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Eu mesma – entrevista a Djaimilia Pereira de Almeida

Fotografias de Ana Brígida. 

 

Há muito tempo que não aparecia uma voz jovem tão potente na literatura em língua portuguesa. Muito menos mulher, muito menos negra. Djaimilia Pereira de Almeida, filha de mãe angolana e pai português, cresceu na periferia de Lisboa, doutorou-se em Teoria da Literatura e publica agora o seu primeiro livro.

Esse Cabelo parte de um álbum de família para esta busca de si própria, entre Angola, Portugal e tantas outras paragens de um percurso auto-reflexivo. Djaimilia tem uma voz doce que, apesar de assertiva, vive de questionamento. Temos escritora de fôlego.

 

Qual a sensação de publicar um primeiro livro?

Quando pensei em publicar senti algum receio e nervosismo, mas as minhas ambições eram modestas: costumava pensar que já seria bom se uma única pessoa gostasse do que escrevi. De facto, não idealizei muito a reacção ao livro. Fui ganhando coragem à medida que se foi tornando mais claro o que estava a escrever.

 

Sempre escreveu?

Este livro aparece no decurso de algumas mudanças na minha relação com escrever. Quando entrei para a universidade tinha a ambição de escrever, e escrevia muito. Então, fiquei intimidada com a quantidade de coisas que não conhecia e não tinha lido, e parei de escrever intencionalmente: um jejum que me paralisou e gerou dificuldades de expressão ao longo de vários anos. Era prolixa, emudeci. Nesses anos, apenas escrevi academicamente. Mais tarde, insatisfeita com esse modo de escrever, fui-me desinteressando da universidade. Só depois de ter terminado o doutoramento, em 2012, voltei a tentar escrever de uma maneira mais livre. Foi dificílimo; como se precisasse de me concentrar muito para me deixar levar. E deu-se uma coisa curiosa: muito do que tinha aprendido, e a que não sabia que uso dar, nem que finalidade tinha, começou a emergir e a revelar-se no que comecei a escrever, como se apenas a posteriori eu pudesse ir percebendo o que aprendi, e ao mesmo tempo percepcionar essas lições como surpresas. Este livro representa uma primeira expressão da tentativa de sair desse universo e de tentar escrever para outras pessoas, ainda que constantemente tropece no facto de que sou indiscernível de muitas das pessoas e livros com que me cruzei nesses anos.

 

Até a sua escrita ensaística é criativa e desvia-se da convenção.

Mais por inépcia do que por premeditação. Fui-me de facto desviando de um estilo académico, rico em jargão e regido por critérios argumentativos próprios, mas sobretudo por temperamento e incapacidade. A certa altura, no entanto, essa tornou-se a minha maneira e passei a cultivá-la já que não a conseguia combater.

 

O romance Esse Cabelo mantém marcas do seu percurso teórico, com reflexões de cunho filosófico muito pessoal, embrenhadas na narrativa.

Pois, tornei-me esta pessoa que, por enquanto, escreve desta maneira. Mas tentando apontar para as razões que determinaram que assim fosse, sou forçada a reconhecer que isso é a expressão prática do que dizia há pouco: posso começar de novo, mas não me cabe dizer adeus ao que sou, não está na minha mão. A mão é nossa, mas por isso mesmo não podemos acenar em despedida ao passado de acordo com a nossa vontade.

Na infância, como se projectava no futuro? O que queria ser?

Queria ser estilista: desenhar roupa. A partir da adolescência, queria escrever. Lia muito, sempre os mesmos autores, sobretudo Fernando Pessoa. No liceu fui para ciências, tudo indicava que iria para Biologia ou assim, mas, depois de um momento de ingenuidade e lucidez, fui estudar Literatura Portuguesa.

 

Existe algo que a possa incomodar na exposição deste livro fortemente autobiográfico?

Fui ganhando coragem à medida que fui escrevendo, à medida que fui percebendo o que estava a fazer. E não senti propriamente medo de me expor, até porque me foi parecendo aos poucos que desconhecia a pessoa de que estava a falar, apesar de nos parecermos muito, ou talvez precisamente por essa razão. Como um animal que põe a cabeça fora da toca e espreita o que está lá fora, e vê-se a passar no meio do arvoredo.

 

Escrever sob influência directa de coisas vividas libertou-a?

Há uma justaposição permanente entre a história da Mila e a minha. Isto cria um efeito interessante, até para mim. Faz-me olhar para o que escrevi e pensar: ‘Isto não sou mesmo eu, não me pareço nada com esta pessoa’; ‘quem é que eu julgo que sou para imaginar que a conheço?’

 

Houve ecos de identificação com o seu percurso de vida e procura identitária vindos de outras vivências…

Apesar de o livro ter brotado de uma inquietação minha, fui-me apercebendo de que as minhas inquietações tinham muito pouco de pessoal. O livro nasceu de um complexo de emoções e intuições que nos últimos anos fui reconhecendo noutras pessoas, próximas e afastadas, desconhecidas ou não, com uma história semelhante ou diferente da minha.

