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Exceção/Extração/Extinção – projeto ANTROPOCENAS

EXCEÇÃO

Pedro Neves Marques (PNM): Vários antropólogos têm-me alertado sobre como está a ficar complicado fazer pesquisa de campo no Brasil. Este ano saiu o relatório da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que pede o indiciamento de 88 pessoas envolvidas na demarcação de territórios indígenas e quilombolas, incluindo antropólogos e ambientalistas. O relatório surge no contexto de uma proposta para reduzir essas terras. Tens sentido isso no terreno?

Paulo Tavares (PT): Estamos passando por um processo de desmanche brutal de direitos sociais e ambientais que é fruto direto do contexto de exceção que se instalou no país após o golpe parlamentar que derrubou a presidente Dilma Rousseff. Este processo tem sido acompanhado pela criminalização de movimentos sociais, ativistas e advogados de direitos humanos e da natureza. Um dos exemplos disso é esta CPI absurda, que foi proposta por legisladores ligados ao latifúndio e indústrias extrativistas. Pode-se dizer que o objetivo do golpe foi gerar um período de choque e instabilidade para introduzir uma série de reformas estruturais que buscam eliminar os direitos conquistados com a constituição de 1988, que nasceu como resposta ao estado de exceção do regime militar ditatorial. Isto inclui desmantelar o sistema de proteção ambiental, de modo que se pode falar na “dimensão ambiental” do golpe, com grande prejuízo para reservas ecológicas e territórios indígenas.

Além desta criminalização houve um aumento da violência no campo e nas fronteiras. É preciso falar que nos governos anteriores do PT houve muita violência contra os defensores dos direitos humanos e da natureza, inclusive por parte do Estado, porque a extração de recursos naturais foi o grande mote dos “governos progressistas” de Esquerda. Isto é mostrado naquele mapa que você utiliza no vídeo Ambientes mortíferos (2017), onde observamos que os padrões espaciais de violência política estão estruturalmente relacionados às zonas de expansão da fronteira extrativista. Com o golpe, a violência intensificou-se, mesmo porque várias expressões de racismo e fascismo agora já não são mais reprimidas.

EXTINÇÃO

PT: No seu filme Semente Exterminadora (2017) você utiliza uma paisagem de plantações, tomada por monoculturas, como cenário de um futuro distópico. Como se o Rio Grande do Sul fosse o futuro do mundo.

PNM: Tentámos filmar no Mato Grosso do Sul, que seria bem mais radical. Mas acabámos por filmar no Rio Grande do Sul dado o calendário das colheitas. No Rio Grande do Sul vês uma colonização antiga. Os conflitos da pacificação não se expressam da mesma maneira e as comunidades indígenas, dizimadas no final do século XIX, são muito reduzidas. Não há qualquer questão indígena ali. Não se dizem coisas como no filme Martírio do Vincent Carelli: “Um índio bom é um índio morto”. Ali a amnésia é total, e diz-se: “aqui antes não havia nada”. Há uma limpeza total da resistência indígena.

PT: Eu fico pensando como essa amnésia, este processo de apagamento, está latente na paisagem, mas que mesmo assim se podem identificar vestígios desta memória.

PNM: Sobrevivem como vestígios, mas também como ausência. Essa amnésia me faz lembrar quando, nas filmagens, o técnico de som diz-me: “não tenho som para ti”. E tu estás naquela paisagem, aparentemente natural, na soja, e não se escuta nada. Não há insetos, não há quase pássaros, como se fosse um laboratório, uma espécie de artificialidade onde até o som se apaga – o que me fez pensar em ecologia sonora.

PT: A antropóloga Anna Tsing tem uma definição para isso: a plantation é uma espécie de simplificação da vida. É uma experiência de morte, de extinção, não só dos povos que ali viviam, mas também de populações de seres não-humanos, uma redução do potencial da vida. É uma biopolítica produtiva que implica um movimento necropolítico.

