estejam em Portugal há décadas – estão sempre em perigo de vida, a deles ou dos outros, e só têm uma profissão: bandido. Em Portugal, os afro-descendentes casam-se, têm filhos, divorciam-se, perdem os pais, apaixonam-se de novo, são traídos, têm maus patrões, têm bons patrões, cometem erros diáriamente, e de vez em quando, como todos nós, vivem pequenos milagres. Nos estúdios e até nos palcos portugueses, os protagonistas dos grandes e pequenos dramas da vida são todos brancos. Na televisão ainda gostamos de ver o velho Portugal, onde as pessoas têm empregadas que vestem uniforme, tímidas e modestas mulheres do povo, e brancas.

“Em Portugal, as actrizes negras ainda nem sequer conseguiram os papéis de criadas, que é o caso do Brasil”, diz Zia. Ela não diz isto com nenhuma amargura, mas como um problema que é preciso falar e resolver, andar para a frente.

 “Quando comecei a trabalhar como actriz não me apercebi logo disso. Em toda a minha vida nunca tive a noção de que a minha cor me pudesse condicionar. De vez em quando, acordava e pensava, isto ou aquilo talvez tenha acontecido por causa da minha cor. Mas eu não acordo de manhã a pensar que tenho esta cor, nem a pensar que outros são brancos. Quando comecei a fazer teatro, estava completamente apaixonada. Mais tarde, quando comecei a fazer castings percebi que a cor podia condicionar eu ser escolhida, sobretudo em televisão. Mas o teatro vence barreiras. O que o público vê é a personagem. Já fiz de francesa e de cigana. Só uma vez fiz papel de mulher negra. Foi estranho. Pediram-me que fizesse um sotaque africano.”

Zia está sentada num café nas Docas. É de manhã cedo e não está niunguém. O céu acabou de abrir-se depois da chuva mostrando o rio em toda a sua glória. Zia raramente vem às Docas, mas ficava a caminho entre o Cacém onde acaba de deixar a filha na escola e a ponte, que vai apanhar para ir para uma reunião no Barreiro, onde está a ajudar a organizar uma exposição de homenagem ao pintor moçambicano, recentemente falecido, Malangatana.

Zia faz produção para a associação e também encenou a primeira peça do Teatro Griot, O Corcunda e a Cigana, que esteve em cena no Chapitô em Janeiro e Fevereiro. A próxima peça da Griot será um texto do escritor angolano Ondjaki.

 

“Criado”: empregado doméstico; servo. “Servo” (Dicionário de 1913): Aquelle que não exerce direitos; Aquelle que não dipõem da sua pessoa e bens; que não é livre; que é escravo.

Carlota Bernardo estava a ver um jogo de futebol internacional quando entrou em trabalho de parto. Um dos jogadores chamava-se Giovanni, ela achou bonito, e foi o nome que deu ao filho. Giovanni Lourenço viveu os dois primeiros anos na Maianga, bairro fino de Luanda, e depois passou o resto da infância no Bairro do Fim do Mundo, no Estoril, onde gente fina tinha medo de entrar. Foi uma infância boa. Com liberdade para brincar, num bairro onde toda a gente se conhecia, e numa casa cheia de crianças. Carlota criou os sete filhos e seis sobrinhos. Giovanni era o “cassulo”, o filho mais novo, o mais protegido pela mãe, e uma espécie de mascote para os irmãos mais velhos. Para se impôr numa família tão grande era preciso ser um verdadeiro performer.

Giovanni decorava tudo o que ouvia na televisão. Cantou até à exaustão “ó rama, ó que linda rama…”, por causa de um anúncio ao azeite gallo. Em criança, às escondidas da mãe, chegou a pedir dinheiro pelo bairro até reunir 200 escudos para ir com a irmã ao circo.

Não ia ao teatro, e quando brincava com os irmãos e primos às profissões que seriam quando fossem grandes, não lhe ocorria brincar de actor. Os irmãos têm empregos: um é motorista, outro trabalha no McDonalds, outra é empregada doméstica. O cassulo persegue um sonho. Às vezes quando está sem trabalho – não há muito trabalho para actores, e para um actor afro-descendente ainda menos – desanima. A mãe, com quem vive ainda, em São Domingos de Rana, diz-lhe que não desista. Manda-o levantar-se, apanhar o comboio para Lisboa, ir conhecer pessoas, bater às portas.

