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Humberto Maturana: “A democracia não é uma forma de governo, é uma forma de convivência e de nos respeitarmos a nós mesmos”

(Escrito em jeito de memoriam e agradecimento)

Vivo no campo e há uns dias aproximaram-se de casa imensas borboletas. Uma delas entrou e ficou ali a tentar sair pela janela. Como tenho a cabeça cheia de filmes –Mãe e Filho, de Sokurov, por exemplo – e contos – as tradições russas, mapuches, malgaxe, etc – sempre que uma ou mais borboleta se torna muito presente pergunto-me sempre que morte estará ela a expressar. Umas horas mais tarde soube que o biólogo chileno Humberto Maturana tinha partido. Humberto Maturana (1928-2021) teve um percurso ímpar que eu tive o privilégio de cruzar há uns anos em dias intensos de trabalho e prazer em torno da Biologia Cultural, organizado pela estrutura onde, com Ximena Dávila e outros, desenvolveu o seu trabalho nos últimos anos, a Matriztica (Remezón Reflexivo Planetario: Una carta desde el Sur del Mundo – Comunidad de Conocimiento); palavra que evoca a dimensão matriarcal da cultura).

Tratou-se de um seminário que decorreu à beira de uma bela e vazia praia na ilha de Sardenha mas onde as partilhas e discussões eram tão intensas e ricas que num só dia nos dissemos que não podíamos estar ali sem dar um mergulho no mar. Quase nos obrigámos àquilo que, ao chegar, achávamos que iríamos desfrutar todos os dias, tão raro poder trabalhar num cenário assim. O mergulho foi outro, e transformador. Para além das sessões mais formais de seminário, trabalho em conjunto e conferências, partilhei alojamento e quarto com quem não conhecia e, do lado dos que estavam sem grande financiamento na altura, toda aquela paisagem era cara demais – só havia um restaurante e um supermercado e as coisas custavam “os olhos da cara”. Juntámo-nos então e, para cada refeição, cada um trazia uma ou duas coisas simples. Juntávamos tudo em cima da mesa, olhávamos, imaginávamos e inventávamos os jantares e os almoços.

Humberto MaturanaHumberto Maturana

Cada dia era um banquete de coisas simples que, postas em conjunto, nos surpreendiam a todos com o resultado, pela riqueza que surgia onde antes parecia não haver nada. Sabíamos então, sem ter que o explicitar, que cada gesto – estes das refeições em conjunto, e outros – estavam impregnados de questões muito presentes no seminário, entre elas, o como fazemos surgir, pelas nossas perceções, reflexões e comportamentos, o mundo no qual vivemos. Maturana abre a porta que nos leva a ultrapassarmos o darwinismo, científico e social (e não falo de Darwin que, pensando com os corais e as orquídeas, foi muito mais do que o darwinismo), aquele que, por exemplo, nos diz que na base das existências está a competição; que quem sobrevive é o mais forte, sujeitos que estamos a uma lei qualquer da evolução traçada algures fora de nós, sempre em frente e por cima de tudo, espelhada na ideologia do desenvolvimento, onde há que adaptar ou aceitar cair em desgraça. Em vez de evolução, Maturana propõe “deriva”, essa palavra que é diminuída quando alguém diz “andas à deriva, não sabes onde vais!”. Como se tivéssemos de saber sempre onde iremos chegar, e como se a deriva não fosse esse sério processo de estar realmente em relação com o entorno no qual, e com o qual, e a partir do qual, e em relação com o qual, vivemos. Uma palavra para, lembrando Sónia Guajajara (ENTREVISTA DO MÊS – SÔNIA GUAJAJARA: Desrespeito aos direitos indígenas ameaça investimentos no Brasil · Instituto Escolhas) o “envolvimento” e não para o desenvolvimento.

Outro dos grandes desafios que nos deixou e que julgo muito pertinente para os dias de hoje, é o convite a largar qualquer certeza. Considerar a certeza como uma espécie de doença do conhecimento e de uma certa forma de fazer ciência. Abdicar do saber associado à certeza é também abdicar do controlo e optar por isso que resolvemos tornar tão difícil: a confiança. Por isso, e a título de exemplo ou metáfora, ele partilhou connosco nas muitas conversas desses dias, que não queria conhecer os seus amigos, mas sim amá-los porque o campo do amor, que estudou como existência biológica e zona/experiência de correlação entre os existentes, é aquele que permite não dizer que se sabe que uma pessoa é assim ou assado. Permite não as fechar nas certezas e expectativas que podemos ter, mesmo se estas forem “boas”, mesmo quando estás são “más”. Um viver sem expectativas, não por deceção, mas por relação e atenção concreta ao nosso nicho ecológico, ao que nos faz existir e que existe também porque estamos “em relação com”. Deixar emergir o que vai sendo, pode ser e que não conhecemos ainda.

