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“Não há realmente diferença entre poesia e vida”, entrevista a Patrícia Lino

Patrícia LinoPatrícia Lino

Patrícia, para aqueles que ainda não a conhecem, como se descreveria?

Uma mulher que lê e escreve muito.

Qual a importância da poesia na sua vida?

Não há realmente diferença entre poesia e vida.

Publicou “O Kit de Sobrevivência do Descobridor Português no Mundo Anticolonial” em 2020. Quando e como surgiu a ideia para escrever este livro?

Escrevi o primeiro dos 40 objetos imaginários, o Frasquinho de Mar Português, durante o primeiro semestre de 2019. Fiz, logo depois, a Bola-Mapa Mundi e o Banquinho Racial. Em dezembro de 2019, levei comigo 15 objetos para Portugal e li-os em vários lugares, dos mais aos menos institucionais, entre Lisboa e o Porto.

Escrevi os restantes 25 depois de regressar a Los Angeles, onde vivo e trabalho.

O livro foi antecedido pela criação de “Portugal”, poema visual exposto e publicado nos Estados Unidos, no México e em Portugal em 2019 e 2020, do poema “Pós-colonial”, publicado na Colômbia em 2020, ou do “Museu dos Descobrimentos: Portugal 2019”, um poema tridimensional publicado em Portugal em 2020.

A ideia de fazer O Kit de Sobrevivência é o resultado de várias experiências. Por um lado, as que dizem respeito à minha experiência pessoal, a de quem nunca se identificou com o discurso colonial português, e imigrou com 23 anos para a Califórnia onde, todos os dias, fala três línguas e vive, trabalha e aprende com as comunidades latino-americana e chicana. Por outro lado, as que dizem respeito aos livros que venho lendo e analisando ao longo da última década. Todos eles (Pau Brasil, 1925; Quelques Visages de Paris, 1925; O Primeiro Caderno do Alumno de Poesia Oswald de Andrade, 1927; O Mundo do Menino Impossível, 1927; Álbum de Pagu, 1929; Dia Garimpo, 1939; Artefactos, 1972; La Poesía Chilena, 1978; Ás de Colete, 1979; Os Babilaques, 1979; O Guardador de Águas, 1989, …) são interdisciplinares, e a sua dimensão interdisciplinar é, além de infantil, cómica.

Há dois anos que o livro tem sido continuamente abordado e discutido em várias esferas culturais, políticas e sociais. Considera que possa estar relacionado com o facto da sociedade portuguesa se encontrar a debater cada vez mais os efeitos do colonialismo?

Sem dúvida, e não só. A grande maioria das reações ao livro, que variam entre comentários, resenhas e convites para apresentar os objetos em Universidades, escolas e associações, chega sobretudo dos Estados Unidos e do Brasil, onde o livro foi publicado em primeiro lugar no final de dezembro de 2020, e também do México, da Colômbia e dos menos óbvios Polónia ou Suécia. Se deste lado do mundo, o assunto é debatido há já algum tempo e institucionalmente desde os anos 80, o interesse pelo tema começa, decisivamente, a chegar ao lado de lá. O Kit de Sobrevivência materializa, com recurso ao exercício paródico e interdisciplinar, esse movimento. Uma mulher portuguesa escreve tão cínica quanto criticamente sobre o grande passado português cujos paradoxos e ilusões decorativas, e penso nas audiências que conheci ao longo de 2021 e 2022, são familiares para as leitoras e os leitores de muitas outras línguas e culturas. 

Afinal, assim como não há mistério algum no riso, não há mistério algum na violência. As suas dinâmicas desdobram-se em vários idiomas e lugares do mapa.

Quem teve a oportunidade de ler o seu livro, ou alguns capítulos do mesmo, depressa se apercebe, e aqui cito Paulo Alberto Sales, que existe uma “poética irónica, híbrida e paródica que se opõe à conceção de História total”. Porquê optar por uma escrita irónica e não comedida da situação?

O Kit, que parodia, através da criação de 40 objetos verbo-visuais e imaginários, o discurso colonial português, parte das suas mitologias originárias, da sua instrumentalização fascista, passada ou presente, e da infiltração desta versão histórica, erroneamente universal e exclusiva, na vida cultural portuguesa. Alguns destes 40 objetos, que procuram, ironicamente, auxiliar o homem colonial a sobreviver num mundo em processo de decolonização, são, por exemplo, o Frasquinho de Mar Português, “que restitui ao corpo a substância responsável pela dependência da interpretação colonial e eurocêntrica do mar”, as Notas sobre a grandeza de Portugal que não fazem sentido para mais ninguém a não ser para os portugueses, os jogos Quem Descobriu o Mundo? e Colónia, a versão colonial portuguesa do monopólio, ou a Sebastiana, “uma máquina de fazer nevoeiro que propicia as condições atmosféricas ideais para o reaparecimento de Dom Sebastião”.