Esmeralda, personagem de 'O Corcunda e a Cigana' Esmeralda, personagem de ‘O Corcunda e a Cigana’ Depois de um curso profissional de treatro, Giovanni fez várias peças de teatro infantil e um espectáculo musical no São Luiz. Depois em 2008 foi escolhido, como muitos outros actores negros, para participarem na adaptação para televisão do romance bestseller de Miguel Sousa Tavares, Equador, uma história sobre a escravatura nas roças de café de S. Tomé e Príncipe, filmado no Brasil. Depois de Equador, não vieram mais trabalhos de televisão. Não há assim tantas produções em que entrem escravos ou bandidos, e tirando uma ou outra aparição numa novela, ainda não voltou a trabalhar em televisão.

Juntar-se à Associação Griot é uma maneira de não estar sentado no sofá à espera, a dizer que os actores negros, coitadinhos, são descriminados. “Houve um tempo em que estava de pé atrás, que achava que qualquer coisa que acontecia era porque era racismo, mas depois há um percurso que cada um faz de tentar não pensar tanto nisso.”

Giovanni é uma daquelas pessoas que se transforma em palco. Fora do palco tem um ar de rapaz perdido. Atrapalha-se a falar. Mas há momentos em que parece que saltou para o palco: “Gostava de ficar em Lisboa. Quero crescer nesta Associação. Se cresci aqui porque é que não posso criar projectos meus em Portugal? Isso é uma maneira de fazer parte do país.”

Giovanni é um griot. Gosta de “griotizar”, que é o que o grupo chama às sessões de poesia. Recitam Fernando Pessoa, mas também dizem poetas africanos, por exemplo, José Craveirinha, poeta moçambicano que escreveu ao seu pai português, “Ao meu belo pai, ex-imigrante”: E nestes versos te escrevo, meu Pai / por enquanto escondidos teus póstumos projectos/ mais belos no silêncio e mais fortes na espera / porque nascem e renascem no meu não cicatrizado / ronga-ibérico mas afro-puro coração.” 

 

Um “griot” ama a palavra. Um “griot” recita versos que não escreveu, acreditando neles. Um “griot” é uma espécie de matrioska: conta histórias que contam outras histórias que contam outras histórias. Um “griot” não esquece de onde veio.

Giovanni conheceu o pai em 2008 quando regressou a Angola. Já não se lembrava dele. Não foi o momento que tinha esperado, não sentiu que era um ponto de viragem. Era um senhor angolano, conversaram, desconhecidos contando as suas vidas pela primeira vez, quando cada um deveria ter sido um contador da história do outro.
Angola também não foi a terra prometida. Passou um mês em repartições públicas, a dar “gasosa” a funcionários, a tentar encontrar amigos de amigos ou primos de primos de fulano ou cicrano ligado ao MPLA. Tudo para conseguir o passaporte.

Não se imagina a viver em Luanda, mas gostava de regressar para fazer alguns trabalhos. Fez recentemente em Lisboa um episódio piloto de uma série para ser vendida à televisão angolana. A série chama-se O  Bar do Ti Chico, e ele tem um papel relevante, de ajudante do Ti Chico. Em Angola, talvez seja um actor branco a ter dificuldade em arranjar um papel de protagonista.

Zia também gostava de ir a  Angola. Quanto mais o tempo passa, mais vai alimentando o sonho. Mas sabe que quando for, não encontrará apenas o magnífico pôr do sol africano. Tem  outros amigos angolanos-portugueses que ao voltarem, no dia seguinte queriam apanhar o avião de regresso.

Não sabe o que é ser actriz num país onde a sua cor de pele seja a maioria. Mas sabe que não precisa de ir a lado nenhum para fazer as personagens que quiser e que pode conquistar o público em qualquer lugar. Nas peças infantis, quando entra em palco a fazer menina, a audiência espera a menina loira de todas as histórias. No final, as meninas querem ser como ela e os meninos apaixonam-se por Zia.

Giovanni anda a ler “Sábado à noite, Domingo de manhã”, de Allan Sillitoe, um escritor britânico, herói da classe trabalhadora inglesa, numa edição amarelada, sem data. Sillitoe morreu há um ano, e pouco antes, escreveu num prefácio à obra da mulher, a poeta judia americana, Ruth Fainlight, que “um poeta, ainda que esteja em território familiar, sofre exílio da vida.” O mesmo se poderia dizer do actor: sofre exílio de si próprio, e pode ser qualquer um de nós.  

 

Publicado no caderno P2, jornal Público, 19 Maio 2011

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