PNM: Os próprios fazendeiros vivem essa agonia de estar presos num sistema económico de plantação do qual já não podem sair. Eles compram as sementes à mesma empresa à qual depois vendem as colheitas. Em cima disso tem a questão dos transgênicos. Os fazendeiros dizem que essas plantações precisam de menos agrotóxicos, então é mais saudável para os trabalhadores. O agronegócio é pop; se tornou o status quo. Mas foi o próprio governo PT que reforçou esse desenvolvimento da monocultura e da grande propriedade, que já estava lá, mas que durante quinze anos se estabeleceu como estratégia económica. 

EXTRAÇÃO

PNM: Falas da estratégia desenvolvimentista sobre a qual a América Latina se foi construindo. Tiveste vários governos de esquerda, socialmente progressistas, mas que fundamentalmente perpetuaram uma mentalidade extrativista. A América Latina continua sendo o que sempre foi: um continente de exportação de matéria prima. A estratégia do governo golpista de Temer só vem reforçar esse futuro. É quase previsível, como se estivéssemos revivendo um pesadelo.

PT: No meu entender essa é uma das grandes encruzilhadas da Esquerda. Talvez não possamos sequer falar de capitalismo extrativista, mas devêssemos pensar o extrativismo como uma força em si mesmo. Costumo dizer que as ideologias mais importantes deixadas pelo século XX não foram o comunismo e o capitalismo, mas o extrativismo e o desenvolvimentismo, que são o chão comum que une o pensamento de Esquer-da e de Direita. Os movimentos indígenas complicam tudo isso, justamente porque apresentam uma forma de resistência contra estes imperativos que são hegemônicos em todo o espectro ideológico do ocidente.

EX-QUERDA

PNM: O líder indígena Ailton Krenak é muito crítico da ideia de fim do mundo; da noção de os índios já terem vivido o fim do mundo e agora termos de aprender com eles. Pelo contrário, ele diz que nós precisamos continuar a pensar mundos. Que tipo de futuro é que o índio projeta? Pergunto-me isto também para destabilizar a imagem pré-estabelecida de que os indígenas vivem apenas no presente. Fala-se do índio sempre no presente ou no passado, mas o índio nunca tem liberdade para pensar o futuro.

PT: Eu me aproximo do pensamento e da política dos povos indígenas não do ponto de vista etnográfico, mas de um ponto de vista militante. Esses povos estão colocando questões e propondo respostas em relação à situação atual. Trata-se de um processo de resistência com longa história, um processo de revolução contínua, que busca não somente a libertação da humanidade, mas da própria terra, Gaia-Pachamama, esta grande subalterna. É nesse sentido que eu penso que a Esquerda tem de se tornar indígena, para se descolonizar do seu fundamento desenvolvimentista e extrativista, que em larga medida sustenta o seu próprio conceito de transformação social e revolução. 

PNM: Dizes que a Esquerda deve se tornar indígena. Curiosamente, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro fala que todo o mundo deve ser indígena. Isso perturba-me. Não, nem toda a gente é indígena, mas do modo como tu falas eu entendo. A Esquerda tem de se tornar cosmopolítica. No Brasil, no entanto, não há infraestrutura para isso. Não vai haver tão cedo. Socialmente sim, mas politicamente não. O horror do governo Temer é mostrar o quão enraizadas essas bancadas estão.

PT: Entendo seu pessimismo, mas há que lembrar que o movimento indígena realizou várias manifestações de peso contra este governo e que de fato representa uma barreira aos efeitos mais nefastos do golpe.

TÓXICO 

PNM: Como a antropóloga Audra Simpson refere, o movimento indígena norte-americano já não quer representação perante o estado, quer autonomia. Existe uma política da recusa do estado e uma reivindicação da soberania. Entretanto, parece-me que o que perdurará da administração Trump serão as políticas anti-ambientais: o desinvestimento da EPA ou a autorização de extração em reservas naturais e indígenas. Parece-me pouco relevante que os EUA tenham saído do Acordo de Paris; o que é importante é essa reestruturação do plano territorial e extrativista doméstico.

PT: Trump descreve o Acordo de Paris como uma tentativa de redistribuir a riqueza norte-americana; está intensificando atividades extrativistas e mobiliza-as como parte de seu discurso nacionalista, xenófobo e racista. No trumpismo o extrativismo é equacionado com segurança nacional e o clima torna-se uma espécie de arma geopolítica.

