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Mestre Tamoda: uma personagem da ficção narrativa angolana

Vou sugerir que o leitor me acompanhe nesta aventura de interpretar alguns fragmentos da referida narrativa. Trata-se da história de um indivíduo de origem rural que ainda adolescente vai para a cidade de Luanda. Aí vive e trabalha durante muitos anos. É empregado doméstico ao serviço de individualidades prestigiadas no meio social urbano. Por isso, sente uma atracção pelo autodidactismo e aprende a ler e escrever. Para enriquecer o vocabulário, devora dicionários e decora as palavras mais difíceis.

Ao atingir a idade de constituir família, regressa à aldeia natal. Da sua bagagem fazem parte volumosos livros de direito, dicionários e manuais para redacção de cartas de amor e correspondência familiar.

Neste regresso carrega consigo elementos que perturbarão a rotina quotidiana das crianças e dos adultos. O narrador considera que com ele chegara à sanzala um novo intelectual que passaria a viver num meio em que quase todos os seus habitantes falavam quimbundo e só em casos especiais usavam o português.

Distingue-se pelo seu modo de vestir e por um uso peculiar da língua portuguesa.

Pelo modo como se veste, Tamoda era um dandy à medida do meio rural em que se vai fixar. O narrador descreve-o assim:

Todo ele janota, vestido de calções e camisa bem brancas, meias altas e capacete também da mesma cor do fato, sapatos à praia com lixa, ouvia-se o coro dos rapazes.


Além das roupas, o seu penteado era igualmente exemplar para as crianças que o imitavam. Foi ele que introduziu a kikema, um penteado que consistia em frisos de cabelos e que provocavam queimaduras.

Mas o verdadeiro traço característico de Tamoda, enquanto personagem, é o seu fervor pela apropriação da língua, portuguesa que inspirava algum sentido de subversão. Com ele as crianças descobririam que o seu domínio do português andava muito longe do estatuto e prestígio que perante as autoridades e os professores era preciso revelar.

O enriquecimento do vocabulário, tal como ensinava Tamoda, estimulou a ousadia de seus discípulos que, na escola, foram tentados a desafiar os conhecimentos da professora, confrontado-a com a sabedoria vocabular do mestre. Perante tais factos de insubordinação pedagógica, a professora ameaçava aplicar sanções, ao proibir o uso de palavras do português de Tamoda dentro e fora da sala de aula, pois em vez de estudarem a matéria da escola passam o tempo a decorar disparates.

 Quando essa professora, que substituía o marido, realizou uma busca aos cadernos, livros, pastas, carteiras e bolsos dos alunos, acabou por apreender folhas soltas de dicionários, além de cadernos completamente cheios de cadernos de putos de Tamoda.

Frequentando as prelecções do mestre Tamoda, aqueles alunos aumentavam o vocabulário com muitas palavras que não constavam em nenhum dicionário português. Eram de invenção de Tamoda, e muitos deles de significação pornográfica.

Não tardou. Tamoda, denunciado às autoridades coloniais, viria a ser notificado para comparecer na sede da administração. Nos momentos que antecediam a entrevista com o chefe do Posto, foi passeando de um lado para outro na varanda do edifício. Disposto a exibir a sua erudição, trazia debaixo dos braços o código civil e o código penal. Mas tal comportamento suscitou a curiosidade de alguns velhos que o observavam. Intrigados, esses velhos acabaram por interpelá-lo

Senhor desculpa. A gente está a ver só pessoa-que-passa, pessoa-vai, pessoa-que-passa, pessoa que-vai mas cada veji pode ser nosso filho que não conhece mais a gente. O senhor favor dizer só, se você é de onde é?

E ele respondeu: Sou cidadão Tamoda que veio atender petição de Excelência Administrador e Juiz Instrutor, por causa das “facultagem» imponente da craveira sapiencial do Tamoda…

 A resposta atraiu mais ainda a atenção dos velhos e dos cipaios. Tamoda revelava-se um homem culto, falando um português de funcionário público.

Já na presença do Administrador, este pede-lhe os documentos. E Tamoda replica: V. Exª, V. Sª. Sumo Ilustre, exige a coaptidão de um recipiendário? O administrador insistia: Identifica-te e deixa-te de coaptidão. Foste acusado de vadio, sem documentos e além disso esteve cá o Sr. Dr. a queixar-se de que estás a provocar queimaduras nos garotos com quiquema – aquela casca de mubanga e o fixador de mutamba, além de outros ingredientes e o ferro de engomar que andas a meter na cabeça das crianças. Também o professor se veio queixar de que andas a ensinar português de disparate na sua escola. Como vês, quero saber de quem se trata. Lá da cidade trazem vícios e querem passá-los à juventude da área…

Uanhenga Xitu o escritor de 'Mestre Tamoda'Uanhenga Xitu o escritor de ‘Mestre Tamoda’

