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Identidades, causas e efeitos

A obra de Délio Jasse pode ser lida sob o prisma algo complexo da teoria dos discursos pós-coloniais na medida que as suas imagens imanam uma identidade da figura de alteridade. Contudo, esta simplificação pode ser redutora se entrar em dissonância com o discurso artístico onde as suas imagens, obviamente, se inserem.

Nos estudos pós-coloniais, segundo Homi K. Bhabha, em A Questão Outra (1994), as imagens da figura do ”outro” estão sempre minadas por um estereótipo da normalidade imposto pelo poder dominante que produz a resistência, dominação ou dependência dos colonizados sob a ideia do “fetiche”. E acrescenta, “o fetiche ou estereótipo dá acesso a uma identidade que se baseia tanto no controlo e no prazer, como na ansiedade e na defesa, pois é uma forma de crença múltipla e contraditória no seu reconhecimento da diferença e respectiva recusa.” A discussão sobre o pós-colonial sobe de tom e, sem nos debruçarmos em demasia, os discursos tornam-se ambivalentes na medida em que se tornam performativos – Judith Butler, Gender Trouble (1990) –, ou seja, no modo como são encenados de variadas formas em determinados momentos, concluindo-se, então, que os discursos são fracturantes e muito enviesados pelos seus autores e/ou leitores.

Contudo, as imagens produzidas por Délio Jasse não estão determinadas, à partida, por uma agenda própria mas sim impregnadas da pluralidade do discurso artístico. Este tipo de discurso, por princípio, não se interessará em ser determinista de uma visão política interessando-se, sobretudo, por destabilizar os estereótipos instituídos, muito pelo discurso documental ou jornalístico.

A fotografia é um processo de representação de uma falsa realidade, sendo que congela um determinado momento e um determinado ponto de vista. Deste modo, a natureza das imagens que o artista apresenta deverão ser, incondicionalmente, questionadas e a sua veracidade colocada em causa. As imagens encontradas na rua, no lixo ou em mercados e lojas de artigos em segunda mão ligam-se intimamente a um imaginário identificável como africano. Segundo Edward W. Said em Reconsiderando a Teoria Itinerante (1994), “as versões subsequentes da teoria não conseguem reproduzir o seu poder original, dado que e a situação amainou e se alterou, a teoria se degradou e foi domada, transformando-se num substituto relativamente domesticado da coisa mesma, cujo o objectivo era, na obra que analisava, a mudança política”. Se a teoria já não consegue – se é que alguma vez o conseguiu – alcançar uma verdade sobre as coisas e o mundo, então as imagens que tomam como referência outras imagens, como no caso das imagens artísticas, evidenciam que estas versões poderão ser mais reais sobre um dado acontecimento prévio, ou sobre a identidade da figura do representado.

As fotografias de Délio Jasse são retratos convencionais que revelam a identidade dos seus representados, ecoando dos estudos de antropologia física ou biológica que estiveram em voga no início do século XX e alimentados pelos carimbos oficiais identitários. Porém, a realidade está minada pela inebriante técnica fotográfica executada pelo artista. De um modo quase barroco, as fotografias são impressas em papéis de desenho onde a imagem denota um falso tempo, como se tentassem resgatar uma originalidade de um tempo passado – “isto-foi”, Roland Barthes, A Câmara Clara (1980). Este efeito parece querer destabilizar a identidade ou a imagem da pessoa retratada, como se discutisse a veracidade da origem das imagens apresentadas, bem como o objecto documental que elas poderiam alcançar.

Na breve recolha de notícias num jornal de referência do Portugal salazarista sobre Angola na década de 60, mais que tirar elações sobre o modo como estas imagens eram construídas, pode-se revelar o vício da criação do mito dessas mesmas imagens na grande metrópole, parodiando assim a visão que se fazia destes “outros”. 

O jornalista Gregg Connolley escreve que “Luanda é o espelho da orgulhosa afirmação dos portugueses de que não existe discriminação racial em parcela alguma dos seus territórios. (…) O jornalista canadiano observa que, em Angola, não só as crianças brancas e negras brincam e estudam juntas, como os mestiços, que por toda a parte se vêem em número considerável, provam incontestavelmente a absoluta ausência de preconceitos raciais. (…) Connolley cita, por fim, declarações recentes do ministro português dos Negócios Estrangeiros. Dr. Francisco Nogueira, destacando a seguinte afirmação: «No Brasil, nós, portugueses, ajudámos a construir uma magnífica nação multirracial. Se nos deixarem faremos o mesmo na África.» (DN 13 de Dezembro de 1962, p.1).

Henriette Oboussier investigadora da Universidade de Hamburgo, que estudou a serpente-monstro do Rio Cutato diz: “Só aqui nesta terra abençoada, que os portugueses conseguiram desenvolver por forma que nos espanta e que se vê a naturalidade do convívio e a afabilidade do trato dos naturais, o que nos assegura uma evolução humanística sem imposição de qualquer etnia. (…) o português, pai e irmão de meio mundo criou nesta terra abençoada uma fraternidade racial que é a glória da humanidade.” (DN 4 de Agosto de 1963, p.4)

Uma “jornalista do New York Times afirma que Luanda está em vias de se tornar em um dos maiores centros turísticos da África Austral, a despeito da actuação dos guerrilheiros, iniciada há nove anos em Angola.” (DN 10 de Fevereiro de 1970, p.1)

Atendendo aos factos acima descritos, lembrando que a guerra em Angola se prolongou de 1961 até 2002 e considerando a escassez dos estudos pós-coloniais portugueses e, particularmente, na análise dos discursos jornalísticos e oficiais sobre as ex-colónias, nota-se que este discurso documental dificilmente esteve associado a qualquer imagem de verosimilhança com a realidade daquele território em particular e pode-se considerar, por isso mesmo, que o discurso foi apropriado e controlado pelo poder político vigente.

No modo como as obras de Délio Jasse questionam a factualidade dos documentos e imagens que apresentam, na pertinência da discussão em torno de uma procura constante das causas e efeitos do estereótipo de tais imagens incongruentes, poderá afirmar-se que o discurso apresentado é de cariz artístico, tendendo a desconstruir e desmistificar as imagens e os discursos proferidos. Nesta medida, o trabalho do artista impõe-se, não com dogmas e verdades absolutas, mas sim com dúvidas e pertinentes interrogações. As imagens produzidas numa terceira versão, após a imagem original retirada da realidade, provocam uma pluralidade de identidades do indivíduo representado, originando, deste modo, novas histórias e novos rumos. A pertinência será política na forma como mina os modelos hegemónicos instituídos – racial, social e sexual –, permitindo que se viaje sem estereótipos para um encontro ou reencontro, se não verdadeiro, pelo menos sincero e honesto com uma certa gente e a sua terra. 

 

Lisboa, Junho 2010

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