“O amor está”, e é fundamental para que exista qualquer tipo de relação social, para que não sejamos somente um emaranhado de indivíduos em negação mútua que passam a vida a se entrechocar dolorosamente e desajeitadamente. Sobre ele, escreveu (sempre com outros porque o seu trabalho era deveras relacional) um livro, Biology of  Love  e o seguinte: “o amor é o domínio dos comportamentos relacionais através dos quais um outro (uma pessoa, ser ou coisa) emerge como um outro legitimo em coexistência connosco.” Uma forma de resposta a uma das perguntas que o (nos) ocupava, que era a de como geramos o mundo no qual vivemos em conjunto. Pergunta esta encadeada numa outra profunda interrogação, que espoletou primeiro um movimento reflexivo na área da biologia, acerca de como (e não “o quê”) é isto de estar vivo? Esse amor e essa legitimidade de se estar vivo é também para ser outorgada aos espinhos e aos cardos, sabendo reconhecer a necessidade das devidas distâncias e os caminhos que nos levam a responder à questão: como vamos viver para que estes vivam também, cumprindo a legitimidade recíproca?

A reflexão de Maturana trouxe-nos, entre outros, o conceito de autopoiésis (usado depois por tantos outros, entre eles G. Deleuze e A. Negri), para falar da autonomia dos sistemas vivos, que desenvolveu com o seu então estudante e colaborador, o neurobiólogo Francisco Varela; de acoplagem estrutural, para nos falar de relações entre sistemas autopoiéticos e o seu “nicho ecológico” – a primeira publicação de vulgarização desta investigação deu lugar ao livro A Árvore do Conhecimento – as bases biológicas do entendimento humano  (Arvore+do+Conhecimento+Maturana+e+Varela.pdf (pbworks.com) ). O seu trabalho contribuiu e contribui para quem age no campo da ecologia, da decolonialidade, da educação, da estrutura de organizações, biologia, entre outros. Vejo no reclamar da consciência do lugar da fala de cada um, o que ele dizia com frequência: “falo desde a…”, convidando-nos também a falar e a refletir a partir da legitimidade do lugar que ocupamos; não só a tomar como a ter consciência da nossa posição.

Ainda a este propósito, nas suas reflexões políticas, dizia Maturana que “A democracia não é uma forma de governo, é uma forma de convivência e de nos respeitarmos a nós mesmos” – e penso em como esta frase nos permite perceber quando julgando estar em democracia, esta desaparece. Não é da racionalidade que esta exigência surge na reflexão de Maturana, mas do desejo. Do desejo de convivência e de respeito em reciprocidade. Há aqui que considerar seriamente o desejo e as emoções. Há que considerar seriamente o amor. Há que considerar seriamente a colaboração e a possibilidade de inteligência coletiva. Regressei a Portugal em 2011 (depois deste seminário e de anos a viver fora, quando todos estavam a partir por causa da crise) com desejo, pouca frieza racional e ainda menos certezas. Talvez só duas ou três e, de entre elas, a de querer escrever um livro para crianças, que ainda não escrevi, e a de organizar uma conferência e um seminário com Humberto Maturana. Não o consegui fazer por várias vicissitudes.

Disse-me ele uma vez, a sorrir: “Só tenho 84 anos, tens muito tempo para me convidar.” Todo o tempo para continuar a convidar o seu legado a continuar a aparecer.

Há uns dias uma participante num seminário que orientei numa universidade disse-me, no final, que aquelas sessões lhe tinham ampliado o campo de ação e dado mais poder. Depois do espanto, senti-me muito grata e emocionada porque acho que é também isso que deve ser a educação. Fazer isso e depois ir embora. Ser esquecida até. Lembro-me agora destas palavras ao pensar na morte de Maturana porque não é a tristeza ou a pena ou a perca que me assaltam. Quem não morre são as células cancerígenas e nós, os vivos, mesmo podendo um dia vir a fazer como estas, temos o poder de abdicar disso e mantermo-nos nesse grande encadeamento do qual fazem parte a dinâmica da vida e da morte que permite que outros viventes que não nós mesmos apareçam. Por isso não é triste que me sinto. Sinto-me muito grata por me ter cruzado com este senhor, que me deu mais poder e aumentou o meu campo de ação, e por tudo o que a passagem dele contribuiu, sempre em correlação com outros (porque é sempre assim, não há conhecimento ou contribuição possível dado por um eu-sozinho), deixou por cá. Maturana propôs um dia que fossem criados três novos direitos humanos. Um era o direito a enganar-se; outro, a mudar de ideias; o terceiro, a sair de um lugar sem que os outros se sintam ofendidos. Saiu. Agora é preciso esquecê-lo, sem esquecer o que de tão rico nos deixou para fazermos um bom uso enquanto continuamos por cá. Esquece-lo para que, como diz a cultura mapuche que muito nutriu também a ação deste cientista, possa agora habitar outro mundo, voltando talvez em forma de borboleta, algo que é apanágio dos bons espíritos: “Primero, se intenta borrar los recuerdos de esa persona en la comunidad, lo que implica “terminar” a la persona discursivamente inmediatamente después de su muerte y en presencia del cadáver, destruir los objetos de la persona, y no mencionar más el nombre del difunto o difunta y olvidarla (Bacigalupo 2010, 111; Bacigalupo 2014, 657). Luego, si el püllu logra trascender con éxito, se incorpora al Wenu Mapu, pudiendo eventualmente, volver a la tierra en la forma de una mariposa o habitar ciertos lugares en la naturaleza, fusionándose con el ngen o dueños de ecosistemas mapuche (Bacigalupo 2007, 23).” (La representación del ritual funerario mapuche en Reducciones de Jaime Huenún (larrlasa.org). Bons voos!

 

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