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Entrevista a Virgílio Varela. Afinal, o que nos faz sentir realmente vivos?

Virgílio Varela nasceu em Lisboa. É pai de três crianças e filho de pais cabo-verdianos. Fez um mestrado em Educação no King’s College University of London com uma tese sobre Estratégias de Aprendizagem. É consultor e facilitador internacional, tendo vasta experiência de trabalho em diversas metodologias de capacitação de grupos e organizações. São exemplo metodologias como o Dragon Dreaming, Work That Reconnects, Jogo Oásis-Instituto Elos, Asset Based Community Development, Open Space Technology e Design Thinking.

Nos últimos 25 anos tem desenvolvido a sua experiência no desenho de projectos para comunidades, e organizações como a Comissão Europeia, as Nações Unidas, e a UNESCO, em países como Portugal, Brasil, Alemanha, Espanha, Reino Unido, Polónia, Latvia, Cabo Verde e Moçambique. É palestrante, compositor e criador de programas de transformação como Storytelling Regenerativo, Programa Atlantis (co-autoria), Grow Impact Together, Jogo Oásis Moçambique. Atualmente é o CEO da Humanfleet, organização que atua na área do empreendedorismo social, inovação e inteligência coletiva ao serviço da transformação humana e regeneração do planeta.

A 21 de fevereiro entrevistámos Virgílio Varela a propósito da palestra apresentada na Culturgest no passado dia 23 de fevereiro. Durante a conversa diversos temas foram levantados: a importância da cooperação entre pessoas e comunidades, o trauma humano da desconexão com a natureza, a sabedoria da inteligência coletiva e o significado daquilo que nos faz sentir profundamente vivos e humanos.

“De empoderar para co-erguer”[1], é um artigo de sua autoria sobre a importância da cooperação e interajuda, fazendo uso da essência de pessoas e lugares. Pode explicar mais sobre isto?

A inspiração desse artigo veio de um trabalho que fiz recentemente em Moçambique e também de um padrão que tenho notado nos vários projetos que vou realizando pelo mundo. Esse padrão confere duas visões do mundo, uma que mostra que quem vai fazer esse trabalho leva conhecimento, leva a ciência e vai “despejar” esse mesmo conhecimento e ciência num povo ou comunidade, que “vai ajudar”. A meu ver esta visão do mundo não é sustentável. É a mesma que sofre da visão de um mundo patriarcal, em que uns sabem e outros não, uns têm e outros não versus a possibilidade de nos diluirmos no mistério daquilo que está à nossa frente, que implica reconhecer que em qualquer situação que nos é apresentada, nós precisamos de resignificar a nossa visão do mundo e entender como é o padrão e o ritmo do lugar para onde vamos. Entender igualmente quais as potências e a essência desse lugar e ver o que podemos oferecer sabendo da pré-existência de tudo isso. Será que o que vou oferecer é só o aproximar esses elementos que não estão em comunicação? É um pouco de estrutura para que as coisas funcionem? Será que é uma valorização e apreciação de uma sabedoria que já lá está? Sabedoria essa que já é antiga e que as novas gerações poderão já ter-se esquecido? São estas as perguntas que eu me faço quando penso na ideia de co-erguer. É quase como um ato de lembrar que a essência e o potencial já estão presentes e que, às vezes, pela influência tão forte do Ocidente no mundo, as pessoas apequenam-se perante isso. Acho que a função deve ser contrária. Cada local, cada população tem as soluções para si mesmo e não precisa necessariamente de ir em busca de soluções que funcionam no Ocidente e de adaptá-las.