PNM: De certo modo, Trump fez-nos o favor de geopolitizar as questões climáticas, desburocratizando o discurso das Nações Unidas e enraizando-o num campo muito mais militarizado. Para nós, que pensamos contra-estratégias, isso tornou o campo mais claro.

PT: Politizou também no sentido de mostrar que esses governos e os interesses que representam são também ecocidas.

PNM: Curiosamente, o regresso do carvão ou a abertura de gasodutos vem em paralelo com uma maior consciência da doença e das suas consequências sanitárias. O conflito será interessante, até porque pesará no sistema de saúde, refletindo-se na infraestrutura do estado. No Brasil isso ainda não está em jogo de um modo tão claro, talvez porque a violência é tão genocida que não há tempo para pensar numa violência a longo prazo, tóxica.

PT: O MST (Movimento Sem Terra) está fazendo um grande trabalho em direção à agroecologia e é hoje o maior produtor de arroz orgânico da América Latina. Trata-se de estabelecer autonomia perante o sistema global de produção de alimentos, que na verdade é um sistema de produção de commodities, e livrar-se do veneno que sustenta este sistema e que está matando o planeta. Que tipo de alimento a gente quer comer? Que tipo de paisagem estamos desenhando? Porque você come a própria paisagem e a paisagem é você; como dizem os Maias, nós somos milho, somos feitos da terra que a gente consome.

PNM: O envenenamento é uma ferramenta política, uma chave que rompe com o forte da classe média-alta que se vê confrontada com a contaminação do território, dos alimentos e da água. Em conversa com a geógrafa Larissa Mies Bombardi, ela me falava como os agrotóxicos que são proibidos na Europa são usados no Brasil. Mas depois esses alimentos são exportados para a Europa contaminados, contornando a legislação europeia.

PT: É um efeito de morte que não conhece fronteiras, que atinge várias classes, posições e grupos, que atinge o conjunto da vida. Mas que claramente manifesta padrões sociais e geográficos de desigualdade. As populações mais afetadas são sempre grupos marginalizados e precarizados. É neste sentido que a ecologia é sobretudo política.

NATUREZAS VISUAIS

PNM: Eu venho de um pensamento que deve a certas ferramentas da antropologia e do pensamento ameríndio, à metafísica canibal. Tenho pensando como podemos usar essas ferramentas cosmopolíticas – a predação não como extrativista, mas como construtora de relações vitais – a um nível metabólico, ambiental: a ingestão do próprio território. No caso da genética trabalhamos sempre com as ferramentas que são propostas pela própria disciplina, não há qualquer alteridade. Mas qual a perspetiva indígena sobre essas relações moleculares?

Para mim é muito claro que eu não estou a fazer um trabalho militante nos termos que tu estás a fazer no terreno. Jogo com as conexões cosmopolíticas que os filmes e textos possam fazer. Mas da tua parte, é curioso como o espaço da arte tem sido um campo de disseminação.

PT: Vejo o campo da arte como um espaço para se refletir sobre a nossa condição contemporânea, o passado e o futuro. Regimes estéticos implicam regimes políticos constituídos por disputas entre formas de in/visibilidade e apagamento, disputas sobre a criação de narrativas dissidentes de discursos de dominação. Neste sentido creio que o meu trabalho, assim como o seu, tem uma militância que opera no campo da imagem e das narrativas, ao complicarem a maneira pela qual entendemos o que convencionamos chamar de natureza.

Porque é que eu acho isso importante? Digamos que a globalização pós-guerra fria gerou o campo da “cultura visual”, e que a cultura tornou-se um espaço de contestação e conflito de formas marginais e subalternas de expressão e visão de mundo. Quando isso emerge dentro do campo arte, as práticas artísticas têm de desconstruir certos cânones nos quais operava.

Hoje estamos numa fase da globalização que já não é somente sobre a “aldeia global”, o multiculturalismo. Mas uma forma de globalização que Wolfgang Sachs chama de “universalização do acidente” ou uma catástrofe ecológica planetária.

