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“Gosto de ver as coisas atentamente” entrevista a Admas Habteslasie

Conversa com Admas Habteslasie a propósito do seu apaixonante Limbo: um trabalho fotográfico de grande fôlego que explora as paisagens e certos aspectos da história recente da Eritreia através de três capítulos sucessivos: Passado, Futuro e Presente.
Na tradição da fotografia documental, Habteslasie constrói uma obra sensível e vigorosa sobre um país mal conhecido.

 

Admas Habteslasie, Limbo, Mary in the shop, Assab, 2005Admas Habteslasie, Limbo, Mary in the shop, Assab, 2005Gostava de começar esta conversa abordando a questão dos seus primeiros passos na fotografia. Dir-se-ia que as fotografias de Lewis Hine terão tido um impacto considerável em si. Pode dizer-nos alguma coisa sobre esta primeira experiência fotográfica?

A primeira vez que vi as fotos de Lewis Hine foi com o filme Cinzas no Paraíso de Terrence Malick1: no início do filme, Malick tinha montado algumas das suas fotografias de trabalhadores. Penso que isso foi para mim uma experiência marcante porque realmente eu nunca tinha visto fotografia documental antes.

Voltei a estas fotografias mais tarde, quando comecei a interessar-me pela fotografia. Por múltiplas razões, é muito difícil definir exactamente o que é que me agrada tanto nelas. Há esse sentido do espanto e da novidade do meio fotográfico que se encontra nos inícios da fotografia, e que eu acho muito belo e que é diametralmente oposto à familiaridade e à facilidade que nós hoje mantemos com as imagens fotográficas; suponho que isso faz parte do seu atractivo. Para os fotógrafos que aspiram a falar das realidades sociais, Hine representa de certa forma um ideal – as suas fotografias desempenharam um papel importante no debate nacional sobre o trabalho infantil nos Estados Unidos, o que levou à promulgação de uma legislação que ilegaliza esta prática.

Acha que o trabalho dele teve impacto no seu? Se sim, de que maneira? As obras de outros fotógrafos também influenciaram a sua prática?

Fui evidentemente influenciado pelo estilo e simplicidade da sua estética. Gosto muito das fotografias dessa época: sou também um grande apreciador de Walker Evans. Penso que, em parte, a razão pela qual este estilo de fotografia me atrai tanto é o facto de eu partilhar um pouco deste sentido de maravilhamento perante a fotografia: quando olho para uma fotografia que me toca, sinto-me como uma criança – e é também, inevitavelmente, uma função do modo como eu vejo o mundo. Eu gosto de ver as coisas atentamente.

Muitos fotógrafos diferentes me influenciaram – foram efectivamente tantos que me é impossível nomeá-los todos – mas o trabalho de Walker Evans, em particular, teve um impacto importante em mim.

Admas Habteslasie, Limbo, Den Den Camp Hospital for ex-fighters, 2005Admas Habteslasie, Limbo, Den Den Camp Hospital for ex-fighters, 2005

Uma residência em Siracusa NY, em 2009, organizada pela organização americana com fins não lucrativos “Light Work” em colaboração com a estrutura londrina “Autograph ABP” levou a Limbo, uma exposição do seu trabalho sobre a Eritreia e à realização de um catálogo (Contact sheet n.151).

Pode explicar-nos um pouco o seu projecto eritreu? Quando e como começou a tirar fotografias lá?

 Comecei a tirar fotografias na Eritreia em 2004, um ano antes de ter começado a estudar fotografia2. Eu tinha visitado regularmente a Eritreia desde muito jovem, então mantinha uma ligação muito forte com este país: quando comecei a estudar fotografia, foi muito naturalmente que me voltei para a Eritreia. O projecto começou com a ideia de explorar o impacto do conflito não resolvido a propósito da fronteira entre a Eritreia e a Etiópia. No entanto, o projecto foi-se alargando lentamente até se tornar um retrato do país. Olhando em retrospectiva, a questão da fronteira era mais uma via para chegar ao projecto que o seu ponto principal.Admas Habteslasie, Limbo, Port, Assab, 2005Admas Habteslasie, Limbo, Port, Assab, 2005Admas Habteslasie, Limbo, Hotel, Assab, 2005Admas Habteslasie, Limbo, Hotel, Assab, 2005

 

As fotografias publicadas no catálogo foram executadas em Senafe, assab, sembel, Asmara…Como conduziu o seu trabalho e quais eram as suas condições para fotografar?

As condições não eram más, apesar de só poder passar um tempo limitado em certos lugares onde fazia fotografias. Por exemplo, estive em Senafe, uma cidade muito próxima da fronteira Eritreia – Etiópia, num período em que as tensões entre os dois países eram fortes: por causa disso, só pude permanecer no local cerca de duas horas. Mas conhecia bem a Eritreia: visitara-a regularmente desde a minha juventude.