Há uma história muito interessante sobre um grupo de holandeses que quis criar um sistema para ajudar uma comunidade. Eles observaram a vila e viram que as mulheres caminhavam muitos quilómetros para irem buscar água. Pensaram que tinham a solução e decidiram criar um sistema de canalização que ligaria o poço ao qual as pessoas iam buscar água, até um poço mais próximo da vila. Após investimento compraram todos os equipamentos necessários e montaram tudo. Depois, foram-se embora. Regressaram à região passado um ano para perceber como é que as coisas teriam evoluído. Notaram que as pessoas colocavam lixo dento do poço e continuaram a fazer as suas caminhadas. Os holandeses perguntaram o porquê disto às mulheres. Elas explicaram-lhes que aquelas caminhadas eram os momentos de interação, eram os momentos de relação, eram os momentos de partilha sobre o que funciona ou não funciona na comunidade e que se isto lhes fosse tirado, os habitantes daquela comunidade não teriam como retomar. Isto mostra o quanto as soluções do Ocidente vêm com um viés daquilo que funciona no Oriente. Para reconhecer aquilo que funciona naquele lugar, eu teria de perceber qual era o significado daquelas caminhadas e pensar juntamente com as pessoas da comunidade numa solução, ao invés de apenas pensar numa solução para as pessoas.

O seu interesse sobre projetos comunitários, como aquele que desenvolveu em 2021 em Moçambique, remontam a tempos da sua infância? Estará esse interesse relacionado com o facto de ter nascido em Lisboa e ser filho de pais cabo-verdianos? Esta pertença a duas comunidades influenciou o seu interesse em ajudar e cooperar com outras comunidades?

Esta pergunta tem várias respostas…

A primeira é que me sinto em profunda dívida para com as pessoas que passaram pela minha vida e pela minha infância. Todas elas me ensinaram alguma coisa. Essas pessoas não são só os meus familiares, mas são pessoas das comunidades pelas quais passei.

Vou dar um exemplo, havia um senhor numa das comunidades onde eu vivi que ia trabalhar para uma fábrica de livros, aos quais ele tinha acesso, e como era esse senhor a construir os livros, ele podia levá-los para casa. Porém, a maior parte dos jovens daquela comunidade não estavam muito interessados em ler e as coleções de livros ficavam todas iguais e sem interesse numa estante. Ele sabia que eu tinha interesse e que gostava de ler, então entregou-me toda uma coleção de livros de uma vez; eu estou em dívida para com estes momentos e ações, porque foram os mesmos que me educaram.

Havia também quem me contasse histórias sobre a vida em Cabo-Verde, ou na Guiné… Eu passei por comunidades de angolanos, de guineenses, de santomenses, de ciganos… Tinha uma mistura tão grande e havia tanto por onde “beber”, que isso se tornou e fez parte do meu conhecimento, fez parte da minha educação. Ao ser educado dessa forma, comecei a sentir uma sensação de maior responsabilidade de dar de volta, então eu era muitas vezes chamado para dar explicações ou para escrever cartas. As pessoas queriam comunicar com os parentes em África, chamavam-me e eu ia. Tudo isto me impedia de estar envolvido em confusões, ou em crimes. Algumas vezes a tarefa parecia chata e considerava que impedia de fazer alguma coisa, mas outras gostava e comecei a ver que tudo isso foi fazendo a minha formação.

Então fui percebendo que, em comunidades em que é difícil chegar ao 8º ou 9º ano, eu comecei a quebrar essas barreiras, levando comigo uma nova possibilidade. Com o tempo, comecei a representar novas possibilidades para outros. Ao ir para turmas em que seria o único negro, ao ir para a universidade e ser o único negro do meu curso, ao ir para a televisão, ao viajar… Todas estas coisas significam que existem outras alternativas. Então, o meu “dar a volta” é quase como algo natural, mas também quase uma obrigação, um trabalho que é cíclico e geracional. Isto não começou e nem vai acabar comigo. Começou muito lá atrás quando alguém fugiu, se libertou e conseguiu ter uma voz capaz de criar uma outra comunidade longe da confusão, longe da opressão. Hoje, eu dou continuidade a isso com um corpo e uma estratégia diferentes.

Alguma vez lhe aconteceu estar a realizar um projeto e aparecer um grupo de crianças bastante eufórico e feliz, agradecendo-lhe por tudo aquilo que tem estado a fazer nas comunidades onde elas residem?