Para os apuros de Tamoda concorria o cipaio que repreendia o seu comportamento presunçoso. Mas desembaraçou-se, dizendo: Sumo, excelência, aquele professor preto é difamoso e o senhor chefe do Posto não inquiriu bem com a averiguação penicial a consequência do kikema para instalar os autos ao sr. Dr. Tudo é chufa, é chufa. Eles têm raiva de mim porque ensino português os miúdos me gostam. E pessoa como interlocutor, nos termos do Código Civil, do Código Penal, do Código Comercial, Tamoda não é mucama, não é mequetrefe, não é grageu, não é basbaque, não é panhonho para andar fazer trabalho de igualha cavalgadagem, sem soldo…

 Afinal a verbosidade serviu ali para ocultar a situação de indocumentado. Tinha emprestado a sua caderneta indígena a um amigo, que em Luanda precisava dela para escapar às rusgas. Mas acabou por apanhar algumas palmatoadas. Humilhado perante os cipaios e os presentes, lamentava: Mas eu não prevariquei, só “verbesei” eloquentemente…

 A cumplicidade dos cipaios, enquanto agentes da administração colonial, numa atitude quase sádica, foi sendo revelada pela satisfação que sentiam com o castigo infligido ao conterrâneo, porque para eles outro seria o fim, se Tamoda lhes tivesse corrompido, “molhando as suas mãos”.

Apesar do enxovalhamento, cuja notícia chegara primeiro à sanzala, Tamoda regressava triunfante. O narrador presenciara esse momento, ao lado dos velhos e outros admiradores. E ouvia a descrição do sucedido: Oh! o gajo bateu-me porque lhe disse quatro portugueses “furacadas” que lhe deixaram embasbacado… Ah, uakambu naju durante muito tempo, e, como não entendia do puto que lhe mandava, bateu-me por vingança, bateu-me só por raiva. Eles são assim mesmo, não querem que a gente sabe mais que eles…Continuando, disse Tamoda: Na primeira pergunta, ele não sabia que quer dizer coaptidão. Depois falei os livros das leis(…) Quando lhe falei nos códigos é que ele ficou empavidamente sorumbático!… Então ele viu que eu não falava português qualquer, mas português dos Doutores Desembargadores e de Advogados meritíssimos. Então foi quando lhe mandei quatro putos mais fundos que saíam como fogo de nzaji: tratà-tàtàtàtàtà…, e o madípora ficou estonteado. Ah, a resposta só era mesmo porrada. Mas o culpado é o professor, cavalgadura em sundeífilo.

 O poder colonial representado aqui pela escola e pela administração, constitui o alvo da extravagância subversiva de Tamoda. Tinha a convicção de que falando com proficiência o português, não importando o meio de a atingir, se livrava da condição discriminatória de indígena. Por isso, andava equipado de toda a parafernália simbólica que inspirava tal autoridade, nomeadamente o dicionário e os códigos civil e penal. Mas constata que apesar dessa ostensiva pretensão de sabedoria, é rejeitado. Continua a ser considerado indígena com a obrigação de pagar impostos, não podendo só por essa exibição ascender à condição de assimilado.

E com razão conclui que eles, o poder colonial e seus agentes, são assim mesmo, não querem que a gente sabe mais do que eles.


 Tamoda é daqueles personagens que têm a consistência de representar a conflitualidade típica de uma situação colonial. A necessidade de aprender só podia corresponder a uma lógica de submissão imposta pelo colonizador. É uma lógica repressiva que ignora a existência dos Outros, os colonizados. O que Tamoda ensina aos miúdos da sanzala é a assunção de uma postura crítica e autónoma perante o processo aprendizagem da língua, que reproduzindo a ordem colonial, não é no entanto inalterável. A criação de neologismos que seduzem os garotos é prova disso. Associa-se a isso o recurso às estratégias da oralidade em que predominam regras e registos de discurso como a musicalidade e o código cinético que rege os movimentos de um narrador.

Mas Tamoda foi vencido pela ordem colonial. Não pôde assistir ao desfecho triunfal da luta contra o colonialismo, em cujo processo inscrevera seu nome, inculcando nos garotos e crianças da sanzala o sentido da cidadania e da reivindicação, através do comportamento cabotino, subversivo e extravagante.

O autor desta narrativa, Uanhenga Xitu, nome próprio em língua quimbundo do deputado Agostinho André Mendes de Carvalho, nasceu em Calomboloca, a 29 de Agosto de 1924, Icolo e Bengo. Foi preso político em 1959, tendo feito parte do chamado “Processo dos 50”. Cumpriu os oito anos da sua pena de prisão no campo de concentração do Tarrafal.

É membro fundador da UEA de que foi presidente da Comissão Directiva. Publicou Meu Discurso (1974); Mestre Tamoda (1974); Bola com Feitiço (1974); Manana (1974) Vozes na Sanzala- Kahitu (1976); Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem (1980); Os Discursos do Mestre Tamoda (1984); O Ministro (1989): Cultos Especiais (1997).

 

in AUSTRAL nº54, artigo gentilmente cedido por TAAG – Linhas Aéreas de Angola

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