A própria natureza torna-se um campo de conflito, no sentido que é preciso desconstruir e descolonizar os sistemas hegemônicos de representação e relação com a natureza que herdamos do Ocidente. Daí a expressão de Viveiros de Castro, “multinaturalismo”. No campo da estética e da arte é como se precisássemos criar o campo das “naturezas visuais”, justamente para trazer para o campo do visível, do sensível e do político modos dissidentes de pensar, representar e se relacionar com o que precariamente insistimos de chamar de “meio ambiente”.

PNM: Não está em causa a representação de identidades no multiculturalismo global, como referes, mas a instabilidade das diferentes naturezas que entram em cena. É vital destabilizar as expetativas do que é o indígena, por exemplo, isto é, as expetativas que esse projeto multicultural impôs, onde somente a identidade de cada povo constrói o mundo. Precisamos confundir as naturezas que nos são propostas.

PT: É uma tentativa de estabelecer alianças transversais, no sentido que a cineasta Trinh Minh-ha fala no seu filme Reassemblage (1982): “Eu não quero falar sobre, eu quero falar junto com”. Creio que falar “junto com” implica hoje falar desta “instabilidade das diferentes naturezas que entram em cena” como você escreve.

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Esta publicação de 800 exemplares acompanha o espetáculo Antropocenas, uma colaboração entre Rita Natálio e João dos Santos Martins com a contribuição de diversos agentes nas áreas da ecologia, dança, música, antropologia e artes visuais. Uma palestra dançada onde plantas, pedras, gatos, dildos e relva nas axilas podem ser os principais oradores, onde samambaias discutem os seus direitos jurídicos, sacos de plástico suicidam-se, animais fazem petições contra a sua extinção, jardineiros cortam os cabelos de plantas humanas, onde abraçamos ursinhos de poluição, comemos terra, onde ideias da história de arte e da antropologia contemporânea misturam-se, opõem-se, matam-se e esfolam-se para destituir certos ideais de natureza. Antropo ma non troppo.

 

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Conceção e curadoria Rita Natálio, João dos Santos Martins Proposta inicial e texto Rita Natálio | Dança Ana Pi, Ana Rita Teodoro, João dos Santos Martins | Artes Visuais Pedro Neves Marques | Música Winga Kan | Assistência dramatúrgica e de ensaios Joana Levi | Performer conferencista Jota Mombaça AKA Mc Katrina | Escultura Alexandra Ferreira | Participação especial Maria Inês Gameiro, Pedro Fazenda, Ana Paço | Luz Eduardo Abdala  Som Hugo Valverde, Ricardo Crespo | Cabelo Ana Fernandes/Griffe Hairstyle | Consultores Renato Sztutman, Suely Rolnik, Ailton Krenak, Paulo Tavares | Design de Publicação Isabel Lucena | Produção Associação Parasita | Apoio à produção Circular Associação Cultural | Produção executiva David Cabecinha, Patrícia Azevedo da Silva, João dos Santos Martins, Rita Natálio | Coprodução Materiais Diversos, São Luiz Teatro Municipal, Festival Temps d’Images, Centro Cultural Vila Flor | Apoio Fundação GDA, Goethe-Institut São Paulo, Departamento de Biologia Vegetal da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, MARE Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, Forbo Flooring Systems, Departamento de Escultura em Pedra do Centro Cultural de Évora | Apoio Institucional Teatro Sá da Bandeira – Santarém | Residências Culturgest, O Espaço do Tempo, Materiais Diversos, Centro de Criação do Candoso, 23 Milhas, Devir Capa, Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas | Parcerias BUALA  | Agradecimentos Rua das Gaivotas 6, Teatro Municipal Maria Matos, Ana Amorim, Vanda Brotas, Pedro Fazenda, Manuel João Martins, Teresa Rocha Santos, João Pinto da Costa e Armando Duarte, Manuel Miranda Fernandes | Registo Videográfico Jorge Jácome e Marta Simões | Registo Fotográfico José Carlos Duarte

Projeto apoiado por República Portuguesa:

Cultura / DGArtes Direção-Geral das Artes

 

 

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