Sim, já aconteceu. Principalmente quando trabalho com sonhos, porque o meu trabalho está ligado à ideia de “como é que a comunidade sonha a sua própria comunidade”. E nesses trabalhos com sonhos, os primeiros a lá chegarem são as crianças. Ao perguntar-lhes a forma como imaginariam a sua comunidade, elas automaticamente têm uma imensidão das ideias da sua imaginação. Falam em parques infantis, em brinquedos e não ficam por aí.

Porém, quando eu vou falar com os adultos, demoram o seu tempo enquanto pensam e dizem sempre que sonhar é algo que já não fazem. A vida fez esquecê-los o que seria sonhar. Tudo isso me fez aprender que o portal de entrada para qualquer comunidade são as crianças. Onde a criança sorri, toda a comunidade fá-lo também. Então, sim. Já me aconteceu virem crianças ao me encontro para me agradecerem. Eu seria quase que como um adulto meio maluco que as compreende, que valida as suas brincadeiras, que põe toda a gente a pintar, que mete os outros adultos a brincar, que coloca toda a comunidade a sonhar. As crianças têm sim essas perceções de agradecimento. A partida é que lhes é difícil de entender. Quando eu tenho de me ir embora, perguntam-me sempre sobre quando irei lá voltar. No meu trabalho há também a função de deixar uma semente com pessoas que possam dar continuidade, sejam elas crianças ou adultos. Se em último caso, aquela interação for a única que eu tenha com essas crianças, espero que elas nunca se esqueçam da energia que elas e a própria comunidade têm para sonhar.

Essa ideia de fazer uso do que a natureza nos pode fornecer sem se ter de elaborar muitas soluções e também do contacto com o meio que nos envolve… Considera isso algo que nos torna humanos? Como relaciona a biologia e o contacto da natureza com aquilo que nos torna realmente humanos?

Acho muito interessante poder falar sobre isto, porque nem sempre tenho essa oportunidade em Portugal. A humanidade como um todo sofre de um profundo trauma de desconexão com a natureza e esse trauma só está a ser consciente agora. Desde há muito tempo, desde o início da agricultura que começou essa desconexão com a natureza, que é quase como se exigíssemos que essa mesma natureza produzisse ao ritmo que nós achamos que ela deva produzir e não ao ritmo em que ela naturalmente foi criando. Ela tem milhares de milhões de anos de experiência e nós, humanos, com a nossa curta existência estamos a exigir determinadas coisas sem devidamente entender como é que a natureza funciona. Enquanto humanidade ainda estamos na nossa “entrada na adolescência” face à natureza. Quando entramos na adolescência, nós não sabemos bem como é que a vida funciona, cometemos muitos erros, achamos que sabemos e que temos razão. Tudo isto está a acontecer na nossa fase face à natureza. O ser humano não é maturo o suficiente. Entender o papel da natureza é essencialmente para entender que nós, humanos, somos também parte de um longo processo, em que a natureza não está fora, não é um “outro” que esteja separado de nós. Nós como humanos estamos dependentes e interdependentes dela. Quando digo isto, parece óbvio. De que forma podemos sentir estas palavras? Seria cogitarmos a possibilidade de todas as árvores do mundo decidirem entrar em greve hoje, agora, neste preciso momento e vermos o que acontece ao ser humano. É necessário sermos dramáticos o suficiente para percebemos que não estamos no centro. Essa visão antropocêntrica do mundo é a maior ilusão que o ser humano alguma vez cogitou. O humano não está no centro e às vezes é necessário um desastre natural para nos relembrar disso mesmo. Às vezes são necessários fogos, inundações para nos lembrarmos que afinal não temos controle algum sobre a natureza. Nós ainda não sabemos como é que as coisas funcionam.