O exercício paródico, que vai apropriando e recriando outros textos, slogans, brinquedos ou souvenirs para conceber objetos que, de facto, poderiam existir e ser comercializados em Portugal, como o Porta-Gama, item da coleção fictícia Porta-Descobridores, expõe, através do riso, as inconsistências do pensamento nacionalista e reflete, em paralelo, sobre as funções do próprio riso que pode ser tão ou mais eficaz e violento do que o tom respeitável de certos debates.

E porquê criar um kit anti-museu que se assemelha quer a um livro de auto-ajuda quer a um manual de instruções?

O Kit tira partido da ideia de auto-vitimização fabricada habitualmente pelo poder e, cada vez mais, pela extrema-direita para oferecer à autoridade uma falsa ajuda com o único propósito de denunciar a absurdez da sua retórica torta. Retira, além disso, o sisudo da familiaridade do seu espaço (verbalmente) argumentativo.

Frasquinho de Mar PortuguêsFrasquinho de Mar Português

Quem descobriu o mundo?Quem descobriu o mundo?

Notas sobre a grandeza de Portugal que não fazem sentido para mais ninguém a não ser para os portuguesesNotas sobre a grandeza de Portugal que não fazem sentido para mais ninguém a não ser para os portugueses

É interessante ver as ideias que escreve ganharem vidas através das imagens que criou para ilustrar cada um dos objetos no Kit de Sobrevivência. Considera as imagens um complemento ao texto e que, caso não as tivesse incluído, a mensagem pretendida poderia não ter sido passada de forma tão eficaz?

O Kit de Sobrevivência não poderia existir sem as suas colagens ou fotomontagens que não são nem nunca deveriam ser consideradas inferiores ou menos substanciais do que o texto, porque

a) tropeçaríamos no erro crasso e ocidentalizado de valorizar mais a palavra do que a imagem. 

b) a sua função é estratégica e nela assenta a variedade das gargalhadas. As audiências riem, no contexto do livro ou da performance, ao ver o Remendo Imperial Personalizado, onde, numa forma circular, estão cozidos um pequeno barco de papel e a inscrição “O império dos homens”. O riso, que também se transforma entre momentos de silêncio, regressa na página ou projeção subsequente (“o REMENDO IMPERIAL PERSONALIZADO foi criado para servir um dos propósitos centrais da lógica colonial: tapar buracos”) e varia na página ou projeção imediatamente a seguir (“o REMENDO IMPERIAL PERSONALIZADO pode ser aplicado pela sua mulher, mãe ou irmã com um ferro de engomar, reminiscência metafórica do ferro de marcar, em qualquer parte da(s) sua(s) peça(s) de roupa. […] Para rapazes e homens de todas as idades”).

Remendo Imperial PersonalizadoRemendo Imperial Personalizado

Em que projetos está envolvida atualmente?

Poemas em quadrinhos. 'Aula de Música'Poemas em quadrinhos. ‘Aula de Música’Terminei há pouco tempo um livro trilingue de poemas em quadrinhos (banda desenhada), Aula de Música, que será publicado em agosto no Brasil pelas Capiranhas do Parahybuna.

A segunda edição brasileira d’O Kit de Sobrevivência será lançada igualmente em agosto pelas Edições Macondo e incluirá cinco novos objetos. A Espingarda de Cânone Cerrado e o Colonialismo do Anticolonialismo são dois deles.

Estou prestes a fechar um ensaio sobre o desenvolvimento intermedial da poesia brasileira do século XX que propõe, ao mesmo tempo, a infraleitura, um novo tipo de ensaio expandido concebido a partir da leitura anárquica, corporal e criativa de todas as dimensões do poema (verbal, visual, performática ou sonora) e recupera certos trabalhos ignorados pela crítica ao longo das últimas décadas. Entre eles e acima de tudo, a produção interdisciplinar ou híbrida das mulheres — Pagu, Julieta Barbara ou a ainda viva Neide de Sá.

Para lá deles, tenho o plano de terminar Variações sobre a Saudade que, ao reunir múltiplos poemas portugueses sobre a saudade, contraria o formato tradicional da antologia ao fazer não só exercícios intermediais (cada poema selecionado é também interpretado audiovisualmente), mas ao incluir também, de modo amplo, outras vozes e formatos. Interessa-me, por exemplo, mixar canções ciganas ou peças do Cancioneiro Popular Português ou apropriar verbo-visualmente “O terceiro corvo” (2003) de Ana Hatherly.

Projetos para depois: publicar o livro de poemas Abram Alas no Recital dos Sisudos, analisar, com base no conceito de infraleitura, o desenvolvimento técnico e estético da videopoesia brasileira, e, entre outras ideias e obsessões, escrever mais extensivamente sobre a produção do nordestino Vicente do Rego Monteiro.

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