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Mwamby Wassaky: moda como acto de cultura

Mwamby Wassaky vestido por si Mwamby Wassaky vestido por si Mwamby desenha a roupa já a imaginar que aqueles tecidos, se forem combinados de forma original podem conter bocadinhos de Angola dentro, as suas várias faces e contaminações, violentas ou porque sim. Interessa-lhe recuperar padrões, tecidos e modos de vestir para um âmbito pop. Fala da moda como acto de cultura, claro está.

Os olhos doces e a voz bem pausada contam-nos a sua vida. Foi bastante fundador ter nascido numa Luanda com fortes tendências para a plasticidade e o visual, mais propriamente no Cazenga, maior município da cidade. “Cresci no meio de uma sociedade confusa, padronizada entre o tradicional acumulado e o folclore ocidental, entre o suburbano médio e o urbano estereotipado.” Mwamby (ou José da Silva, nome de baptismo) usa conceitos caros para dizer que pertence a esta hibridez total, pois é da sua Luanda que lhe vem a criatividade. Mas também há mundo fora daqui, e ter vivido 8 anos em Cuba nos anos oitenta, com uma bolsa de estudo, marcou-o ao ponto de também se considerar culturalmente cubano.

O seu ofício vem da experiência, de observar muito, mas é como se já lá estivesse antes. Para além disso, por repetidas vezes, Mwamby reivindica o sentido cultural para esta arte da costura, como um gesto quotidiano que remonta às origens da Humanidade: “A ideia divina ‘Adão coseu folhas e Deus coseu peles’. Costurar também é culturar. Em todas as famílias e sociedades nos deparamos com indivíduos com este forte elemento cultural, é como aprender a fazer pão caseiro.” Na sua família, a avó já costurava, a mãe é modista e trabalhou até à extinção da representante da Singer em Luanda, no bairro dos Coqueiros, onde havia um atelier de costura. Foi assim, a observar, que foi aprendendo. “O estilismo não é mais do que perceber, quebrar o visual e inovar. Só sei que todos os dias nos vestimos.”

Mwamby Wassaky vestido por si Mwamby Wassaky vestido por si Começa em 2002 a parte mais activa da sua carreira com a primeira participação no Moda Luanda (evento no qual tem reincidindo nas edições seguintes), logo galardoado com o prémio Red’s Style e com o diploma de Mérito da Agência de Moda Mangos. Faz também a mostra “Estreia em Luanda”, no teatro Elinga, inserido no projecto Artemoda. Apresenta esta mesma colecção na residência do Embaixador da França num encontro com artistas angolanos, na associação Chá de Caxinde e num programa realizado pela TPA. Vai ganhando reconhecimento por parte do público angolano, ao trazer para a moda motivos africanos, naturalistas e ecológicos.

Sempre ligado ao mundo do teatro, por amizades e convivência, mas sobretudo porque a sua moda tem um forte carácter performativo, desenha os figurinos das peças Morte e Vida Severina, encenação de José Mena Abrantes, Elinga Teatro (Janeiro 2003), Woza Alberth, encenação de Miguel Hurst (Agosto 2003) e da coreografia Passagens, de Mónica Anapaz, no Teatro Avenida (Maio 2003).

Em 2005 são apresentados na Expo Japão alguns trabalhos seus. Em 2006 foi o ano em que ganha o prémio de melhor estilista angolano no Moda Luanda, posicionando-se com algumas críticas. Entretanto, na capital já se vivia o Movimento da Trienal de Luanda que culminou precisamente com a apresentação do “Moda Contemporânea Angolana” (Março de 2007), onde Mwamby foi entusiasticamente aplaudido na passerelle com a sua colecção plena de símbolos da História angolana, não sem ironia, e sem deixar ninguém indiferente. Este ano vai novamente colaborar com a 2ª Trienal de Luanda, tentando garantir um lugar para a moda na arte contemporânea.

Em termos de trabalho quotidiano, o atelier de Mwamby Wassaky não podia estar melhor situado, em plena baixa, dentro do Teatro Elinga, ponto de encontro de artistas, expatriados e pessoal da farra. Mas é com muita instabilidade que se vivem estes tempos, pois está anunciada para breve a demolição do edifício, e ele, como outros, não sabe qual será o seu próximo poiso. Ali também já fez desfilar as suas criações num espectáculo a favor da preserveração do edifício. Além de lugar de atendimento ao público, este atelier funciona também como laboratório de pesquisa. Grande parte dos seus clientes são jovens que circulam pela cidade, mas também desenha e costura para senhoras e senhores de várias proveniências, e para algumas instituições privadas e estatais, fazendo uniformes, por exemplo.

Mwamby Wassaky Mwamby Wassaky “Todos precisamos de um espaço, mas para tal é necessário conquistar, para conquistar é necessário convencer. Eu convenci com prémios, diplomas e, mais do que tudo, criei um público”, afirma. Podemos encomendar uma peça com um modelo mais ou menos presente na cabeça, ou ter apenas uma ideia vaga, podemos deixar o figurino entregue à imaginação do artista. Mwamby olha para a pessoa e tenta criar a roupa de acordo com a personalidade de cada um, porque a roupa é uma continuação disso mesmo. Dá espaço para que aquela peça combine ou venha a combinar com aquela pessoa. Usa pedaços de panos africanos, ganga, serapilheira, casca de coco, sinais de algumas regiões de Angola, mas tudo estilizado com novas configurações, e leituras.

 “O meu trabalho tem como sustento a cultura tradicional urbana afro moderna ou a popafrokomteporâneo.” Não se assustem com o palavrão, há um lado pop, outro afro e é contemporâneo, ora bem. Esta moda reflecte sobre a sociedade angolana, traz a herança de momentos mais traumáticos, a agilidade com que se foram contornando situações para arranjar soluções, e faz jus ao bom gosto que também nunca deixou de existir, numa luta contra o desleixo ao qual os angolanos nunca cederam, é um povo de vaidades.

É de facto impossível dissociar o trabalho de Mwambi dos aspectos sociais de Luanda, pois “concentra-se num estilo urbano, que está ligado a momentos e acontecimentos sócio-políticos, o que permitiu o cruzamento de culturas, o enquadramento e a reciclagem de ideologias e preconceitos.” Nesse sentido, Mwamby Wassaky faz parte dos artistas que reflectem a cultura angolana com novas abordagens e desejando contar a história de uma nova geração, filha dos nacionalismos (sem deixarem de o ser, pertenceu ao colectivo Nacionalistas).

Porém, preciso encontrar sempre estímulos para continuar a progredir, e Mwamby, aos 38 anos, gostava de ter mais formação, estudar lá fora e internacionalizar as suas peças. É que Luanda pode ser muito circular e redutora no horizonte. “É claro que gostaria de viajar para apresentar o que faço, estudar seria um grande catalizador e o que eu mais desejo no domínio da moda”, confessa Mwamby, à procura de oportunidades. 

Apresentou, com mais três estilistas, entre os quais Rui Lopes, uma colecção dirigida a modelos não standard, mas corpos, digamos, naturais, gordos, magros, altos, baixos, próximos das pessoas reais e não das  super elegantes figuras habituais do mundo fashion

“Falar de moda em Angola é como procurar algo cintilante que temos a sensação que caiu mas que ainda está no ar”, conclui Mwamby, na certeza de que a moda faz mesmo parte da vivência deste país, de gente com sumptuosidade e bom gosto, e agora com muito dinheiro, contribuindo para isso mesmo.

in AUSTRAL nº 67, artigo gentilmente cedido pela TAAG – Linhas Aéreas de Angola

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