Thomas Berry[2] dizia algo muito interessante: “O mundo natural é a comunidade mais larga à qual pertencemos e estar alienado desta comunidade é destruir tudo o que nos faz humanos. Destruir esta comunidade é diminuir a nossa própria existência.” Isto é importante ser dito várias vezes. Não é o folclore de ir à natureza ou ao parque que vai ser a solução. É necessário entendermos o quão importante tudo isso é para a nossa própria continuidade como seres humanos e principalmente entender que estamos a atingir o pico dessa mesma destruição. Quando eu falo na “sociedade que sustenta a vida”, refiro-me à responsabilização que é necessária ser tida hoje para satisfazer as necessidades desta geração sem colocar em risco as necessidades das gerações futuras. É importante entendermos os limites e a capacidade da renovação da terra. Isto é a sociedade que sustenta a vida, pois há entendimento de que não é preciso haver uma atitude de ganância e de consumo desenfreado. Isto de não pensar nas gerações que hão-de vir, por não ser a nossa, é a atitude que existe hoje em dia. Atitude de tirar máximo proveito, de consumir tudo, de ficar muito rico e ignorar o que vai acontecer para à semana, no futuro, porque posso não estar cá. Essa atitude de existência de um patriarcado, de sociedades consumistas que apenas se preocupam com o que podem ter e construir no aqui e agora, vangloriando-se é preocupante. Assim, estamos a criar sociedades cada vez mais desiguais e egoístas. Estamos a tirar terras aos indígenas, aos quilombos… Estamos a tirar energia ao Amazonas… Estamos a tirar tudo à natureza para consumirmos e descartarmos em cinco minutos. Como humanidade e sociedade, precisamos questionar a forma como nos chegam as coisas às quais temos acesso. Como é que nos chega o óleo de palma, as frutas exóticas? O que é que custou para isto chegar à minha mesa? Quem é que perdeu a vida pelo meio? Que comunidades é foram desfeitas?

Esta mesma ideia de sociedade que sustenta a vida tem um termo em inglês, “accountability”, que quer dizer exatamente isso. Devemos preservar a natureza hoje para que as gerações que estão para vir tenham um planeta sustentável onde viver. Aqueles que estão no poder tendencialmente são pessoas com mais idade e nem sempre pensam nisso…

Acho que nós estamos a viver um período entre histórias. Estamos a viver uma transição grande e existe uma crença de que a tecnologia nos há de salvar e que qualquer problema é resolvido com ela. Seja ela a internet, o metaverso, o que for… nós achamos sempre que a inteligência artificial é a nossa solução. As soluções são muito mais simples e passam mais por “limpar” a nossa visão do mundo, do que necessariamente criar novas coisas, novas tecnologias.

Sobre isso há um exemplo muito interessante. Num país em que houve um imenso derrame de crude, resolveu-se contratar especialistas para resolver aquele desastre e eles disseram que para fazer a tal limpeza seriam precisos 2 mil milhões de dólares. Essa empresa pagou e os especialistas conseguiram limpar 18% do derrame de crude. Houve um senhor, um cabeleireiro que estava a ver toda esta cena a acontecer e reparou nas lontras, que são bastante peludas, a absorver todo o crude nos seus pelos. Então o cabeleireiro pensou se seria possível usar cabelo humano e ter o mesmo efeito. Ele testou e viu que o cabelo humano também poderia absorver o crude. Então foi feito um cálculo e o cabeleireiro percebeu que seriam necessários 300 mil quilos de cabelo humano para fazer a limpeza daquela quantidade de crude e garantiu que o conseguiria fazer. A solução foi simples e não era necessário ser paga toda aquela quantia de dinheiro para resolver a questão do derrame.

Nós estamos perante diversas situações assim, cujas soluções não passam pela criação de mais tecnologias, mas sim do uso da nossa humanidade. Soluções simples que não têm de vir de pessoas com doutoramentos, mas de pessoas que querem que o mundo seja um lugar melhor e por isso, cogitam ideias simples que resolvem problemas. Eu acho que este período entre histórias é um período em que nós, por vezes, damos saltos quânticos. É o período em que é preciso despir para vestir. Deixar ir aquilo que já não serve para reaprender a absorver aquilo que é um mundo novo. É estar simultaneamente em contacto com a morte e o nascimento. E esse é um privilégio dos tempos de agora. Será que vamos teimar em usar as soluções do passado, as formas patriarcais do passado, ou será que vamos cogitar na possibilidade de imaginarmos um mundo novo e notarmos aquilo que está a emergir?