Os tons de todas as fotografias publicadas são pastel: contribuem para criar uma atmosfera doce e estranha (os limbos do seu título), apesar das dificuldades experimentadas pelo país. Como trabalhou este aspecto em particular?

Fui duas vezes à Eritreia por causa do projecto: primeiro em 2005 e depois em 2008. Na altura da primeira viagem, não tinha nenhuma ideia preconcebida quanto à abordagem estética que gostaria de fazer; era simplesmente atraído pelas coisas e fazia as fotografias. Alguns temas visuais gerais apareceram durante o trabalho de edição, mas tive oportunidade de me concentrar realmente na relação entre a estética e estas ideias subjacentes durante a minha residência em Light Work, onde tive o enquadramento propício para explorar e reflectir verdadeiramente sobre todas essas questões, tais como a minha paleta de cores. Isso fez-me concentrar na minha segunda viagem em 2008 e o projecto completo tornou-se significativamente mais coerente, do ponto de vista estético, depois dessa experiência.

Admas Habteslasie, Limbo, Bullet, Mekrem, 2008.Admas Habteslasie, Limbo, Bullet, Mekrem, 2008.Admas Habteslasie, Limbo, School children singing Eritrean national anthem, 2008Admas Habteslasie, Limbo, School children singing Eritrean national anthem, 2008

No catálogo Contact sheet n. 151 decidiu criar três capítulos sucessivos: Passado, Futuro e Presente. Esta distinção já era clara para si enquanto fotografava na Eritreia ou, paralelamente às ideias de que falava anteriormente, veio-lhe a posteriori enquanto trabalhava sobre o seu corpus de imagens?

Não, foi uma coisa que apareceu mais tarde. A ideia da história e da sua conexão com o presente é uma verdadeira preocupação, simultaneamente para mim pessoalmente e neste projecto. A fotografia cria a história: uma fotografia é, entre outras coisas, um documento de um período específico da história. A Eritreia, como muitos países africanos, tem muita história e está agarrada à sua narrativa histórica e, ao mesmo tempo, põe-se a tónica de modo obsessivo no futuro e nas suas possibilidades. Consequentemente, o presente quase se volatiliza no ar. A divisão em diferentes capítulos era evidentemente uma forma de tentar transmitir isso.

Muitas vezes, nas suas fotografias, os seres humanos estão ou ausentes ou são fotografados de muito longe, ou durante o sono, com os rostos ocultos – salvo no terceiro capítulo, “Presente”, em que aparecem dois retratos separados e muito belos de dois homens e um retrato de duas crianças. Porquê?

Uma abordagem estética mais ampla era a consequência da questão do tema ou, pelo menos, do modo como eu pensava que a questão do tema seria mais bem abordada. Em primeiro lugar, a Eritreia não é um país que se revele de uma forma directa; é sempre preciso tentar clarificar o que se passa na realidade. Os eritreus são obcecados pelo facto de serem discretos. Por isso, talvez por eu também ser Eritreu, eu tenha uma certa reserva em dirigir a minha máquina fotográfica para a cara das pessoas – geralmente, enquanto fotógrafo, eu sou mais do género de pedir desculpa. Os fotógrafos tiram fotografias às pessoas, depois vão-se embora e constroem a sua própria narrativa, uma narrativa que toma a dimensão de um documento histórico. É uma enorme responsabilidade. Como tal, eu sou bastante tímido quando se trata de retratos ou, melhor, tenho muita dificuldade em tirar um que me satisfaça, a não ser que tenha um certo à-vontade e familiaridade com a pessoa. Quanto a este projecto, eu quis moderar a impressão global de olhar um mundo do exterior, com um apanhado do lado humano da história. Pareceu-me que a secção “Presente” era a mais apropriada para fazer aparecer os retratos, uma vez que ela sublinha a ideia de que entre a grande narrativa histórica do passado e a incerteza do futuro, o presente é o lugar onde as pessoas esperam, pacientemente.

Considera o seu trabalho na Eritreia como acabado?

No que respeita à fotografia, parece bastante completo. Actualmente, estou a produzir materiais escritos que possam acompanhar este trabalho.

Quais são os seus próximos projectos?

Nesta altura, tomei como base o Médio Oriente e estou a trabalhar nalguns projectos nessa região. Ando também a fazer pesquisas para um projecto futuro nas Caraíbas.

Admas Habteslasie, Limbo, Family gifts, 2005 Admas Habteslasie, Limbo, Family gifts, 2005

Entrevista originalmente publicada no site Africultures

  • 1. Days of Heaven é o título original.
  • 2. Admas Habteslasie estudou fotografia no London College of Communication (outrora ‘The London College of Printing’) durante todo o ano de 2005.

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