A questão da identidade

Que Lisboa era essa para quem vinha do subúrbio (Oeiras) passear ao centro?

Na infância e adolescência, Lisboa era um destino ferroviário.

 

Dizia “vou a Lisboa”?

Pois, não é o sítio onde se está. Lisboa começava e terminava no Cais do Sodré, no Terminal do Rossio, depois passou a ser um ou dois centros comerciais. Ou quatro ou cinco ruas. A cidade foi-se alargando em direcção a o que eram para mim zonas cinzentas. Como quando ia arranjar o cabelo ao Barreiro. À medida que fui crescendo, as coisas foram mudando de lugar. Lembro-me de uma cidade sempre em obras, nos anos 1990: uma boa imagem do que eu estava a viver nesse momento. Como se fôssemos passar a tarde a um estaleiro de obras, antecipando essa aventura com uma grande alegria.

 

Sendo filha de uma angolana e de um português, teve de optar mais por uma ou por outra cultura?

Cresci no meio de europeus ligados a África e no meio de africanos ligados a Portugal. A partir de certa altura, comecei a ir menos a Angola. Sem que nada tivesse acontecido de especial, ficou adormecida a minha curiosidade por esse aspecto de mim mesma, pelo sítio de onde vim, como se não fosse um assunto. Nada me pressionou nesse sentido. Estava rodeada de coisas portuguesas, fui-me tornando uma combinação das ligações entre Angola e Portugal vivida nesse contexto familiar.

 

Mas, recentemente, despertou em si o interesse por assuntos africanos.

Com perplexidade, fui vendo as coisas mudarem dentro de mim. Comecei a sentir uma curiosidade intensa por África e a rodear-me de tudo o que tinha a ver com África, como se estivesse a chegar atrasada a mim mesma, à minha pele, a coisas que também são quem sou: como se a certa altura tivesse acordado.

 

Como?

Através de livros, música e filmes, entrevistas, a acompanhar debates. Não deixa de ter uma certa ironia, como se estivesse votada a aceder a esse aspecto do que sou por uma via indirecta e literária.

 

Gosta de autores africanos?

Li alguma literatura africana escrita em português na universidade. Mais recentemente, comecei a ler escritores africanos de outras línguas, da Nigéria, da África do Sul, da Zâmbia. E também filósofos africanos.

Sentiu familiaridade com esses universos?

Foi como se estivesse a chegar a casa. É como perceber que de repente o nosso corpo está a mudar ou o rapaz a mudar de voz. Ou que a criança já chega ao balcão da pastelaria.

 

A sociedade portuguesa exigiu-lhe mais por ser vista como o “outro”, neste caso, enquanto mulher negra?

Directamente nunca me foi exigido que tivesse de provar mais por ser negra e por ser mulher, embora me pareça que talvez no meu caso tal se tenha devido a uma combinação feliz de privilégios e acasos. Preocupa-me, no entanto, o caso de pessoas cujas condições de vida previsivelmente nunca se modificarão do ponto de vista social, em Portugal, independentemente daquilo que provam e do esforço que atravessam em virtude da sua origem. Pessoas que por serem parecidas comigo nunca terão um carro próprio, nem trabalharão senão num call center, apesar de formadas em Antropologia, quando têm a sorte de o conseguir fazer. A isto acresce ainda um outro problema, que é o da internalização dessa instância crítica. No meu caso e no meu caminho, talvez tal se tenha traduzido na intuição de que precisaria de provar mais, por ser negra e por ser mulher, ainda que ninguém em especial mo requeresse, assemelhando a minha vida à de conterrâneos meus com os quais me fui cruzando pouco. O pior é quando percebemos que esse drama está condenado a ser vivido interiormente, ou que nenhuma dose de empenho abrirá na nossa vida vias de mobilidade social concretas. Toda a vida estive rodeada de pessoas votadas a essa condição. São os estranhos e os invisíveis do meu livro e os estranhos para quem gostava de escrever.

 

Cabelo como história da opressão 

Existe um complexo interiorizado com o cabelo: se já foi um motivo de orgulho e de afirmação da cultura negra, agora tenta-se ocultar, muitas mulheres o desfrisam, etc. Como foi no seu caso?

Sempre tive uma relação complicada com o cabelo. Não sabia como tratá-lo, nem como lidar com o que me era natural. A verdade é que ressentia o cabelo, sem que me tenha atirado para o lado oposto: nunca tive longos cabelos desfrisados, usei muito o cabelo rapado. Era como se não existisse, e quando me lembrei dele fiz tudo para o esquecer. Quando explico que acordei para certas coisas das quais passei ao lado, o cabelo é uma delas. Involuntariamente, estava sob uma amnésia a respeito não só de coisas que têm a ver com o lugar onde pertenço mas também se estendia às lembranças exteriores disso. Hoje este esquecimento parece-me uma circunstância nefasta que corresponde, ao mesmo tempo, a um privilégio: não fui recordada diariamente, com hostilidade, de que era diferente. Simultaneamente, no entanto, acredito que seria outra pessoa se não tivesse passado pela experiência de viver a minha natureza como qualquer coisa de hostil.