Por isso é que na conferência vou falar sobre a ideia da crise da imaginação. A aceitação de que as coisas são assim e pronto. A ideia de que não há outra alternativa. Quando nós aceitamos isso, aceitamos aquilo que nos é colocado à frente. Consumir mais… sermos feios porque não consumimos determinado produto… e esse mesmo produto reforça essa ideia de sermos feios, porque não o adquirimos… E nós entramos nesta guerra cíclica interminável por não estarmos a imaginar que outra alternativa é que pode ser aqui apresentada. E por isso é que eu falo de sonho. Não o sonho que a criança tem, mas aquele que dá significado à vida humana, porque tudo o que nos foi apresentado foi sonhado em algum momento por alguém. Seja a cadeira com quatro pés, que quando alguém a sonhou, houve quem protestasse e não visse lógica na ideia. Quantas e quantas pessoas foram perseguidas por terem ideias que não eram socialmente aceites?

Não é preciso recuarmos muito para nos lembrarmos da caça às bruxas, de mulheres que estavam em profundo contacto com a natureza que e descobriram remédios, descobriram ciência, mas por causa da lógica patriarcal alguém disse que elas seriam bruxas e precisariam ser perseguidas, precisariam ser mortas. E todo esse conhecimento é dizimado em muito pouco tempo. Por isso é que eu acho muito interessante os contos e todo o movimento da Abya Yala[3] porque regasta o poder da mulher, resgata a presença da mulher como sábia.

O que nos faz sentir profundamente vivos? Será o nosso sentido de comunidade e identidade? Será a nossa conceção e contacto com a natureza? Será a nossa capacidade de cooperar com o mundo que nos rodeia e entre as diversas comunidades?

Acho que têm que ir à conferência, que eu não acho que seja uma conferência, mas acima de tudo uma experiência. Sentir-se vivo é a possibilidade de seguir a minha vida e não ter de seguir aquilo que os outros têm para mim. Os meus pais, a minha sociedade, as convenções. E para cada pessoa, sentir-se vivo é uma coisa diferente. Então, não tenho uma fórmula. Sim, fiz a pergunta para nós podermos subjetivamente viver o caminho até à resposta. Tenho uma lista de coisas que me fazem sentir vivo e uma delas tem a ver com ter a liberdade de sentir todas as minhas emoções e não ser impedido de as sentir. Dou um exemplo, se pensarmos na nossa sociedade ou numa sociedade ocidental, as emoções não têm muito espaço. Se eu quiser sentir raiva, alguém me vai dizer para ficar quieto, que esse sentimento não é bom, para me acalmar e não o expressar. Se eu sentir tristeza, as pessoas vão dizer-me para oprimir esse sentimento e assim não entristecer outros em meu redor e que ficar triste é uma perda de tempo. Tristeza é sinal de fraqueza. Mesmo que queira sentir alegria, eu posso ser acusado de ser louco, de ter consumido algo.

Isto demonstra o quanto a sociedade em que vivemos nos convida a ser apáticos. A não sentir. É exatamente por não sentir que nós permitimos atrocidades perto de nós. É por não sentir que passamos por um mendigo na rua e continuamos com o nosso caminho, como se essa pessoa não estivesse ali. É por não sentir que vemos acontecer alguma injustiça e ignoramos por não ser nada connosco. É por não sentir que vemos o nosso planeta ser destruído, mas não ligamos por não se passar no nosso país, mas num outro. Não é aqui, mas ali e por isso, não tem nada que ver comigo. Então, uma sociedade que sustenta a vida e isso de se sentir vivo é a possibilidade de ativar toda as minhas potências, sejam elas todas as minhas emoções, os meus sonhos, a minha imaginação e colocar tudo isto em serviço de algo maior, de modo a trazer saúde para todo um sistema vivo.

Como define a inteligência coletiva? Porque acha que é tão relevante possuir essa componente?

Acho que é muito importante resgatar sabedorias como o “Ubuntu”[4]. Toda a filosofia “Ubuntu” está sediada na ideia de que eu não posso ser humano sozinho. Eu preciso do outro para ser humano, mostrando logo a nossa interdependência não só com a natureza, mas entre humanos também. O que significa que esta ideia criada pela América de que existe o “self made man”, aquele que faz tudo sozinho é um mito. Na verdade, tudo o que fazemos está dependente de alguma outra coisa. Alguém que ficou em casa ou a cuidar de alguém para nós podermos estar onde estamos, alguém que contribuiu para a nossa educação. Tudo está a contribuir.

Quando eu falo em inteligência coletiva, faço simultaneamente um convite à colaboração, à consciência de sabermos que somos finitos e que as nossas ideias têm um viés, uma tendência que nem sempre nos percebemos. É no encontro com o outro que ganho consciência da minha finitude e interdependência. O outro é quem nos ajuda a encontrar um equilíbrio necessário. A inteligência coletiva pode também funcionar ao nível de criar soluções que sejam boas para todos. Quando alguém diz que algo não pode ser feito e que é impossível, um grupo unido focado em encontrar uma solução pode mostrar que afinal é possível. Inteligência colética está na capacidade de reconhecermos que precisamos do outro e que se nos juntarmos conseguimos resolver as nossas questões. Este período de Covid 19 e pandemia foi um exemplo disso mesmo. Vacinas que demoram anos de testes, que juntaram grupos de pessoas em torno da solução do problema que é o Covid19. Isto foi resultado de várias mentes que pensaram, coordenaram e trabalharam em conjunto. Talvez em algum momento tenha havido competição. Que vacina é melhor? Quantas doses tomar? Que país tem acesso primeiro? Mas o ponto é que quando existe um problema maior do que nós, temos de nos unir em torno de uma solução, temos de partilhar conhecimentos, experiências. Não foi tudo perfeito, quando pensamos na forma como se distribuiu as vacinas pelo mundo. Aqui houve uma burrice coletiva. Para um ganhar, temos de ganhar todos.

A inteligência coletiva deveria ser ensinado nas escolas, logo desde a primária?  

É fundamental ensinar-se não só com o mais elementar que são trabalhos de grupo, mas que esta perspetiva, esta visão do mundo seja ensinada para que a criança entenda a força e a importância da coletividade. Há crianças que só percebem isso quando praticam desporto, quando tenta ser egoísta no futebol, por exemplo, e o treinador e toda a equipa ressalta a importância de passar a bola e todos os jogadores terem um papel fundamental para o sucesso de todos. Há outras crianças que demoram mais tempo a entender a importância da coletividade.

Eu acho que existem dois movimentos. O de uma sociedade que ensina o jogo das cadeiras como forma de apenas haver um vencedor e o jogo acaba aí, ou de uma sociedade que ensina que todos podem ganhar e o jogo não tem necessariamente de acabar. Não é preciso tentar vencer o jogo a qualquer custo, empurrando os outros ou arranjando formas de fazer batota. Como é que fazemos o jogo da cadeira em que todos ganham e acima de tudo, se divertem uns com os outros? A diferença de que estou a falar está em se o jogo consiste na ideia do “ganha-perde” ou “ganha-ganha”. “Ganha-perde” é a ideia de que uns têm de ganhar e outros de perder. “Ganha-ganha” é o interesse em que todos ganhem e que o jogo continue. Há vários livros que falam sobre isso. Um bastante interessante, “Finate games[5]”, cuja ideia é a de que o jogo não pare. A minha intenção, e é isso que deve ser ensinado às crianças, não é que eu ganhe, mas que o jogo continue. Acho que poderia muito bem existir uma disciplina nas escolas sobre cooperação e jogos. Eu tenho amigos no Brasil que escreveram um livro muito interessante: “Pedagogia da cooperação[6]”, de Fábio Broto. No livro há a transformação de jogos competitivos em jogos cooperativos. No fundo, só precisamos de mudar as regras do jogo.

Será possível criarmos um dia uma sociedade em que todos possam ganhar e que não haja necessariamente uma hierarquia em que uns ganham e outros consequentemente têm de perder?