 

Como chegou a esta ideia central para o livro?

Comecei por imaginar escrever um livro com a estrutura de um álbum de fotografias de família: imagens que podem ou não ter sido captadas, que podem ou não ter existido. Esta ideia acompanhou a intuição de que de algum modo toda a infância é um álbum de infância, no sentido em que mais do que fixar o que vivemos, o princípio de organização de um álbum e as regras do seu uso determinam a nossa percepção do passado, todas as lacunas, hiatos, lapsos, silêncios, surpresas. E depois, aos poucos, enquanto escrevia, o cabelo revelou-se um bom fio condutor, uma metáfora e uma personagem.

 

Nos salões deparamo-nos por vezes com um universo feminino maldizente e cruel. Porque falava pouco de si em cabeleireiros?

A minha experiência em cabeleireiros é dramática. Fui muito maltratada em cabeleireiros portugueses e africanos. Falava pouco de mim por medo que se metessem comigo. Os salões sempre foram lugares cruéis e de escrutínio severo. Este percurso foi sendo iluminado por cabeleireiras anónimas e passageiras que foram muito importantes no meu percurso: senhoras comuns que nem imaginam a diferença que um gesto amável teve em mim.

 

“Não romantizo Angola” 

Conte um pouco da sua ligação a Angola. Veio com três anos, e depois?

Regressei muitos Verões. Passava as férias em Luanda, a única parte do país que conheço. Tinha muitos primos e muitas pessoas que tratava como primos. São memórias felizes e melancólicas. Mais tarde, parte da família veio para Portugal e os momentos de convívio passaram a ser em Lisboa.

 

Que imagem foi tendo de Luanda?

A cada viagem, Luanda era uma surpresa. Na minha viagem (talvez de 1997), lembro-me de que a cidade já estava a ser reconstruída mas ainda tinha vestígios da guerra. Tenho uma imagem de ruínas. Se lá for, será uma enorme surpresa.

 

Gostava de ter mais relação com o país?

Sem dúvida.

 

Tem nostalgia daquilo que não viveu?

O meu livro nasce da experiência de sentir saudades da pessoa que eu não cheguei a ser; uma pessoa que tivesse crescido em Angola como uma rapariga angolana comum e não nos subúrbios de Lisboa. Relaciono-me com esta figura como com um duplo ambivalente, sinto que nunca faço justiça a essa pessoa, como se estivesse limitada a percebê-la e a idealizá-la como uma versão exótica, uma caricatura, do que eu podia ter sido. Tendo em conta que escrevi com a ambição de discorrer sobre a vida interior de uma rapariga africana de uma maneira não estereotipada, não posso senão ressentir a ironia que é a imagem empobrecida e adulterada que muitas vezes fazemos das pessoas que não chegámos a ser.

 

O rosto duplicado de que fala no livro.

Exactamente. Não romantizo o país, nem um regresso. Nos últimos anos, enquanto escrevia, e a par de uma curiosidade crescente, foi-se fortalecendo o meu cepticismo a respeito das vantagens deste regresso em relação a uma clarificação da minha origem. Uma pessoa nas minhas condições não tem propriamente onde regressar, tirando os meus bairros. Pelo contrário, e pensando no tópico da auto-descoberta, parece-me que o mais provável é uma pessoa encontrar-se enquanto faz outra coisa, enquanto procura outra coisa, como alguém que encontra uma tesoura quando estava à procura de um tubo de cola. O que me parece inalcançável é imaginar que posso reclamar o título de descobridora daquilo que encontro por acaso e quando não estava à espera. ‘Eu mesma’ pertence a esta categoria de coisas.

 

O que acha dos crescentes sinais de atentado às liberdades em Angola?

Muitas notícias recentes de Angola parecem corresponder a questões de direitos humanos que devem mobilizar angolanos e não angolanos, minimamente familiarizados com a actualidade do país. Isto parece-me tão claro quanto é conspícuo o contraste entre a ubiquidade da influência angolana em Portugal e o quase silêncio a respeito dessas notícias.

 

Os vários cruzamentos da família da Mila reflectem movimento e deslocação. No mundo de hoje, assistimos à tragédia da deslocação de africanos e de pessoas do Médio Oriente para a Europa. Como vê este fenómeno?

Existe um dever muito subestimado que é premente neste momento: o dever positivo de entreajuda em relação a estranhos, para com pessoas que não têm nada, nem ninguém que as valha. Aprendi isto com Michael Dummett, um grande filósofo e activista britânico pelos direitos dos refugiados e dos imigrantes. A circunstância de uma pessoa estar em apuros é suficiente para que nos assista o dever de a ajudar e acolher. O que é subestimado é precisamente que isto seja um dever, e não uma opção. Aquilo a que temos assistido é, com escassas e honrosas excepções, a uma cobardia extraordinária de alguns governos europeus perante este dever, e à tentativa de nos convencerem de que podemos tratar este dever como uma opção perigosa.

 

Publicado originalmente no Rede Angola

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