Historicamente já tivemos sociedades assim. São várias as sociedades em África e não só que ainda hoje funcionam dessa maneira. Lembro-me de uns colegas no Brasil que partilham comigo uma metodologia que uso há 10 anos intitulada “dragon dreaming[7]”. Um dos ensinamentos dessa metodologia é a de que devemos jogar jogos “ganha-ganha”. Esses meus colegas foram uma comunidade no Amazonas e tinham a intenção de ensinar esta lógica. Os habitantes dessa comunidade no Amazonas ficaram surpresos por saberem que existem pessoas no mundo a jogar “ganha-perde”. Nós não estamos tão avançados como pensamos.

É, portanto, uma questão de subjetividade. Depende sempre da pessoa que perspetiva a sociedade e a comunidade em si. Aquilo que pode ser uma solução para uns, não necessariamente o é para outros…

Sim e às vezes há coisas subtis que nos são apresentadas como sendo algo, que com o tempo vais percebendo a subjetividade por detrás disso. Por exemplo, o mapa mundo, a potência económica que o cria. Quando o mapa mundo é criado pela Europa, ela está no centro. Quando o mapa mundo é criado pela América, ela está no centro. Se formos ver o mapa mundo da China, o mesmo se repete e a China está no centro. Isto é subjetivo. Como é que eu aceito a perspetiva do outro como sendo válida mesmo que seja diferente da minha? Essa subjetividade pode ser usada como argumento para desvalorizar aquilo que o outro traz. Todas as perspetivas podem ser consideradas válidas, porque não existe apenas uma verdade, ou apenas uma maneira de ver perspetivar o mundo.

“Não perguntes o que o mundo precisa. Pergunta-te o que te faz sentir vivo, e vai fazer isso, porque o que o mundo precisa é de pessoas que se sentem vivas”, de Howard Thurman[8]. Aquilo que o faz sentir verdadeiramente vivo é a sua presença em outras comunidades e a sua contribuição e cooperação para com as mesmas?

Sim. Criei uma profissão que estivesse alinhada com o meu propósito. Pensei no que quero fazer no mundo e em como o quero fazer. Esta citação tem uma pequena lacuna que pode ser mal interpretada, que é a parte de sermos egoístas e de só fazermos aquilo que queremos. Há duas partes importantes. Temos de ver aquilo o mundo precisa também e alinharmos isso aquilo que queremos fazer. Se aquilo que o mundo precisa está ligado com aquilo que eu faço, eu sinto-me profundamente vivo. De cada vez que eu ajudo, contribuo com os meus dons, sinto que estou a fazer avançar o meu propósito e sinto-me útil. Isto leva muito ao conceito de Humberto Maturana e Francisco Varela de “autopoiesis[9]”. Nós criamos o conceito do mundo e isso retroalimenta-nos. À medida que vamos criando esse conceito, o mundo responde-nos.

Há aqui também uma dependência e interdependência entre nós e o mundo. Então, sim, aquilo que eu faço está intrinsecamente ligado com aquilo que é o meu papel e o propósito do meu trabalho que, de cada vez que vou alguma comunidade, estou a fazer avançar um pouco dessa minha visão. Não querendo isto dizer que estou certo, mas sim que esta foi a forma que encontrei de agir que pode também representar possibilidades para outras pessoas de criação de novas funções e profissões. Eu diria que daqui a cinco anos certas profissões vão deixar de ser úteis. A tecnologia vai substituí-las e vai ser mais rápida que qualquer humano. Devemos criar uma profissão que nos faça sentir realmente vivos e diria até que a terminologia “trabalho” vai deixar de ser usada. Vai passar a ser aquilo que fazemos para nos sentirmos profundamente vivos.


[1] De empoderar para co-erguer. Há poucos dias atrás falava com um… | by Virgilio Varela | Feb, 2022 | Medium

[2] Thomas Berry – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

[3] Abya Yala (honorato.art)

[4] Ubuntu: a filosofia africana que nutre o conceito de humanidade em sua essência – Por dentro da África (pordentrodaafrica.com)

[5] Carse, J. P. (1986). Finite and infinite games. New York: Free Press.

[6] A Pedagogia da Cooperação – Projeto Cooperação (projetocooperacao.com.br)

[7] Dragon Dreaming International – Everything is a temporary node in a process of flow

[8] Howard Thurman – Wikipedia

[9] Autopoiese – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

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